Luz das Runas
Capítulo 11
O Inverno nas Terras do Norte significava que, por quase três meses do ano, o sol mal roçava o horizonte. Naquele dia ele tinha se erguido alto só até o ponto suficiente para iluminar os Sete Adormecidos, mas a Colina do Cavalo Vermelho ainda estava nas sombras.
Bem, pensou Maddy, talvez o negócio em andamento fosse melhor conduzido longe da luz. Mesmo para Maddy, que tinha visto tantas coisas estranhas nos três últimos anos, a ideia de que Sleipnir, o Cavalo do General, pudesse realmente estar sob a Colina do Cavalo Vermelho era difícil de engolir.
Ela não o teria visto se fosse assim?, pensou. Ela não o teria sentido ali, assim como havia sentido o Murmurador? E se Um Olho sabia que ele estava ali, por que pelos Mundos não havia ele próprio tentado despertá-lo?
Hughie pareceu ligeiramente desconfortável.
– Algumas coisas não gostam de ser despertadas – disse ele. – Quero dizer, num momento lá está você, belo e relaxado debaixo do chão, espantando o Fim do Mundo para longe com seu sono, e no momento seguinte vai ser despertado outra vez. É este o motivo pelo qual você ficará um pouquinho, ah, furioso.
Mandy, que havia retomado seu Aspecto de corvo para sua pequena viagem ao alto da Colina, soltou um áspero, impaciente crau.
– Alguma coisa está vindo – disse Hughie. – Posso sentir no ar.
Ele estava certo, Maggie pensou. Alguma coisa estava se erguendo no ar como a estática antes de uma tempestade; alguma coisa que vinha, não de por baixo da Colina, mas de tudo ao redor deles. E com a estática vinha um som – um som distante, rompedor, dilacerante, como se alguma coisa realmente estivesse rasgando seu caminho através do tecido dos Mundos em direção a eles, fazendo a terra erguer seus filamentos e as árvores de inverno se curvar e sacudir.
O som estava ficando mais próximo. Um tremor percorreu o chão coberto de neve. Acima deles, as nuvens pareceram se encrespar e torcer.
– O que, em nome dos Infernos, é isso? – perguntou ela.
Hughie lançou-lhe um olhar assombrado.
– Alguma coisa está saindo do Sonho. Corra! Você tem que despertar o Cavalo do General antes que chegue aqui!
– E como faremos isso? – pediu Maddy, erguendo sua voz contra o som. – Uma xícara de chá e alguns soldadinhos de brinde?
Mas então a voz do corvo se perdeu num estrondo final dilacerante do que quer que fosse aquilo que havia saído do Sonho. Um clarão de luz esmagador; outro tremor que sacudiu a Colina e lançou Maddy ao chão, e depois…
Silêncio. Uma calma mortal.
Maddy, levantando-se desordenadamente, teve tempo de ouvir os pássaros retomarem seu canto; de ouvir o som de ovelhas no vale; de captar o cheiro distante de fumaça nas chaminés da aldeia. Hughie, de volta à sua forma de pássaro, estava grasnando asperamente acima da cabeça de Maddy. Tudo parecia tão normal! pensou ela, como se o que houvesse acontecido há apenas um momento fosse apenas um fragmento de um de seus sonhos.
O que havia vindo através da brecha? Que demônio, que efêmera, havia parido a si mesmo dentro dos Mundos? Ela olhou ao redor. Não havia nada ali. Nenhuma cobra, nenhum guerreiro esquelético, nenhum lobo, nenhum enxame de abelhas assassinas. Nada senão uma jovem em pé a não mais que três metros e meio de distância, analisando Maddy através de olhos de granito dourado tão diretos e luminosos quanto os dela.
Por um momento Maddy encarou a si mesma.
A si mesma? Não, não completamente. Uma túnica escarlate, desbotada e puída, no lugar do manto de pele de lobo de Maddy. Isso e o cabelo cortado rente marcavam a diferença entre elas. Mas, exceto por esses detalhes, a garota sobre a Colina podia muito bem ser o reflexo de Maddy; a figura era ligeiramente transparente, como se estivesse sendo vislumbrada através de um espelho escurecido.
Então a garota deu um passo à frente, e de repente Maddy pôde vê-la mais claramente: o penacho de sua respiração no ar frio; o brilho de suor em sua testa. A garota não era uma efêmera; parecia tão sólida quanto a própria Maddy. Bem, quase, Maddy corrigiu. Um levíssimo bruxuleio no ar, como uma névoa de calor de verão, como o mais transparente dos véus, se ergueu entre ela e a garota de vermelho.
