Luz das Runas
LIVRO TRÊS – O Cavalo de Odin
LIVRO TRÊS
O Cavalo de Odin
Eu vi um cavalo de quatro pernas trotar
(Deixa de besteira, seu bebum delirante!)
Nove Mundos existiam em seu olhar
(Deixa de besteira, seu bebum tratante!)
Canção de bebedeiras em Fim de Mundo
1
Os deuses (com exceção de Maddy, é claro) não sabiam de nada a não ser do resultado. Por quinhentos anos o Cavalo Vermelho havia dormido, esperando pela hora dos Últimos Dias. Agora estava desaparecido, a Colina não existia mais, e o Sonho – o Sonho cru, não diluído, incontrolável – estava à solta sobre o vale.
Foi a maior onda de efêmeras que os deuses haviam visto desde o Ragnarók. Começou aos pés da Colina do Cavalo Vermelho, onde todos os detritos do Mundo Abaixo – Faërie, duendes e outros indesejáveis, incluindo Loki, que ainda estava em desgraça – haviam se alojado fora do alcance dos Æsir, dos Vanir e do Povo.
Ela chegara muito cedo naquela manhã, quando o sol mal roçava a Colina. Os aldeões de Malbry estavam na maioria em suas camas, exceto por uns poucos madrugadores e pela Louca Nan, que acordava na aurora para alimentar seus gatos e vira as assinaturas caóticas no céu acima da Colina. Para a maioria, contudo, o primeiro sinal havia sido uma espécie de som roncador, como se fosse de uma tempestade iminente, seguido por uma explosão, como se todos os gêiseres do Mundo Abaixo houvessem decidido entrar em erupção ao mesmo tempo.
Os ratos o sentiram primeiro e fugiram para o alto aos milhares, saindo em enxames das profundezas mais escuras, movendo-se em grande número através de cavidades na rocha porosa, guinchando, mordendo e dilacerando-se uns aos outros – e dilacerando qualquer outra coisa que se pusesse em seu caminho –, numa luta cada vez mais frenética por fugir.
Açúcar, com Thor na casa do ferreiro, descobriu o pátio cheio deles: marrons, negros, cinzentos e albinos de olhos vermelhos, brotando de esgotos e escoadouros como se o Mundo Abaixo houvesse se preparado para uma evacuação maciça. Alguns até estouravam para fora do chão como rolhas de garrafas de cerveja de gengibre, e Açúcar viu que uma nuvem de pássaros havia começado a se formar sobre a aldeia; águias, carniceiros, falcões, corvos, gralhas e gaivotas, agitados pelo enxame de presas, estavam circulando sobre Malbry em números até então nunca vistos.
Maddy, fugindo o mais rápido que pudera da cena na Colina do Cavalo Vermelho, teve tempo para lembrar-se da ocasião quando, três anos antes, ao tentar capturar um duende, havia acidentalmente invocado todos os animais nocivos de Malbry para dentro do porão da sra. Scattergood. A presente ruptura era uma coisa como aquela, só que ampliada dez mil vezes. Alguma coisa estava vindo – alguma coisa grande –, liberada por sua gêmea e pelo Cavalo que havia despertado sob eles. Enquanto corria para se salvar, Maddy não conseguia deixar de pensar por que Maggie não havia feito um só movimento para atacar enquanto estivera deitada em desamparo e aturdida aos pés da Colina.
Teria ela perdido o controle do Cavalo? Teria simplesmente ficado sem força magnética? Teria deixado a missão de liquidar com o inimigo ao que quer que emergisse do Mundo Abaixo? Seria algum vestígio de lealdade, um senso de parentesco, que havia detido sua mão? Ou seria por que ela de algum modo sabia que Maddy também havia desobedecido a ordens, preferindo perder o Cavalo Vermelho a golpear sua irmã? Estaria sendo usada pelo Murmurador, uma inocente enredada em seus planos? E se assim fosse, poderia ela ser salva de si mesma e trazida de volta à sua família?
