Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 35 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 7

 

Quando Maddy se aproximou dos restos da Colina, descobriu, para sua surpresa, que tudo estava calmo. As consequências da batalha haviam sido poucas em termos de escombros, já que a maior parte das perdas havia sido das efêmeras, e elas haviam fugido para o Mundo Abaixo, ou desaparecido no nada. As poucas criaturas restantes, que haviam escapado ao apetite da Serpente do Mundo, em sua maioria inofensivas, estavam espalhadas através dos campos de inverno: um unicórnio; um ou dois duendes; um grupo de dragões bebês transportados pelo ar como sementes de dente-de-leão.

E por toda a volta da Colina se estendia um cobertor de névoa clara e pálida; não era um banco de nuvem comum, mas alguma coisa que brotara do Mundo Abaixo e inundara as planícies em torno da Colina de um modo que Maddy reconheceu…

O rio Sonho, ela pensou; a maior parte de seu poder estava esgotado agora; a força de sua erupção se apaziguara, seus vapores estavam inertes. De todo modo, ela se aproximou dele com cuidado, conhecendo a potência do Sonho, incerta do que podia ainda estar oculto sob o manto de névoa branca.

– Jormungand? – chamou ela, por fim.

A Serpente do Mundo, refestelada sobre o Sonho, pareceu relutante em responder.

Erguendo a voz, ela tentou novamente, não querendo entrar no banco de névoa. Mas o vapor umedecera tudo, e as formas de sonho que ela havia visto no começo – aquele zoológico de criaturas Estranhas – haviam se reduzido a quase nada. Apenas a névoa fantasmagórica permanecia, um resíduo da batalha, talvez, e sobre o chão uma espécie de cinza, espalhada com fragmentos de sujeira, como borralho da forja de um ferreiro.

A nuvem estava bem em frente a ela agora. Maddy podia ver uma linha ondulante, como a linha da maré numa praia, que assinalava o limite do Sonho.

– Jormungand? – repetiu ela.

Veio um ronco da nuvem de sonho. Maddy lançou a runa Yr e deu um passo em direção ao Sonho. Nada aconteceu. Ela deu mais um passo. A névoa era fria e perturbadora, de um modo que Maddy não conseguia explicar totalmente. Ela – que havia visto o Mundo Inferior em toda a sua espantosa multiplicidade, que havia olhado a Hel Seminascida dentro dos olhos e havia caminhado na estrada para o Mundo Subterrâneo toda cercada pelas almas dos mortos – flagrou-se tremendo de medo diante de nada mais que um banco de nuvens.

Mas, conforme foi penetrando mais longe no Sonho, ela começou a ver o que estava acontecendo. O que supôs que fosse apenas nuvem era uma coisa muito mais sinistra: parecia a Maddy quase como se o ar, as árvores, as rochas, o chão – o tecido todo da realidade – estivessem se dissolvendo em torno dela, desenredando-se dentro da nuvem de sonho como uma peça de tricô, reduzindo-se às suas partes componentes.

Quando ela olhou, um rato marrom que rastejava sobre um pedaço de pedra diminuiu sua marcha, se embaçou e depois estourou, abandonando a existência diante de seus olhos, deixando apenas uma mancha no ar para indicar onde havia estado. A própria pedra imitou-o, e ela percebeu que a cinza aos seus pés era o resíduo deste processo, uma dissolução gradual de tudo que estava dentro da nuvem. Quanto tempo levaria para um ser humano? E o que isso significava para o próprio vale?

Mais uma vez ela chamou Jormungand. Desta vez a Serpente ouviu-a. Soou um temível ronco dos restos explodidos da Colina, e a cabeça da Serpente do Mundo emergiu do chão partido como uma minhoca poderosa farejando a chuva e ergueu seu olhar para Maddy.

– Ouça – disse ela. – Eu estava pensando se você poderia me ajudar.

Jormungand simplesmente abriu a boca para ela de um modo que redefinia a apatia.

Maddy tentou uma aproximação mais vigorosa.

– Eu preciso chegar à Cidade Universal – disse ela. – Quero dizer, eu preciso que você me leve.

A Serpente emitiu um bocejo colossal. Seu hálito era asqueroso o bastante, Maddy pensou, para deter qualquer grupo de efêmeras. Por um momento ela pensou em desistir e realmente andar até a Cidade Universal. Mas se era para encontrar Maggie Rede antes que Heimdall e os outros deuses soubessem de sua existência, ela tinha que chegar lá imediatamente – o que naturalmente significava viajar através do Sonho – e, faltando Sleipnir, Maddy pensava, Jormungand teria que servir.

– Então, você vai me levar?

Uma longa pausa, na qual a Serpente pareceu tão bovina quanto sempre.

Maddy deu um suspiro impaciente.

– Eu desejaria poder saber se você entendeu. Você não tem uma forma humana?

– Ela tem – disse uma voz por trás de Maddy –, mas este é de longe seu Aspecto mais atraente.