Maddy indagou:
– Você sabe quem eu sou?
Os lábios da outra garota se moveram silenciosamente.
– Pode ouvir o que estou dizendo?
Mais uma vez os lábios da garota não fizeram som algum.
– Você é minha irmã? O que você quer?
– Nem se importe em falar com ela – disse Hughie, retomando seu Aspecto humano. – Ela deve estar atrás do Cavalo do General. Sem ele, não poderá passar completamente do Sonho para esta parte do Mundo. Mas se conseguir o Cavalo do General, ela terá entrada em todos os Mundos, exceto o Pandemônio. Será capaz de falar com você então. Será capaz de usar a Palavra…
– Você quer dizer que ela é real? Que está viva? – questionou Maddy.
De novo a garota pareceu falar.
– Claro que ela está viva – disse Hughie. – Você não…
Ao mesmo tempo um tremor percorreu a Colina. Foi um pequenino movimento, mas eriçou todo capim de relva como os pelos na nuca de um cão e fez a neve caída se mover como um lençol sobre alguém que estivesse dormindo inquieto.
– Você disse… a Palavra? – perguntou Maddy.
Hughie bateu seus braços para ela.
– Por favor, mulher, não há muito tempo! Ela ainda está pela metade no Sonho, não está preparada, não estava esperando encontrar-nos aqui. Mas com sua força magnética e aquela marca de runa, ela é mais forte do que pensávamos. E…
Ack! Ack! No alto de suas cabeças, os chamados de Mandy se tornaram cada vez mais urgentes.
– Por favor, Maddy! Estamos perdendo tempo! – A voz de Hughie era quase um grito, e Mandy, ainda em forma de corvo, baixou em ataque e sobrevoou em torno de suas cabeças com agitação crescente. – Faça agora. Pegue as rédeas. Sem o Cavalo, ela não pode passar…
– Que rédeas? – perguntou Maddy.
– O bridão! Pegue o bridão!
O pedaço de tira estava no bolso de Maddy. Ela o retirou rapidamente. Velho e desgastado como estava, ainda tinha força magnética; Maddy podia senti-la. E o sigil de Odin havia começado a brilhar com uma ousada luz azul que ela reconheceu.
– É isso mesmo – disse Hughie. – Agora, use-o, pelo amor dos deuses!
Mas a Colina estava se movendo sob seus pés. Muito suave no início, mas dando sinais decisivos de que despertara. Para Maddy, parecia um ombro gigante sob uma montanha de cobertores quando o adormecido se vira, abre um olho e diz que estará em pé dentro de cinco minutos.
Ela tentou um comando.
– Sleipnir, venha a mim!
Nada mais aconteceu. O sigil brilhou. A passagem para o Mundo Abaixo, aberta pelas máquinas escavadoras e pela Palavra, se ergueu, toda feita de rocha bruta e terra crestada, num círculo de neve derretida. Do ar devia se parecer com o olho de um cavalo prestes a sair a galope – enorme, branco e aterrorizado.
Ela tentou outra vez.
– Sleipnir, venha a mim!
Desta vez ela puxou a rédea. Não com sua mão, mas com sua mente, e com toda a força da runa Úr, o Poderoso Boi…
Como que em resposta, as outras nove runas que cercavam o Cavalo Vermelho começaram a se iluminar, uma por uma – Madr, marrom; Raedo, vermelho; Yr, verde; Bjarkán, branco; Logr, azul; Hagall, cinza; Kaen, violeta; Naudr, anil; Ós, dourado – cada faixa de luz de runa se ligando com as outras até formarem uma rede fechada de runas que encobriu o Cavalo Vermelho completamente.
As rédeas, pensou Maddy. É claro. As runas…
– Mas onde está o Cavalo? Eu tenho as runas. Agora, onde estará o Cavalo do General?
Subitamente ocorreu a Maddy que ela nunca havia montado num cavalo, quanto mais num efêmero. E se ele me jogar para longe?, se perguntou. E se ele não me deixar montá-lo?
