Luz das Runas
Capítulo 8
Mente e Espírito, uma ova, Maddy pensou com amargor quando, momentos depois, liquidando o que pareceu metade do que havia na despensa de Ethel Parson, seus dois visitantes desembucharam sua história. Eles estão mais para vinhos e bebidas. Deuses, quem são essas pessoas?
Mas Maddy logo percebeu que, lidando com Hughie e Mandy, certas coisas tomavam tempo. Tempo e comida, ao que parecia – julgando o tamanho de seus apetites, os dois eram mais gafanhotos do que pássaros. Um grande pastelão de carne de carneiro; um presunto assado frio; várias fatias de pão; alguns bolos, incluindo um pudim de ameixa deixado de lado para o Yule; um queijo; uma barrica inteira de biscoitos; vários vidros de geleia, conservas, cerejas no conhaque, damascos secos; e mais vinho, uma garrafa de hidromel e, por fim, chá com seis torrões de açúcar.
– O quê, sem creme? – perguntou Maddy.
Mandy sorriu e fez um som muito semelhante ao crau de um corvo.
– Ela não fala muito nesse Aspecto – explicou Hughie se desculpando. – Mas é uma pensadora temível.
– Então, o que vocês querem de mim? – pediu Maddy. O relógio na parede dava nove horas, e era apenas uma questão de tempo, ela pensou, até que um dos deuses viesse procurar por ela e a encontrasse entretendo convidados.
– Bem, se você tem uma dúzia de ovos, eu não rejeitaria uma omelete…
– Fora comida – disse Maddy. – E bebida.
Hughie pareceu desapontado.
– Bem, você já sabe o quê, naturalmente. Temos uma mensagem do General.
Por um momento Maddy mal conseguiu respirar.
– Um Olho? – disse ela numa voz sufocada.
– Sim, ele. Ele nos chamou do Sonho.
Maddy lançou sua mente de volta à última vez que falara com o General. Isso havia sido três anos antes, nos limites devastados de Hel. Procure por mim nos sonhos, ele dissera. Maddy fizera precisamente isso, esperando e ansiando por um sinal de que seu velho amigo havia sobrevivido de algum modo – em espírito, se não em Aspecto. Mas Maddy havia tomado suas palavras como um pouco mais que um frio conforto. Um Olho em sonhos não era o mesmo que Um Olho em carne e osso, e, com o passar do tempo, ela viera finalmente a crer que os sonhos eram tudo que haviam restado dele.
– Odin ainda está vivo? – perguntou ela.
– Bem… sim e não – disse Hughie. – Foi por isso que ele teve que mandar a gente, entende?
Crau.
– Deixe eu falar – pediu Hughie, dirigindo-se a Mandy. – Agora, qual era essa mensagem, hein?
Crauk.
– Não, eu não esqueci.
Crau.
– Mandy, eu fico ofendido com isso. Não estou embriagado. – Ele articulou a palavra com todas as sílabas, abrindo seus braços para dar ênfase e derrubando um vaso. Maddy estremeceu por dentro. Ethel era ciumenta com suas bugigangas e, mesmo em seu Aspecto como Frigg, a Vidente, não aceitaria bem esses intrusos em sua casa.
– Eu não entendo – disse Maddy. – Odin está vivo, ou não está?
Hughie deu de ombros.
– Isso é um pouco difícil de dizer. O Sonho governa todos os Nove Mundos, incluindo a Morte e a Danação.
– Mas você disse que ele mandou uma mensagem para mim…
Mandy crocitou impacientemente.
– Sim, sim. Dê um tempo. – Hughie pareceu tentar organizar seus pensamentos. – Então, ficamos sabendo que houve uma profecia. Com respeito à ascensão do Primeiro Mundo…
Maddy fez que sim.
– Está certo. – Ela lutou para recordar as palavras da Vidente.
O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.
Em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda da sepultura.
– Crauk. – Era Mandy, tentando falar. – Crauk. Crau.
– Psiu… – disse Hughie.
– Mas o que isso significa? – perguntou Maddy. – O Berço? Isso é Asgard, não é? Como pode alguém construí-lo novamente, ainda mais em doze dias? E toda essa coisa sobre Fogo e Povo…
– O que isso significa é encrenca – respondeu Hughie. – E você está certa na essência. Você pensa que essas coisas que saem do Sonho estão chegando até você por acaso? As cobras, os cupins marinhos, aquelas-coisas-que-não-sei-como-você-pode-chamar, efêmeras… – Ele parou para coçar uma axila emplumada.
– A brecha entre os Mundos – balbuciou Mandy.
Hughie interrompeu-a.
– Sonhos precisam ser invocados, mulher. E para isso precisam de um sonhador.
Mandy fez um sinal aprovador ao ouvir isso e bateu os braços para estimular.
– Sonha-dor. Sonhador. Crau.
– Eu não entendo – falou Maddy. – Você está dizendo que isso é alguma coisa mais? Que alguém está nos atacando através do Sonho?
