Luz das Runas
Capítulo 5
Naquela noite, a despeito de sua fadiga, Maggie mal dormiu. A riqueza do que a cercava, a maciez da cama de quatro colunas, a lembrança da voz do Velho Homem como uma carícia sombria em sua mente – tudo conspirou para mantê-la acordada, até que por fim ela não pôde mais suportar. Saiu furtivamente da cama, deixando Adam dormindo no sofá azul-celeste, e se encaminhou até a janela, onde uma lua de fazer lobos uivarem estava se erguendo acima da cidade, dourando os topos de telhados e lançando enfeites de luz e sombra sobre o piso da suíte.
O Velho Homem estava sobre um plinto junto à cama, em silêncio sob um lençol. Estaria dormindo? Estaria morto? Uma parte de Maggie esperava que estivesse. Mas a maior parte não queria mais que a oportunidade de interrogar seu prisioneiro; perguntar-lhe sobre sua família – e, mais que tudo, sobre sua irmã – sem alertar Adam, ou a sombria presença no interior do rapaz da qual ela estava sempre consciente.
Maggie foi andando na ponta dos pés para o plinto e delicadamente puxou o lençol de lado.
– Você está aí? – sussurrou ela.
Alguma coisa bruxuleou dentro da pedra.
– Maggie. Você parece perturbada – disse ele.
– Eu preciso entender uma coisa.
A cor do Velho Homem brilhou outra vez, quase como um pequeno sorriso.
– Deixe-me adivinhar. Você está perturbada porque eu lhe mostrei de onde veio. Você é uma filha dos Æsir, nosso último encontro provou isso. Como se pudesse haver alguma dúvida, em vista dessa marca de runa que você carrega!
O sorriso era ainda mais luminoso agora, lançando traços de cor e luz através do quarto de dormir escurecido.
Maggie franziu o cenho.
– Mas como pode ser? Eu nasci aqui, em Fim de Mundo. Meus pais eram Susan e Donal Rede.
– Realmente? – disse o Velho Homem. – Você sabia disso, Maggie? Ou você sempre foi diferente? Sempre fazendo perguntas? Sempre querendo alguma coisa mais; uma coisa que você não podia sequer definir? Sempre procurando um lugar que você nem sabia se existia?
Os olhos de Maggie se arregalaram.
– Como você conseguiu saber disso?
– Eu estive no Sonho por um longo tempo. Eu vi um monte de coisas lá.
– Você viu meus sonhos?
– Maggie, eu tenho lhe observado desde o fim da Era Antiga. Eu sei como você deve ter se sentido sozinha, mas acredite nisso: eu nunca esqueci você. Nem por um só momento. Todo este tempo eu esperei por minha chance para levá-la para casa, para seu povo.
– Eu não acredito em você!
– Eu acho que acredita. Por que outro motivo teria vindo aqui me procurar?
Não havia resposta para isso, naturalmente. Maggie sabia que ele estava certo. A despeito de toda sua desconfiança, de toda a sua raiva, havia uma coisa que a atraía para o Velho Homem; uma coisa ainda mais forte que aquela que a atraía em Adam. Era errado – desleal, talvez –, mas não havia maneira de negá-la. O conhecimento de que tinha uma família havia alterado a paisagem de sua mente. Agora uma cadeia de montanhas se erguia onde um dia não houvera nada senão deserto. Sua irmã. Seu pai. Seu avô. Todos a esperando para acolhê-la em sua casa…
– Você me disse que eles estavam a caminho – lembrou Maggie.
– Eu lhe disse a verdade.
– Para que eles estão vindo?
– Para buscá-la, naturalmente.
