Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 50 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 7

 

Um grupo bem equipado, viajando com pouco peso e mudando os cavalos a cada parada, possivelmente chegaria a Fim de Mundo em uma semana. Mas logo ficou claro para todos os envolvidos que os deuses e seus aliados não podiam ter esperança de fazer a viagem em nada inferior a duas semanas.

Não era apenas a distância a ser coberta, bastante significativa, mas o número de postos avançados pelos quais tinham que passar, com todas as formalidades tediosas que acarretavam – credenciais examinadas, bagagem vasculhada, nomes e identidades exigidos –, formalidades que iriam, na melhor hipótese, causar grave retardamento ao grupo.

Melhor viajar pelo campo, eles disseram, evitando os postos avançados o máximo possível e mantendo-se distantes das cidades. Isso acrescentaria algum tempo à jornada, mas os pouparia de ter que lidar com demasiada frequência com o Povo, que, com sua profunda desconfiança de todas as coisas Estrangeiras, não facilitaria uma passagem sem inspeção.

Em Aspecto, ou em disfarce animal, poderiam ter atravessado os quilômetros facilmente. Mas fora-se o tempo (para a maioria deles) em que tal força magnética podia ser usada sem apresentar custo. Agora os deuses estavam cautelosos, reservando sua força para o que viria, sabendo que cada quilômetro que eles cruzassem naquele caminho os deixaria mais fracos quando chegassem, para encarar um inimigo ainda indefinido.

Mas Heimdall (que era o responsável pelos suprimentos) estava dolorosamente consciente de que o próprio tempo estava agora ficando escasso demais, e que se eles esperavam chegar a Fim de Mundo antes que o tempo restante houvesse transcorrido, teriam então que conquistar alguma coisa bem impressionante em termos de velocidade e trabalho de equipe. O que era lamentável, Heimdall pensava, porque até aí nem trabalho de equipe nem velocidade haviam se provado conquistáveis.

Vinte e quatro horas já tinham se passado desde que haviam partido de Malbry. Nesse tempo haviam conseguido cobrir não mais que trinta quilômetros, ou a distância entre Malbry e Hindarfell. Uma noite desanimada, insone a maior parte do tempo, havia se passado numa cabana montanhesa ao lado da estrada. O dia seguinte fora em grande parte ocupado pelas queixas de Freya quanto a seus pés; Idun parando para colher ervas; os Irmãos Lobos comendo tudo que surgisse à vista e caçando todo coelho que estivesse dentro do raio de um quilômetro da estrada; os corvos de Odin provocando os lobos; Bragi tentando animar as pessoas com uma variedade de canções; Skadi discutindo com Njörd; Jolly discutindo com Açúcar; Thor discutindo com todo mundo. O anoitecer chegou como um grande alívio, a despeito de seu avanço penoso, e quando eles pararam para dormir, Heimdall estava exausto.

Eles encontraram uma pequena estalagem chamada Lua e Estrelas, na qual, por um generoso pagamento (providenciado, naturalmente, pela runa do dinheiro, Fé), o Vigilante pôde, primeiro, subornar o proprietário, que reclamou que nunca havia visto movimentação tão estranha, e segundo, pagar por meia dúzia de quartos – não suficientes para todos, mas o proprietário havia insistido que nenhum animal era permitido no local, o que significou que vários elementos do grupo tiveram que ser banidos para o celeiro, incluindo Sadi, que naturalmente se ofendeu por ter que compartilhar o espaço com os Irmãos Lobos, e Njörd, que se juntou a eles para tentar manter a paz.

Isso se revelou um erro, como Heimdall logo descobriu. Ao fim da noite, Hughie e Mandy haviam descoberto o caminho para a despensa, onde haviam começado uma festa de improviso (à qual somente eles foram convidados), no transcorrer da qual conseguiram fazer tanto barulho e tumulto que o proprietário acordou e, encorajado pela raiva justa, bem como pela perspectiva de uma compensação generosa, disparara para o quarto de Heimdall a fim de exigir uma explicação.

Ficara decidido que durante o transcorrer da viagem Heimdall devia representar o grupo. Ele sempre fora mais próximo do Povo; falava bem e era apresentável, além de ser um negociador hábil, enquanto a ideia de Skadi quanto a negociações era primeiro bater e depois negociar, e Thor nem mesmo sabia como soletrar “negociação”.

Fora por isso que o proprietário, cujo nome era sr. Mountjoy, havia corretamente suposto que Heimdall estava na chefia, e que o Vigilante o encontrara então, a uma da madrugada, em pé à cabeceira da cama com uma camisola de dormir e um gorro, todos os pelos de seu rosto eriçados de indignação.

– Senhor, eu devo protestar! – disse ele.

