Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 82 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 3

 

Há um velho provérbio das Terras do Norte que diz algo assim: Quando as mentiras não ajudam, tente contar a verdade. Loki o conhecia bem, naturalmente, mas preferia sua própria versão, que era: Quando as mentiras não ajudam, conte mentiras melhores.

Loki era um excelente mentiroso. Tendo percebido para onde eles estavam se dirigindo, decidiu ganhar tempo e, assumindo um ar de indiferença, assegurou aos deuses ansiosos que tudo estava seguindo conforme o plano.

– Que plano? – perguntou Skadi. – Seu plano de nos levar a lugar nenhum?

Loki fez um aceno com uma das mãos.

– Vamos deixar os vagões para trás. Eles estão nos retardando – disse ele. – Aqueles que possam assumir o aspecto de Pássaros vão assumir; quanto ao resto, podem deixá-los comigo.

Os Æsir pareceram desconfiados ao ouvir isso. O povo dos Vanir e do Caos podiam mudar de Aspecto à vontade; mas eles, com suas marcas de runa quebradas, eram totalmente incapazes de fazê-lo.

– Você está ganhando tempo – afirmou Skadi. – Isso é um truque para dividir-nos para que você possa fugir.

Loki balançou sua cabeça.

– Por favor. Até onde você acha que eu chegaria?

– Tudo bem. Qual é o plano? – quis saber ela.

Loki deu de ombros.

– Só esperem para ver.

Os deuses passaram as poucas horas seguintes tentando imaginar como Loki poderia voar conduzindo Ethel, Thor e a Rainha dos Porcos através de uma determinada extensão de zona rural – sem mencionar suas armas, naturalmente, e as roupas que os Vanir certamente necessitariam quando retomassem aos seus Aspectos humanos.

Ninguém acreditava que ele pudesse fazê-lo. Na verdade, Thor estava esperando ansiosamente pelo momento em que Loki finalmente admitisse a derrota e ele pudesse por fim dar-lhe uma martelada.

– Você vai mudar os Aspectos deles – disse Idun, que, com Bragi, gostava de uma boa história, e havia se juntado ao jogo de adivinhação com entusiasmo (ela era na verdade a única que ainda acreditava na promessa de Loki). – Você vai nos transformar em bolotas de carvalho e nos transportar até a cidade.

Loki balançou a cabeça.

– Não.

Idun fitou-o, de olhos arregalados.

– Tudo bem. Você vai pedir ao Povo do Túnel para construir uma magnífica máquina de voar…

Loki suspirou.

– Errado – disse ele.

Bragi fez uma sugestão.

– Você vai invocar Jormungand, sua filha monstruosa, para nos levar para a cidade através do Sonho…

– Nada disso – afirmou Loki. – Errado outra vez.

Na verdade, isso teria sido uma excelente solução, exceto por duas simples desvantagens. Uma: Loki não tinha nenhuma ideia de como invocar Jormungand. Duas: a Serpente do Mundo muito mais provavelmente o engoliria como um biscoito de peixe antes de ajudá-lo do modo que fosse.

Não, a solução de Loki era mais simples. Ele estava planejando fugir.

O único obstáculo a isso estava preso ao seu pulso pelo Anel de Matrimônio; e Loki sabia que, se fugisse, Sigyn certamente soaria o alarme, depois do qual ele não conseguia avaliar suas chances de sobrevivência.

Ele havia tentado tudo que podia – tudo exceto a verdade, naturalmente. Nada havia funcionado. Sigyn era impermeável à lisonja; à argumentação; ao encanto ou às lágrimas ou declarações de amor. Ela era racional, mas implacável; e Loki foi intensamente obrigado a lembrar-se da mulher que, havia cinco anos, tinha recolhido as gotas de veneno que pingavam dos caninos da serpente que Skadi havia pendurado acima de sua cabeça, enquanto doce, mas firmemente, recusava seus rogos para livrá-lo de suas algemas.

