Luz das Runas
Capítulo 6
Enquanto isso Nan e o Cavalo do Ar estavam deslizando sobre os domínios de Hel. Não era a primeira vez que Nan via o Inferno – a Louca Nan estava acostumada aos mundos nas cercanias do Sonho e passara muito tempo de sua vida ali. Desde a infância, desperta ou adormecida, ela sempre se sentira mais à vontade no Sonho que em qualquer outra parte, razão pela qual as pessoas sempre a chamavam de louca e evitavam a sua companhia.
Alguns até acreditavam (Nat Parson entre eles) que suas viagens através do Sonho haviam roubado tanto a sua alma quanto a sua sanidade; e tinham-na convocado para ser Examinada; mas a despeito da marca de runa em sua testa – uma mal reconhecível corrupção da runa Fé –
Nan não mostrava nenhum outro sinal de possessão, e assim a missão foi abandonada. Afinal, Nan Fey tinha suas utilidades. Ela era uma excelente parteira; tinha um jeito especial para lidar com ervas medicinais; e para os poucos como Maddy Smith que ouviam suas histórias, era uma fonte de velhas fábulas, cantigas e folclores meio esquecidos.
Agora Nan pairava sobre o Inferno e se perguntava o que devia fazer para realizar o melhor. Ela havia fracassado em trazer de volta o Velho Homem, o que era um problema, mas não um problema insuperável. Odin de Um Olho tinha um jeito especial para lidar com problemas. Além disso, onde quer que estivesse, estava melhor lá do que flutuando no Sonho como uma rolha, esperando pelo Caos abocanhá-lo.
Ela resolveu voltar para Malbry. Já havia passado tempo longo demais no Sonho, onde o Tempo funciona de um modo um tanto diferente daquele que funciona nos outros Mundos, e havia em casa preocupações mais urgentes do que ficar ruminando sobre o Velho Homem. Seus passarinhos iriam lhe dizer o que fazer a seguir. Mas com os deuses tendo partido para Fim de Mundo, a situação na Colina do Cavalo Vermelho estava atingindo um ponto bem avançado de crise, sem ninguém lá para lidar com isso exceto a própria Nan – e, naturalmente, Epona. Como exatamente uma mulher idosa e uma cesta de roupa para lavar poderiam ser capazes de tapar uma brecha no Sonho que nem os Æsir nem os Vanir haviam conseguido fechar nos últimos três anos, ou lidar com a nuvem de sonho que até agora se espalhava velozmente em direção a Malbry, reduzindo tudo que tocava a fragmentos de cinzas brilhantes, Nan ainda não sabia. Mas o Cavaleiro cujo nome era Loucura tinha o otimismo de um lunático, acreditando que havia sempre um jeito; de modo que ela prontamente pressionou o Cavalo do Ar de volta aos Mundos da vigília.
Algum tempo depois ela estava acordada e sentada em sua cesta de roupa para lavar como havia estado quando partira para sua jornada extraordinária; se não fosse pelo fato de naquele momento ser noite alta e o fogo da cozinha estar apagado, misturado à rigidez em suas velhas pernas e à acidez na boca de seu estômago, ela podia quase pensar que não havia passado tempo algum desde que ela e o Cavalo do Ar haviam desaparecido sobre Malbry.
E falando do Cavalo do Ar…
Nan saltou da cesta e olhou pela sua janela. No jardim Epona estava pastando a grama congelada junto à porta, embora agora seu Aspecto houvesse mudado para o de uma égua branca um tanto velha com um olho leitoso e outro escuro, que cintilaram vergonhosamente sobre Nan à luz da lua, como se o velho Cavalo não quisesse outra coisa a não ser provocar problemas de uma forma ou de outra.
Nan foi para o ar livre. Estava cheio de neve, é claro. Delicadamente, ela afagou a crina da égua e tirou um torrão de açúcar do bolso de seu avental. Epona aceitou o torrão com um ronco guloso e balançou a cabeça, querendo mais.
– Esta é uma boa velhinha – disse Nan. – Você fez muito bem. Descanse agora, enquanto eu alimento os gatos.
Os gatos de Nan eram em maioria selvagens, embora alguns deles se aventurassem pelo interior da casa. Manter um gato por qualquer outro propósito que não apanhar ratos não era uma prática comum em Malbry, e muitos dos aldeões tomavam esta pequena fraqueza de Nan como uma prova a mais de sua excentricidade. Nan gostava de seus gatos, contudo, e sempre os alimentava às cinco e meia toda tarde, hora em que todos se juntavam do lado de fora da casinha e erguiam um coro suplicante.
