Luz das Runas
Capítulo 13
Parece um afogamento, Loki tinha dito. Um afogamento num mar de sonhos perdidos. Agora Maddy realmente sabia o que ele queria dizer: sem Jorgi para mantê-la flutuando, ela foi tombada e revirada de um lado para outro como uma trouxa de roupas levada pela maré. Acima dela, a sombra do pássaro negro, equilibrada como as velas de um navio letal; abaixo dela, a multiplicidade do Sonho, em toda a sua confusão e esplendor.
Por que ainda estou viva?, pensou ela. O que o Caos quer de mim?
A resposta veio quase imediatamente – embora não em palavras, naturalmente. Palavras são a linguagem da Ordem; mas no Caos a linguagem é apenas a das sensações; indizível; incorruptível. Para Maddy, pareceu como mergulhar numa poça de água congelada; cada nervo, cada sentido, cada parte sua imergiu nessa percepção, de tal modo que a linguagem falada pareceu desajeitada em comparação, quando os dedos inteligentes do Caos viraram-na e reviraram-na, desemaranhando seus pensamentos secretos como uma roca carregada de lã.
A presença que fazia isso era algo que não se comparava a qualquer outra criatura da experiência de Maddy. Ela sentia sua curiosidade, sua estranheza, sua cautela. Sua fúria era esmagadora; e ainda assim era uma fúria impessoal, como a das tempestades e dos terremotos, não contaminada por contato com os Faërie ou com o Povo; fria; remota; implacável.
Sonharsonharsonhosonho… Não havia palavras na voz da presença; apenas um zumbido de estática consciente, uma coisa parecida a um enxame de abelhas. Dormirdormir talvezsonhar… Ainda girando-a de cá para lá; desembrulhando-a como um pacote…
O que você quer?, Maddy tentou dizer.
Sonhosonhosonhar. Sonho. O zumbido de estática se intensificou, pressionando-a a se render. Ela começou a sentir sua mente ceder; seu subconsciente começou a se desvelar. O melhor meio de se conhecer um inimigo é entender seus sonhos, ela pensou; e com esta percepção (que veio numa explosão de lembranças: dela mesma aos quatro anos, sobre a Colina do Cavalo Vermelho, dormindo e sonhando com duendes) veio um súbito entendimento: o Caos estava tentando penetrar em sua mente, não da maneira que o Murmurador tentara, pela força da personalidade, mas por um processo de inspeção íntima e análise lenta que, quando completo, faria cederem não apenas as defesas de Asgard, mas os processos interiores daqueles que a tinham construído…
Ele não sabe, Maddy pensou. Ele não sabe o quão impotentes somos…
Ela ocultou o pensamento o melhor que pôde dentro de outra lembrança – um sonho de correr pelas florestas de quatro, como um lobo caçador. Uma lua fantasmagórica cabriolava lá no alto; a terra era fragrante sob seus pés. Maddy levantou sua cabeça e uivou…
Ao longe, outro uivo pareceu responder ao chamado de Maddy. Soou familiar – não parte do sonho – e seu coração deu uma guinada de surpresa e esperança.
Fenris? Fenny? É você?
O chamado veio novamente, de tão longe que ela mal podia ouvi-lo. A estática em sua mente aumentou – sonhosonhosonhoSONHO – até que tudo que Maddy quis foi mergulhar sob a sombra do pássaro negro e não sentir mais nada…
Sonhe. Sonhe com Asgard. Sonhe… E então sentiu sua mente se partindo, deixando seus segredos caírem como pétalas de uma rosa soprada. Ali estava o portal de Asgard, com sua fileira dupla de pilares. Ali estava um pomar de cerejeiras, as pétalas espalhadas ao vento. Ali estava uma torre, ali estava um lago; e Maddy pôde senti-los dissolvendo-se ao longe quando o Caos reclamou o que ela havia roubado. Ela tentou manter o que era mais caro para si oculto no mais íntimo de seu coração, mas, mesmo assim, não demoraria até que o caos houvesse se apoderado de tudo.
