Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 74 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 5

 

Enquanto isso, na cobertura, Maggie Rede parecia estranhamente indiferente, tanto ao roubo do Velho Homem quanto à raiva do Murmurador.

Ela não havia tentado perseguir Perth quando ele fugira pelos topos dos telhados, nem havia parecido preocupada de todo quando o passageiro sombrio de Adam deixara transbordar sua fúria, arremessando objetos pelo quarto, rasgando as cortinas, quebrando ornamentos e se comportando no geral como um bardo depois de uma apresentação particularmente mal-sucedida.

– Por que ela o deixou FUGIR? – grunhiu ele.

Adam fez a pergunta.

Maggie deu de ombros.

– Nós o pegaremos. Eu tenho outras coisas em mente.

– Outras COISAS? – rosnou o Murmurador. – Que espécie de coisas? Seu vestido de casamento? Canapés para a festa, talvez? Você praticamente deu o Velho Homem para um ladrão dos topos dos telhados e tem a coragem, o todo-poderoso ATREVIMENTO…

A única resposta de Maggie foi dar a Adam uma longa e avaliadora olhada.

– Seu nome é realmente Goodwin? – perguntou ela.

Adam a encarou.

– É claro. Por que pergunta?

Ela sorriu para ele.

– Porque – explicou ela –, quando nosso filho nascer, eu quero que tenha o nome de seu pai. Um nome de que ele possa se orgulhar. Seja ele Goodwin… ou Scattergood.

A boca de Adam se abriu, mas nada saiu. Em sua mente, o Murmurador havia de repente caído em grande silêncio.

– Tenha cuidado, garoto. Ela sabe…

– Mas como?

– Foi por isso que eu o deixei ir embora – disse ela. – Eu não poderia correr o risco de deixá-lo ferir nosso filho. Você entende isso, não entende? – Sua voz era terna. – Você entende por que eu não pude lutar?

Adam fez que sim em silêncio. Na verdade, ele estava ainda mais confuso. Como Maggie soubera que estava carregando uma criança? Ele devia comemorar? Por que o Murmurador em sua mente estava saltitando como um lunático?

– Você falou com o Velho Homem – disse ele. – Foi assim que você soube, não foi?

Maggie fez que sim.

– Que mais ele disse?

Por um longo tempo Maggie não respondeu. Em vez disso, olhou no rosto de Adam, tentando entender o que havia mudado.

Há uma semana, aquele rosto parecia tão nobre quanto belo. O rosto de um herói de um de seus livros, honesto, corajoso e verdadeiro. Mas agora, de algum modo, a máscara havia caído; ela podia ver por trás de suas feições o garoto de olhar malvado que havia urinado nas calças quando Maddy o tinha atingido na Colina do Cavalo Vermelho. Ela podia ver sua confusão agora, sua fraqueza e seu terrível medo.

Aquele era o presente do Velho Homem para ela, e ela notou, com um doloroso retorcer em seu coração, que nunca mais seria capaz de enxergar Adam totalmente sob a mesma luz novamente.

Mas o Amor é o maior dos encantamentos, fazendo as pessoas verem o que elas mais querem ver, reescrevendo o passado, dourando o futuro, fazendo belo o feio. Para um apaixonado, qualquer vício se torna uma virtude oculta; qualquer traição, um desafio. Adam era apenas humano, ela pensou. E, sim, talvez ele houvesse mentido para ela. Mas agora que eles eram uma família, certamente as coisas seriam diferentes. E o que era um herói de contos de fadas comparado ao pai de seu filho?

– Não minta mais para mim – exigiu ela. – Você não pode construir um casamento sobre uma mentira. E agora que será pai, você tem que ser responsável.

– M-mas… como? Quero dizer, o que ele lhe falou?

Ela deu de ombros.

– Isso não importa agora. Só importa o fato de ser verdade. E que você me ame… – Ela olhou para ele com tal intensidade que Adam sentiu seus joelhos se enfraquecerem. – Você realmente me ama, não? – indagou ela.

– Sim – respondeu Adam. – Sim. Sim. – E ele fez que sim tão enfaticamente que seus dedos quase chacoalharam em sua cabeça.

– Tudo bem. Ótimo – disse Maggie, e sorriu. – Isso é realmente tudo que importa. Nós temos um casamento em que pensar, e um dia a mais para nos preparar para ele…

– Mas e quanto ao Velho Homem? – perguntou Adam numa voz trêmula. – Não podemos deixá-lo cair em mãos inimigas. E quanto ao Novo Manuscrito? Quanto ao Povo do Fogo? E quanto a mim, Maggie? Quanto a mim?

Maggie sorriu.

– Não se preocupe – disse ela. – Deixe-me lidar com tudo isso. E quanto a você – e então Adam viu que ela estava se dirigindo ao Murmurador –, tudo que quero de você é sua palavra de que não tentará interferir. Este casamento está seguindo em frente como planejado. Eu não me importo com o que o Velho Homem diz. Não terei meu filho dizendo às pessoas que seus pais se casaram depois do fato consumado. Ficou entendido?