Os olhos de Maddy se voltaram para sua gêmea. Enquanto lutava para assumir as rédeas, a garota de Fim de Mundo não estivera ociosa. Filamentos de luz de runa agora saíam em vaivém da ponta de seus dedos. Sua boca pronunciava frases sem sons; seus dedos combinavam formas fantasmagóricas de runas. O que ela estava fazendo? Em torno do Cavalo, a garota de vermelho estava tecendo outro berço de luz, outra série de rédeas com a força magnética que se derramava do Olho do Cavalo…
Deuses, mas ela é veloz!, pensou Maddy. Não tanto quanto Loki, talvez, cujo estilo atrevido de lançamento de runas era quase rápido demais para o olho seguir, mas veloz o bastante para Maddy saber que, em matéria de força magnética, a garota era no mínimo igual a ela. Ela levantou a mão direita, e a marca de runa Aesk cintilou em sua palma como um relâmpago.
Ao mesmo tempo sua gêmea ergueu a mão esquerda. Nela, um minirre-lâmpago de força idêntica ardeu como uma pepita de vidro derretido.
Por um momento as gêmeas se encararam mutuamente, perfeitas imagens de espelho, exceto por suas roupas e o comprimento de seus cabelos. A luz de runa ia e vinha em torno delas; cada uma delas segurava uma série de rédeas numa mão e um relâmpago mortal na outra.
– Você tem que detê-la! – disse Hughie. – Atinja-a com tudo o que você tem!
Naturalmente, ele estava certo, Maddy disse a si mesma. Mas esta era a sua irmã, sua gêmea há tanto tempo perdida. Desviada pela Ordem, corrompida, desorientada, incapaz de ouvi-la – mas, mesmo assim, uma filha de Thor e Jarnsaxa. Fossem quais fossem as ordens do General, ela não podia agredir sua gêmea – no mínimo, não desse jeito, sem saber por que elas se encontravam em lados opostos.
– Lembre-se do que o General disse – crocitou Hughie, rouco de ansiedade.
– Mas Um Olho não está aqui – disse Maddy, e desviando de seu alvo, ela descarregou sua força magnética; Aesk, a Cinza, com toda força possível no Olho do Cavalo.
Precisamente nesse momento sua gêmea fez o mesmo, embora a runa mental que ela usou fosse nova para Maddy – na verdade, era Ác, o Carvalho do Trovão, arremessada com toda a força magnética destreinada de Maggie. Quando colidiu no meio do ar com Aesk, houve um trovejante estrondo duplo e uma súbita, maciça liberação de força magnética que lançou Maddy ao chão e saiu rasgando pela Colina como um terremoto, e todas estas coisas aconteceram de uma vez só:
Hughie e Mandy abriram as asas e fugiram.
Maddy deixou cair a correia quebrada.
O Olho do Cavalo se abriu completamente, e um tremor percorreu toda a encosta da colina.
Um som de relincho cortou o ar. Não soava como qualquer espécie de cavalo que Maddy Smith houvesse jamais conhecido, mas fez os pelos de sua nuca se eriçar e trouxe um gosto de cobre à sua boca.
A garota de Fim de Mundo, ainda em pé, sorriu e ergueu um punhado de runas.
Uma coisa saiu lentamente da Colina – uma coisa que veio encurvada, forçada e arrastada, toda carregada de barro e feitiço – e pariu a si mesma penosamente, centímetro a centímetro, brotando do chão, de tal modo que pareceu a Maddy como se toda a Colina estivesse tentando se estruturar, adquirindo costelas, pernas, narinas, crina, cascos do tamanho de blocos de rocha e um olho que se fixou na garota que se sentava sem medo no topo de sua espinha, segurando na mão esquerda uma força magnética que Maddy reconheceu brilhar com um radiante azul-borboleta contra o obscurecido céu de inverno.
Quando Maddy lutou para manter o equilíbrio, ou por alguma coisa firme em que se apoiar, percebeu que Sleipnir não estava apenas saindo da Colina. Sleipnir era a própria Colina, e se ela quisesse sobreviver, teria então que alcançar a terra firme, ou seria engolida, quando a totalidade da Colina do Cavalo Vermelho lenta, mas seguramente, começou a desabar.