A voz do Velho Homem era suave agora, como se ele sussurrasse e exercesse persuasão dentro da mente de Maggie: Magni, filha do Deus do Trovão, eu te nomeio; Magni, filha de Thor; eu te nomeio filha de Jornsaxa; nascida da Ordem e do Desgoverno; eu te nomeio Ác, Carvalho do Trovão; irmã de Aesk, Cinza do Relâmpago; eu te nomeio Construtora, Destruidora; Realizadora da Guerra e Rompedora do Arco; Sonhadora e Despertadora e Mãe da Era Passada…
E agora, ao ouvir as palavras, Maggie começou a experimentar uma curiosa sensação. Da sensação de irritação e inquietude, ela passou a sentir-se quase sonolenta. Seus olhos pesados começaram a fechar. Sua boca se curvou num pequeno sorriso. O Sonho, em toda a sua sedução, começou a abrir suas pétalas…
Ela abriu seus olhos num estalo.
– Pare com isso!
Ela viu o que ele estava fazendo agora. O Velho Homem estava tentando encantá-la, tirá-la de equilíbrio, subjugar sua vontade para fazê-la entrar facilmente no mundo do Sonho, onde ela poderia ficar suscetível ao mesmo tipo de possessão que o Mestre de Adam havia tentado e falhado em lhe infligir.
O pânico trouxe seus pés de volta ao chão.
– Está tudo bem – disse o Velho Homem. – É só você ouvir por um momento mais…
Mas o grito de Maggie havia despertado Adam.
– O que você está fazendo? – perguntou ele, alarmado.
A voz na cabeça dela cresceu em urgência.
– Eu não estava tentando feri-la – garantiu ele. – Você precisa entender. Eu cometi erros; eu fiz coisas ruins. Mas eu nunca a machucaria. Nós somos sua família, Maggie. Nós a amamos. Queremos você. Precisamos de você…
– Eu falei pare!
E, dizendo isso, Maggie arremessou a runa Ác com toda a força sobre o prisioneiro. Um uivo de angústia veio da criatura de dentro da pedra, e a teia de runas que o encobria reluziu tão intensamente que seu desenho ficou impresso nas retinas dela por vários minutos depois.
Maggie protegeu seus olhos contra o súbito clarão de luz de runa. Depois, tão abruptamente quanto brilhara, a Cabeça ficou escura.
– Pelos Mundos, com que você esteve brincando? – Adam estava em pé atrás dela.
– Eu não conseguia dormir. – O coração de Maggie estava batendo como um martelo. – Eu me levantei para conversar com o Velho Homem, e então ele tentou me tapear…
Ela olhou para a Cabeça escurecida com desgosto.
– Eu não o matei, matei? – perguntou ela.
Adam balançou sua cabeça.
– Não. Mas você o pôs fora de ação. Conte-me exatamente o que aconteceu – pediu ele.
Hesitando, Maggie tentou explicar. Sobre sua curiosidade; sobre a ânsia que ela sentira de falar sozinha e sem estorvos com o objeto; depois, como ele a atraíra, seduzindo-a com palavras e cânticos…
– O que ele disse a você? – repetiu Adam.
Maggie deixou sua cabeça pender.
– E aí? Ele mencionou sua família? – A voz de Adam era insistente. – Ele disse que precisava de você? Queria você? Amava você, talvez?
Maggie concordou com a cabeça, sem palavras.
– Claro que ele disse tudo isso – comentou Adam. – Eu lhe falei que ele era perigoso. Eu a avisei, Maggie, não a avisei? Eu disse que ele tentaria seduzir você.
– Eu sei. Eu sei disso – disse Maggie. – Eu só pensei…
– Você conseguiu argumentar com ele? – perguntou Adam numa voz seca. – Você acha que ele realmente se importa com você? Você acha que porque você é quem você é ele não iria sacrificá-la de uma tacada, caso isso fosse da conveniência dele?
