Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 65 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 3

 

Nove dias haviam se passado desde que Maggie havia encontrado Adam Goodwin nas catacumbas sob a velha Universidade. Desde então, um grande número de coisas havia acontecido. Em nove dias a vida de Maggie havia sofrido uma reviravolta completa. Ela soubera que o Fim dos Mundos estava perto; havia falado com demônios e com deuses; cavalgado através do Sonho sobre um Cavalo de Fogo e lutado com os Æsir. O último desses dias havia terminado numa batalha de vontades com o Velho Homem, durante a qual a força magnética do General havia sido tão totalmente esgotada que mal restava uma faísca de consciência dentro do pedaço de pedra. A despeito de todos os seus esforços desde então, o Velho Homem permaneceu mudo, e as runas do Novo Manuscrito ficaram onde estavam, trancadas no interior daquela teimosa Cabeça de pedra.

Mas algo mais havia acontecido para Maggie naqueles nove dias; uma coisa tão inesperada, tão nova, que lançava todas as suas outras aventuras na sombra. Maggie Rede havia se apaixonado – com um amor precipitado, bronco, turbulento – e Adam a tinha pedido em casamento naquela manhã de Domingo às oito horas na catedral do Santo Sepulcro.

O Murmurador, surpreendentemente, havia recebido a proclamação com muito pouco protesto.

– Vejo que vocês dois estão determinados – dissera ele, pela voz de Adam. – Eu só espero que isso não acabe em lágrimas.

– Por que acabaria? – perguntou Maggie. – Você parece minha mãe falando.

– Ah, deixe-Me ver. O Fim dos Mundos?

– Não vejo o que isso tem a ver com o casamento.

– Bem, alguém pode argumentar – disse o Murmurador – que com a guerra no horizonte, com o Caos devastando os Mundos Médios, com os demônios escapando do Inferno, com os Cavaleiros da Loucura e da Traição já a caminho, e com as runas do Novo Manuscrito ainda trancadas ali… – Ele usou a mão de Adam para apontar na direção do Velho Homem, ainda em silêncio sob seu lençol de poeira. – Com todas essas coisas acontecendo, algumas pessoas podem apenas esperar que você tenha certas prioridades que não a de escolher tecidos.

– Adam e eu estamos apaixonados. Por que esperar?

– Por que realmente? – retrucou o Murmurador.

A velha e desconfiada Maggie podia ter pensado por que o passageiro de Adam havia acolhido a notícia tão prontamente. Ela podia até mesmo ter perguntado a si mesma como seu papel vindouro de Cavaleiro da Carnificina poderia combinar com seu papel de noiva; mas o feroz contentamento do amor havia nublado suas desconfianças.

Além do mais, havia mais coisas em sua mudança de ânimo do que a empolgação de se apaixonar. Maggie, que há nove dias estava mais que preparada para encarar o inimigo; Maggie, que havia sonhado tomar parte da Adversidade, agora se flagrava apavorada com a ideia de guerra. Alguns de seus receios tinham vindo das revelações do Velho Homem. Outros tinham vindo de seu encontro com Hugin e Munin. Mas a maior parte deles derivava do fato de que, pela primeira vez desde que a Glória havia arrebatado sua família, Maggie Rede tinha alguma coisa a perder – e a ideia de perder Adam agora era cruel demais para ser considerada.

Essa era a razão pela qual Maggie havia tentado enredar os deuses em Rhydian. Era a razão pela qual não havia revelado a presença dos corvos de Odin. Se o Povo do Fogo pudesse ser impedido de até mesmo chegar a Fim de Mundo, então a guerra nunca aconteceria, ela pensava; e a profecia ficaria sem ser cumprida.

E, assim, longe de sonhar com a guerra, o relutante Cavaleiro da Carnificina preenchia seus dias com sonhos de amor e, contanto que o Velho Homem continuasse dormindo, era quase capaz de acreditar que a batalha não era inevitável.

Quanto ao Murmurador, ele estava contente. Seu plano estava funcionando perfeitamente. A garota estava em seu poder agora. O General estava impotente. E, quando possuísse o Novo Manuscrito e todas as peças estivessem no lugar, então lidaria com o Povo do Fogo – embora não antes que Odin entendesse a extensão de sua derrota e humilhação; não antes que ele percebesse o quanto ele havia apostado e perdido.

