Luz das Runas
Capítulo 5
Loki despertou na escuridão. Tudo nele doía: estava com as mãos e os pés amarrados e, quando tentou em vão apelar para a luz, descobriu que sua força magnética estava totalmente apagada, tal como o resto dele. Chegou então à conclusão de que podia estar em apuros.
Ele parecia estar numa espécie de caverna. Pensou isso por conta do frio, dos ecos, dos fragmentos de pedra no chão duro que pareciam saber exatamente onde machucá-lo e pelo inconfundível cheiro de caverna: o odor furtivo de buracos e porões, semelhante a pó e terra, a umidade gotejante e as coisas obscuras que brotavam das fendas nas pedras.
Ele não estava sob a Colina do Cavalo Vermelho. Loki conhecia essa Colina muito bem e teria farejado seu território. Não, este lugar era desconhecido, e quem – ou o quê – que o tivesse levado para ali devia tê-lo arrastado do Mundo Superior. Ele lembrou que estava em pé sobre a Colina, esfregando neve em suas mãos, e então…
Só lampejos. Ele se lembrou de uma luz – não a luz do dia, mas uma mais clara reluzindo com um brilho branco-avermelhado…
Lembrou-se de ter levado uma pancada tão forte na cabeça que havia caído ajoelhado…
Lembrou-se de uma voz dizendo depois:
– Nós o pegamos, parceiro…
E, depois disso, nada além da escuridão.
Então, eu devo estar morto novamente, pensou ele. Mas Hel geralmente não amarrava seus hóspedes dos pés à cabeça. E Loki fora amarrado da forma mais eficiente possível, mãos e pés atados, a corda dando uma volta em torno de sua nuca.
Pelo menos ele estava sozinho, pensou. Deixá-lo sem vigilância fora um descuido – Loki tinha um dom especial para fugir de confinamentos – e começou a se sentir mais otimista. Aquelas cordas durariam o tempo exato que sua força magnética levaria para se recuperar. E depois ele sairia tão rápido quanto o Aspecto de fogo selvagem poderia conduzi-lo.
Tentou se mover para uma posição mais confortável, e um eco despertou por toda a sua volta, como um ninho de serpentes inquietas deslizando em torno de si, projetando suas vozes para milhares de lugares perdidos, milhares de cavidades na rocha.
Assustado, praguejou, e mais uma vez os ecos reproduziram o som, então logo a caverna o repercutia conforme ele ricocheteava contra as pedras, aprofundando-se mais e mais, até que nada restou senão uma surda vibração que puxou seus tímpanos com força e deixou seus pelos da nuca em pé.
Nada de fugir, pensou Loki.
Não era de admirar que não houvessem deixado um guarda: ele não conseguiria fazer um movimento nesta câmara de eco subterrânea sem lançar sinais por quilômetros ao redor. Os deuses sabiam o que qualquer som poderia atrair para fora do labirinto do Mundo Abaixo: ratos, ursos, demônios das cavernas, serpentes…
Terrível, pensou Loki. Não seria preciso mais nada.
Depois disso, ele tentou ficar em silêncio, mas a sua posição não era confortável. Suas costas doíam, ele estava tremendo, e agora a fome estava começando a afligi-lo, cravando as garras em sua barriga.
Por que eu?, pensou ele desesperadamente. O que será que eu fiz?
Em reflexão posterior, contudo, Loki teve que reconhecer que fizera alguns inimigos ao longo dos anos, todos mais do que capazes de tentar alguma forma de vingança. Havia Hel, de cuja hospitalidade ele havia acabado de conseguir escapar durante o último confronto, e que prometera vê-lo morto o mais rápido possível. E havia também o Povo do Túnel, que ele, há vários séculos atrás, despojara de algumas mercadorias um tanto únicas e valiosas, e cujas memórias longas e capacidades de guardar rancor teriam feito um elefante positivamente vacilar. E também havia Skadi, claro – a Caçadora com Sapatos de Neve –, que ficaria mais do que feliz de arrancar sua pele, ou cortá-la em tiras com seu chicote de runas. Na verdade, ninguém do Povo do Gelo provavelmente demonstraria qualquer piedade se tivesse a oportunidade de pegá-lo; nem a maioria dos Faërie; nem o Povo do Mar; nem o Povo das Nuvens; sem mencionar os membros seletos dos Æsir, dos Vanir e, claro, do Caos – talvez a facção menos capaz de perdoar um traidor em suas fileiras.
