Luz das Runas
Capítulo 4
Perth chegou a Bif-rost bem a tempo de testemunhar a investida do Caos. Não que ele tivesse visto muita coisa a princípio: o raio que Maggie lançara sobre ele atingira-o diretamente no rosto, e pela maior parte de sua fuga ele teve que confiar em Sleipnir para guiá-lo para casa. Seus olhos doíam, mas, conforme foi se aproximando, ele descobriu que não estava cego, embora tivesse levado algum tempo para entender o que era aquilo que estava vendo.
A nuvem manchada havia se tornado uma muralha que se erguia sobre a Ponte do Arco-Íris, sua massa escura cobrindo a extensão de Fim de Mundo. Num lado da Ponte havia luz; no outro não havia nada senão sombra, com suas profundezas furiosas cheias de turbulência e efêmeras se multiplicando. Era impressionante; até o General, que havia testemunhado Aspectos do Caos anteriormente, nunca vira uma tamanha concentração sobre uma área tão enorme. Dez mil vezes mais potente que a nuvem de sonho que irrompera da Colina do Cavalo Vermelho, esta era a substância crua de todos os Mundos, a nascente da Destruição e da Criação, que começa no Caos e encontra seu lugar, às vezes depois de milhões de anos, como parte natural da Ordem das coisas.
No parapeito da Ponte, os deuses haviam começado a montar sua defesa – os Æsir no lado direito, os Vanir no outro; ambos os lados trabalhando freneticamente para repelir a aproximação da nuvem. Bragi cantava uma canção de guerra que espalhava rajadas musicais. Njörd ergueu um paredão marítimo. Tyr flexionou os dedos de sua nova mão. Heimdall, Olho de Falcão, com sua luneta, mapeou a trilha do inimigo. Thor, com Mjolnir em sua mão, traçou um arco mortífero pelo ar. Idun ficou de prontidão com seu equipamento de socorro medicinal; Skadi montou um escudo de gelo. No centro ficou Angie, com seus lobos do outro lado – Skól, o Devorador, à sua esquerda, Haiti e Fenris à sua direita – a Tentadora em pessoa em seu Aspecto de Megera: velha, esquelética e fria.
A nuvem de sombra estava muito próxima agora. A dez metros de distância, talvez menos. Um raio mental foi arremessado contra ela e retardou seu avanço por um ou dois segundos, depois dos quais ela começou a se aproximar novamente, lançando gavinhas de efêmeras em direção ao pequeno grupo de deuses. Estas gavinhas podiam ser cortadas, Perth sabia; espadas mentais e aduelas de runas fariam isso – mas a nuvem de sombra era capaz de gerar muitas mais, e, incluindo ele mesmo, os defensores dos Mundos só perfaziam o número de vinte e um.
Meio cego pelo raio mental de Maggie, Perth parou Sleipnir no lado iluminado da Ponte. Hugin e Munin, em forma de corvos, giraram e crocitaram em torno dele. Perth tocou seus olhos com a mão. Seus dedos ficaram vermelhos, e então ele sentiu o nítido e raso corte que ia desde sua sobrancelha esquerda até o pômulo do rosto. O olho estava fechado de inchaço. Doía; ainda assim, ele sabia que podia ter sido pior. Rasgou um pedaço de sua camisa e fez um tampão e uma bandagem para mantê-lo no lugar. Ethel correu para ajudá-lo; não havia tempo para celebração agora, mas sua expressão lhe revelou tudo que ele queria saber.
Ele sorriu.
– Faz um longo tempo.
– Foi mais longo para o resto de nós.
Enquanto isso, Loki, cuja contribuição para a defesa de Bif-rost era estar do lado mais seguro da Ponte, se aproximou para ver o que acontecia. Qualquer outra pessoa podia estar compreensivelmente castigada pelos eventos recentes, mas o Astuto estava de bom humor, seus olhos brilhando maliciosamente, seus lábios marcados esticados num amplo sorriso.
– Bem-vindo à festa – disse ele. – Espero que tenha trazido uma garrafa.
Perth deu um sorriso relutante. O Astuto podia ser irritante, ele sabia, mas ainda assim, era bom revê-lo.
– Então, como estava Hel?
– Você deve saber. – Loki lançou-lhe um olhar sombrio. – Belo Aspecto, a propósito. – Ele virou a cabeça para a muralha de nuvem. – Então, disseram que você tem um plano.
– De certo modo – respondeu Perth.
– De certo modo? Que Infernos isso significa?
– Bem, ele ainda não foi testado. – Perth deu de ombros. – Mas como você sabe, dou o melhor de mim quando estou sendo criativo.
– Ótimo – disse Loki. – Então, quando começamos?
Houve uma pausa ligeiramente incômoda. Depois Perth disse:
– Bem, esse é o problema.
– O problema? – insistiu o Astuto.
– Estou esperando por mais um desdobramento – disse Perth numa voz displicente. – Temos quase tudo no lugar: a Ponte, os blocos de edifícios do Sonho, o Escudo do Sol, as runas da Primeira Pedra de Asgard; tudo de que precisamos agora é da Carnificina, da Loucura e da Traição, e teremos uma equipe de construção. – Ele deu seu sorriso mais amplo e brilhante.
Loki conhecia aquele sorriso de velhos tempos. Ele já o vira vezes demais – e em muitas situações desagradáveis demais – para acreditar que prometia alguma coisa boa.
– Espere – falou ele. – Se for o caso já temos Sleipnir e Epona. – Então, onde está Jorgi? E Maddy, naturalmente…?
– Eles estarão aqui a qualquer momento.
– É mesmo? – disse Loki, baixando os olhos para perscrutar o parapeito da Ponte. – Porque, não sei se você notou, as coisas não parecem estar indo muito bem lá embaixo.
Loki estava certo. O Fim dos Mundos havia finalmente chegado a Fim de Mundo. Uma metade da cidade permanecia iluminada; o resto estava eclipsado pela sombra. Os deuses já tinham visto aquela sombra, no Mundo Inferior havia três anos, e sabiam que era apenas uma questão de tempo até que o Caos liberasse o mais letal de seus Aspectos: aquele de Surt, O Destruidor, um ser que se definia mais pela ausência que pela presença, mas cuja sombra era de um pássaro negro que deixava apenas o nada em seu rastro.
A Morte e o Sonho eram partes dos Mundos; até o Caos tinha seu lugar. Mas à sombra do pássaro nada permanecia, nem mesmo a Morte; apenas um vazio eterno além da imaginação e da redenção.
Loki não queria imaginá-lo. A imaginação de Loki era mais feliz vagabundeando pelas ilhas além do Um Mar, talvez tomando um ou dois coquetéis e vendo belas garotas passar. Mas o Caos já tinha eclipsado mais da metade da catedral tombada, e, até onde Loki podia perceber, eles tinham apenas minutos antes do fim.
– Eu odeio apressar um de seus planos – balbuciou ele.
– Assuma seu posto – instruiu o General.
– Mas…
– Capitão, assuma seu posto! – ordenou Perth, e foi quando a nuvem de sombra começou a cair sobre a Ponte como uma onda gigantesca de escuridão.