Até onde dizia respeito ao Murmurador, esperar aumentava o prazer. Dois dias restavam até o Fim dos Mundos; dois dias para o General encontrar sua voz. Não havia dúvida de que ele ainda guardava um truque na manga; não havia dúvida de que ele tentaria falar com a garota. O Murmurador esperava por isso; isso também era parte do plano. Maggie Rede não estava mais disposta a ser seduzida pelas promessas do Velho Homem. Ela era uma mulher apaixonada. E isso a deixava muito vulnerável – bem como muito perigosa.

Agora, na tarde de sexta-feira, enquanto o Murmurador fazia seus planos e Adam saía em compras de seda nupcial, o objeto de toda a especulação estava sentado à janela da cobertura, como estivera por toda a semana passada, olhando para as ruas e sentindo-se muito entediado.

Uma semana do mesmo velho cenário, das mesmas instruções para não sair; uma semana de nada além de ficar esperando enquanto Adam fazia os preparos e ela ainda mantinha vigilância sobre o Velho Homem – que não havia dito uma só palavra desde sua tentativa de enfeitiçá-la e que talvez não fosse tentar outra vez, ao menos até o Fim dos Mundos.

Não que ele parecesse provável. De acordo com o Bom Livro, a Adversidade era prenunciada por toda espécie de sinais e presságios: estrelas cadentes; aguaceiros de rãs; chuvas de enxofre; maremotos e tempestades. Naquele momento, Maggie pensou, tudo parecia tão banal! Havia chovido sim uma ou duas vezes, mas chuva muito comum, cinzenta com a fuligem da cidade, sem um traço de enxofre e até mesmo do menor dos anfíbios. Sleipnir, mastigando aveia em seu estábulo, se comportava igualzinho a um cavalo comum. Não havia sinal dos Æsir; nenhum sinal dos Cavaleiros dos Últimos Dias. Até seus sonhos vinham sendo banais, a maior parte deles com Adam.

Mas agora Maggie subitamente achou que estava se sentindo inquieta. Mesmo a emoção de um casamento a planejar – um casamento tão romântico também, tal qual nos velhos dias da cavalaria – não era suficiente para compensar a perda de sua liberdade. Ela queria ar fresco; queria seus livros; mas, mais do que tudo, queria que a espera terminasse – para que Adam ficasse livre por fim, e tudo isso se tornasse uma lembrança.

– Por que tenho que ficar aqui dentro? Por que não posso sair com você? – perguntara ela a Adam inicialmente.

Ele lançou um sorriso apertado.

– Sempre fazendo perguntas – disse ele. – Tenho um casamento a preparar.

Maggie suspirou.

– Suponho que sim. Mas…

– Você não confia em mim?

– É claro que eu confio!

E, no entanto, sua mente se recusava a relaxar. Ela estava cheia de perguntas não respondidas. Casamentos em catedrais não eram baratos. Como Adam podia se dar ao luxo de um? Como ele conseguira arrumar uma coisa assim em menos que uma semana de prazo? Seu relato de um cancelamento de última hora a tinha convencido mais ou menos; sua recusa em discutir os arranjos – ou até mesmo de deixá-la sair da cobertura para ir às compras – ela tomava como prova de sua preocupação; mesmo assim, Maggie não podia deixar de se sentir ligeiramente excluída dos procedimentos.

– Mas por que eu não posso ir com você hoje?

O sorriso de Adam era um pouco forçado.

– Eu já lhe disse, não é seguro. E, além do mais, alguém tem que ficar e manter vigilância sobre o Velho Homem.

– Ah. Ele.

Adam franziu o cenho.

– Lembre-se, Maggie, é perigoso. Não o deixe atraí-la novamente. Não converse com ele em minha ausência. Apenas observe-o e conte-me se ele falar.

Ela fez que sim.

– Ótimo. Agora, espere por mim. Tentarei ser o mais rápido que puder.

E assim Maggie havia esperado, tentando não se sentir ansiosa ou impaciente. Na verdade o casamento em si era uma questão indiferente para ela. Maggie teria preferido se casar com simplicidade, sem alarde, a ficar suportando até o fim uma cerimônia extravagante quando tantas coisas estavam por ser feitas. Adam (um romântico) se recusava a ouvir qualquer coisa que não fosse um casamento de catedral. Se Maggie iria assumir seu nome, ela merecia uma cerimônia apropriada. Uma coroa; um véu de seda primaveril; flores; lembrancinhas de noivado para atirar à multidão – em resumo, tudo com que uma jovem garota sonhava, e Maggie, que não se importava nem um pouco com essas coisas, ficou, mesmo assim, comovida pela devoção de Adam a ela, e tentou com muito força fazer o que ele dissera. Mas a solidão trazia reflexão da espécie que Maggie mais odiava, e agora, sentada junto à janela tentando se imaginar como uma noiva, as dúvidas que desapareciam assim que Adam entrava no quarto retornavam como um enxame de moscas de verão.