– Tire alguma coisa do Sonho, mulher, e ele não será mais um sonho.
Maddy sabia, naturalmente, que o Sonho, por sua própria natureza, era… complicado, para dizer o mínimo. Um Mundo varrido por verdades contraditórias; um estado sem regra ou lei natural nenhuma; um rio que corre por todos os Nove Mundos, proveniente de uma fonte que nunca seca.
Mas ele poderia ser desviado assim? E quem iria querer fazer tal coisa?
– Quem? – indagou Maddy. – Não resta ninguém. A Ordem acabou. O Murmurador… – Aí seus olhos se arregalaram. – O Murmurador…
Ele podia ter sobrevivido, ela disse para si mesma. Naqueles trinta segundos de Caos, quando a Morte, o Sonho e a Danação se tornaram uma coisa só, Mimir, o Sábio, podia ter fugido. Fugido para a Danação, para o Sonho – e dali, para encontrar outro hospedeiro…
Um sonhador?
Por um momento Maddy analisou seu próprio sonho. Nele, Odin tinha mencionado um artefato – tinha lhe dito para procurar o Velho Homem das Regiões Selvagens. Será que ele teria querido dizer o Murmurador? Parecia mais que provável, ela pensou, à luz do que acabara de ouvir. O Murmurador em conspiração com um sonhador de habilidade extraordinária – eles teriam que ser alguma coisa especial, ela pensou, para fazer o que Hughie havia descrito.
– Olhe, o que foi que Odin disse, exatamente?
– É isso que estou tentando lhe dizer – falou Hughie, parecendo aflito. – Antes de tudo, ele disse para confiar em nós. Nós falamos pelo General. Somos seus olhos e ouvidos nos Mundos. Isso nos torna praticamente da família.
Maddy olhou para ele com desconfiança.
– É uma marca de runa que você tem aí? – perguntou ela.
– É sim, fêmea. É isso mesmo. – Hughie alisou as penas com o bico vaidosamente um pouquinho. – É Ea, a runa da eternidade. Uma das runas do Novo Manuscrito que vai erguer a nova Asgard. Somos importantes assim, fêmea! É por isso que você tem que fazer o que dissermos.
– Hum… – disse Maddy. – Que mais ele falou?
– Ele disse que devíamos dizer para você recordar seu sonho. Aquele na Colina, com o jogo das nuvens. Depois, você deve encontrar a Sonhadora. Ela vai levá-la ao Velho Homem. Mas não deve dizer uma palavra disso a ninguém, entendeu? Especialmente para os outros deuses.
Maddy ficou perplexa.
– Mas por quê? – perguntou ela. – Se o Murmurador está por perto, então…
– Você não pode contar para eles – advertiu Hughie. – O General foi muito claro quanto a isso. Apenas encontre a sonhadora, foi o que ele disse. Depois disso, tudo ficará iluminado.
Encontre a sonhadora. Sim, certo.
Como todos os planos de Odin, naturalmente, esse parecia absurdamente simples. Tão simples quanto encontrar o Murmurador no túnel sob a Colina, uma missão que terminara em Inferno e Danação e na quase destruição de todos os Mundos.
Era demais para ser simples, Maddy pensou. Com Odin, nada nunca era simples.
– Essa sonhadora pode estar em qualquer lugar. Eu não saberia por onde começar a procurar! – disse ela.
– Mas nós sim – explicou Hughie impacientemente. – O que você acha que nós fizemos esse tempo todo, voando de Mundo a Mundo, espionando para o General? Seu nome entre os integrantes do Povo é Rede. Maggie Rede. Você sabia? Maggie Rede de Fim de Mundo.
– Rede? – Isso pareceu familiar.
– É sim. Siga-a até o Velho Homem. É o que o General diz.
– Mas, como ele a conhece? – perguntou Maddy.
– Ele ficou de olho nela por um longo tempo – respondeu Hughie. – Ficou observando-a desde antes da guerra.
– Mas se Odin sabia que ela estava lá o tempo todo, então…
Hughie deu de ombros.
– Você está perguntando para mim? Ele tinha outras preocupações naquela época: a guerra contra o Povo e a Ordem; seu próprio povo dolorosamente dividido. Se os Vanir tivessem sabido de um patife em Fim de Mundo, e um do próprio parentesco do General, aliás…
– O que quer dizer com do próprio parentesco do General?
Mandy soltou um crau agudo.
– Não, eu não esqueci – falou Hughie. Ele se virou mais uma vez para Maddy e exibiu seu sorriso enlouquecido e radiante. – Então, é isso aí – disse ele. – Ah, sim! Há apenas mais uma coisa que você deve saber sobre Maggie Rede de Fim de Mundo. O General disse para lhe contar primeiro, caso se tornasse um choque grande demais…
– Contar-me o quê? – indagou Maddy.
– Ora, fêmea. Ela é sua irmã.