Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 22 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 6

 

O Sonho é um rio que flui pelos dois lados – um fato geralmente ignorado pelo Povo, para quem o sonho sempre foi considerado um território melhor quando inexplorado. Dizia-se que a própria Louca Nan Fey de Malbry era uma vítima de espíritos turbulentos, canalizados para o mundo através do Sonho, embora Maddy Smith sempre houvesse suspeitado que outra espécie de espírito devesse ser o culpado – o tipo que vem em garrafas e barris. Mas o Sonho é muito mais que um rio, como Odin de Um Olho poderia ter-lhe revelado. O Sonho é a substância dos Mundos – todos os Mundos – e todas as coisas vão e vêm dele, como a água vai e vem do Mar, tornando-se nuvens, chuva, flocos de neve, lágrimas – tudo tão efêmero, tudo tão singular, sempre mudando, mas nunca se perdendo, um universo de possibilidades onde qualquer pensamento pode tomar forma.

Em Malbry, Maddy estava sonhando. Era um sonho silencioso, confortável, que a levava de volta aos anos de infância, quando tudo era novo, e seu velho amigo, que ela conhecia como Um Olho, contava-lhe histórias da Velha Era e a ensinava como lançar feitiços para enganar Nat Parson e atormentar Adam Scattergood e seus camaradas.

Hoje tinha apenas dez anos, e ela e Um Olho estavam deitados lado a lado na relva de salvas da Colina do Cavalo Vermelho, olhando as gordas nuvens de tempo bom passar rapidamente no céu da manhã. Foi exatamente depois do Dia de Feira do Meio do Verão; os Adormecidos estavam coroados de névoa azul, e dos campos abaixo da Colina do Cavalo Vermelho vinham os sons distantes de gado pastando, pássaros, e o sonolento barulho do rio Strond serpenteando através do vale.

– Aquelas nuvens parecem uma serpente – disse Maddy (que naturalmente nunca havia visto tal coisa, exceto talvez nos livros de Um Olho). – Uma grandona, com uma cabeça peluda.

– Sim, talvez – disse Um Olho preguiçosamente, tirando uma tragada de seu grosso cachimbo. A fumaça fez duas pequenas nuvens distintas, como tufos de grama tipo rabo de coelho, que perseguiram uma à outra pelo vivo ar de verão e se perderam na crista da Colina.

– Você a viu também? – perguntou Maddy.

Um Olho sorriu.

– Há substância até nas nuvens – comentou ele. – E os sonhos não são menos potentes ou menos perigosos se o sonhador está acordado. Você vê aqueles pássaros ali?

Ele apontou para dois pássaros negros, grandes demais para serem gralhas, escuros demais para serem gaivotas. Corvos – ou, talvez aves de rapina, pensou Maddy.

– Vejo – respondeu ela.

– Ótimo. Fique de olho neles. Dizem que pássaros são mensageiros. Você sabia que o General tinha o poder de mandar seus pensamentos na forma de uma dupla de pássaros?

Maddy fez que sim.

– Eu ouvi a história.

– Hugin e Munin eram seus nomes. Espírito e Mente, na velha língua. Os dois eram uns patifes, mas com a ajuda deles, ele conseguia inspecionar cada um dos Nove Mundos. O Mundo Médio. O Sonho. O Mundo Subterrâneo. Até o próprio Caos. O olho de Odin via tudo, pois a Mente pode viajar para cada um dos Mundos. Agora olhe por mim, Maddy. Que mais você vê?

Maddy semicerrou os olhos contra o céu.

– Aquela nuvem cor de rosa parece um cavalo – disse ela. – Mas com mais patas que o normal.

– Realmente – falou Um Olho.

– Lá adiante. Você não pode ver? – perguntou Maddy.

– Não – respondeu ele. – Mas tenho certeza de que você pode. O que mais você vê?

Maddy sorriu.

– Aquela se parece com uma cesta. Uma cesta cheia de roupa para lavar. E aquela outra…

– Sim? Há alguma coisa mais?

Maddy apertou os olhos contra o céu. Ela achou que os pássaros pareciam mais próximos agora, circulando sobre o semblante da Colina. E por um momento, em seu rastro…

Ela desviou os olhos.