Por fim, as mentiras haviam se esgotado. Eles marcharam o dia todo e a maior parte da noite, e ainda não havia nada em vista, nem a aurora, nem o mar, nem os pássaros de Odin, nem as ameias da Cidade Universal. A estrada à frente era interminável, a paisagem ao redor estava flutuando na névoa, e até Thor estava ficando cansado, o que o deixava ainda mais ansioso por martelar a causa de sua irritação.

Apenas Sigyn ainda parecia acreditar que Loki tinha realmente um plano; o que Loki achou tão irritante que finalmente ele a transformou de novo numa bolota e deu a ordem para que todos parassem.

– Er, ouça, pessoal – disse ele aos deuses. – Eu não fui totalmente honesto com vocês. A boa notícia é que eu sei onde estamos. A má notícia é que…

– Conta logo – exigiu Thor.

Loki deu-lhes a má notícia.

Depois disso, ele sentou-se e esperou que o tumulto se dissipasse. Depois de mais ou menos cinco minutos, ele cessou, e novamente tentou explicar como desta vez realmente não fora culpa sua.

– Eu sei como parece – disse Loki.

– Parece uma armadilha – falou Heimdall, estreitando os olhos de um azul-aço. – Parece que você nos trouxe aqui numa missão inútil, falou sobre planos e basicamente gastou o tempo que pôde para nos manter distante das coisas de Fim de Mundo.

– Olha, eu não fiz isso – disse Loki.

– Por favor. Deixem-me dar uma martelada nele – pediu Thor.

– Estou dizendo a verdade – insistiu Loki.

– Deixem-me martelá-lo seja lá como for.

Por um momento Loki resistiu, tentando afastar os deuses raivosos.

– Por favor! – gritou ele. – Apenas me ouçam! Eu sei o que está acontecendo aqui!

Pouco a pouco o tumulto cessou novamente, vedando alguma reclamação resmungada.

– Eu sei que a maioria de vocês me odeia – disse ele – e nenhum de vocês realmente confia em mim. Mas, por favor, só reflitam por um minuto. – Ele agitou suas mãos apelativamente. – Como eu poderia ter feito tudo isso? Aberto os Mundos, feito com que nós os cruzássemos, criado esta névoa para nos confundir…? – Ele deu de ombros. – Eu nunca tive a força magnética necessária para fazer um truque desses, e, mesmo que tivesse, eu estaria destruído a esta altura. Por isso, antes que vocês brinquem de pular corda com minha espinha…

– Você podia ter pedido ajuda – afirmou Heimdall.

– Sim, porque tenho tantos amigos! – Loki falou-lhe amargamente. – Digam-me, alguém se lembra do que aconteceu da última vez que estive aqui? Eu caí nas graças de Hel, que jurou que me mataria se eu desse as caras por aqui outra vez; por isso, acreditem em mim quando digo que não estou exatamente empolgado por estar de volta.

– Ele tem razão – disse Angie, que até então havia ficado em silêncio. – Você nos falou que sabia o que estava acontecendo – lembrou ela, dirigindo-se ao Astuto.

– Sim, mas vocês não vão gostar de saber.

Ethel ergueu uma sobrancelha.

– Neste estágio – disse ela baixinho –, eu não acho que você tenha muita coisa a perder. Por que não nos conta?

Loki deu seu sorriso retorcido.

– Eu tenho que admitir, vocês me pegaram – falou ele. – Vocês me pegaram direitinho. O Anel de Matrimônio… – Ele deu uma olhada para seu pulso, onde Eh reluzia, com Sigyn, em sua forma de bolota de carvalho, dependurada na ponta da corrente. – Eu supus que tudo foi ideia de Skadi para me impedir de fazer alguma travessura. Mas não foi, foi, Vidente?

Sorrindo, Ethel balançou a cabeça.

