Luz das Runas
Capítulo 6
– Que Inferno é aquilo? – indagou Thor quando o objeto foi arremessado sobre eles.
Visto através das lentes da runa Bjarkán, parecia uma criatura voadora – um Cavalo do Ar, ou talvez um dragão celeste –, embora a olho nu seu Aspecto fosse simplesmente o de uma velha mulher sentada num cesto de roupa para lavar, um xale esfarrapado sobre os ombros, os cabelos voando por trás. O céu em seu rastro girava e se escancarava como o caleidoscópio de uma criança, enquanto cores que nunca haviam sido vistas no reino do Inferno desabrochavam através do horizonte.
– Ei! Vocês! – gritou a Louca Nan. – Eu consegui! Eu consegui! Com a ajuda do Povo!
Hel observou Nan através do olho morto. Ela estava se sentindo excepcionalmente cansada. Os contatos com Loki tinham esse efeito sobre ela, e agora Hel não queria nada senão dormir durante os próximos quinhentos anos.
Ela soltou um suspiro profundo – não que ela precisasse respirar, naturalmente –, e o Inferno inteiro suspirou em torno dela, rochas e pedras se mexendo de repente, o deserto arenoso dos domínios da Morte estremecendo em cansada frustração.
Ela virou um olho para Loki.
– Por que essas coisas acontecem apenas quando você está por perto? – reclamou ela.
– Pura sorte, eu suponho – disse o Astuto quando a Louca Nan aterrissou sua cesta de roupa para lavar e saiu um tanto vacilante. Na planície de Hel, seu Aspecto não era mais aquele de uma frágil velha enrugada, mas de uma mulher em sua juventude, com cabelo até a cintura, seus olhos de um malévolo e vívido azul.
A runa quebrada agora irradiava um brilhante prateado. Ethel reconheceu-a imediatamente. Era Iar, o Castor, quarta runa do Novo Manuscrito, runa de terra, água e ar. Iar, o Mestre Construtor…
Ela sorriu.
– É bom vê-la, Nan. Alguma notícia do Velho Homem, até aqui?
Nan sorriu.
– Você sabe como ele é. – Seu olhar caiu sobre o Impostor. – Então, você não está morto? – perguntou ela animadamente.
– Não graças a nenhum de vocês – disse Loki. – Olhe, eu odeio ser resmungão, mas alguém pode, por favor, me dizer o que está acontecendo?
– Não gosta de ser deixado fora da roda, hein? – Os olhos de Nan brilharam com malícia. – Bem, tudo está na profecia. Se você apenas fizesse um esforço para desvendá-la, em vez de tentar evitar responsabilidades…
Os olhos de Loki se arregalaram.
– Você está pondo a culpa em mim? Eu não sou a parte culpada aqui. Pelo último par de semanas fui acorrentado, acusado, intimidado, golpeado, ameaçado, amarrado, casado, vendido, usado como objeto de barganha com Hel e agora…
– Ah, deixe pra lá – replicou asperamente a Guardiã dos Mortos. – Sendo assim, apenas uma vez em quinhentos anos você se provou inocente. – Ela se virou para o pequeno grupo dos deuses. – E desde quando isso lhes dá o direito de entrar no meu reino e fazer tudo isso? – Com sua mão morta, ela apontou para o céu, onde as cores que haviam se seguido à chegada da Louca Nan agora preenchiam o horizonte com luz sobrenatural. – Quero dizer, o que é aquilo, afinal de contas?
– Excelente pergunta – disse Heimdall.
No rastro da chegada de Nan, ninguém havia realmente olhado para o céu. Agora fizeram isso, os rostos erguidos, e seus olhos iluminaram-se de assombro.