Sorte para o sr. Mountjoy que Heimdall dormia com um olho aberto. Se despertasse Thor daquele modo, podia ter havido sérias consequências. Mesmo assim, o Vigilante ergueu-se e arreganhou os dentes para o proprietário.

– Isso não pode esperar até de manhã? – perguntou ele, com uma postura ameaçadora.

– Certamente não – disse o sr. Mountjoy. – Posso lhe dizer, senhor, que em vinte de anos como proprietário do Lua e Estrelas, e mais outro tanto de vida, se posso assim me expressar, mais que ciente dos modos dos viajantes e Estrangeiros e Naturais das Regiões Selvagens como vocês…

Heimdall pensou em usar um feitiço para fazê-lo calar-se, mas sabia que devia preservar sua força magnética. Simplesmente apertou os olhos e disse:

– Por favor. Vá direto ao ponto, tudo bem?

Mas o sr. Mountjoy estava apenas começando.

– Que seja sabido, senhor – prosseguiu ele –, que nunca vi comportamentos como os que testemunhei nesta noite. Pássaros, mulheres licenciosas, anões, cães selvagens, lobos. Faço saber que não me relaciono com lupinos, sejam eles domesticados ou não, se movimentando às soltas pelo ambiente, aterrorizando os fregueses…

– Mas nós somos as únicas pessoas aqui! – bradou Heimdall com frustração.

– Mesmo assim, os princípios devem ser mantidos.

– Tudo bem, tudo bem – falou o Vigilante, quase rosnando. – Quanto custa para silenciar seus… princípios?

O sr. Mountjoy coçou a cabeça.

– Bem, há quatro xelins pela torta de vitela que eu estava guardando para o almoço de amanhã; vinte pelos dois sacos de açúcar; dez por uma porção da melhor manteiga batida; dez por uma saca de maçãs; seis pelos danos causados ao pudim que eu havia guardado para os festejos do Yule. Ah, e o pão, naturalmente. Digamos vinte. Mais a aflição e a perturbação… Digamos, uns cem redondos.

Heimdall apertou seus olhos ainda mais. Aqueles pássaros três vezes malditos estavam ficando mais do que problemáticos. E a julgar pelos sons que ele tinha ouvido ao tentar pegar no sono, vindos por trás do celeiro, deduzia que logo seria solicitado a pagar pelos danos causados aos outrora ocupantes de um galinheiro por três lobos-demônios e uma águia do mar.

Será que eles pensavam que ele era feito de dinheiro? Heimdall perguntou a si mesmo queixosamente. Mesmo com a runa Fé, dinheiro não era algo que ele podia apanhar do meio do ar sem sérias consequências à sua força magnética, e a Cidade Universal ainda estava a uma longa distância. Dentro de apenas sete dias, uma coisa grande ia acontecer em Fim de Mundo, e se ele houvesse interpretado os sinais corretamente, aquele era um acontecimento para o qual nenhum deles podia dar-se ao luxo de chegar atrasado.

Pela primeira vez em sua vida Heimdall começou a lamentar a ausência de Loki, cuja língua de azougue e frases violentas teriam feito pouco de seu problema.

– Aqui está o seu dinheiro, senhor – disse ele. – Agora, vai deixar-me dormir um pouco?

Como era de se prever, ele conseguiu dormir menos de uma hora até que o proprietário estivesse de volta outra vez. Saco de Açúcar, mais duende do que deus quando diante da perspectiva de uma bebida forte, havia se enfiado na adega, onde Jolly já estava esperando por ele, tendo entornado um barril inteiro de cerveja.

Isso havia resultado num bate-boca, liberalmente pontuado por garrafas de cerveja, que rapidamente levara a uma briga quando Jolly ficou ofendido por ser chamado de Baixinho e respondera dizendo que Açúcar era gordo.

A esta altura o proprietário havia chamado Frederick Law, que, entrando na cena do crime, havia encontrado os dois infratores estendidos, cegos de bebedeira, junto a uma silenciosa poça de cerveja derramada. Ele os carregara para a prisão local; depois retornara com o sr. Mountjoy para assegurar que Heimdall fosse devidamente informado.

– Porque o estatuto dezenove das Leis do Município claramente decreta – disse o homem da lei – que um homem deve assumir responsabilidade pelos atos de seus subordinados, incluindo os danos causados pelos sujeitos, e se estes dois anões pertencem ao senhor, como sou levado a crer… – Ele parou para olhar analiticamente para Heimdall.

– Sim?

– É só que não vemos muitos anões por aqui, senhor. Que espécie de negócio o traz a estas partes, exatamente?

Heimdall tomou um fôlego profundo.

