Luz das Runas
Capítulo 7
Maddy esperou Perth descer do telhado da cobertura até a primeira luz do dia. Mesmo assim, foi uma questão de fé em seu novo amigo ela ter esperado até depois do café da manhã para que ele não voltaria.
Ela encontrou para si um lugar para esperar à janela de um café. Ali, tomou o café da manhã – toucinho e ovos e um bule do forte café de Fim de Mundo – e manteve vigilância sobre a cobertura. Mas quando o sol se ergueu sobre o Portão do Santo Sepulcro e a cidade retornou à vida, Maddy começou a perceber que alguma coisa devia ter dado terrivelmente errado. Perth já devia estar de volta havia horas; e, observando agora através da runa Bjarkán, Maddy pôde ver sua assinatura retalhada do outro lado da fachada do prédio, junto com alguns borrifos de luz de runas que revelavam uma história eloquente.
Subindo pela saída de incêndio que corria em volta dos fundos do edifício, Maddy deu uma olhada mais próxima. Tinha havido uma luta ali, ela viu. Perth havia lutado com sua irmã. A assinatura rosa-avermelhada de Perth era clara e a de Maggie era inconfundível. Mas o que era aquele rastro de uma terceira assinatura, e por que parecia tão familiar?
Poderia ser do Velho Homem?
E o Velho Homem seria o Murmurador?
Até agora ela tivera certeza de que era. E, no entanto, essas cores eram de algum modo erradas. O rastro do Murmurador havia sido berrante e luminoso, como um relâmpago dentro de uma garrafa. Mas este era uma coisa diferente – diferente e inconfundível –, esses borrifos de luz de runa, de azul martim-pescador, e aquele traço de Raedo invertida no ar...
Um Olho?
Odin?
Poderia ser? Maddy mal conseguia acreditar nisso. E, no entanto, a assinatura de seu velho amigo estava rabiscada através dos topos de telhados. A Raedo, invertida, com suas cores. O que significava que o ser que havia sido chamado de Velho Homem, a coisa que ele tinha lhe ordenado a encontrar, não era nada além de seu próprio eu, incorporado, como o Murmurador, naquele pedaço de rocha vulcânica.
A cabeça de Maddy estava girando agora. Ela sentou-se na saída de incêndio. Por que Odin não lhe contara a verdade? Por que a tinha confundido? Onde estava Perth, e por que ele havia fugido? Estaria ferido? Estaria fora de ação? Ou havia simplesmente virado a casaca, e oferecido Um Olho a mãos inimigas?
Maddy permaneceu sentada por um longo tempo, tentando extrair sentido daquilo tudo. Ela não tinha as habilidades de escalada de Perth. Impossível seguir sua trilha através daqueles topos de telhados perigosos. Mas a assinatura do Velho Homem, ela esperava, devia ser possível de encontrar, especialmente agora que o rastro estava fresco; e assim ela retornou ao Passeio dos Inspetores para procurar traços de seu amigo.
Não era tarefa simples, ela descobriu. A Cidade Universal estava sempre cheia de assinaturas, e mesmo um rastro como o de Odin ou Perth podia ser facilmente perdido na multidão. As horas se passavam: nenhum traço da dupla. Maddy ficou cansada, desanimada e com frio. Ela havia caminhado ao redor em círculos por horas sem encontrar nem mesmo um feitiço partido. O meio-dia soou na Praça da Catedral. Ainda não havia sinal de seus amigos desaparecidos. De acordo com a profecia de Ethel, restavam menos de vinte e quatro horas antes do Ragnarók e do Fim dos Mundos, nas quais ela precisava encontrar Perth, recuperar o Velho Homem, cavalgar o Cavalo Negro da Traição e descobrir por que sua irmã ia se casar com Adam Scattergood...
Encare os fatos, pensou ela. É impossível. Eu falhei com eles. Falhei com todo mundo.
Na hora do almoço ela comprou pão ázimo e arenques picantes de uma das barracas da Praça do Santo Sepulcro, então sentou-se junto à fonte para comê-los. Quando o fez, seus olhos foram atraídos por uma coisa pregada num quadro de avisos na proximidade.