O rio Sonho tinha muitos afluentes, tanto dentro quanto fora dos Mundos Médios. Até o Strond, rio de Malbry, estava ligado a esse mais velho dos rios. Mas o Sonho também cruza o Firmamento, onde corre para o rio de estrelas que o Povo chama de Via Láctea. E quando a Cidadela do Céu foi construída, nos dias da Velha Era, o Sonho havia conectado a terra e o céu na forma de Bif-rost, a lendária Ponte do Arco-Íris que havia caído na terra quando Asgard tombara, ainda nos dias passados do Ragnarók. Agora as pessoas mal se lembravam disso, exceto os deuses, os Faërie, e as velhas esposas, que repassavam a fábula em cantigas de pular corda e de ninar:
Quando o arco se quebrar, o Berço cairá…
Nenhum deles havia um dia esperado ver sinal de Bif-rost novamente. E, no entanto, lá estava um diante deles agora – um Arco-Íris claro o suficiente para escalar –, emergindo da névoa súbita, enquanto além dele, o céu bruxuleava e inflava com cores que cambiavam do azul-gelo ao verde-fogo, âmbar e rosa-marshmallow, como um gigantesco espetáculo de lanterna mágica no qual, se os deuses houvessem apertado os olhos e observado mais de perto através da runa Bjarkán, poderiam ver a surpreendente variedade de feitios e sombras que pareciam formar o edifício, flutuando dentro e fora de vista como as distantes ilhotas do Sonho.
Havia campos de flores e árvores; havia gatinhos e cãezinhos e bolas de barbante; havia cavalinhos de balançar, frutas proibidas, mobília antiga, moedas espanholas; havia sonhos de acordar de repente cercado por roupa de baixo de senhoras; havia dragões, gnomos e navios piratas. Havia rosbife e bolo de chocolate. Havia anjos, e duendes, e cães de duas cabeças, e estradas que não levavam a parte alguma, e castelos no céu.
Na verdade, todos os sonhos de quinhentos anos estavam flutuando acima das planícies de Hel, e até os deuses acharam difícil de acreditar quando olharam fixamente para o edifício cintilante.
E na ponta do Arco-Íris havia um disco de ouro que refletia milhares de prismas de luz sobre eles como um sol intenso.
– Isso não pode ser o que parece – disse Thor. – Isso tem que ser a aurora boreal, ou algo parecido.
Fenny, Caveira e Grande H voltaram seus olhos amarelos para o céu.
– Cara – falou Fenris pensativamente. – Aquilo não é aurora boreal de jeito nenhum. Longe disso…
– O Povo chama isso de Fogo do Santo Sepulcro – disse Ethel com sua voz discreta. – Eu suponho que até eles vão lembrar. Nada que foi sonhado está perdido, e nada está perdido para sempre. Nan sabia disso desde o início, naturalmente. A Louca Nan Fey, a Construtora.
Os deuses todos se viraram para encarar Nan, que fez uma pequena mesura.
– Não está totalmente terminado – disse ela modestamente –, mas vocês podem ter uma ideia.
Loki estava olhando para o céu com uma expressão, não de espanto, mas de compreensão crescente.
– Olhem, eu posso estar perdendo alguma coisa aqui – disse ele num tom de sarcasmo exagerado –, mas me parece que a Vidente tem guardado alguns segredos que o resto de nós podia ter achado úteis de conhecer. E, perdoem-me se pareço ingênuo – ele apontou o disco de ouro –, mas aquilo não é o Escudo do Sol?
Ethel deu de ombros.
– Claro que é. Você não acha realmente que eu deixaria isso se perder, não é? Meus corvos resgataram-no do rio e entregaram-no a alguém que podia usá-lo apropriadamente, e pelo bem de todos nós.
– Você quer dizer que sabia que ele estava lá o tempo todo? E você me mandou, sabendo muito bem o que… – o Astuto sufocou. Por um momento quase tão raro quanto a visão que eles haviam acabado de testemunhar ocorreu: Loki estava totalmente perdido com as palavras.
Finalmente ele se virou para Nan.
– E você… você fez isso? Tudo sozinha? – perguntou ele, indicando a Ponte do Arco-Íris.
– Bem, não só eu – disse Nan. – Eu tive ajuda do Povo, naturalmente, do Escudo e do meu velho cavalo Epona.
Os deuses seguiram o olhar da Louca Nan.
– Mas isso é apenas uma velha cesta… – falou Freya.
Ethel sorriu.
– Você conhece a cantiga de ninar? Aquela sobre a velha senhora que voa para a Terra do Rosbife num cesto?
Loki, que realmente a conhecia, fez uma carranca.
– Ah, bem. Por que você não disse? Se eu soubesse que o Ragnarók seria lutado com fábulas de velhas donas de casa…
– Velhas donas de casa sabem mais do que você pensa – disse Ethel, com uma olhada de esguelha para Sigyn, ainda ligada ao Astuto pelo pulso. – Ex-esposas também, se é que lhe interessa. Na verdade, eu acho que a sua acaba de salvar a sua vida. Talvez você devesse ficar agradecido.
