Luz das Runas
Capítulo 9
Em um quarto no distante Fim de Mundo, Maggie Rede estava tentando sonhar. Nas últimas vinte e quatro horas ela havia aprendido uma grande quantidade de coisas com Adam Goodwin, incluindo certo número de verdades, meias-verdades e mentiras completas sobre sua vida, sobre o Povo do Fogo, seus planos e como combatê-los. E Maggie ouvira com os olhos arregalados o seu relato, com sua marca de runa ardendo na nuca como se alguma coisa quente tivesse sido colocada ali.
Adam havia encontrado um lugar para ficar num dos bairros mais elegantes da Cidade Universal. Um apartamento de cobertura perto do Passeio dos Inspetores, a menos de dez minutos da Praça do Santo Sepulcro – com uma sala de visitas, uma sacada, um lustre, uma banheira com pés de garras, um sofá tipo otomano e uma enorme cama de dossel com cortinas de veludo carmim.
Maggie nunca vira uma casa tão luxuosa. Isso a deixava ligeiramente desconfortável – quanto dinheiro Adam teria? Além do que, ela dizia a si mesma, com certeza um homem da Ordem, acostumado à oração e à abstinência, iria preferir cercanias menos opulentas, um lugar mais apropriado para a sua tarefa.
– Não se preocupe, dormirei no sofá. – Adam havia notado o desconforto de Maggie.
Ela corou.
– Não é o que eu quis dizer. Eu…
Adam fez um gesto pedindo que ela não se importasse com o assunto. Na verdade, ele também estava se perguntando por que a Voz em sua mente havia sido tão insistente em gastar o ouro. Ele deu o motivo mais óbvio.
– Escolhi este lugar – disse ele –, porque se a sua sra. Blackmore falar, e ela falará, então em poucos dias notícias de nós dois estarão correndo pela cidade. Eles procurarão por nós em estalagens baratas, em tavernas e restaurantes populares. Estarão procurando por dois vagabundos. Eles nunca esperarão nos encontrar aqui.
Tudo isso era verdade, naturalmente, mas o motivo real, Adam suspeitava, era uma coisa muito diferente. Entre eles, ele e seu passageiro estavam preparando Maggie para desempenhar um papel numa missão de grande importância. Adam já havia juntado uma boa quantidade do que a Voz havia deixado escapar e, porque não era tolo, havia adivinhado que papel ela havia escolhido para ele desempenhar. Não o incomodava de modo algum que a Voz o estivesse usando. A vingança era a cola que os ligava – vingança contra o Povo dos Deuses e, muito especialmente, contra Maddy Smith, cuja interferência havia custado tão caro, a ele e ao seu passageiro, três anos atrás nas margens do Sonho.
Nas últimas vinte e quatro horas Adam e seu passageiro haviam observado como Maggie explorava sua força magnética. Era um trabalho difícil, e às vezes frustrante; Adam a tinha advertido para não esperar resultados imediatos. Inspetores da Ordem, ele disse, podiam esperar até trinta anos pelo poder da Palavra; alguns, a despeito de todos os seus esforços, nunca haviam conseguido ganhá-lo de modo algum. Mas Maggie, com sua marca de runa, com seus instintos destreinados, já era muito mais poderosa que qualquer simples Inspetor.
Com Adam ao seu lado, ela aprendeu a flexionar sua força magnética como um músculo; desenredá-la em formas simples; fazê-la transformar-se em chama como um fósforo. Com a ajuda de Adam, ela aprendeu a lançar Bjarkán para a percepção; Thúris para a força; Hagall para golpear um inimigo.
Em apenas um dia Maggie havia mudado além de todo reconhecimento; seu medo e incerteza eliminados tão facilmente como seu cabelo ceifado. Isso foi em grande parte por obra de Adam, naturalmente; em vinte e quatro horas Maggie começara a confiar no jovem implicitamente. Não apenas porque ele a protegeu quando a sra. Blackmore viu sua marca de runa, mas porque ele parecia aceitar Maggie como ela realmente era – aceitá-la e até mesmo gostar dela.
Agora, em sua cobertura, um pouco antes de o dia raiar, Maggie fechou os olhos por fim e tentou banir o mundo ao redor.
– Eu não sei se posso fazer isso – disse ela, abrindo um olho novamente.
– Concentre-se – retrucou Adam. – Mantenha-se fixada nas palavras do Livro.
Maggie tentou novamente. Fechou os olhos. O Livro ao seu lado estava aberto numa página que Adam havia indicado. Uma parte do texto – todo em runas – se destacou, tendo o pergaminho ao fundo. Acima dela havia a imagem de um cavalo. Uma estranha espécie de cavalo, Maggie pensou. Ele parecia ter oito patas.