– Naturalmente, eu devia saber que alguma coisa estava errada. Desde quando vocês se importaram com o que acontece comigo? Vocês sempre odiaram meus atrevimentos. Eu talvez, apenas talvez, merecesse. Então, por que vocês, entre tantas pessoas, me ajudariam? A princípio pensei que fosse porque precisassem de mim para chegar a Fim de Mundo. Mas não era esse o motivo. Vocês precisavam de mim para outra coisa. Alguma coisa que ninguém mais sabia.

Os olhos castanhos de Ethel brilharam.

– Muito bem. Eu me perguntava se você conseguiria adivinhar.

– Bem, Astúcia é meu nome do meio. E eu sabia que Angie não podia estar agindo sozinha. Aquela marca de runa dela podia ter vindo somente de alguém que tivesse acesso ao Novo Manuscrito. Alguém que pudesse atravessar os Mundos. Alguém que pudesse falar com os mortos. Alguém que fosse um oráculo…

Ethel sorriu.

– Vá em frente – disse ela.

– Foi uma boa representação, entretanto. – O sorriso de Loki era frio e duro. – Você me enganou completamente. Eu pensei que não restasse nos Mundos nada que tivesse o poder de me surpreender. Mas você… você com seu chá e bolo e devo-dar-uma-de-Mãe? Deuses! Que farsa! Se eu apenas tivesse sabido…

– Sabido o quê? – perguntou Thor.

– Você ainda não descobriu? O Oráculo previu isso. Ela sabia que viríamos juntos até aqui. Talvez ela até tenha feito isso acontecer. Ela sabia, porque fez um trato. É por isso que ela precisava de mim.

Loki estava olhando por sobre os ombros deles agora, para apontar à frente da estrada.

– Vejo um Arco-Íris se erguendo no alto; legado da Morte enganosa. Morte Enganosa. Eu devia ter sabido.

Ele ergueu a voz e chamou através da névoa.

– Uma vida por uma vida, Hel, não está certo? Não é essa a escolha habitual? Não foi sempre esta a sua barganha?

Por um momento ninguém lhe respondeu. Depois a névoa começou a rolar para longe, deixando nua a estrada à frente deles, e familiar a paisagem que os cercava.

Todos já tinham visto o reino de Hel e, no entanto, a sua árida superfície, a nauseante terra desolada por toda a volta e o céu como a tampa de um caldeirão encheram seus corações de medo e desgosto. Nada aliviava seu vazio; nenhum deserto dos Mundos Médios podia se igualar à sua soturna magnificência.

E então surgiu alguém ali diante deles, uma mulher com um rosto como a lua, que mudava conforme ela se movia para a esquerda e a direita, e com um sorriso que se pareceu com um punhado de ossos quebrados quando ela voltou seu olho morto para o Impostor.

Fazia anos que Hel, a Nascida pela Metade, havia sentido algo remotamente parecido à satisfação. E, no entanto, ela pensou, isso se aplicava agora. Ver Loki daquele modo, à sua mercê, traído por alguém de seu sangue. Seu olho morto pousou longamente sobre ele. Ele via muito mais que seu olho vivo. Medo, ódio, angústia, desespero – estas eram as cores que Hel mais amava, e elas estavam presentes em abundância neste momento.

Mas, quando ele falou, o tom do Astuto era tão leve e brincalhão como sempre.

– Então, me diga, quem é? – perguntou Loki. – Quem é que vou resgatar hoje? O Garoto Dourado? Óbvio demais. Ademais, ele é muito bonzinho para se envolver com uma coisa como esta. Não, tem que ser outra pessoa. Agora, deixe-me adivinhar, quem poderia ser? Quem poderia valer tamanho sacrifício?

Ethel deu de ombros.

– Você me pegou – disse ela. – Acredite em mim, não é nada pessoal. Vocês todos ouviram a profecia. O futuro de Asgard depende disso. Se eu pudesse ter pensado em outro modo de trazer meu marido de volta dos mortos…

– Então, você fez um trato com Hel. Minha vida pela do General. Esta ideia foi sua, ou dele?

Ethel sorriu.

– Um pouco de cada um.

– Bem. Você fez um bom negócio.

