Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 84 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 5

 

Maddy ficou olhando enquanto a carruagem desceu com alarido pela estrada, afastando-se. Sua mente era uma mancha de infelicidade. E agora? Ela arruinara tudo. Ela falhara com o General e os deuses. Mas pedir a ela para matar um ser humano, mesmo sendo Adam Scattergood…

Teria Odin realmente acreditado que ela conseguiria? Ele era certamente capaz de desumanidade, fraude, frieza, até crueldade. Mas ele sempre tivera uma afeição pelo Povo, e Maddy duvidava que até a Morte conseguisse tê-lo mudado muito do homem que ela conhecera.

Odin, sinto muito. Eu o decepcionei.

Mas era tarde demais para arrependimentos, ela sabia. Tantas chances já perdidas! Tantas oportunidades desperdiçadas! E com tão pouco tempo, até a culpa era um luxo que teria que esperar. Era tarde demais para salvar Odin agora. Tarde demais para fazer o que ele a ordenara a fazer; mas talvez não tarde demais para interferir.

Ela fora incapaz de matar Adam Scattergood, mas não podia haver outro meio de desviar a trilha do Caos?

Se eu apenas soubesse por onde começar!, pensou ela.

Mas talvez ela soubesse, percebeu. Por que não havia entendido isso antes? A coisa estava cara a cara com ela desde que chegara a Fim de Mundo. Ali, o tempo todo, na profecia, como um dedo apontando para o céu:

O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.

Em só doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda do…

– Sepulcro! – Os olhos de Maddy se arregalaram. – A catedral do Santo Sepulcro! É lá que eu devo estar!

– É sim – disse uma voz às costas de Maddy. – Então, por que você está ainda aí parada, fêmea?

Maddy se virou, surpresa, para ver a Mente e o Espírito de Odin se erguendo ao lado da estrada. Ambos estavam mais ou menos em forma humana, embora Mandy ainda estivesse com suas asas de corvo, dobradas como um manto de penas sobre seus braços magros e cobertos de joias, e ambos pareciam crispados e tensos, com penas amarfanhadas e olhos trapaceiros.

Junto com eles estava Jorgi no Aspecto de Cavalo Negro, parecendo especialmente gordurento e insípido à luz do sol da manhã. Maddy reparou que mesmo os festeiros deram ao Cavalo Negro um largo espaço. Alguns bifurcaram sinais contra o azar; outros desviaram seus olhos ao passar. E por trás do Cavalo da Traição se erguia uma figura num manto azul, seu rosto meio escondido sob um chapéu.

– Perth! O que você está fazendo aqui?

– Eu podia perguntar o mesmo de você – afirmou Hughie. – Vejo que você não seguiu as instruções do Velho Homem.

Maddy balançou sua cabeça.

– Não. Eu não podia fazer o que ele me pediu.

Hughie soltou um crawk zombeteiro.

– Sim. Eu devia ter sabido disso. Você tem um coração muito bondoso para matar alguém. Mesmo assim ainda podemos ter uma chance. Contanto que detenhamos sua irmã.

– Detê-la por quê? – perguntou Maddy.

Mandy crocitou impacientemente. Crawk. Ack.

– Não há tempo – disse ela.

Hughie virou-se para Maddy novamente.

– Não há tempo para explicações agora. Você terá que confiar em mim. Você vai confiar, moça?

Maddy fez que sim.

– Eu terei que confiar – disse ela. – Mas, se vocês são o Espírito e a Mente de Odin, como pode ser que estejam aqui de todo? Quero dizer, ele morreu. Não morreu? Eu encontrei a Cabeça. Não havia nada dentro dela.

Hughie deu de ombros.

– Ela já morreu outras vezes.

– Você quer dizer…

– Ora, ele deve ter um plano. O General sempre tem um plano.

Maddy olhou para ele desamparadamente.

– Eu não vejo como…

Crawk. Crawk. Não há tempo!

– Tudo bem. – Ela olhou para Jormungand. – Eu suponho que você não me deixará montar… Temos que chegar lá o mais rápido que pudermos, e eu não acho que ser indiscreto vai nos ajudar neste estágio…

Jorgi deu um arroto de peixe. Ele pareceu entender, no entanto. Num momento o Cavalo se foi, para ser substituído pela Serpente do Mundo em seu Aspecto original; grande e negra e aterrorizante; sua crina eriçando-se com luz de runa; seus olhos como portinholas de vidro negro.

– Você vai montar nisso? – perguntou Perth. – Ela cheira horrivelmente mal. – Ele estendeu uma mão. Depois, agarrou a crina de Jorgi e fez menção de montar.

– Não, você não – disse Maddy. – Quero dizer, isso pode ser perigoso…

– Nós dois vimos como você se sai quando não está comigo – disse Perth com um sorriso. – Além do mais, é um casamento, não é? Bolsas para roubar? Carteiras para bater? Você realmente acha que eu sou do tipo que perde a oportunidade de um pouquinho de livre iniciativa?

Maddy balançou sua cabeça.

– Não, eu perdi amigos demais. Eu não quero perder mais um…

Perth sorriu para ela novamente.

– Eu posso cuidar de mim mesmo – garantiu ele. – Agora, quer se controlar, garota? Temos um casamento para ir!