Loki, pensou ela, não teria demorado a assumir o Aspecto de pássaro e voado para longe. Mas a mudança de Aspecto precisa de prática, e Maddy, cujo sangue do Caos corria apenas pelo lado de sua mãe, nunca fora muito boa nisso. Para ser justa, ela nem realmente havia tentado desde sua última experiência, havia dezoito meses, de assumir a forma de uma gaivota. O resultado sem asas de seu esforço matutino ficara mais parecido a um frango meio depenado do que qualquer outra coisa, e Maddy havia passado o resto do dia recolhendo penas de seu cabelo. Até Açúcar havia achado difícil manter uma expressão séria quando ela estava por perto. Desde esse dia Maddy havia tentado se concentrar em suas forças ao invés de suas fraquezas, o que significava que qualquer tentativa de mudança terminaria certamente em desastre.
Não, ela teria que tentar outra coisa. Desesperadamente, olhou ao redor. Tinha que haver uma saída para isso. A Coluna estava se partindo ao meio: uma copa de barro vermelho brotava em sacudidelas do chão; grandes pedras tombavam longe de seus flancos. A neve estava em maior parte derretida ali, embora ao longo do flanco mais protegido da Colina, onde a neve líquida havia se recongelado e depositado em fendas entre as rochas, Maddy pudesse ver uma longa extensão de gelo, quase como um escorregador, que ia desde as mais altas encostas da Colina direto para baixo, rumo à estrada de Malbry.
Em dias mais simples Maddy Smith, montada numa bandeja de chá, havia descido velozmente escorregadores de gelo deste tipo, gritando como uma selvagem. Houvera algumas colisões, naturalmente. Mas na maior parte do tempo funcionara razoavelmente bem.
Ela deu um olhar de relance para baixo do declive. Parecia na maior parte livre, exceto por um único amontoado de pedras de que, com sorte, ela esperava poder se desviar. Era mais íngreme do que seus escorregadores de infância, e naturalmente ela estava sem a bandeja de chá, mas mesmo assim Maddy pensava que o princípio devia ser o mesmo.
Bem, lá vou eu, disse a si mesma, e, lançando Yr para sua proteção, ela se arremessou para baixo pelo declive vítreo.
A passagem era até mais íngreme do que ela pensara, e por um momento teve certeza de que perderia controle de sua descida. Mas ela rapidamente lembrou-se de sua velha técnica, usando as mãos e os pés para guiar. Desviando-se, assim, do amontoado de pedras por uma polegada, rapidamente ganhou impulso e disparou tão rapidamente quanto um raio mental pela Colina do Cavalo Vermelho abaixo, seu cabelo enfunando como uma bandeira pirata e seu velho e desafiador grito de guerra soando pelo ar quando, com um poderoso chicotear de sua juba, o Cavalo do General desdobrou suas pernas e se ergueu por fim de seu longo, longo sono.
Um banco de neve interrompeu sua descida, mas mesmo assim Maddy ficou apenas meio aturdida com o impacto. Por um minuto ou dois ela ficou estendida de costas, erguendo os olhos para o monótono céu amarelo e tentando adivinhar onde estava. Lá no alto, dois corvos voavam.
Dois corvos… Maddy pensou como num sonho.
Ela se ergueu, batendo no cabelo para retirar a neve. Virou seu rosto em direção à Colina – ou ao menos para o que dela restava. Porque, como Maddy agora percebia, a coisa que uma vez fora a Colina do Cavalo Vermelho, a coisa que devastara oito Mundos e galopava na velocidade do Sonho, agora se erguia diante dela em seu Aspecto – e não era realmente cavalo algum, mas uma coisa que desafiava a descrição; uma coisa nascida de pesadelos.
Parecia mais o cavalo saído do sonho de um louco. As proporções do corpo eram quase corretas; mas as pernas – todas as oito, não menos – eram grotescamente longas e finas, como as de uma libélula de tempo quente, penetrando tão fundo no chão podiam ser raízes de árvores e erguendo-se tão acima dela que Maddy teve que jogar sua cabeça para trás, a fim de ver a criatura se erguer diante dela, suas cores parecidas à do Fogo do Santo Sepulcro, obscurecendo metade do céu.
Sua crina tinha todos os matizes de vermelho, do rosa choque ao vermelhão e ao quase negro. E, em meio a essas cores berrantes, Maddy viu a rede de runas – com a força magnética de Odin a mantê-la no lugar, exatamente como as rédeas de um cavalo comum, selado, atrelado e preparado para cavalgar.
Quando ela arregalou os olhos, meio atônita com a visão, a garota de Fim de Mundo baixou os olhos sobre ela e disse numa voz calma e estável:
“Uma coisa nomeada é uma coisa domada.”