– Loki – disse Maddy, sem se voltar.

– Ah, então você realmente se lembra de mim – falou Loki numa voz displicente. – Chame-me de paranoico se quiser, mas depois de sua defesa espetacularmente leal a mim lá junto aos deuses, eu fiquei pensando se não teria feito alguma coisa errada.

– Você fez? – perguntou Maddy.

– Não. E você?

Maddy virou-se para olhar para ele. Ele assumira seu Aspecto original – fácil de fazer no Sonho, naturalmente – e a estava observando de uma distância cautelosa, seus olhos verdes brilhando de malícia. No Sonho, ela viu, como no Mundo Inferior, que sua marca de runa não estava mais invertida, e suas cores brilhavam mais violentamente que jamais haviam brilhado no Mundo Superior.

– Ouça, eu lamento aquilo – disse ela.

– Tudo certo, então. – Os lábios de Loki se retorceram num sorriso perigoso. – Porque eu estava pensando, por algum motivo, que foi você quem abriu a Colina, tirou o Cavalo Vermelho de Odin e deixou metade do Mundo Subterrâneo escapar no processo; e agora está se preparando para partir em segredo com Jorgi, deixando seu Caro Amigo levar uma surra – e não estamos falando de uma surra nos nós dos dedos aqui, mas alguma coisa muito mais permanente – sem dar sequer uma explicação.

Maddy lançou a runa Bjarkán e disparou um olhar rápido para Loki. Esta abordagem casual, ela sabia, era simplesmente um cálculo para pegá-la de guarda baixa, e tão logo ele visse uma chance de atacar, tentaria cair sobre ela. Ela podia ver isso em suas cores agora – um fio verde-ácido de malevolência misturado com o vermelho de sua raiva – neste caso, perfeitamente justificada.

– Se é isso que você pensou – disse ela –, por que então não contou aos outros?

Ele deu de ombros.

– Você acha que eles teriam acreditado em mim? Dificilmente eu seria o cara mais popular nos Mundos Médios neste momento. – Ele apertou seus olhos sobre Maddy e sorriu. – De qualquer modo, eu estava curioso. Qualquer que tenha sido a sua razão para soltar o Cavalo Vermelho da Colina, deve ter sido alguma coisa importante.

Maddy lançou-lhe um olhar penetrante.

– Você acha que eu sabia que o Cavalo estava lá?

– Ah, por favor – disse Loki impacientemente. – Não banque a inocente comigo. Lembre-se, eu conheço a Colina do Cavalo Vermelho. Conheço cada rachadura e fenda. Você acha que eu nunca suspeitei que uma coisa grande estivesse enterrada ali?

– O Murmurador… – balbuciou Maddy.

– Foi o que eu supus a princípio – disse Loki, com seu sorriso desarmador. – Mas eu estava errado, não estava? Mimir nunca foi o objetivo principal. Odin estava planejando usá-lo para trazer os deuses de volta para o seu lado antes de revelar seu plano principal.

– Que plano? – perguntou Maddy.

– A Guerra com o Caos – revelou Loki. – O Fim do Mundo. Asgard retomada. Está tudo lá, no Bom Livro; com o Cavalo cujo cavaleiro é a Carnificina. Carnificina. Horror, na linguagem da Velha Era. E você sabia, por uma estranha coincidência, que este ocorre ser um dos nomes de Odin?

Maddy balançou sua cabeça silenciosamente.

– Mas o Murmurador o traiu – continuou Loki implacavelmente. – Você partiu para o Mundo Inferior; ele estava vendado; os deuses se voltaram contra ele. Ele teve que reavaliar o plano. Mesmo assim, quase funcionou; mas sem o Cavalo ele era inútil. Fracassou. Nós todos pensamos que ele tinha desaparecido. Então, de repente, eu não tive tanta certeza. Coisas estranhas começaram a acontecer. Como Angie fazendo um trato com os deuses e dando de volta a Thor o seu martelo. E então este negócio agora com a Colina. E se não eram os corvos de Odin que estavam lá, então terei apenas que me demitir de minha posição de exilado mais brilhante de Asgard…

– Aonde você quer chegar? – perguntou Maddy.

– O General sobreviveu, não? – Os olhos de Loki flamejaram em seu verde ardente. – Ele conseguiu escapar de algum modo e não quer que os outros saibam. Isso é bom. Eu concordo com isso. Quero dizer, ele deve ter suas razões. E se ele está trabalhando com o Caos agora… bem, eu entendo completamente. Não seria a primeira vez.

– Odin nunca faria isso! – exclamou Maddy.

– Sinto muito – disse Loki. – Foi erro meu.

– Eu estou falando sério – disse Maddy furiosamente. – Odin nunca faria isso. Eu não posso explicar seu plano neste momento, mas trair os deuses não faz o tipo dele.

– Ok. Sinto muito. Esqueça o que falei. Então, ele realmente tem um plano?