– Mas eu nem mesmo sei o que as palavras querem dizer…
– Confie em mim. Isso não importa – falou Adam.
Maggie suspirou e tentou novamente. Concentrou-se nas palavras do Livro. Fechou os olhos e tentou sonhar…
Na sua nuca, a marca de runa Ác se iluminou com um súbito clarão prateado.
– Você tem certeza de que isso é seguro? – perguntou ela.
– Você confia em mim, não confia?
Maggie fez que sim.
– Então, confie em mim agora. Abra sua mente. Abra sua mente e deixe-a flutuar. Não se preocupe. Eu estou mantendo guarda. Nada vai acontecer com você.
Maggie deu outro suspiro.
– Farei o melhor que puder.
– Você deve estar exausta – disse Adam. – Feche os olhos. Deixe-se levar.
Ela deitou-se na cama. Estava realmente cansada. Mais de vinte e quatro horas haviam se passado desde que dormiu pela última vez. Fechou os olhos. A cama era macia – mais macia que qualquer outra que tivesse conhecido. O travesseiro estava estofado com penas de pato; a colcha era de seda bordada.
Adam puxou a colcha sobre seus ombros delicadamente.
Ótimo, uma Voz suave sussurrou.
– Ótimo – repetiu Adam.
Então Maggie flagrou-se flutuando, erguendo-se delicadamente no ar; levantando-se para fora de si mesma, do quarto, flutuando sobre a rua. Por um momento ela se viu, seus cachos ceifados ardendo com luz de runa. Viu Adam ao seu lado, olhando-a com uma curiosa – e não inteiramente satisfeita – expressão, e por uma fração de segundo ela o viu desmascarado, viu a maldade, a arrogância por baixo do belo exterior.
Ela tentou chamá-lo, mas já caíra no sono, elevando-se sobre as ruas silenciosas, as pequenas lojas e antros de bebida desertos agora na fria pré-aurora. Viu a Praça do Santo Sepulcro, iluminada como uma coroa de lanternas; viu a estalagem da sra. Blackmore; viu o labirinto e o emaranhado das ruas; e, bem ao longe, o porto com seus altos navios, o acampamento dos Estrangeiros com suas tendas e bazares e engradados cheios de cavalos e escravos adormecidos.
– Isso é espantoso! – disse Maggie.
– Mais alto – falou a Voz sussurrante. Era um pouco parecida com a voz de seu pai: discreta, inteligente e um pouco seca. – Está tudo bem. Sou um amigo – garantiu a voz.
– Um amigo de Adam?
– Sim. Isso mesmo. Estou aqui para não deixar que você seja ferida.
Agora Maggie estava se erguendo ainda mais alto, muito acima da Cidade Universal. Agora podia ver as avenidas, dispostas como raios de uma roda-gigante em torno da Universidade das Verdades Imutáveis, com todos os seus colégios, bibliotecas, capelas, pátios encaixados no traçado como escudos num campo de batalha; a curva do rochedo azul de um lado e a fila das colinas verdes no outro; e, no centro de tudo, a grande catedral de cúpula de vidro do Santo Sepulcro…
– É tão belo! – exclamou Maggie.
– Mesmo destronada – falou a voz – Asgard sempre foi bela.
– Asgard? – perguntou ela. – Mas essa não foi…?
– Sim. Destruída há mais de uma era. Mas a semente nunca cai muito longe da árvore. Você não concorda, Maggie Rede?
– Você sabe o meu nome – comentou Maggie.
Veio o sussurro de uma risada.
– Ah, eu sei muito mais que isso. Eu já fui um oráculo.
– Já foi? O que aconteceu? – perguntou ela.
De novo, aquela risada distante. Ela fazia Maggie sentir-se incomodada, de algum modo. Que tipo de sonho era este, afinal? Que tipo de sonho dava poder para voar, para falar com espíritos e oráculos? Seria este o lugar contra o qual ela fora advertida, onde os demônios, o Povo dos Deuses e os Faërie esperavam uma oportunidade para roubar sua alma? E se Adam sabia sobre a Voz, por que não dissera a ela?
– Não tema, Maggie – disse a voz. – Nenhum mal acontecerá a você quando estiver comigo.
– Quem é você? Um demônio? Um deus?
– Nem uma coisa nem outra – respondeu a Voz seca. – Mas se você ainda sente a necessidade dos nomes, então pode Me chamar de… Mestre.