– São duas da madrugada. – Ele chiou. – Acorde-me às nove. – A resposta apenas confirmou as suspeitas de Fred Law de que o sujeito com dentes dourados e armadura elegante era alguma espécie de senhor de guerra das Regiões Selvagens sem qualquer respeito pela propriedade ou pela Lei; e assim ele convocou seus guardas e colocou-os para vigiar a Lua e Estrelas, precavendo-se para o caso de o grupo decidir desmontar as barracas e partir sem pagar as contas.

Este foi o motivo pelo qual naquela manhã, às quatro horas, quando Njörd e Skadi deixaram o celeiro para penetrar num lugar mais distante para caçar, a primeira coisa que viram foi um grupo de guardas do Povo, armados com lanças e bestas, abrigados na varanda da taverna olhando-os com espanto.

A primeira coisa que o homem da lei fez foi ir reclamar com Heimdall novamente, o que deixou o Vigilante sem outra escolha senão ordenar ao seu gado que voltasse ao celeiro – agora fechado com um cadeado – e esperar que nada mais acontecesse.

Seu otimismo – fosse como fosse – teve vida curta. Ele foi acordado mais uma vez (desta vez no amanhecer) pelo som de vozes alteradas. Levantando-se depressa para descobrir a causa da agitação, encontrou a guarda toda reunida na menor das duas salas de jantar da taverna, onde Freya, incapaz de resistir à tentação de se exibir, estava sendo alvo da corte – em Aspecto – de uma dúzia de ruidosos admiradores. Enquanto isso, na sala de jantar maior, Thor estava comendo um assado de boi inteiro, Frey atacava uma costela de vaca, Sif protestava em altos brados em frente a um prato de salsichas, Bragi e Idun estavam cantando um dueto e Ethel estava calmamente embebendo biscoitos no chá enquanto o Inferno todo estava às soltas na porta ao lado.

– Acho que estamos tendo um pequeno problema.

– Ah, deuses – disse Heimdall.

A cena na sala de jantar menor já estava muito além de desastrosa. O Povo era fácil de encantar. A deusa do desejo tinha-os todos competindo ridiculamente por seus encantos: olhos e narizes haviam ficado escurecidos e machucados; peças de mobília tinham sido reviradas no tumulto promovido ao disputar sua atenção.

Um sujeito se estendia aos seus pés como um cão; outro se apressava em lhe levar um copo de vinho; vários haviam tentado escrever poesia, com resultados verdadeiramente medonhos; e até Fred Law e o sr. Mountjoy sorriam como tolos enquanto Freya – toda vestida de branco, a marca de runa cintilando como ouro da guiné contra o ombro nu, e o longo cabelo ruivo se derramando pelas costas como alguma espécie de fabuloso véu de noiva – os olhava através de cílios pudicamente rebaixados e sorria como a lâmina de uma faca dourada.

O Vigilante imediatamente expulsou o feitiço lançando a runa Fé revertida.

Freya, em Aspecto humano, bateu os pés.

– Você! – Ela cuspiu em Heimdall. – Você sempre tem que estragar as coisas!

Heimdall lançou um olhar conciliador.

– Você não se dá o respeito, senhora – falou ele.

– Não me chame de senhora, seu desmancha-prazeres! Eu estava me divertindo até você chegar! Por que você não me tranca no celeiro com os outros? Ou com Sif no chiqueiro…?

– Sif não está no chiqueiro – protestou Heimdall, olhando inquieto de relance para o homem da lei.

– Bem, talvez seja porque ela tenha Thor para protegê-la. Eu estou completamente sozinha no mundo… – Ela secou os olhos com seu lenço de mão. – Eu não tenho ninguém em absoluto para tomar conta de mim…

– Pare com isso! – disse Heimdall rapidamente, vendo a expressão vidrada, adoradora, retornar aos olhos dos homens da guarda. Ele deu passos firmes em direção a Freya e carregou-a para o fundo da sala. – Nós estávamos tentando passar despercebidos! – sussurrou ele no ouvido da deusa. – E até aqui, o deus da guerra está na prisão, bem como seu martelo Mjolnir. Skadi e Njörd estão trancafiados no celeiro com aquilo a que o taverneiro humoristicamente se refere como “nosso gado”. Demais para os nossos “aliados”. Tudo que me falta agora é a Bruxa da Floresta de Ferro aparecer e… – Ele parou para tomar novo fôlego e, bem nesse momento, viu Angrboda descendo pelas escadas, discretamente trajada em botas de cano alto, um colete de peles e escamas de dragão, e soltou um gemido audível de desespero.

– Por que eu? Por que eu?

Fred Law lançou-lhe um olhar precavido.

