Luz das Runas
LIVRO DOIS – O Martelo de Thor
LIVRO DOIS
O Martelo de Thor
Cuidado com o Povo dos Deuses quando ele traz presentes.
Provérbio das Terras do Norte
1
– Você está dizendo que eu sou um demônio?
Adam tomou um fôlego profundo. Que a garota tivesse levado aquilo mal, ele pensou, era de alguma forma compreensível. Mas ele não havia esperado essa explosão de raiva; essa negação furiosa.
– Não, você não é um demônio – disse ele, pelo que pareceu ser a quarta vez. – Esta marca é a razão pela qual eu vim aqui. Foi por isso que eu vim procurá-la. É uma runa poderosa…
– É uma marca de runa! Uma imunda, horrível marca de runa!
Adam pôs seu braço em torno dela.
– Eu sei – falou ele. – Sei que você está furiosa. Mas me escute. Esta marca de runa a torna especial…
– Não há nada de especial em mim! – disse Maggie. – Eu sempre acreditei na Ordem. Estarei possuída? – Ela apertou os punhos. – Isso não será uma coisa que vem dos meus sonhos?
Adam balançou a cabeça.
– Não. Mas isso lhe dá poder sobre o Sonho. Poder para mudar os Mundos, Maggie. Poder para desafiar o Povo do Fogo…
Maggie encarou-o.
– Como? – perguntou ela. No horror de descobrir a imunda marca de runa em seu pescoço, ela quase tinha se esquecido do motivo pelo qual cortara o seu cabelo.
– Você se lembra do seu sonho? – perguntou Adam. – Sobre o homem ruivo na colina? Aquilo foi coisa sua, Maggie. Foi você quem fez. Sem qualquer conhecimento ou treinamento, você foi capaz de invocar a criatura do Sonho e mandá-la atrás do inimigo. Você sabe quem aquele homem era? Tem alguma ideia de quão perto você esteve de levar um integrante dos Æsir a fazer o bem?
– Como você pode saber disso? – indagou ela.
– Eu lhe disse. Eu sei um monte de coisa. Esse é um poder notável que você tem…
– Eu não o quero! Leve-o embora!
Ao ouvir isso a paciência de Adam finalmente se rompeu. A parte dele que se mantinha alheia, observando e avaliando a distância, viu sua raiva e a julgou boa. A raiva às vezes pode ser útil, ele pensou; especialmente ao lidar com esta garota, cuja fúria, ele sentiu, quase se igualava à sua. A simpatia não funcionara com ela; nem tampouco a sedução. Então, Adam se virou para Maggie Rede e esbofeteou seu rosto com toda força que pôde.
Por um momento nada aconteceu. A garota simplesmente ficou olhando-o fixamente, seus olhos escurecidos pela raiva e pelo espanto. A marca dos dedos de Adam se destacou escarlate em sua face; o outro lado de sua face estava branco. Adam subitamente se lembrou de Hel, a guardiã de duas faces do Mundo Subterrâneo, e, a despeito do confinamento da caverna, estremeceu.
Depois, sentiu-o: um formigamento, uma coisa parecida à estática. Ela se eriçou; ela aumentou; e Adam sentiu os pelos da sua nuca se erguendo como se houvesse um relâmpago no ar. Sentiu uma súbita urgência de ir embora antes que aquilo o atingisse, mas a Voz em sua mente estava exultante. Adam, então, ficou plantado no local enquanto o poder de Ác, o Carvalho do Trovão, cuspia e estalava ao seu redor.
Quando o poder golpeou, golpeou com força, e, se Adam não estivesse de sobreaviso, poderia ter-lhe causado mais dano. Tal como foi, ele conseguiu jogar-se no chão bem quando a estática foi descarregada, mas mesmo assim sentiu-a próxima, como uma rajada de ar escuro sobre sua cabeça – ar que estava cheio de partículas de efêmeras, radiantes e letais.
Adam já vira raios mentais. Este não era um deles. Parecia-se mais com uma rajada de vento – uma corrente de ar gelado vinda do próprio Caos –, e até a Presença em seu interior cessou seu prazer com o sofrimento alheio e sussurrou de espanto, Deuses! Deuses!, quando a corrente atravessou diretamente a parede da caverna com uma contração que fez os Mundos tremerem, antes de se perder por fim nas fundações da Cidade Universal e no labirinto do Mundo Inferior.
Então Maggie baixou os olhos para Adam, e a expressão nos olhos de granito dourado fez com que ele se lembrasse muito de outra garota que por um momento poderia ter sido Maddy Smith, observando-o da Colina do Cavalo Vermelho, no dia em que ela fez com que ele urinasse nas calças. Adam já havia há muito tempo passado da fase de urinar nas calças, mas, mesmo assim, olhando para ela, sua boca ficou seca como o deserto e seu coração tornou-se um balão esvaziado.
Deuses!, repetiu o passageiro.
– O que você disse? – perguntou Maggie.
Adam Goodwin balançou a cabeça.
E, então, por um momento, Maggie ficou gelada, quase certa de ter ouvido alguma coisa – um sussurro – numa língua quase familiar, lembrada como num sonho…
Ela olhou para Adam.