Havia tanta coisa que ela ainda não sabia sobre o homem que amava! Quem era Adam, realmente? Como ele soubera onde encontrá-la? O que ele fazia para viver e como esperava poder sustentá-los? De onde ele era? Quem era seu povo? Que lealdade ele devia à coisa que chamava de Murmurador?

Ela se afastou da janela. Estou sendo apenas tola, ela disse a si mesma. Toda noiva em Fim de Mundo sofre de nervosismos pré-nupciais.

E, no entanto…

Ela olhou para o plinto, onde a cabeça do Velho Homem ainda permanecia, envolta em mística escuridão. Odin havia tentado lhe dizer alguma coisa antes que ela o silenciasse. Desde então Maggie viera a se arrepender da violência de sua reação. Portanto, lançou a Bjarkán sobre a Cabeça, esperando por um sinal de vida.

– Você está acordado? – sussurrou ela.

Nada. Só a escuridão.

– Por favor – pediu Maggie. – Eu preciso conversar.

E aquilo não era um brilho de resposta, lá no fundo da pedra? O coração de Maggie bateu mais depressa. Por favor. Eu não vou feri-lo. Apenas converse comigo…

Um som por trás dela fez com que se encolhesse. Ela se virou para ver um corvo pousado no corrimão do terraço. Outro estava empoleirado sobre o parapeito da janela, a pena branca isolada em sua cabeça se erguendo como a crista de um guerreiro. Quando Maggie se aproximou da janela, ele bicou o vidro com impaciência.

– Vocês de novo! – disse Maggie, abrindo a janela.

Imediatamente Hughie voou para dentro e assumiu seu Aspecto humano, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. Mandy se juntou a ele na forma de corvo, empoleirando sobre seu ombro. Ele estava usando um pingente brilhante que Maggie não havia visto anteriormente; um disco redondo, com runas inscritas, que captava a luz como um espelho.

– Você disse que não ia falar com ele – lembrou Hughie, com uma olhada de relance para o Velho Homem.

Maggie deu de ombros.

– Eu não ia – disse ela. – Eu não me importo se ele nunca despertar.

Mandy crocitou.

– Não há chance alguma disso. Você logo terá que despertá-lo. Você precisará das novas runas, para começar, antes de encarar o inimigo.

Mandy crocitou novamente. Ack!

– Ainda assim, há tempo para isso – disse Hughie. – A boa coisa é que estamos aqui para ajudá-la, não é? O Fim dos Mundos está perto, fêmea, e nós temos um monte de coisas que conversar. O Povo do Fogo está a caminho. O Cavaleiro da Loucura está junto deles. Há guerra e carnificina no ar, e tudo vai ficar brilhante!

Maggie balançou sua cabeça.

– Não, obrigada.

– Não, obrigada? – repetiu Hughie. Ele empinou a cabeça, parecendo mais do que nunca com um corvo. – O Fim dos Mundos está vindo e você está nos dizendo não, obrigada?

– É isso mesmo – confirmou Maggie. – Não, obrigada. Eu já tive o suficiente. Eu lutei contra o Povo do Fogo no Sonho; eu roubei o Cavalo Vermelho da Carnificina; eu tenho o Velho Homem preso dentro de um pedaço de pedra ao lado da cama. E isso – ela apontou para o Bom Livro, apoiado contra o pilar da cama –, o tempo todo eu acreditei que o Livro guardava a resposta para tudo. Mas não guarda, não é? Eu costumava crer no Inominável; na luta pela perfeita Ordem. Mas agora não há mais Ordem; apenas dois lados que têm estado em guerra desde antes de os Mundos começarem. Então, o que eu estou fazendo no meio de tudo isso? Quem diz que eu tenho que ir para a guerra?

– Mas, fêmea… – protestou Hughie.

– Eu não sou sua fêmea! – disse Maggie. – Agora, me ouçam, vocês dois. Eu vou me casar depois de amanhã. Casar. Na catedral. Casar-me com o homem que amo. E nada, nem o Fim dos Mundos, nem o Povo do Fogo, nem o próprio Caos, irá impedir isso. Fui totalmente clara?