Loki olhou ao redor para o círculo dos deuses. Por suas expressões era visível que a maioria deles concordava com ele. Apenas Idun parecia aflita; seus olhos iam de Ethel para Loki, depois retornavam a Ethel, como se ela esperasse que um deles retirasse a máscara e gritasse Surpresa!

– Isso não está acontecendo – disse ela por fim. – Ethel nunca trairia um de nós. Nem para salvar o General. Nem se fosse Loki…

– Idun, meu amor – falou Loki –, nós somos deuses, não santos. Todos nós mentimos. Todos nós enganamos. Todos nós passamos a perna em todos. Bem, talvez você não. O que não entendo é isso: como nós chegamos aqui, Vidente? Você não pode nos ter trazido ao Inferno por conta própria. Você deve ter contado com a ajuda de alguém.

Ethel apenas sorriu.

Loki pensou muito.

– Os corvos! – disse ele. – Os mensageiros de Odin. Eles conseguem viajar de Mundo para Mundo, através da Morte, do Sonho e da Danação. Eles devem ter agido como intermediários. Minha querida filha fez o resto. E, Angie, eu pensei que você gostasse de mim…

A Tentadora deu de ombros.

– Oh, querido, eu gosto. Mas eu queria minha sala em Asgard. Eu queria estar no time vencedor. E queria isso… – Ela mostrou a ele a marca de runa em seu braço, reluzindo em sua luz violeta.

– Então, me proteger era só uma artimanha para garantir que eu sobrevivesse para concretizar seu negócio. – Loki apelou para o grupo de deuses. – Vocês realmente vão continuar com isso? Vão vê-las me sacrificar? Sif, nós tínhamos nossas diferenças, mas…

A deusa da graça e da fartura sorriu.

– Pode apostar que vou ficar assistindo – disse ela. – Eu só queria que tivéssemos pipoca.

– Thor – arriscou Loki. – Nós somos velhos amigos…

Thor deu de ombros.

– Que escolha nós temos? É você ou o General.

– Heimdall… Bragi… Tyr…

O Vigilante exibiu seus dentes dourados.

– Contaremos a todo mundo que você morreu com bravura.

– Eu lhe escreverei um poema épico – disse Bragi.

– Idun… Njörd… Freya. Por favor…

Um por um os deuses se viraram para ir embora. Açúcar lançou-lhe um olhar pesaroso. Jolly abriu as mãos e sorriu. Idun secou uma lágrima. Bragi tocou uma pequena canção triste. Angrboda mandou-lhe um beijo.

Fenris disse:

– Parada dura, cara.

– Bem, um punhado de obrigados – disse o Astuto. – É ótimo saber quem seus amigos são. E pensar que eu arrisquei minha vida por vocês! – Seus olhos verdes se apertaram de repente. – É por isso que Maddy não está aqui. Você supôs que ela não iria aderir ao jogo. Então mandou os corvos para atraí-la para longe com alguma história mal contada sobre sua irmã gêmea. – Ele deu uma risadinha amarga. – Eu me perguntei por que você estava me ajudando, Vidente, oferecendo-me sua proteção. Eu achei que você havia resolvido me dar uma chance. Talvez até tivesse me perdoado. Mas no fim você precisava de um sacrifício…

Ethel deu de ombros.

– Perdoado você? Você causou a morte de meu único filho. Você acha que eu vou deixá-lo livre?

– Aquilo foi um mal-entendido…

– Uma vida por uma vida – disse Ethel. – É hora de manter nossas barganhas.

Hel deu um passo cambaleante para a frente. Mesmo através de seu olho vivo ela podia ver que Loki estava com medo. Um arrepio de prazer percorreu-a, e ela parou para saborear o momento por um instante. Prazeres eram tão poucos, ali, no Reino dos Mortos. E se o Fim de Tudo estava tão próximo quanto se dizia estar, então ela tencionava desfrutar de todo prazer que pudesse antes que a escuridão os reivindicasse todos.