Naquele dia Nan estava bastante atrasada. A luz havia brilhado por horas a fio e o coro de miados havia crescido até um gemido. Ela correra para fora com seu balde de restos de comida para ser saudada por mais de uma dúzia de gatos – malhados e ondulados e de pelagem preta e branca – coleando entre seus pés e pernas e ronronando alta e ansiosamente. Tão ruidoso era esse ronronar coletivo que Nan quase não percebeu o som da brecha entre os Mundos, agora avolumado até se parecer ao som de uma cachoeira durante o degelo da primavera, e quando ela finalmente o ouviu, ficou chocada por quanto sua voz havia crescido durante sua ausência de poucas horas.
Ela deixou uma panela de pão com leite para os gatos e correu para a estrada de Malbry. A aldeia ficava a alguns quilômetros de distância – tão longe que num dia tranquilo Nan podia distinguir o som dos sinos da igreja –, mas naquela noite o som da brecha no Sonho estava muito claramente audível, o que significava, Nan pensou, que em sua ausência a nuvem de sonho havia se arrastado visivelmente para mais perto da aldeia; naquele ritmo, dentro de uma semana ou menos ela estaria à soleira das portas dos aldeões. Se olhasse com bastante força podia vê-la também, serpenteando contra o céu estrelado como a Serpente com o rabo na boca, preparada para devorar a si mesma.
– Ah, minhas Leis! – disse a Louca Nan.
Crauk, uma voz soou por trás dela.
Ela se virou e viu um corvo empoleirando no mourão da cerca. Ela o reconheceu como um dos passarinhos do Velho Homem – o menor, com a cabeça branca –, e enfiou a mão no bolso de seu avental para pegar outro torrão de açúcar. Ela o lançou para o corvo; Mandy apanhou-o no bico e transferiu-o imediatamente para suas garras, girando-o habilmente, como um quebra-cabeça que estivesse tentando solucionar.
Nan sorriu.
– Aí está você. Eu acho que já o vi faz pouco tempo. Calculo que já saiba das notícias sobre o Velho Homem?
Ack. O corvo bicou o torrão de açúcar. Ack. Ack.
– Ataque – traduziu Nan.
Crauk. Ele terminou de comer o torrão.
– Bol.
– Eu não tenho bolo nenhum – disse Nan. – Você me deixou sem nenhum da última vez, realmente.
Esp. Esp. Disse o corvo.
– Arre, espere! – falou Nan. – Você quer que eu espere.
Im, disse o pássaro.
Nan franziu o cenho. Os passarinhos do Velho Homem nunca haviam sido algo que você pudesse considerar fácil de lidar. O grande, Hughie, conversava muito bem, mas raramente dizia alguma coisa útil. O menor era melhor para carregar e lembrar mensagens, mas tendia a achar difícil falar. Agora ele saltava de seu poleiro e bicava energicamente no chão congelado.
– Esperar – repetiu Nan. – Quanto tempo?
O corvo crocitou outra vez. Mais uma vez bicou no chão frio. Mas desta vez seu bico deixou uma marca na neve – uma marca que ficou ressaltada à luz da lua.
– O que é isso? Uma pequena força magnética? – disse Nan.
Im.Im.Im.
Isso parecia ser tudo que o pássaro tinha para dizer. Depois de vários minutos de bicadas no chão, de gritos lancinantes, de empinar e descer, de pular sobre o mourão da cerca e retornar, Mandy finalmente pareceu perder o ânimo e, com um crauk final acusador, bateu as asas e desapareceu no céu.
Nan analisou a marca sobre a neve. Ela com certeza parecia uma pequena força magnética. Uma do Novo Manuscrito, provavelmente; embora como ela pudesse usá-la, só os deuses soubessem.
Ainda assim, o Velho Homem acharia um jeito. Ele sempre achava, ela disse a si mesma. Fosse como fosse, onde quer que estivesse, ele estava onde queria estar. E se os passarinhos lhe tinham dito para esperar, então esperar era tudo que ela tinha a fazer.
E assim o Terceiro Cavaleiro voltou para dentro da casa e fez para si mesmo um bule de chá, enquanto Epona pastava a grama no quintal, e na estrada que partia da Colina do Cavalo Vermelho a serpente da névoa se aproximava cada vez mais, dissolvendo tudo que havia pelo seu caminho em substância de sonhos.