– Pergunto-me se pode me reservar alguns momentos, senhor? Mas antes de irem embora, eu preciso saber de seu negócio e de seus planos…

Meu negócio é só salvar os Mundos, Heimdall pensou. Como se tudo fosse assim tão fácil!

Nos bons velhos dias da Era Antiga, ele teria simplesmente usado um feitiço ou dois para submeter o homem à sua vontade. Mesmo agora, ele sabia que entre si os deuses tinham força magnética mais do que suficiente para derrotar uma guarda do Povo. Por outro lado, eles podiam mesmo se dar ao luxo de alarmar cada homem da lei daquele lado do Hindarfell com suas presenças? Podiam lutar com o Povo por todo o trajeto até Fim de Mundo? E quanto tempo (e força magnética) isso iria custar?

Ele conseguiu esboçar um sorriso forçado e ergueu-o em direção ao homem da lei.

– Naturalmente – disse ele em meio a dentes travados. – Ficarei mais do que feliz em responder a todas as suas perguntas. Mas, primeiro, deixe-me pagar um café da manhã a todos vocês – ele fez uma carranca para Angrboda –, enquanto eu, ah, consulto minha colega aqui…

– Problemas? – perguntou Angie numa voz baixa quando Heimdall se aproximou dela.

– Percorremos dezoito milhas. Dezoito milhas! – gemeu o Vigilante em desespero. – Como iremos chegar a Fim de Mundo? Partimos há trinta e seis horas e mal saímos do vale!

Angie deu de ombros.

– Vocês precisam de Loki.

Heimdall, que havia alimentado exatamente o mesmo pensamento, soltou então um uivo de frustração.

– Não!

– Eu não acho que vocês tenham escolha – disse Angie. – A menos que você possa pensar numa história plausível para explicar tudo isso ao homem da lei.

Heimdall lançou para Angie um olhar duro.

– Dado que você e sua ninhada de lobos são um tanto responsáveis por tudo isso, como você diz…

Angie se eriçou de indignação. Ela era despreocupada na maior parte do tempo, mas qualquer ataque aos seus filhos e ela voltava ao seu Aspecto da Floresta do Ferro: fria e sombria e letal.

– Não envolva Fenris nisso – falou ela numa voz baixa e ameaçadora.

– Por que não? – questionou Heimdall – Você envolveu.

– Porque nós precisamos dele – afirmou ela. – De Fenris, e dos Garotos Lobos.

– Precisamos deles para quê? – gritou Heimdall. – Tudo que eles fizeram até aqui foi comer e nos meter em encrencas! E agora você está sugerindo Loki. Loki, cujo nome do meio é Problema, como o melhor meio de resolver nossos problemas?

A Vidente, que havia observado a cena da soleira da porta da sala de jantar maior, olhou para Heimdall com simpatia.

– Talvez Angie esteja certa – disse ela. – Talvez nós realmente precisemos de Loki.

– Mas não temos ideia de onde ele está… – balbuciou Heimdall queixosamente.

– Bem, engraçado você dizer isso – comentou ela. – Na verdade, eu sei exatamente onde encontrá-lo.

– Onde? – perguntou Heimdall, os olhos brilhando.

– Ele está numa caverna nos Adormecidos – revelou ela. – E acho que neste momento ele ficará mais do que feliz em cooperar.

Heimdall levou um momento para pensar.

– Mas se você sabia onde ele estava o tempo todo…

– Eu o queria vivo – disse Ethel. – Pelo jeito que vocês falaram ontem, o teriam linchado antes que ele pudesse abrir a boca.

Heimdall começou a protestar contra isso, depois decidiu não o fazer.

– Então você realmente acha que podemos confiar nele? – perguntou ele.

– Confiar nele? Claro que não. – Ethel sorriu. – É de Loki que estamos falando. Ele é um mentiroso, covarde, trapaceiro e muito provavelmente um traidor também. Mas diante de uma situação como esta a quem Odin teria recorrido?

Heimdall rosnou.

– Odin não está aqui.

– Mais uma razão para fazer o que eu digo.

E foi por isso que, alguns minutos depois, um falcão pôde ser visto com suas asas partindo do Hindarfell, sua assinatura de um berrante azul percorrendo o nebuloso céu invernal da aurora. Ele pousou cerca de trinta minutos depois numa grande pedra do lado de fora da caverna que Ethel havia descrito para Heimdall.

Loki, percebendo sua aproximação, sentiu uma onda de esperança desesperada. Ele sabia o que aquela visita significava. Ou os deuses queriam-no morto ou tinham um trabalho para ele. Ele olhou para o adorado rosto de Sigyn (ela estava aos seus pés, tocando a harpa) e tentou reprimir um estremecimento. As duas opções, ele disse a si mesmo, viriam como libertação.