Ela ergueu a corda aprisionante de runas que era a sua arma mais poderosa. Tecida com a runa Naudr, ela reluzia com uma malevolência lívida.

– Eu lhe fiz uma promessa, Loki – disse ela. – Eu a fiz bem aqui, há três anos. E Hel sempre cumpre suas promessas, como tenho certeza de que você já sabe…

E com isso ela deu um pulo, lançando a runa Naudr, que se enroscou com força em torno do pescoço de Loki. Ela puxou-o. Loki caiu de joelhos. Mais uma vez Hel fechou seu olho vivo e se concentrou na assinatura de Loki. Através da runa Bjarkán ela brilhou, um fio de violeta contra a escuridão. Então Hel estendeu sua mão seca e agarrou o filamento violeta entre os dedos esqueléticos. Ele brilhou enquanto Loki lutava inutilmente para se livrar do aperto estrangulador de Naudr. Era impossível, ele sabia. A morte vence tudo, até o Fogo Selvagem.

Ele ergueu os olhos para o círculo dos deuses. Naudr, a Prendedora, abocanhava sua garganta. Ele tentou falar, para defender seu caso, mas a corda prendedora havia cortado sua voz.

– Uma vida por uma vida – entoou Hel, levando o fio violeta à sua boca. – Odin, filho de Bór, desperte!

Houve um momento de expectativa. Depois, mais outro. Nos desertos de Hel, o vento branco como osso soprou turbilhões de pó por entre as dunas.

– Odin, filho de Bór – disse Hel –, Pai de Thor, General de Asgard, Pai Supremo dos Mundos Médios, eu o invoco à vida! Desperte!

Mais uma vez, nada aconteceu. O vento soprou intensamente sobre o chão ácido. Os mortos, sentindo alguma coisa grave acontecer, agitaram o ar enregelante aos bandos. Mas ninguém despertou. Os mortos continuaram mortos. Odin não estava entre eles.

Ethel virou-se para Hel.

– Ah. Isso é um tanto embaraçoso.

– O quê? – disse Hel, parecendo confusa.

– Bem, é claro que meu marido não está aqui.

– Impossível – falou Hel. – Ele morreu. Vocês o viram morrer, todos vocês. – Ela puxou a corda em torno do pescoço de Loki. – Você me prometeu. Nós tínhamos um trato…

– Mas você não pôde cumprir a sua parte. Por que eu lhe daria Loki?

– Então, leve outra pessoa – disse Hel, começando a parecer agitada. – Eu lhe darei seu filho, Balder, se preferir. Ou qualquer um. Mas Loki é meu!

Por um momento Ethel baixou os olhos sobre o Astuto, que estava de joelhos. Naudr o havia privado de voz, mas seus olhos ainda suplicavam eloquentemente. Ela balançou a cabeça.

– Eu não penso assim – disse ela. – Nosso trato era por Odin. Por ninguém mais.

O lado vivo do rosto de Hel assumiu uma expressão de incredulidade.

– Não – clamou ela. – Ele me pertence. Desta vez eu não me importo se os Nove Mundos acabarem…

E, como uma costureira aprumando um fio solto, ela mordiscou a linha da vida de Loki com dentes que eram brancos de um lado de sua boca, e do outro eram negros tocos desgastados.

O Astuto pronunciou uma súplica blasfema quando a sentiu cortar sua vida.

Adeus, Mundos Cruéis!

Ele fechou os olhos…

E os abriu para se descobrir erguendo-os para o perfil vivo de Hel, suas feições agora distorcidas pela raiva e a perplexidade. Entre seus dedos, sua assinatura brilhava tão luminosa e intacta quanto sempre.

– O que deu errado? – perguntou Heimdall. – Eu pensei que você devia cortar a vida dele, e não passar fio dental em seus dentes com ela.

– Isso significa que Loki não morre? – perguntou Sif, parecendo desgostosa.

Ethel sorriu.

– Parece que sim. Como já vimos, a guardiã da Morte não pode romper sua palavra sem sofrer sérias consequências.