Este quadro era um espaço de exposição pública geralmente ocupado por anúncios de casamento, horários de feira, cães perdidos, leilões de propriedades, regras do Tribunal e Limpezas Públicas. Normalmente Maddy não teria prestado muita atenção a essas coisas, mas desta vez um aviso no topo do mural a atraíra. Ele dizia:
LEILÃO DE ESCRAVOS NESTE DOMINGO ÀS 8h
PÁTIO PRINCIPAL DA UNIVERSIDADE
Abaixo havia uma lista que detalhava alguns dos pontos altos do leilão, incluindo: uma série encadeada de quatro dançarinas Estrangeiras de dezenove anos; um cozinheiro especializado em pratos das Divisões; dois guarda-costas com conhecimento de armas brancas e combate corpo a corpo; certo número de escravos domésticos, escravos braçais e trabalhadores comuns; sete criminosos comuns… E, bem lá embaixo, um curto acréscimo, apenas cinco palavras, manuscritas abaixo do panfleto:
Fugitivo não identificado. Próprio para galés.
Maddy sentiu a garganta apertar. Não. Não era possível. Devia haver dúzias de fugitivos na Cidade Universal. Por que ela devia ter tanta certeza de que aquelas cinco palavras se referiam ao seu amigo? E, no entanto, ela tinha. Perth era seu homem.
O que havia acontecido? Ele havia sido capturado subindo nos telhados? Ele havia tentado voltar depois de tudo? E quanto ao Velho Homem? Teria sido encontrado pelos homens da lei, ou havia Perth conseguido escondê-lo?
– Então, você viu o aviso… – disse uma voz familiar às suas costas.
Maddy se virou. Era Hughie em Aspecto humano, estendido numa borda da fonte, enquanto Mandy, em forma de corvo, estava empoleirando-se na cabeça de uma das serpentes de pedra que a adornavam.
– Você! – exclamou Maddy.
Kaik, disse o pássaro.
Maddy deu uma olhada ao redor da praça. Estava cheia, como sempre ficava aos sábados, mas ninguém parecia notá-los. Pessoas maltrapilhas, desclassificadas, havia em abundância na cidade, e qualquer um que lançasse um olhar sobre Hughie iria supor que ele era um negociante Estrangeiro; escuro, exótico, perigoso.
– O que vocês estão fazendo aqui? – perguntou ela, baixando sua voz até reduzi-la a um sussurro.
Hughie exibiu com brilho seus dentes perfeitos.
– Você podia parecer mais satisfeita em nos ver – retrucou ele.
– É mesmo? – ironizou Maddy. – E por quê? Vocês me mandaram para cá em busca de uma agulha no palheiro; não me relataram nenhum dos fatos; deixaram-me sozinha por uma semana sem uma só palavra; e agora aparecem como se nada houvesse acontecido…
– Ah, mas aconteceu, sim – disse Hughie. – Temos visto muita ação. Não temos, Mand?
Mandy crocitou lugubremente, embora se fosse em concordância ou em protesto contra a ausência de bolo, Maddy não tinha como ter certeza.
– Tudo bem. Que novas vocês me trazem? – perguntou Maddy. – Seja rápido. Tenho que encontrar meu amigo.
– Tem mesmo? – disse Hughie. – Bem, podemos ajudá-la nisso. Seu amigo está na cadeia da cidade. Vamos mais direto ao ponto, fêmea.
– Sim, ele pegou o Velho Homem – Maddy olhou ferozmente para Hughie –, que por coincidência é Odin. O que ninguém achou conveniente me contar…
Hughie deu de ombros.
– Ordens, fêmea. Ele não queria que nós lhe contássemos.
– Por que não? Ele não confia em mim?
– Ora, você conhece o General. – Hughie deu seu sorriso de comerciante. – Ele não confia nem nele mesmo na metade do tempo.
Maddy tomou um fôlego profundo. Quando – se isso acontecesse – o visse novamente, trocaria algumas palavrinhas com o General sobre a questão da confiança e outras coisas. Por enquanto…
– E quanto aos meus amigos?
– Viajando para Fim de Mundo. Cinquenta quilômetros fáceis a percorrer; você os verá de manhã.
Maddy deu um suspiro de alívio.
– Graças aos deuses por isso! Eu estava começando a pensar que eu teria que lutar contra todo o Caos sem eles. – Ela sorriu, sentindo-se subitamente alegre, e lançou seus braços sobre o pescoço de Hughie. – Obrigada. Obrigada por voltarem! Eu estava tão preocupada de ter feito a coisa errada. Mas agora as coisas estão se resolvendo, finalmente. Odin está dando ordens novamente. Os outros conseguiram chegar a tempo. Agora tudo que precisamos fazer é resgatar Perth.
– Perth? – perguntou Hughie.