E então Adam contou-lhe sobre Maddy Smith: sobre como Odin de Um Olho a tinha amparado quando ela tinha apenas sete anos, e treinado para fazer seu trabalho, e a mandado sob grande risco para o Mundo Abaixo – sem mesmo dar-lhe uma advertência – a fim de encontrar uma força magnética dos Dias Antigos que os Æsir chamavam de Murmurador…
– Era assim que ele se preocupava com ela – concluiu Adam triunfantemente. – Ela tinha sete anos. Uma inocente. Ele a atraiu para longe de sua família. Corrompeu-a. Ensinou-a a matar. Transformou-a numa assassina. Portanto, não fique alimentando pensamentos cor-de-rosa sobre como ele pode ser remissível. Nenhum deles é. Eles são o inimigo. Eles nunca a quiserem antes, e o único motivo pelo qual a querem agora é você ser o Cavaleiro da Carnificina.
Maggie suspirou.
– Entendo isso agora. Suponho que você pense que sou muito ingênua.
– Não, Maggie. Eu entendo melhor do que você pensa.
Ela olhou para ele.
– Você entende?
– É claro. Você acha que eu nunca estive sozinho? Você acha que eu nunca me perguntei como seria ter alguém para amar? – Ele desviou os olhos, e do canto de seu olho viu Maggie observando atentamente. – Ninguém nunca me quis – prosseguiu ele numa voz baixa. – Nenhum pai, nenhuma pessoa, nenhum amigo. Apenas meu mestre, e agora… – Ele parou.
– Agora o quê?
– Nada. Esqueça. Volte para a cama – disse Adam laconicamente. Para um observador externo, podia parecer que ele lutava com uma emoção longamente represada. Na verdade, ele estava tentando não rir. – Por que você se importaria com aquilo que eu sinto? – indagou ele. – Não sou nada para você, afinal de contas.
Maggie pôs a mão sobre seu ombro.
– Isso não é verdade. Você é meu único amigo…
– Eu não quero ser seu amigo – falou ele, virando-se para ela abruptamente. – Eu tentei, mas não consigo. Eu amo você…
Ela olhou para ele, sobressaltada.
– O que você disse?
– Eu amo você – disse ele, tocando o rosto de Maggie. Os olhos azuis olharam dentro dos olhos de um dourado cinzento. Por dentro, ele estava rindo.
– Adam, eu…
– Psiu… – disse ele, e atraiu-a delicadamente para si. O gesto pareceu tão natural que Maggie mal pensou nele. Sua cabeça procurou a parte do ombro dele que parecia ajustá-la mais perfeitamente, e então fechou os olhos com um longo suspiro. As mãos de Adam baixaram delicadamente à cintura dela. Ele começou a conduzi-la em direção à cama.
Por um momento ele sentiu resistência. Maggie, ele sabia, havia sido criada para acreditar em pureza acima de todas as coisas. Por três dias ele vinha fazendo um grande esforço para romper suas crenças e substituí-las pelas crenças do passageiro; mas, mesmo assim, ele sabia que aquele era o teste derradeiro de sua lealdade.
– Eu a amei desde o dia em que nos conhecemos – disse ele numa voz sonhadora, lisonjeira. – Desde aquele dia nos túneis eu achei que você era a mais corajosa, a mais bela garota que eu vira em toda a minha vida. E não temo morrer na batalha com o Povo do Fogo, mas nunca me perdoarei se entrasse nela sem ao menos revelar a você como eu me sinto.
E então ele a beijou na boca, e Maggie esqueceu o Fim dos Mundos, o Velho Homem e o Murmurador; ela esqueceu os Æsir, sua irmã e sua família; ela esqueceu até o Bom Livro e todas as suas regras de castidade. Na verdade, ela esqueceu tudo exceto o toque das mãos de Adam, o cheiro vago e indolente que ele tinha, e as palavras de amor que ele sussurrava para ela, mais poderosas que qualquer encantamento de runa…
E quando os dois se entrelaçaram na gigantesca cama de quatro colunas, Mimir, o Sábio, sentiu um estremecimento de alegria ao ver finalmente seu objetivo assegurado; e o Velho Homem das Regiões Selvagens, silencioso em seu leito de pedra, manteve seus pensamentos secretos e dormiu, e sonhou, como todos os escravos, em tornar-se senhor.