Mais uma vez, e com impaciência crescente, Hel tentou romper o fio violeta. Nada aconteceu. A assinatura brilhou. Ela tentou rasgar o fio com suas unhas…

– Pode parar? Isso faz cócegas. – Loki havia afrouxado a corda prendedora e agora estava sentado de pernas cruzadas sobre o chão arenoso, parecendo mais confiante do que se sentia. Ele ainda não tinha nenhuma ideia de por que Hel falhara em tomar a sua vida, mas seu senso agudo do ridículo havia temporariamente suspendido seu medo.

Ele ergueu os olhos para o círculo de deuses, que agora o olhavam fixamente com surpresa. Apenas Ethel parecia impassível, seu rosto sereno como sempre.

– Da Morte enganosa o legado – citou Loki, com um sorriso. – É claro. Eu entendo agora. Morte Enganosa. Você enganou a Morte. Você forçou Hel a romper sua palavra, usando-me como isca. Você planejou isso desde o início? Você sabia que isso ia acontecer?

Ethel deu de ombros.

– Hel sempre teve um pouco de cegueira moral em se tratando de você. Eu me pergunto por quê.

Agora as feições vivas de Hel estavam escuras de raiva. Mesmo seu lado morto parecia furioso. Ocorreu a ela que a única vez que sentia raiva era quando o Astuto estava por perto. Como ele podia ter enganado a Morte? O que podia estar protegendo-o?

Ela focalizou o olho cego em Loki.

Era isso! Como ela não havia notado? Quase invisível em torno de seu pulso, uma coisa brilhava. Uma corrente dourada. Hel havia ficado preocupada demais em tripudiar do inimigo para notar a corrente, ou o pequeno talismã que estava pendurado nela – uma bolota de carvalho de ouro reluzente. Agora seu olho morto onisciente registrara o seu sentido e ela triturou seus dentes de ira quando viu o Anel de Matrimônio.

Ela olhou ferozmente para Ethel.

– O que é isso? – perguntou ela.

Ethel deu-lhe seu sorriso gentil.

– Segurança, naturalmente – disse ela. – Para caso você tentasse renegar nosso trato.

Um feitiço, e o talismã de bolota voltou a ser a esposa de Loki.

– Amorzinho, o que eles fizeram com você? – gemeu ela, ao ver o Astuto. Ela cercou os deuses em sua fúria, uma figura minúscula e feroz com um rosto redondo congestionado e olhos azuis relampejando como estrelas raivosas. – Seus covardes! – gritou ela. – Como puderam? Depois de tudo que ele fez por vocês, como puderam tratar o pobre anjo desse modo?

Os deuses – até Heimdall – pareceram confusos.

Ethel disse:

– Muito bem, minha querida.

O pobre anjo sorriu e ergueu os olhos para a sua esposa.

– Eu nunca pensei que diria isso – falou ele –, mas, Sigyn, é maravilhoso ver você.

A boca de Hel se contorceu e ela se concentrou mais em Loki.

– Eu posso não ser capaz de matá-lo – disse ela –, mas posso assegurar que ele nunca vá embora. E se o resto de vocês quiser encontrar seu caminho de volta, então sugiro que o deem para mim.

Sigyn se ergueu até sua altura máxima. Não era muito impressionante, mas ela se ergueu firmemente entre Hel e Loki, seu rosto armado em determinação.

– Você perdeu o juízo? – indagou Hel.

Teimosamente, Sigyn balançou a cabeça.

– Estou lhe avisando. Saia do meu caminho…

– De jeito nenhum – garantiu Sigyn.

E então a Guardiã dos Mortos ergueu os olhos e viu uma luz no céu; uma luz que brilhou com a força do sol. E pela segunda vez em quinhentos e três anos seu coração antigo pulou de surpresa quando alguma coisa baixou sobre as planícies do Inferno; alguma coisa que parecia – embora isso fosse impossível – exatamente como uma velha cesta de roupa para lavar, brilhando com um fogo sobrenatural…