Loki suspirou, fazendo as cavernas imitarem desanimadamente. Na linguagem das Divisões, ele era fichinha.
De repente ele ouviu um som, uma coisa que não fora causada pelos movimentos de seu corpo contra o chão salpicado de cascalho. O som de saltos de botas sobre a pedra. Um único par? Não, mais de um – tamborilando, se dispersando e seguindo atrás do outro do lado de lá das paredes de rocha até se tornar uma cavalgada que parecia se aproximar por todos os lados, de modo que, mesmo se Loki conseguisse se libertar, não teria sabido para que lado fugir.
Para piorar sua sorte, sua força magnética ainda estava apagada. Tudo o que ele podia fazer era esperar para ver.
Entretanto, não teve que esperar muito. Escutou por mais ou menos cinco minutos o som das botas que se aproximavam, até que viu uma luz em algum lugar à sua esquerda, e uma figura volumosa, que parecia mais alta e sinistra pelas sombras saltitantes, surgiu à sua vista. Por trás dela, Loki podia apenas vislumbrar duas figuras mais escuras, a primeira segurando uma lanterna que lançava uma luz oleosa e avermelhada. Ele lutou contra a ânsia de recuar e ergueu os olhos calmamente quando elas se aproximaram, tentando não trair sua surpresa.
Pois, em vez de serem lacaios do Caos (ou do Povo do Túnel, ou do Povo do Gelo), seus captores eram simplesmente três jovens do Povo, todos vestidos num uniforme negro e cada um deles, por algum motivo, usando uma bandagem no polegar.
O que estava com a lanterna parecia estar na chefia. Ele deu um passo à frente para Loki sem qualquer sinal de hesitação – o que o tornava muito seguro de si, ou incrivelmente estúpido, ou ambas as coisas – e examinou-o por um momento à luz avermelhada da lanterna.
Loki olhou-o de esguelha. Tinha certeza de nunca o ter visto. Por alguma razão, contudo, o fato não era muito reconfortante.
O estranho parecia estar no fim da adolescência. Seu rosto era pálido e anguloso por trás de uma cortina de cabelos castanhos escorridos, e havia uma inteligência penetrante em seus olhos de um dourado-cinzento que parecia ausente nos olhos dos outros dois. Seus camaradas eram muito parecidos; Loki supôs que fossem irmãos. Ambos eram grosseiros e fortes, com pele oleosa e propensa a ter manchas e mãos de dedos grossos cobertas de pelos. Ambos usavam botas pesadas e camisas de um padrão desconhecido para o Astuto – alguma moda de Fim de Mundo, presumiu ele –, bordado com um desenho de caveiras.
Um deles – o maior de todos – olhou com desconfiança para Loki.
– Parceiro. Você tem certeza de que é ele? – perguntou.
– Você acha que eu iria me confundir? – retrucou o que estava com a lanterna. – Claro que é. – Deu um passo para a frente, pegou o braço de Loki e, com um único gesto preciso, rasgou a manga de sua camisa no ombro, expondo a runa Kaen, invertida.
Os irmãos peludos deram um passo para trás.
– Tudo certo. Ele não pode fugir de modo algum. – O estranho apertou seus olhos sobre o Astuto cativo. – Eu achei que você seria mais alto na vida real.
– Você está cometendo um engano – disse Loki. – Eu não sou quem quer que vocês pensem que eu seja.
– Diga a ele, Grande H – disse o mais baixo.
O portador da lanterna silenciou-o com um grunhido e se voltou para Loki.
– Não minta para mim – ordenou ele calmamente, olhando para os olhos de Loki. – Eu sei exatamente quem você é. Uma coisa nomeada é uma coisa domada. Eu por meio desta o nomeio filho do Caos. Eu o nomeio Guardião do Fogo.
Loki zombou.
– Isso é um tanto vago…
O jovem pálido mostrou os dentes.
– Ah, eu não terminei ainda. Eu o nomeio Viajante do Céu, filho de Farbauti, Criador de Serpentes, Pai dos Lobos…
– Pai dos Lobos? – Loki franziu o cenho. As palavras estavam começando a fazer efeito. Palavras ou a Palavra, ele não sabia. Embora ele não pudesse no momento sequer adivinhar o que um trio de garotos do Povo estivesse fazendo com um dos textos secretos do Livro de Invocações.