– O que você fez?
Mais uma vez ele balançou a cabeça.
– Maggie, eu não fiz nada. O que você acabou de sentir, essa rajada, foi o poder magnético que, se atrelado, poderia fulminar um homem da mesma forma que eu poderia matar uma mosca com um tapa.
Maggie sentou-se no chão pedregoso. Subitamente suas pernas – e grande parte do resto dos Mundos que uma vez parecera seguro, ela pensou – simplesmente não lhe inspiraram confiança.
– Foi uma sensação boa, não foi?
Maggie olhou para ele, horrorizada. Ela também sentira a explosão da força magnética, e, por toda a escuridão que ela trouxera consigo, por todo o seu forte cheiro de Caos e Morte, Adam estava certo. Era realmente uma sensação boa. Isso era possessão?, perguntou ela a si mesma. Isso a tornava maligna? E como uma imunda marca de runa podia ter estado ali, em seu pescoço, o tempo todo, sem que ela jamais houvesse desconfiado?
– O poder não é nem bom nem mau – disse Adam, ecoando as palavras que Odin de Um Olho havia dito uma vez para Maddy Smith, anos atrás, sobre a Colina do Cavalo Vermelho. – É uma coisa semelhante ao fogo. Fora de controle pode queimar uma cidade. Ou, se você o mantém em seu lugar, pode cozinhar uma fornada de bolos e acender a vela ao lado de sua cama.
– Mas como eu faço isso? – Maggie gemeu.
– Está tudo bem. Posso ajudá-la. Posso ajudá-la a domar o fogo ou a usá-lo contra seus inimigos.
Ela olhou para ele furiosamente.
– Ensine-me agora.
Adam sorriu.
– Aqui não – disse ele. – Não é seguro. Mas você já escolheu o caminho certo. Você está do lado da Ordem agora. E estou aqui para ajudá-la. Pense em mim como seu guia pessoal.
Maggie deu um longo suspiro. Parecia que alguma coisa dentro dela – uma pressão em algum órgão vital, em algum nervo – havia finalmente, felizmente, sido aliviada. A descoberta da marca de runa e o horror do que havia acontecido a seguir pareciam quase insignificantes agora, comparada ao alívio de saber que era isso que a tinha mantido à parte em todos esses anos de desgraças; que isso era a fonte de seus sonhos inquietos; e que alguém queria ajudá-lo – alguém que queria ser seu amigo.
– Então, eu não sou realmente um demônio – disse ela numa voz um pouco vacilante.
– Claro que não. – Ele pegou sua mão.
– Então, o que é que eu sou?
– Você é uma guerreira – afirmou ele. – Talvez a única guerreira que pode derrotar o Povo do Fogo. Lembra-se do Livro do Apocalipse? E virá um Cavalo Vermelho, e o nome de seu Cavaleiro é Carnificina?
Maggie tomou um fôlego profundo. Os Mundos ainda pareciam estar girando em torno dela. Apenas Adam Goodwin se mantinha imóvel.
– Carnificina? – repetiu ela.
Por um momento, Maggie pensou que talvez não houvesse despertado de todo e que aquele jovem e sua história Exótica não eram nada mais que outro sonho, um presente cruel do rio cujas águas levavam as boas pessoas à loucura…
Mas Adam ainda estava segurando a sua mão. Ele aquecia seus dedos congelados. Maggie ficou subitamente consciente do fato de que não tocava em outro ser humano desde antes da época da calamidade.
– Mas eu pensei que o Cavaleiro fosse você – disse ela. – Eu até vi seu rosto em meus sonhos…
– Não. Sou apenas um mensageiro. Serei seu escudeiro, seu professor, seu amigo, mas sem sua força magnética eu ficaria desamparado. Não teria uma única chance nos domínios de Hel contra um só dos integrantes do Povo do Fogo.
– E eu teria? – perguntou Maggie, sentindo-se um tanto insegura. Ela não era uma pessoa violenta; exceto em sonhos, nunca havia matado nada maior do que um rato. Mas pensar no Povo de Fogo deixava seus dentes crispados como se estivessem mordendo um pedaço de folha de estanho. E a mão de Adam na sua era forte, quente e estranhamente confortadora.
– O que você precisa que eu faça? – perguntou ela.
Adam olhou para ela ternamente.
– Eu quero que venha comigo. Traga o Bom Livro. Você logo precisará dele.
– Para onde?
– Confie em mim – pediu ele. – Eu lhe direi quando nós chegarmos lá. Primeiramente, você terá que parar na taverna e fazer as malas. Você não voltará mais. Esta parte da sua vida terminou.
Maggie fez que sim, sentindo-se aturdida. Não seria uma grande perda. Ela sentia como se os três últimos anos não houvessem sido nada além de um sonho sem sentido. Se Adam lhe houvesse pedido para segui-lo trajando nada além das roupas com que já estava, Maggie teria dito sim sem sequer uma pontada de remorso.
Ela olhou para ele, com os olhos brilhando.
– E depois?
Adam sorriu aprovadoramente.
– Depois disso será fácil – disse ele. – Tudo o que você terá que fazer é sonhar.