– Sim, é claro. Você viu o aviso, não viu? Eles o mandarão para as galés. E se ele souber onde o General está…
– Espere um minuto – disse Hughie.
Mas a mente de Maddy havia disparado na frente, já fazendo planos de resgate. Sozinha, ela sabia que não tinha nenhuma chance. A cadeia não era nada parecida ao pequenino xadrez da aldeia de Malbry. Ela não poderia atacá-la sozinha. Mas com a Serpente do Mundo ao seu lado, e com a Mente e o Espírito de Odin…
– Espere. Espere! – disse Hughie, pondo a mão sobre o braço de Maddy. No topo da fonte, Mandy bateu suas asas e crocitou.
– Não tenho tempo para esperar! – falou Maddy. – Perth é meu amigo. Você acha que eu iria simplesmente abandoná-lo?
– E sua irmã? Você iria abandoná-la?
Maddy parou.
– Minha irmã?
– Sim – disse Hughie. – Eu pensei que você entenderia. Lá, lá no alto… – E ele apontou para a folha de pergaminho que cobria metade do quadro de avisos. Maddy ergueu os olhos e viu uma longa lista, escrita em manuscrito pesadamente dourado:
CASAMENTOS
NESTE DOMINGO:
8h: Maggie Rede, com Adam Goodwin
8h15: Priscilla Page, com Franklin Bard
8h30: Jennet Price, com Owen Marchant
E assim por diante, com intervalos de quinze minutos, até cinco da tarde, que era quando o serviço vespertino se encerrava. Casamentos eram um negócio lucrativo na Cidade Universal; aquela cerimônia de quinze minutos na catedral poderia custar quase quinhentas coroas – o preço de uma carruagem de quatro cavalos, ou do aluguel de uma suíte de cobertura por um mês.
Ela balançou a cabeça impacientemente.
– Eu já sei disso – disse ela. – O que importa agora é salvar Perth.
Hughie franziu o cenho.
– Não. Seu amigo pode cuidar de si mesmo. O que importa agora é sua irmã e este casamento que ela planejou. A cerimônia não deve acontecer. Não importa o que você tenha que fazer.
– Quem disse isso?
– O Velho Homem. Quem mais você acha?
A esta altura Maddy havia esquecido tudo sobre manter sua voz em baixo volume.
– Para o Inferno com o Velho Homem! – gritou ela. – Estou cansada de seguir ordens! Cansada de ser mantida na ignorância! Cansada de profecias! Cansada de sonhos! Cansada de cavalos comedores de peixe e pássaros comedores de bolo! Então é melhor você me contar o que está acontecendo, porque se não for assim eu vou destroncar seu pescoço!
Hughie esperou pacientemente até que Maddy houvesse perdido o fôlego.
– Sentindo-se melhor, fêmea? – perguntou ele.
Maddy descobriu que, na verdade, estava.
– Então, me ouça. Ouça o Velho Homem. É isso que ele quer que você faça.
Conforme Hughie foi explicando o plano do General, enquanto Maddy o ouvia em silêncio, o rosto dela foi ficando mais e mais pálido.
De repente as multidões de sábado pareceram a ela um exército de fantasmas distantes; a cúpula luminosa da catedral como um escudo manchado sob o sol. Nada lhe parecia mais real. Sua cabeça parecia um balão de Dia de Feira; seu coração era um toque de tambor que preenchia os Mundos.
– E isso é o que ele quer? – indagou ela, quando Hughie finalmente fez silêncio.
– Sim – respondeu Hughie.
– Eu não entendo.
– Ele não precisa que você entenda. Ele simplesmente precisa que você faça como ele diz. Você fará, Maddy? Fará como ele diz? Você vai confiar nele, Maggie?
– Eu tentarei.
Hughie deu um suspiro de alívio.
– Brilhante.
Maddy quase riu. Se lhe fossem pedidas palavras apropriadas para descrever o apavorante estado atual das coisas, brilhante nunca teria entrado na lista.
Ela olhou para Hughie esperançosamente.
– Mas ele não deve ter outro plano? Desde quando o General não tem um plano?
Hughie deu de ombros.
– Este é o plano. Além disso, não há mais nada. Se este casamento for em frente, então perderemos tudo: Asgard, sua irmã, o futuro do Povo do Fogo. Não há ninguém além de você que possa detê-lo, e há apenas um modo de fazê-lo.
– Tem certeza de que não há outro modo?
– O General foi muuuuuito claro. Se você quiser salvar os Mundos, terá que matar Adam Goodwin.