Os três não eram membros da Ordem. Disso ele podia ter certeza, pensou. Mas as palavras por si só eram poderosas. Uma coisa nomeada é uma coisa domada. Não que elas tivessem a chance imediata de realmente domar o Fogo Selvagem. Mas, em seu Aspecto atual, sujeito a todas as fraquezas e imperfeições de sua forma humana, elas poderiam chegar dolorosamente perto.
– Olhem aqui – disse Loki, ganhando tempo. – Isso não vai levá-los a lugar algum. Me digam apenas o que querem, e aí talvez possamos fazer um trato. Eu posso lhes conseguir tudo: ouro, armas, runas, mulheres…
O irmão mais peludo – aquele chamado de Grande H – ergueu os olhos com algum interesse ao ouvir isso. Loki supôs que os três não tinham muita sorte com mulheres, o que não era inteiramente surpreendente, pensou. Suas habilidades sociais dificilmente causariam impressão, e um deles, ou talvez o trio todo, fedia.
– Mulheres – ele continuou falando, de maneira insinuante – Ah, sim. Eu conheço métodos para torná-los irresistíveis para o sexo frágil. Posso lhes ensinar feitiços em que vocês nem acreditariam: runas para derreter o coração de gelo de uma moça. Juro que, na hora em que eu fechar o trato com vocês, elas estarão fazendo fila para subir até as Divisões a fim de conhecê-los. Ruivas, louras, morenas; ou se vocês gostam das exóticas e não estão muito preocupados com a prole, então conheço algumas mulheres-demônios que vão explodir seus miolos e devorá-los como sorvete…
– Ele sabe falar, não sabe? – comentou o Grande H.
– Com toda certeza. – Sorriu o amigo.
O jovem pálido ignorou-os completamente. Ele simplesmente prosseguiu com o cântico enquanto seus amigos observavam com olhos ansiosos, dando-se cotoveladas em mútua empolgação, e Loki sentia o que restava de sua força se esvaindo lentamente na escuridão.
– Eu o nomeio Astuto, Pai das Mentiras. Eu o nomeio ancestral da Maldita Hel. Eu o nomeio Portador do Fogo, Arquiteto e Destruidor dos Mundos. Eu o nomeio Arcanjo, Decaído, Abridor das Portas Proibidas, construtor da Cidadela. Eu o nomeio Estrela do Cão, Mais-Leve-Que-o-Ar…
As palavras rituais rolaram sobre Loki como pedras para dentro de uma cova, e mais uma vez ele lutou contra as cordas que o prendiam, esfolando em vão os pulsos feridos. Ele nem mesmo conhecia todos aqueles nomes; mas não havia como negar seu poder.
– Por favor – implorou ele. – Só me diga seu nome. Diga-me para quem você está trabalhando…
A força da Palavra o paralisou novamente, fazendo-o retorcer de angústia. De onde diabos ela vinha? A Ordem estava acabada, seus seguidores estavam mortos. O Inominável era uma força desgastada. Além do mais, esses garotos não eram Inspetores; eles não tinham o poder de lançar a Palavra. Então quem estava fornecendo o magnetismo? E como ele poderia negociar se não sabia com quem estava negociando?
– Diga a eles que estão cometendo um grande engano. Tentem me machucar, e meu povo vai… Ai!
Agora a força da Palavra era indescritível. Uma sensação abominável, furtiva, uma coisa muito pior que a simples dor pareceu atingi-lo bem por dentro, e ele gritou alto – ou pensou ter gritado –, desesperadamente, sem cálculo, só porque não tinha escolha.
– Você não tem povo algum – disse o jovem. – Tudo que você tem são alguns deuses cansados e um punhado de calouros. Quão patético é isso? Eu o nomeio Fogo Selvagem, filho de Laufey…
– Tá bom! Eu sinto muito! Seja lá o que for que vocês pensam que eu fiz…
– Eu o nomeio Loki, controlador da Kaen…
– Por favor – pediu Loki, ofegante. – Eu farei qualquer coisa.
O jovem pálido sorriu.
– Eu sei que fará.