Luz das Runas
Capítulo 11
Tudo isso aconteceu muito mais rapidamente que o tempo que levaria para contar. Mas o tempo não é sempre objetivo. Um segundo pode se estender por minutos – por horas –, dependendo das circunstâncias.
O tempo do Sonho é um desses segundos; também são assim os momentos de dor; e assim, como o Deus do Trovão agora percebia, é o intervalo entre cair de uma grande altura e o inevitável momento de impacto – pois lhe parecia que vinha caindo por quase uma eternidade, mais do que os seis segundos ou menos que haviam realmente se passado desde que Bif-rost desmoronara.
Fim de Mundo se arremetia contra ele agora com a velocidade de Jormungand rompendo caminho através do Sonho. Isso o fez sentir-se ligeiramente nauseado, e então fechou os olhos – que estavam lacrimejando devido ao vento que gelava – e tentou não contar os segundos.
Um. Dois. Três. Quatro…
Com certeza o chão não devia estar distante.
Cinco. Seis. Sete. Oito…
Thor abriu um olho, cauteloso. Depois, abriu o outro. Jolly, que havia mudado para seu Aspecto inanimado assim que eles tinham começado a cair, reverteu-se em sua identidade de duende e olhou ao redor com perplexidade.
– Ué, o que será que está acontecendo aqui?
Thor piscou. Ele estava voando. Abaixo dele estava Jorgi, agora no Aspecto de um dragão celeste negro, ondulando através do ar como um relâmpago muito poderoso. Ela já havia recolhido o resto dos Æsir, que se penduraram em suas costas e crinas espinhosas com variadas expressões de desconforto; no momento a Serpente estava ao lado deles, mas os motivos dela nunca haviam ficado claros para eles.
Lá no alto, um pássaro vermelho e roxo, excêntrico tanto em tamanho quanto em concepção, agitou as asas e foi rolando atrás dela. O voo da Serpente havia gerado uma grande quantidade de turbulência, mas isso não era nada comparado à nuvem de sombra que agora baixava sobre Asgard. Ela enchia o céu, abrangia horizontes, deixando apenas uma estreitíssima faixa de luz entra ela e as ameias da Cidadela do Céu.
O Caos ainda devia estar inseguro, pensou o Deus do Trovão quando passou velozmente pelo céu em direção a Asgard. Bem que podia estar: eles teriam vencido. Mesmo agora, se conseguissem pôr um pé nas ameias concluídas de Asgard, seu Aspecto, bem como os de seus amigos, seriam imediatamente restaurados. Mas como por enquanto Asgard não estava concluída, todos eles estavam desprovidos de força magnética. Tinham perdido Tyr na nuvem de sombra; o lobo Fenris havia tombado. O Escudo do Sol estava perdido; o General esgotado. Até Nan estava fora dos sonhos. E quanto à Maddy…
Ele procurou-a freneticamente, sem sucesso. A assinatura dela riscara o céu obscurecido, desaparecendo dentro da nuvem de sombra.
O coração de Thor vacilou em desespero quando percebeu o que Maddy havia feito. Ela devia saber que Jormungand precisava de tempo para ir embora, de modo que a mandara atrás dos Æsir enquanto permanecia para repelir a nuvem.
Por um momento, o Deus do Trovão ficou dividido entre a angústia e um orgulho sufocante. Ele nunca quisera uma filha; mal havia disfarçado o desgosto quando Modi, seu filho e herdeiro há muito tempo perdido, se transformara em Maddy; e não sentiu nada a não ser aversão quando o segundo filho de sua profecia, Magni, havia se provado não apenas um traidor, mas uma segunda filha (o que era ainda pior).
Agora ele se sentia profundamente envergonhado. Maddy fizera um gesto tão corajoso que ele mal o entendia, de forma que não haveria chance de explicar ou lhe dizer que nenhum filho seu poderia tê-lo deixado tão orgulhoso assim.
– Se eu pudesse ter contado a ela!… – falou ele, sem perceber que falava em voz alta, e sem perceber sequer as lágrimas que escorriam por seu rosto abaixo e se depositavam em sua barba cor de fogo.
– Contado o que a quem? – perguntou Jolly.
Thor suspirou.
– Ah, nada – disse ele.
Eles arremeteram em direção a Asgard.