Maddy olhou-o com desconfiança.

– O que você quer, Loki? – pediu ela.

Loki deu de ombros.

– O mesmo de sempre. Deixe-me ir com você até Fim de Mundo. É lá que vai começar, certo? A guerra entre a Ordem e o Caos? Eu não sei por que você está mantendo isso tão em segredo, ou o que pensa que pode fazer sozinha, mas se o General realmente sobreviveu, eu sei que ele gostaria que eu a ajudasse.

Ajudar-me? O mais provável é que você queira ajudar a você mesmo. Maddy pensou ter entendido. Loki, como sempre, estava disfarçando suas apostas. Sem contar com o favor dos deuses, ele esperava ganhar a proteção de Odin, ou no mínimo colocar alguma distância entre si e a carnificina na Colina do Cavalo Vermelho. Ela podia até ter sucumbido ao seu charme – sozinha e insegura como estava –, mas pensou em Maggie Rede. Loki, ela sabia, não tinha escrúpulo algum, e se descobrisse sobre Maggie, não hesitaria em usar a informação para recuperar sua posição junto aos deuses – ou, pior ainda, para barganhar com o Caos.

Maddy odiava deixá-lo daquele modo, mas simplesmente não podia correr o risco de expor sua irmã a ameaças futuras. E então se virou para Loki e sorriu, e esperou que ele entendesse.

– Olhe, eu realmente sinto muito. Prometo que vou lhe contar tudo. Mas primeiro eu tenho que fazer isso…

E com estas palavras ela invocou toda a sua considerável força magnética e arremessou-a com toda a força que lhe era possível. Apenas para deter a marcha dele enquanto fugia – Loki no Aspecto não era moleza, nem mesmo para ela, mas a força magnética que escolhera instintivamente entre todas que estavam sob seu comando calhou de ser a nova runa que ela pegara naquela manhã de sua visitante fantasmagórica.

Por um segundo Ác ardeu em branco prateado na ponta de seus dedos, e depois, sem qualquer estímulo adicional, rapidamente se fundiu com sua própria runa, Aesk. Ela mais sentiu que ouviu o clique quando as duas runas se juntaram, e depois um raio mental disparou de sua mão aberta, derrubando Loki de seus pés; a seguir, bateu-o com força contra o chão a cerca de cinquenta metros dela.

A princípio ela temeu que ele estivesse morto. Mas, apertando seus olhos, Maddy viu que a assinatura dele estava lá, embora sua potência estivesse embaçada.

Ela analisou a força magnética que havia arremessado sobre ele. Parecia uma runa de combinação comum – Ác, o Carvalho do Trovão –

 

– cruzada com Aesk, a Cinza do Relâmpago –

 

– mas, neste caso, claramente, Ác e Aesk haviam se juntado para inventar uma coisa muito mais poderosa –

– uma força magnética que fizera o Astuto tombar gelado (e em seu mais poderoso Aspecto, não menos) com tanta facilidade quanto matar uma mosca com um tapa.

Assim que Maddy concluiu que Loki não estava fingindo – que realmente estava inconsciente –, ela se flagrou diante da embaraçosa escolha entre deixá-lo ali à mercê do Sonho ou arrastá-lo até céu aberto, onde sua assinatura imediatamente trairia sua localização para Heimdall e sua gente.

Ela optou pela segunda escolha, esperando que Loki compreendesse. Os deuses ficariam furiosos com sua fuga, e provavelmente o fariam passar por apuros, mas ele se safara de coisas piores anteriormente, e Maddy tinha certeza de que ele aguentaria.

Quanto à sugestão dele de que Odin podia ter virado a casaca e feito um trato com o inimigo, ela dispensou-a com um balançar de cabeça. Odin podia ser tortuoso – às vezes até desonesto – mas nunca trairia os deuses. Ela não tinha escolha alguma senão seguir seu coração e partir em busca de sua irmã, e esperar que sua busca a levasse até o Velho Homem.

Ela deixou o Astuto inconsciente bem do lado de fora da nuvem de sonho e correu de volta ao Olho do Cavalo, onde Jormungand, agitada pela derrota de seu pai, estava dando sinais de nervosismo – balançando a crina, silvando e no geral dando a impressão de uma Serpente preparada para qualquer coisa.

Maddy deu-lhe uma olhada cautelosa.

– Estamos do mesmo lado, certo? – perguntou ela.

Jormungand fez um horrível som de cachorrinho.

– E você sabe para onde temos que ir? Certo?

Jormungand quase brincou.

– E quando chegarmos lá, você vai se comportar? Você jura que não comerá ninguém? Eu estou falando sério. Isso seria ruim – disse ela.

Jormungand deu de ombros e começou lentamente a se desenrolar. Maddy agarrou um punhado duplo da crina da Serpente do Mundo e se elevou, ficando em posição. Eu espero que você saiba o que está fazendo, pensou ela.

E elas partiram numa guinada para dentro do coração do Sonho.