Não havia uma única resposta a estas perguntas, naturalmente. Hughie e Mandy estavam desaparecidos havia muito tempo, perdidos no redemoinho crescente de pássaros. A rédea de Odin também desaparecera. O plano de atrelar Sleipnir havia dado para trás do modo mais espetacular, e, quanto a ir para a Cidade Universal, isso estava certamente fora de questão, agora que aquela nova ameaça havia apontado sua cabeça.
Não, devemos lidar com este ataque primeiro, Maddy disse a si mesma enquanto fugia. E, então, percebeu que por enquanto o que acontecera na Colina teria que continuar um segredo – pelo menos até que ela soubesse a verdade sobre o Murmurador e sua gêmea misteriosa. Revelá-la aos deuses nessa altura seria nada menos que desastroso – e se Maggie, a despeito do ataque, havia sentido alguma espécie de ligação com ela, então Maddy devia descobri-la.
Ela preparou sua força magnética para o inevitável, enquanto ao seu redor o céu enegrecia com os pássaros, e o chão pululava de animais daninhos, saindo em enxames de buracos e fendas na terra em direção à aldeia de Malbry.
Enquanto isso, Loki, para quem nenhum movimento sob a Colina permanecia ignorado, havia sentido a ruptura imediatamente e assumido sua forma de pássaro, enquanto a malha de laços de armadilha e runas que havia posto no lugar naqueles quinhentos anos era despedaçada como uma teia de aranha. E primeiro os ratos, e a seguir uma onda gigantesca de efêmeras se ergueu repentinamente do Oitavo Mundo, arrastando todas as coisas que encontrou pelo caminho.
Sua fuga se deu não mais que um momento depois. Quando ele pairava no Aspecto de um falcão acima do caos no chão, surgiu uma onda de turbulência que quase o derrubou do céu, embora tivesse tido tempo para ver a assinatura de Maddy desaparecendo no redemoinho e para pensar no que ela poderia estar fazendo ali. E o que era aquela outra assinatura, submersa na confusão geral? Teria ele a imaginado? Estaria simplesmente vendo estrelas?
Então a terceira onda saiu da Colina, e Loki perdeu o interesse em tudo, exceto em ficar tão longe do epicentro quanto possível. Um súbito jorro de água – água fria como gelo do Sétimo Mundo – foi expelido com violência das fissuras na terra, de tal modo que o rio Strond aumentou dez vezes mais o seu tamanho normal na mesma quantidade de tempo. As barreiras contra enchentes da Margem do Rio Malbry foram rompidas, e a primeira grande onda de inundação investiu como uma manada de búfalos sobre a Rua Principal de Malbry; passou pela igreja, derrubando as casas de madeira mais próximas ao rio antes de se espalhar pelas fazendas e pastagens, por todo o caminho até a Borda de Nether.
Essa não era uma inundação comum, Loki sabia. Era o rio Sonho, liberado, lotado com os destroços do Caos. Em face de uma ameaça tão poderosa, Loki não se arriscou e, abandonando todas as lealdades, voou em Aspecto de pássaro o mais rápido que pôde em direção aos Sete Adormecidos, onde o Desfiladeiro de Hindarfell, recentemente aberto, lhe ofereceria melhores meios de fugir ao que quer que estivesse em sua perseguição.
Na aldeia, o Povo estava no caos. Alguns corriam para fora, a fim de ver o que estava acontecendo e eram rapidamente carregados para longe pela inundação. Alguns fugiam para a igreja para ficar em segurança; alguns levantavam sacos de areia e terra em frente às suas portas para formar um quebra-mar contra as ondas. Mas a água não era o fim de tudo: agora era fogo que brotava do chão; e ainda lama fervente, a qual, encontrando-se com a água da enchente, fazia com que grandes gotas de vapor se erguessem violentamente do já inchado Strond, rolando como trovão através da terra, de tal modo que alguns dos mais velhos lembraram-se das histórias de lobos-demônios que engoliram o Sol, trazendo trevas até mesmo à época do verão.
