Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 21 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 5

 

O retorno de Maggie à Taverna da Comunidade não foi tão fácil quanto ela esperava. Talvez, se ela tivesse conseguido escapar ao olho vigilante da sra. Blackmore, seria capaz de recolher seus poucos pertences e partir antes que perguntas difíceis fossem feitas. Infelizmente, aconteceu de ser dia de entrega, e quando ela e Adam chegaram à viela por trás da Taverna, sua ausência já havia sido notada.

– Então aí está você, madame. Até que enfim! – disse a sra. Blackmore quando ela entrou. – E onde você esteve a noite toda? – Seu olhar fulminou os olhos furtivos de Maggie, suas roupas amarrotadas e seu lenço apressadamente amarrado na cabeça. – Você parece uma verdadeira vagabunda, sem menos. E quem é esse aí? – Os olhos minúsculos se apertaram sobre Adam, que se erguia em silêncio do lado de fora da porta, segurando o Bom Livro sob seu braço.

A sra. Blackmore imediatamente rejeitou a possibilidade de ele ser um potencial freguês. Se fosse, seus escrúpulos poderiam se refrear. Tal como era, ela lançou um olhar abrangente sobre suas roupas manchadas de viagem, seus cabelos longos e sua aparência estrangeira. Então começou um discurso estridente, no qual denunciou todos os moradores do extremo norte, gentalhas e vagabundos, deplorando a moral frouxa dos jovens de hoje em dia e quase desmaiou à vista do Livro.

– Oh! – gritou a sra. Blackmore, alarmada. – Eu não quero ter essa coisa aqui! Isso é roubado, roubado da Ordem! Vocês não podem carregar uma coisa dessas!

Maggie tentou explicar. Mas a sra. Blackmore (cujos talismãs contra a epidemia incluíam páginas rasgadas de livros como este) já estava forjando um estado de alta moral ultrajada.

– Há palavras poderosas aí dentro! – disse ela numa voz que poderia ter quebrado copos de vidro. – Vocês estão tentando lê-las? Que as Leis nos preservem, o que virá a seguir, garota? Fora de casa a noite toda vagabundeando, e agora o quê? Saqueando… feitiçaria?

Maggie tentou se desviar para passar por ela, bastante consciente do fato de que sua ex-empregadora estava começando a atrair atenção. Ainda havia homens da lei trabalhando na Cidade Universal e, embora nem todas as leis fossem estritamente cumpridas, boatos de feitiçaria nunca eram ignorados, e saquear era uma grave ofensa.

– Tudo o que eu quero é recolher minhas coisas – disse ela. – Depois juro que vou embora.

A sra. Blackmore deu-lhe um olhar penetrante.

– Você não está com problemas, está? – perguntou. Seus olhos se voltaram para Adam. – Porque se estiver, há modos mais fáceis do que mexer com os livros da Ordem…

– Não estou com problemas – garantiu Maggie.

– Você não seria a única – disse a sra. Blackmore virtuosamente. – Há mais de uma garota escondendo sua vergonha sob um bergha de donzela. – Dizendo isso, ela estendeu a mão de repente e arrebatou o lenço em torno da cabeça de Maggie. Ele se soltou, e o ultraje fingido da sra. Blackmore se tornou um susto verdadeiro quando a cabeça recém-tosada de Maggie se desnudou e, com ela, a marca de runa que cintilava em sua nuca.

– Oh, pelos deuses! – disse a proprietária, esquecendo-se de si mesma o suficiente para praguejar. – Você tem uma marca de runa, uma marca de runa pagã. Onde foi que conseguiu uma coisa dessas? É antinatural! Antinatural! – Ela recuou o mais rápido que pôde, bifurcando o sinal contra o mal (uma simulação com os dedos da forma da runa Yr) e tropeçando num balde para carvão em sua pressa de se afastar. – Se meu marido ainda fosse vivo – declarou ela com voz trêmula –, ele teria alguma coisa a dizer, senhorita! Andando pela cidade à noite, brincando com Estrangeiros, corrompendo a Palavra, ostentando essa marca de runa como um distintivo de orgulho…

Adam parecia impaciente.

– Não temos muito tempo – disse ele. – Dê um jeito nela, Maggie, por amor às Leis.

– Dar um jeito nela?

Adam pôs um dedo sobre sua garganta, significativamente.

– Ah, não – disse Maggie – Eu não poderia…

– Por que não? Use sua força magnética. Você a usou contra mim, não usou?

Maggie olhou para ele em desespero.

– Não posso. Seria assassinato – disse ela.

– Ah, por favor – disse Adam com impaciência. – Eu tenho que fazer tudo?

Ele puxou a espada da bainha ao seu lado – uma bela espada da forja de Jed Smith, afiada como a língua de uma esposa de pescador de Fim de Mundo – e a colocou à altura da proprietária, o que reduziu a sra. Blackmore a um pudim trêmulo; o queixo e os lábios se esforçando inutilmente para ostentar mais que um grito de terror.

– Eu acho que minha amiga disse alguma coisa sobre recolher seus bens… – disse Adam, pontuando suas palavras com um ligeiro aumento de pressão na ponta da espada.

O queixo da sra. Blackmore tremeu.

– Eu não ouvi isso – disse Adam. – Há algum tipo de problema?

– Nenhum problema – garantiu a sra. Blackmore.

– Achei que não mesmo – falou Adam. – Na verdade, vamos ser tão discretos que você nem saberá que estivemos aqui. – Então, Adam enfiou a mão em seu bolso e retirou um punhado de moedas.

A sra. Blackmore, reconhecendo o brilho do ouro, deu de ombros e bifurcou o sinal contra o mal novamente – um gesto pio que não a impediria de gastar o dinheiro depois, quando os demônios houvessem fugido. Pois sem dúvida alguma eles eram demônios, como ela diria em voz baixa à sua amiga, a sra. Claymore, que administrava o bar na estrada mais adiante; somente um demônio teria olhos como aqueles.

– Vão-se embora então – disse ela. – Que isso lhes dê alegria.

Adam deu um sorrisinho maldoso.

– Vai dar.

Na verdade, ele não se importava nada com recolher as coisas de Maggie – ela tinha bem pouco neste mundo, e Adam tinha muito dinheiro –, mas a Voz em sua cabeça havia insistido, e agora Adam achava que sabia por que. Ele já havia cortado o cabelo de Maggie. Agora ele havia cortado a vida de Maggie – seu emprego, sua casa, seus relacionamentos –, tornando-se seu único amigo, aliado e protetor.

Naturalmente, isso nunca passou pela cabeça de Maggie. Na verdade, a despeito de tudo, ela estava mais feliz do que jamais fora. Estava desempregada e destituída – sem lar, uma banida – e ainda assim se sentia mais leve que o ar; foi com uma estranha e nova sensação de ousadia que ela correu para se juntar ao seu novo amigo nas ruas da Cidade Universal, a fim de conjurar um exército de sonhos para cavalgar contra o Povo do Fogo.