Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 95 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 7

 

Das ruínas de Fim de Mundo, Maggie Rede estava fitando o céu. Ela estava numa passagem estreita cheia de escombros sobre o lado mais iluminado da catedral, do qual podia observar os eventos conforme eles se desdobravam. A nuvem de sombra havia seccionado a praça em duas partes iguais quase como se esta fosse uma maçã – metade uma catedral, metade um arco, metade uma fonte de mármore, seus jatos ainda jorrando alegremente de cinquenta bocas de querubins…

No encontro da luz e da escuridão, a coluna de força magnética da Pedra do Beijo se desenrolara em fios, subindo ao céu turbulento para formar um intricado gradeado, radiante como as luzes do norte.

Sem dúvida alguma, era belo; e, no entanto, Maggie o odiou. Era o Berço dos Deuses. A razão pela qual Adam havia morrido. Quando se completasse, ele se tornaria a Cidadela dos Æsir; a fortaleza do Povo do Fogo.

Agora Maggie podia entender por que o Povo o havia chamado de Berço. Nos dias antes da Glória, ela uma vez fizera berços assim para si mesma. Camas de gato, o velho povo os chamava; e Maggie lembrou-se de sua mãe e de seus irmãos mostrando-lhe como segurar a seda – bem assim, entre seus dedos – e fazer aqueles traços intrincados como uma aranha tecendo fios…

Lágrimas teriam sido um consolo, mas ela tocou seus olhos e descobriu-os secos. Não importava – as lágrimas viriam depois. Até a vingança teria que esperar. Por enquanto, ela tinha que proteger o filho.

Ela baixou os olhos para a palma de sua mão que sangrava, onde Maddy a havia cortado. Ela tirou o que restava de seu bergha – pouco mais que um trapo agora – e estofou-o com força sobre o corte. A marca de runa Ác em sua nuca comichou e ardeu como a mordida de um inseto. Maggie flexionou os dedos. Ótimo. O dano fora insignificante.

Ela voltou os olhos para as imediações. As ruas às suas costas estavam desertas; havia uma muralha de nuvem encarando-a. Por tudo que sabia, ela podia ser a única pessoa que ficara viva; a explosão de força magnética que saíra da Pedra do Beijo havia despachado todos que estavam no interior da catedral, e não havia nada que indicasse se o resto de Fim de Mundo havia tido o mesmo destino ou não.

Mas Maggie estava acostumada a ficar sozinha. As catacumbas sob a velha Universidade poderiam servir mais uma vez como um refúgio contra o que quer que saísse da nuvem de sombra. Havia comida lá embaixo, e abrigo, e livros; ela poderia lacrar a entrada com runas, e depois que a nuvem tivesse passado (como certamente passaria), haveria tempo para planejar sua vingança.

Mais uma vez ela lançou um breve olhar para o Berço, depois deu suas costas para a nuvem de sombra. A Universidade não estava longe; ela podia chegar lá em menos de cinco minutos. Depois disso, os Mundos poderiam terminar, até onde lhe dizia respeito; ela e sua criança não nascida estariam seguras, enclausuradas debaixo da terra e enfaixadas em força magnética.

E então Maggie começou a correr quando a sombra caiu sobre a Pedra do Beijo, o Escudo do Sol foi reduzido a um recorte de luz e a Ponte do Arco-Íris começou a desabar, lançando fragmentos de luz prismática que cascatearam pelo Fim de Mundo abaixo.