Hughie e Mandy trocaram olhares.

Hughie deu de ombros.

Mandy crocitou.

– Posso tomar isso como um sim?

– Bem, aqui está o problema – disse Hughie. – Na manhã de Domingo, este é o dia de depois de amanhã, fêmea, caso você tenha esquecido, haverá guerra. A vidente predisse isso. O que torna este o lugar para corvos e aves de rapina, não véus de casamento e bolos de noiva. E o quanto antes você encarar isso…

Crawk, disse Mandy lugubremente.

– Todos ficam dizendo isso – falou Maggie impacientemente. – Guerra, guerra, o Fim dos Mundos, isso é o que todo mundo fala.

Hughie empinou a cabeça para o lado.

– Você é o Cavaleiro da Carnificina. Acha que pode mudar o futuro? Reconciliar a Ordem e o Caos? Cancelar a Guerra dos Nove Mundos? Reescrever o Livro do Apocalipse? Brilhante, se você pudesse, mas não muito realístico.

Maggie fez uma careta.

– Eu não vejo por que precisa haver guerra.

– Sim, é o que o Deus da Guerra diz. Engraçado, isso. Mas nós vemos mais. Vemos dentro de todos os Mundos, passado e presente, vivos e mortos, e conhecemos todas as profecias. A mão que balança o Berço governa os Nove Mundos, assim se diz. Está escrito na própria Pedra Fundamental da catedral. E a menos que a Vidente tenha entendido mal, a mão pertence a você, fêmea, e você precisará de toda a ajuda que puder obter. É por esta razão que nós estamos aqui.

– Bem, obrigada. Mas a menos que vocês queiram ser as garotas que carregam os buquês…

– Pelos deuses, você é a mais teimosa das criaturas? Podemos abrir Mundos, moça. Poderíamos abrir os portais do Inferno, ou do Mundo Inferior, se você quisesse.

– Eu não quero abrir portais. Ou berços de pedra, por falar nisso.

– Que importa o que você quer? – Agora Hughie estava ficando irritado. – Eu lhe digo, tudo está escrito. Você é a escolhida, goste ou não. A chave para o portal é uma filha do ódio, uma filha de dois e de ninguém. Isso é você, ou eu sou um pombo. Que mais você precisa, hein? Você tem alguma ideia do que acontecerá se o Cavaleiro da Carnificina não cavalgar?

Então Mandy, que havia ficado vigiando a rua, soltou um grito de alerta. Crawk!

– O que é isso, Mandy? – perguntou Hughie.

Crawk, repetiu ela. Ela parecia estar tentando falar; palavras ásperas saíam de sua boca numa linguagem que não era nem de gente nem de pássaro.

– Alguém está vindo – disse Hughie. – Estou supondo que seja seu jovem. Agora, ouça. Isto é importante. – Ele se virou mais uma vez para Mandy. – Vamos lá, você pode fazer isso, fêmea – disse ele, com um sorriso animador. – Ela não fala muito – ele explicou –, mas quando ela fala, é melhor que a gente ouça.

Mandy bateu as asas empoeiradas com crescente agitação.

– Crawk! Ack-ack!

– Vamos lá, Mandy.

E então o corvo começou a falar. As palavras eram asperamente pronunciadas, mas compreensíveis, e Maggie flagrou-se ouvindo uma cantiga de ninar que conhecera quando criança:

Veja o Berço (crawk!)

Bem acima da cidade.

O Povo do Fogo vem descendo

Para trazer o bebê.

A caminho do portão de Hel

O Povo do Fogo está rumando.

Fazendo beicinho, fazendo beicinho,

Tudo está desmoronando.

E, então, como se a fala humana houvesse se provado um esforço grande demais, o corvo de cabeça branca desceu pulando de seu poleiro e voou para o terraço da janela.

Hughie seguiu.

– Você ouviu o que ela disse?

– Sim, mas… – protestou Maggie.

– Não há tempo! – disse Hughie, saindo do terraço. – O Povo do Fogo está a caminho. O Fim dos Mundos está vindo. Logo você terá que fazer uma escolha. Você sabe como nos encontrar.

Maggie abriu a boca para dizer que não, ela não sabia como encontrá-los, além do mais, ela não tinha intenção de tentar, mas Hughie já havia revertido para o Aspecto de pássaro, e antes que ela pudesse sequer encontrar as palavras, tanto ele quanto Mandy levantaram voo, e não se tornaram nada além de manchinhas no céu da cidade.