Maddy viu-o chegando e recorreu à árvore mais próxima para subir. Num carvalho mirrado, mas grande o suficiente, ela depositou suas esperanças de suportar a maré de água e lama. Alojando-se numa forquilha no tronco, ela ergueu os olhos para o céu turvo, tentando em vão distinguir as formas dos corvos de Odin em meio aos milhares de pássaros que circulavam.
– Hughie! Mandy! Vocês estão por aí?
Crau. Crauk.
Ela acreditou ouvir da nuvem a mais débil das respostas.
– Aproximem-se! – gritou ela.
De novo, aquela áspera nota em resposta.
De seu refúgio na árvore, Maddy sacou sua espada mental, pois agora, depois de fogo e dilúvio, vinha o resto: o Pandemônio liberado.
Depois das ondas de vapor, das pragas de ratos e das águas subterrâneas, surgiam Criaturas que apenas o Sonho poderia ter gerado: coisas com garras, coisas voadoras e coisas com as feições dos mortos. A espécie mais letal de efêmera, modelada com a substância crua do Sonho e gerada dos poços do Caos, rasgando seu caminho através da brecha nos Mundos em direção ao covil do Povo do Fogo.
Os Æsir foram rápidos em reagir à ameaça. Assumindo seu verdadeiro Aspecto, o máximo que podiam invocar, com espadas mentais e armas de runas, eles tomaram posição contra o inimigo que avançava. Nenhum deles estava na melhor forma, naturalmente – marcas de runas quebradas ou invertidas; instintos embotados; sujeitos a todas as imperfeições de seus corpos hospedeiros. Ainda assim, tomaram posição. Ainda assim, lutaram.
Do lado de fora da Paróquia o Tyr de Coração Corajoso, a despeito de seu tamanho inferior, estava fazendo um bom trabalho em liquidar todo rato que surgisse em seu caminho. Eles se estendiam aos montes em torno da praça, com seus corpos criando uma barreira contra a água que subia.
A prioridade de Ethel era o Povo. Enquanto o pânico dominava os aldeões em sua luta por fugir, ela tecia runas no ar para proteger os inocentes do mal; dirigia-os para dentro da igreja, que era grande o suficiente para abrigar todos; reunia famílias e prometia a elas que tudo ficaria bem. E a despeito de seu Aspecto de Frigg, a Vidente, havia ainda bastante de Ethelberta Parson nela para reconfortar o povo da aldeia – que, não fosse assim, podia muito bem ter suposto que os estrangeiros eram os culpados por tudo e virado sua raiva contra seus protetores.
Enquanto isso os Vanir não haviam ficado parados. De por debaixo dos Adormecidos, eles também haviam visto a praga de ratos que brotara da Colina, inundando as muitas passagens que partiam do subsolo do Olho do Cavalo; a maré nociva que viera depois deles – as ondas de efêmeras vindas do Sonho, o daninho gêiser do Mundo Abaixo que brotara para preencher cada buraco, cada rachadura, cada fissura no gelo.
Agora, de sua caverna de gelo subterrânea, Njörd trabalhava para fazer recuar o dilúvio enquanto Bragi golpeava poderosos acordes em sua guitarra. Frey havia desembainhado sua espada mental e estava ceifando metodicamente através das fileiras do inimigo enquanto Freya, em seu Aspecto de Ave Carniceira (que ela desprezava na maior parte do tempo por não ser nada glamoroso, mas cujas feições esqueléticas eram suficientes para causar medo até no coração do Sonho), voava em torno da cena de batalha, guinchando e atacando com suas garras, desalojando apinhados de estalactites que caíam como lanças do teto e sobre as cabeças do inimigo.