– Acho que não. Podemos brincar de outro jogo?

– Claro que podemos, Maddy. Você se saiu muito bem. – Um Olho deu uma batidinha para esvaziar seu cachimbo num pedaço de pedra ao seu lado. – Mas agora eu devo lhe pedir para fazer outra coisa. Uma coisa que pode se provar difícil.

– É claro – disse Maddy, seus olhos se iluminando. – O que você quer que eu faça?

Um Olho chegou mais perto, e então ela pôde ver como ele de repente parecia velho, como parecia triste, com sua capa empoeirada, seu tapa-olho e seu chapéu amassado no chão ao seu lado. Ela quis, acima de todas as coisas, pôr os braços em torno dele, mas havia alguma coisa em seus modos que a deixava com medo de pousar as mãos nele, como se a um toque dela, ele pudesse desaparecer…

– Você não está doente, está? – perguntou ela. – Você parece tão… cansado.

– Sim. Talvez eu esteja. Mas há trabalho a fazer antes que possamos descansar. Trabalho duro. E eu preciso de sua ajuda.

– Você quer dizer algo como escavar procurando um tesouro? – perguntou Maddy, erguendo os olhos ansiosamente. Havia um tesouro sob a Colina do Cavalo Vermelho, todos no vale sabiam disso. Relíquias da Velha Era: ouro, diamantes e rubis.

– Não esse tipo de tesouro – disse ele.

Maddy ficou desapontada.

– Mas eu pensei…

– Não se importe. Ouça. Preciso que você confie em mim. Eu sei que você tem poucas razões para isso. Eu menti para você uma vez e paguei o preço. Foi justo, é o que penso. Mas agora eu preciso que você confie em mim novamente. O destino dos Mundos depende disso.

Maddy ficou intrigada.

– Eu não entendo. Quando foi que você mentiu pra mim alguma vez?

Um Olho pareceu implacável.

– Confie em mim – disse ele. – Eu sei que você ainda não entende. No entanto, eu preciso de sua palavra. Confie em mim, Maddy. Faça como eu digo. Lembre-se desta conversa. Um dia você entenderá exatamente o que estou falando. Será o dia em que precisarei de sua ajuda, Maddy. Será o dia em que você saberá o que terá que fazer.

Maddy fez que sim.

Um Olho continuou.

– Eu preciso que você procure uma coisa – disse ele. – Um artefato da Velha Era. Uma coisa muito especial, realmente. Você pode chamá-lo de Velho Homem. De Velho Homem das Regiões Selvagens.

– Velho Homem das Regiões Selvagens?

Odin fez que sim.

– Esse é um de seus nomes. Embora ele não vá parecer um homem para você, mas outra coisa por completo. Poderá parecer um pedaço de rocha; mas é o que está dentro dele que importa.

Maddy fez que sim solenemente.

– Como vou achá-lo? Onde você estará? Você não irá comigo?

Um Olho sorriu.

– Paciência – pediu ele. – Quando esta mensagem chegar a você, você entenderá o que estou tentando dizer. Por enquanto, lembre-se disso. Alguém vai vir aqui em breve. Procurando o Cavalo e o Velho. E você terá que estar preparada.

Maddy franziu o cenho para ele.

– Quem? – perguntou ela.

– Você logo descobrirá. Não fale a ninguém que conversamos. Mesmo que os próprios deuses lhe perguntem…

– Os deuses?

– Por favor, Maddy. Eu não tenho muito tempo.

– Tudo bem – disse Maddy – Eu prometo.

– Ótimo. – Um Olho enfiou o cachimbo de volta, cuidadosamente, na sua bolsinha de tabaco. Os pássaros estavam muito próximos agora, girando e circulando sobre o semblante da Colina. Um Olho se virou para olhar para Maddy outra vez.

– Agora eu tenho que ir – falou ele. – Não se preocupe, você terá notícias minhas novamente. Continue sonhando, Maddy. Lembre-se de mim. E fique de olho naqueles pássaros.

E com isso ele se levantou, pôs seu chapéu e desapareceu no doce ar da Colina do Cavalo Vermelho sem um tremor qualquer, e Maddy despertou com lágrimas em seu rosto ao som de asas ruflando no romper do dia.