Loki deu de ombros.
– Pouco importa – afirmou ele. – A pergunta é: o que a trouxe aqui? Por que não partir diretamente para Fim de Mundo? Eu suponho que você não me trouxe aqui para aconselhamento de casais.
Ethel suspirou.
– Você é incorrigível. Mas está certo. A Ponte do Arco-Íris da Velha Era não era simplesmente a estrada para Asgard. Era uma estrada que nos dava entrada para oito dos Nove Mundos, livre e em pleno Aspecto. Mas eu sabia que Hel nunca permitiria que puséssemos um pé em seu reino – ao menos, não sem alguma coisa a oferecer em troca. Naturalmente, eu pensei em você imediatamente.
– Obrigado. Fico lisonjeado – disse Loki. – E se você estivesse errada, hein? E se Odin não tivesse desaparecido? Você teria me oferecido a Hel?
– Como o Lobo Fenris poderia dizer: Parada dura, cara.
Loki balançou a cabeça.
– Pelos deuses! E eu pensei que eu era o perverso aqui. Então, o que vamos fazer a seguir, hein? Ou eu não devo perguntar?
– Bem, você podia tentar fugir…
– Fugir? – repetiu Loki.
– Sim, fugir – falou Ethel, pulando para dentro da cesta de Nan. Ela mudou de Aspecto imediatamente, tornando-se o Cavalo do Ar novamente; um cavalo branco que era o sonho de um louco, com patas que abrangiam o céu e uma crina que se lançava como um feixe de nuvens. – Se vocês correrem para a Ponte o mais rápido que puderem, poderemos estar no Portão do Santo Sepulcro antes que eles consigam chegar a Fim de Mundo…
– Eles? – perguntou Loki, olhando ao redor.
E então o Impostor viu o que estava vindo, e assumiu seu Aspecto de Fogo Selvagem imediatamente. Atrás dele, Thor estendeu o braço para pegar seu martelo, e Heimdall sacou seu raio mental, depois pensou melhor na tentativa de luta e assumiu sua forma de pássaro rapidamente.
Os outros – até mesmo Thor – os imitaram, e um estranho e variado grupo de deuses, lobos e pássaros mitológicos se espalhou através dos domínios da Morte e fugiu em direção à Ponte do Arco-Íris.
Na última vez que Hel havia faltado com sua palavra, a ruptura havia temporariamente aberto as portas do Mundo Inferior, fazendo o Sonho transbordar de suas margens e criar danos inenarráveis. Daquela vez a abertura era mais que uma brecha. Uma muralha de escuridão, como uma onda, emergiu então do Nono Mundo para rolar por sobre a planície de Hel. A certa distância ela parecia lenta – bem como, de muito longe, parecia muda; mas, conforme foi se aproximando, ficou claro demais que a onda estava se movendo numa velocidade monstruosa, apagando tudo que estava em seu caminho – chão, terra, paisagem.
Hel deu uma olhada para a onda e fugiu. Até os mortos sentiram sua aproximação e se apagaram como poeira em seu caminho. Então, minutos depois, veio o som – tão alto que estrondou como um raio mental, fazendo todos os Nove Mundos ressoarem com seu poder.
No vale do Strond o Povo ouviu-o como um rugido sobrenatural que vazara da Colina aberta.
Em Fim de Mundo, Maggie ouviu-o como um repique de sinos da Praça da Catedral.
Freya ouviu-o como o despedaçar de mil espelhos.
Thor ouviu-o como um trovão tão alto que seus ouvidos começaram a sangrar.
Tyr ouviu-o como uma colisão de espadas.
Bragi ouviu-o como um acorde perdido.
Os corvos de Odin ouviram-no e sorriram.
Os Irmãos Lobos ouviram-no e uivaram em uníssono.
No Inferno, o Astuto, em disfarce de falcão, quase caiu do céu quando ouviu o estrondo, e foi salvo apenas pela intervenção da águia do mar de Njörd, que o agarrou entre as garras e voou sobre o maremoto para a Ponte, onde a Louca Nan e o Cavalo do Ar, com Ethel, haviam já se juntado ao resto dos deuses, elevando-se a caminho do Arco-Íris.