Lá na aldeia, contudo, Thor estava tendo problemas com os auxiliares. Posto em face da nuvem de efêmeras, as parasitas devoradoras de almas do Mundo Inferior, ele muito compreensivelmente supôs que seu poderoso martelo estaria ao seu lado durante a refrega. Mas Jolly parecia menos que desejoso de tomar parte, e o Deus do Trovão passou vários minutos lisonjeando-o antes que pudesse persuadi-lo a pôr de lado seu desjejum e assumir seu Aspecto como Mjolnir.
– Minha torrada vai esfriar – protestou ele. – Você não pode se virar sozinho?
Thor tentou explicar que aquilo era uma senhora crise.
Jolly fez uma carranca.
– Bem, não levo muito a sério a sua pressa – disse ele. – Não consigo tolerar torrada fria de jeito algum. E quanto às minhas salsichas?
Thor tomou um fôlego profundo, sorriu e prometeu a Jolly todas as salsichas que ele pudesse comer – mas, mais tarde, quando eles tivessem protegido os Mundos.
– Diga por favor – disse Jolly.
Neste momento a paciência de Thor findou de vez, e ele explodiu em Aspecto total na sala de desjejum de Ethel Parson – todos os sete pés do Deus do Trovão, a barba vermelha cuspindo faíscas ardentes, os olhos como tochas, os punhos como bigornas, grossas veias azuis percorrendo seus braços –, e ali estava Mjolnir ao seu lado, ainda parecendo-se estranhamente com Jolly, a enorme cabeça deformada, a dupla marca de runa brilhando, iluminada com forças magnéticas e luzes.
Thor soltou um grunhido de satisfação e, segurando a arma em seu punho, deu largas passadas em direção ao pátio interno outra vez e começou a fazer o que fazia melhor: martelar as coisas.
E havia muitas coisas a martelar. Não a mesma quantidade de efêmeras que os deuses haviam enfrentado no Mundo Inferior havia três anos, mas muito mais que eles haviam visto no Mundo Superior desde o Ragnarók cinco séculos atrás, quando Surt havia marchado para fora do Caos e Asgard havia tombado do céu.
Havia serpentes com plumas e pássaros com dentes; gatos de fogo e macacos da lama; havia aranhas, enxames de olhos voadores, águias com caras humanas, morcegos e coisas que não eram nada mais que tentáculos, como criaturas do Um Mar.
As efêmeras podem assumir qualquer forma, e mesmo quando despedaçadas podem sempre se reagrupar. Mas Thor e Mjolnir formavam uma equipe poderosa, e com o Tyr de Coração Corajoso ao seu lado, matando ratos, bem como Sif – que havia deixado de lado seu Aspecto atual e agora encarava o inimigo como uma feroz porca de batalha, com douradas presas de javali e olhos como brasas –, eles caíram sobre as hordas do Mundo Inferior com o vigor de um pequeno exército.
– O que eles estão querendo? – gritou o Tyr de Coração Corajoso, arremessando um raio mental sobre um pelotão de guarda-chuvas que marchavam. Ao contato, os guarda-chuvas se abriam numa chuva de meias-luas, cada uma delas tão afiada quanto a lâmina de uma navalha, e elas cortavam em fatias gritando pelo ar antes de se cravarem no chão congelado.
Thor deu de ombros.
– Como por Diabos eu saberia? – Ele mirou seu martelo sobre um urso polar que se aproximava e lançou-o de volta ao Mundo Inferior uivando. – Não fui eu que abri a brecha…
– Não, quem fez isso foi Loki – disse o Tyr de Coração Corajoso. – Ele finalmente deve ter aberto caminho!
– Bem, se é ele quem eles estão procurando – falou Thor com um grunhido –, serão acolhidos por ele. A qualquer hora. E, levantando seu martelo, o Deus do Trovão retornou mais uma vez à ação que se desenrolava.