A cabeça de Adam concordou vigorosamente.

– Ótimo – disse Maggie. – Está combinado, então. Agora, Adam. Você lidará com o casamento. Temos ainda coisas a organizar, e eu não quero que nada saia errado no último minuto. Tudo vai ser perfeito. Nada irá estragar o meu dia.

– M-mas… – balbuciou Adam. – E quanto a você?

Maggie lançou-lhe um olhar terno. Ele era realmente um garoto, ela pensou. Um garoto assustado e inseguro, tão calouro nisso tudo quanto ela. Talvez ele a tivesse enganado. Talvez tivesse mentido para ela – a princípio. Mas agora que eles eram uma família, tudo estava predestinado a mudar.

A velha desconfiada Maggie teria lançado a runa Bjarkán nessa altura, nem que fosse apenas para saber se o amor dele era verdadeiro. Mas a Maggie que deixara o Velho Homem ir embora em vez de arriscar seu filho não nascido não tinha necessidade desse tipo de prova. O amor é construído sobre a confiança, ela sabia; questionar a confiança era matar o amor.

E assim ela teve confiança no amor dele, e descobriu-se o amando ainda mais.

– Não fique irritado comigo – pediu ela. – Naturalmente, eu estarei trabalhando também. Mas eu não quero que você seja ferido. Este meu trabalho pode ser perigoso.

Os olhos de Adam se arregalaram.

– O que você fará?

– O que eu deveria ter feito desde o início. – Maggie se virou para ele e sorriu. – Eu vou lidar com o Povo do Fogo.

Adam e seu passageiro olharam quando Maggie foi para o terraço. O luar brilhava em seu cabelo tosado, dando-lhe uma coroa de prata. A marca de runa em sua nuca brilhava com uma intensidade sobrenatural.

Por um momento ela se ergueu ali em silêncio, descalça, em sua camisola noturna. Depois murmurou um feitiço e estendeu os braços para a noite.

Por um longo tempo nada aconteceu. Depois, veio um som de asas ruflando.

Dois corvos – um com uma cabeça branca – pousaram no corrimão do terraço. Eles olharam para Maggie e crocitaram. Quase como se estivessem conversando com ela, Adam pensou com inquietação.

Dentro de sua mente, o Murmurador silvou e se enroscou como um ninho de serpentes. Eles estão conversando com ela, disse ele. Pelos dentes do Inferno, como ela os invocou? Como ela ficou sabendo sobre eles?

Adam pôde sentir o quão intensamente seu passageiro ansiava por ouvir escondido, e como ele temia agir assim. Ele tentou ouvir o que Maggie estava dizendo, mas captou apenas os gritos ásperos dos dois corvos e algumas frases entrecortadas na voz de Maggie de uma coisa parecida a uma cantiga de infância:

Veja o Berço balançando

bem acima da cidade.

O Povo do Fogo vem descendo

para trazer o bebê.

Por todo o caminho até o portão do Inferno

o Povo do Fogo está cercado…

Não fazia sentido algum para Adam, e ele descobriu que não se importava. Mais um dia e estaria livre. O resto não era de sua conta.

Ele sempre soubera que Maggie era perigosa. Ele sentira isso quase desde o início. Mas esta era uma Maggie Rede diferente daquela que ele encontrara nas catacumbas; a solitária e desconfiada garotinha que não queria nada além de segui-lo. Essa garota se fora, e pela primeira vez em cerca de três anos Adam Scattergood sentia medo de alguém que não era o Murmurador.

Alguma coisa a tinha mudado. O que ela havia dito? Você vai ser pai? Como ela podia saber disso? Como era possível alguém saber?

Fosse qual fosse a razão, Adam pensou, havia alguma coisa nova nos olhos de Maggie; um conhecimento sombrio e assassino que não estava ali no dia anterior. Isso o assustava, e não pela primeira vez ele ofereceu uma prece silenciosa a quaisquer deuses que pudessem estar ouvindo-o:

Por favor, não deixem que ela me descubra…

Porque, não importando o que já houvesse sido, Maggie Rede havia passado por uma espécie de transformação. Era como observar uma vagem de algodãozinho do campo que houvesse amadurecido lentamente ao longo do ano subitamente explodir e soltar suas sementes ao vento ávido do verão.

O que o Velho Homem tinha dito a ela?

Qual era o plano de seu passageiro sombrio?

E o que eram aqueles pássaros, aqueles corvos, cuja linguagem ela parecia entender?

Adam não quis saber a resposta para nenhuma destas perguntas. Ele tivera oráculos – e pássaros falantes, e forças magnéticas, e sonhos – o suficiente para lhe valer por uma dúzia de vidas. Mas de uma coisa ele estava seguro: ele não podia dar-se ao luxo de enfurecê-la. Ela não era mais a Maggie que ele conhecera; aquela que fora uma presa tão fácil.

De algum modo, em menos de uma hora, ela havia se tornado o Cavaleiro cujo nome era Carnificina.