Se havia um nome que pudesse instilar confiança em Maggie Rede, com certeza era esse. Um título da Ordem, com todas as suas associações de cultura, aprendizado e pureza. Ela respondeu como se houvesse sido amestrada, com respeito e alívio imediato, e a coisa que se havia denominado Mestre sorriu interiormente e dirigiu-se a ela novamente.
– Vamos viajar através do Sonho – disse a Voz. – Você poderá ver coisas que a perturbarão.
– Que tipo de coisas?
– Você verá…
E agora ela estava voando ainda mais alto: muito mais alto que os topos dos telhados; mais alto que a agulha da catedral. Nuvens como tapeçarias de musselina se repartiam para deixá-la passar; um casal de pássaros negros – corvos, talvez – bradou suas advertências, que ecoaram pelo céu.
– O Sonho é um rio – disse a Voz. – Carrega toda espécie de destroço. Nada aqui fica perdido para sempre. Tudo retorna no fim. O que você quiser, encontrará aqui, em algum lugar, em meio às ilhotas do Sonho. Contanto que você saiba o que está procurando…
– E o que é que nós estamos procurando?
– Um Cavalo.
Mais tarde, quando Maggie tentou recordar sua viagem através do Sonho, descobriu que só restavam fragmentos – pedaços de um quadro maior – dos quais apenas detalhes sobreviveram. Lembrou-se de um rio, todo envolto em névoa, com ilhas que se erguiam e afundavam como homens que submergiam na superfície; e, quando olhou, Maggie entendeu que cada ilha era um sonhador, cada um em seu próprio pequeno mundo fugaz.
Havia sonhos com encontros casuais e sonhos com o passado; com comida; com ser enterrado vivo; com gatos; com deveres não cumpridos; com batalhas travadas; com ficar nu em lugares públicos; com voar; com navios ao mar e edifícios abandonados; com oceanos, batalhas e os mortos. Um redemoinho de coisas sombrias estridentes tomou forma monstruosa ao redor dela – uma criatura com um olho no lugar da cabeça lançou-lhe um olhar feroz do vórtice.
– Ignore-as – disse a Voz do Mestre. Elas não são nada. Apenas efêmeras. Procure o Cavalo.
– Mas que cavalo? – O Sonho estava recheado de cavalos. Cavalgando, saltando, pastando, correndo; cavalos de carrossel com crinas enfeitadas; cavalos selvagens galopando livremente; cavalos de tração puxando arados; cavalinhos de pau com cintas de palha; cavalos com cascos como martelos de forja; pôneis com fitas em suas crinas; cavalos de corrida – e eles sumiam!
Pelo que pareceu um tempo muito longo, Maggie vasculhou através das ilhotas do Sonho. A Voz lhe assegurara que ela saberia o que estavam procurando quando visse, mas até ali ela não tinha ideia alguma do que era.
E, então, por fim, ela viu uma coisa. Uma coisa num daqueles sonhos transitórios que falavam com ela como uma recordação. À primeira vista, não pareceu nada de mais: apenas duas figuras sobre uma colina, muito, muito abaixo dela. Mas alguma coisa em torno delas captou sua atenção. Lançando a Bjarkán, Maggie viu uma meada de luz brilhante que entrecruzou a colina e se ergueu no céu da manhã…
– O que era aquilo? – perguntou ela. – O Fogo do Santo Sepulcro?
Não que ela houvesse algum dia visto tal coisa – exceto, naturalmente, nos livros. Mas a aurora boreal – ou Fogo do Santo Sepulcro, como eram mais conhecidas em Fim de Mundo – era uma coisa que ela sempre quisera ver, a despeito das histórias que a cercavam; histórias de demônios celestes nas nuvens que carregavam o incauto para um lugar conhecido como Asgard.
– Não, é uma assinatura – disse a Voz. – O emblema do Povo do Fogo. Aproxime-se agora. Você vê o Cavalo?
Maggie apertou sua vista mais uma vez. Seus olhos haviam se transformado em olhos de águia; a cena abaixo dela era nítida e clara. E agora ela estava bem em cima da Colina – uma colina que estava coberta de neve pela metade –, baixando os olhos para a forma de um cavalo recortada em barro vermelho.
– Um cavalo! – exclamou ela, surpresa. – Um cavalo vermelho…
– Está certa – confirmou o Mestre. – Há um antigo ditado das Terras do Norte que diz: Se os desejos fossem cavalos, então os mendigos cavalgariam. Conhece este ditado?
– Não.
A Voz em sua mente deu uma gargalhada áspera.
– Bem, é isso que estes mendigos vão fazer. Rumar diretamente para Asgard.