Luz das Runas
Capítulo 5
Perth morava num pequeno e estreito iate junto às docas, num bairro conhecido como Ratos D’Água, um lugar onde os pescadores negociavam suas mercadorias. Foi sorte para Maddy que ele morasse ali, pois ela logo havia percebido que Jormungand, mesmo sob o Aspecto de Cavalo, precisava de mais que feno para se alimentar.
No seu primeiríssimo dia em Fim de Mundo, o Cavalo do Mar havia, como quem não quer nada, mascado meia dúzia de lagostas, um balde de camarões, um barril de arenques salgados e um bacalhau fresco inteirinho em seu caminho, antes que Maddy pudesse impedi-lo, e agora estava com ordens expressas para permanecer sob o calçadão, preferivelmente em um de seus menores Aspectos, e para se alimentar apenas à noite, bem longe de olhares curiosos.
A insinuação de Perth de que um cavalo comedor de peixe ajudaria a atrair os empurradores de barcos foi recusada por Maddy, cuja primeira impressão dele fora apenas reforçada quando o vira em ação. Perth conseguia vender qualquer coisa – desde pedaços de pedra a sacos de batatas – e, se fossem itens roubados, ainda melhor. Ele tampouco tinha escrúpulos quanto a bater carteiras de seus fregueses quando partiam, e Maddy, tentando garantir que nenhum deles atraísse o tipo errado de atenção, achou a tarefa mais e mais difícil.
Depois de cinco dias em Fim de Mundo, Maddy estava se sentindo desesperada. De acordo com a Vidente, o Fim dos Mundos seria dentro de um prazo de quatro dias, e ainda não havia sinal algum tanto do Velho Homem, quanto de Maggie, ou mesmo dos corvos de Odin, que seriam capazes de guiá-los na direção certa. Jorgi estava pior que inútil; ficando indolente sob o calçadão de dia, caçando focas e lagostas à noite, não mostrava sinal de lucidez, nem qualquer inclinação para ajudar, e a frustração de Maddy cresceu até que mal conseguia comer ou dormir, a fim de não perder alguma pista vital para os problemas que escapavam dela.
À noite ela andava de lá para cá. Mordia os punhos. Anotava a profecia de Ethel e a estudava interminavelmente. Ela até mesmo lançava suas runas e tentava ler seu futuro, mas as pedras se mantinham teimosamente caídas de cara para baixo, de modo que finalmente ela as deixou de lado, pensando um tanto se tudo isso – Perth, Maggie, sua fuga para Fim de Mundo, Jormungand, todos os acontecimentos dos últimos três anos – não havia sido simplesmente um sonho terrível, do qual ela podia esperar despertar a qualquer momento para descobrir que Odin não estava morto, que Maggie não era sua irmã e que o Apocalipse profetizado pela Vidente era simplesmente um capítulo num conto de fadas ainda não escrito, para ser relatado em torno de uma fogueira de acampamento para netos também ainda não nascidos.
Infelizmente, não era sonho algum; Maddy estava quase pronta para desistir de ter esperanças e para se juntar aos seus amigos quando aconteceu uma coisa que lhe fez mudar de ideia.
Era dia de feira de peixe em Ratos D’Água. Havia quatro dessas feiras toda semana – uma para peixes, outra para tecidos, outra para flores, outra para frutas e legumes. Perth estava ajudando numa barraca, vendendo arenque em conserva (e surrupiando uma bolsa ou outra, apenas para não perder a prática). Jorgi estava sob o calçadão como de hábito, abocanhando tudo que calhasse de passar pelo seu caminho. E Maddy, com seu rosto envolto num xale (para tentar abafar o cheiro de peixe), estava sentada observando o povo passar e sentindo-se quase sonolenta com o barulho e o zumbido da multidão de dia de feira.
De repente ela ficou consciente de que uma mulherzinha rechonchuda estava olhando para ela. A mulher, usando um bergha negro, havia passado com um pouco de eglefim na cesta. Agora havia parado no meio do caminho e encarado Maddy com persistência tão furiosa que fora arrancada de seu devaneio.
– Então, minha senhora! – disse a mulher. – Foi aí que você terminou! Misturando-se com os Ratos D’Água. Eu devia ter sabido! Há! – E deu uma pequena fungada desdenhosa, fazendo o sinal bifurcado contra o olho maligno.
– Sinto muito, conheço a senhora? – perguntou Maddy.
– Me conhece? – retrucou a mulher. – Eu pensaria que sim, sua coisinha descarada. Pensa que eu não lhe conheço, Maggie Rede?
A fadiga de Maddy sumiu imediatamente.
– Como a senhora me chamou?
– Eu lhe chamei pelo seu nome, Maggie Rede – disse com veemência a mulherzinha rechonchuda. – Você pode esconder sua cabeça debaixo de um xale agora, mas eu sei o que está escondendo.
Maddy afastou o xale, mostrando deliberadamente seu rosto. Seu longo cabelo ondulado se derramou sobre os ombros.
Os olhos da pequena mulher se arregalaram.
– O quê? Seu cabelo… – Ela vacilou. – Era… como pôde…? – Depois ela parou, esfregou seus olhos e, com um esforço, disse: – Peço desculpas. Foi engano meu.
– A senhora pensou que eu era outra pessoa? – perguntou Maddy, tentando ocultar sua empolgação. Obviamente esta mulher conhecia Maggie Rede. Talvez ela até soubesse onde ela se encontrava.
Ela invocou um feitiço de runa disfarçadamente. A Logr de língua prateada e sedutora tomou forma entre seus dedos.
– Sinto, sra… como é mesmo?
– Blackmore – disse a mulher, ainda parecendo perplexa. – Sra. Blackmore, se posso lhe ser útil, senhorita, e, peço desculpas, mas você é ela sem tirar nem pôr…
– Essa Maggie Rede. Quem é ela? E o que ela fez exatamente?
E sob o encantamento entorpecedor da Logr, a sra. Blackmore contou sua história: como ela havia acolhido a garota miserável, dando-lhe um lar decente, alimentando-a, vestindo-a, tentando criá-la apropriadamente; só para ser recompensada com o Desregramento, a ingratidão e a falsidade. Terminou contando a Maddy como a garota fora à sua casa uma manhã, havendo permanecido fora a noite toda, com o cabelo podado como o de uma selvagem e aquela terrível marca de runa em sua nuca – e com um homem jovem, nada menos, a reboque; um homem jovem com olhos iguais aos de um demônio.
Mas aí o conhecimento da sra. Blackmore acabava. Ela não podia nem dizer quem o jovem era, nem para onde o par havia fugido; e finalmente Maddy lhe deixara ir embora, sentindo-se ao mesmo tempo animada por ter finalmente notícia de sua irmã, mas desanimada de que esta trilha tão promissora houvesse se revelado um beco sem saída, uma luz fugazmente vislumbrada e logo depois perdida na escuridão.