Eles tinham estado perto… tão perto! Mas era certamente o fim da linha. Ela sentia sua mente soltando tudo, como um homem que se segurasse num galho alto, perdendo seu apoio, um dedo de cada vez. Logo não restaria mais nada. Nada além do esquecimento. Isso era realmente tão ruim?
Aqui o sorriso de um velho amigo. Ali a sombra de uma rosa. Runas, feitiços, lembranças; tudo dissolvido como fumaça, deixando nada além de escuridão. Adeus, Saco de Açúcar, ela pensou. Adeus, Jed Smith. Adeus, Mae, adeus, Nan, adeus, Malbry e Colina do Cavalo Vermelho. E Maggie, minha irmã, onde quer que você esteja, eu gostaria de tê-la conhecido melhor…
E, então, por trás dela, veio um som como a batida de asas gigantescas. Acabou, ela pensou com uma espécie de alívio. Acabaram as lutas. Acabou a perda. Sinto muito, Odin, Perth, meu velho amigo, mas isto é o máximo que posso fazer…
Finalmente a sombra do pássaro negro baixou mais uma vez. Maddy nem mesmo ergueu os olhos. Por que se dar ao trabalho de olhar? Não havia lugar algum para ir. Ela fechou seus olhos e tentou se agarrar àqueles derradeiros fragmentos de memória:
O cheiro das fogueiras em tempo de outono. Um jovem de cabelos ruivos chamado Lucky. Um viajante com sua mala de viagem. Gansos selvagens sobre as montanhas. Um vulto – uma mancha – sobre sua mão que significava de algum modo alguma coisa importante…
Maddy ouviu um som impetuoso e abriu os olhos com assombro. Alguém disse: Ah, não, não faça isso – e uma coisa dura socou suas costas, afastando-a da sombra do pássaro negro bem quando ele roçou o calcanhar de sua bota…
E agora ela estava se arremessando para fora da nuvem de sombra numa velocidade que até Jormungand teria achado difícil de emparelhar. Instintivamente, ela se pendurou na crina da criatura que a tinha resgatado. Era Sleipnir, ela se lembrou; o nome do cavalo era Sleipnir. E em seu lombo estavam os corvos, Hughie, Mandy e…
Maggie?
Maggie lançou-lhe um olhar de esguelha no qual Maddy leu tanta raiva quanto uma espécie de orgulho rancoroso.
– O que pelos Mundos você estava fazendo? – perguntou Maggie. – O que você achava que podia fazer aqui sozinha?
Maddy deu de ombros.
– Eu não estava exatamente coberta de opções.
– Bem, você teve sorte. Sorte de eu ter chegado a tempo. – Ela olhou para Maddy novamente, e disse: – Você sabe que sua runa está invertida?
Maddy fez um sinal positivo.
– Eu sei – disse ela.
– Pff… – fez Maggie com desprezo quando, com uma esticada gigantesca de suas patas aracnídeas, Sleipnir carregou-as para fora da nuvem. Acima delas, o Berço estava sacudindo como um barco a remo num vento forte, com os deuses – agora novamente em seus Aspectos humanos – baixando os olhos das ameias.
A Louca Nan viu Maddy e se animou.
– Eu sabia! – cacarejou ela. – Você conseguiu!
Perth se erguia junto a ela, com Hughie e Mandy, que tinham voado para juntar-se a ele assim que haviam saído da nuvem de sombra, empoleirados sobre seus ombros. Por trás dele, Loki – agora de volta ao Aspecto humano, e, portanto, trajando nada senão pele – ofereceu uma prece desesperada, blasfema, a qualquer um que pudesse se interessar: Por favor, não me deixe morrer deste jeito – pelado e casado, em nome dos deuses!
– Sonhe, Maddy, sonhe! – gritou ele.
A voz de Perth soou em apoio. Logo os outros estavam se juntando a ele, suas vozes se erguendo debilmente acima do som da sombra que se aproximava.
Maddy se virou para Maggie.
– Não consigo. Você tem que me ajudar!
Maggie fez que sim.
– Pegue minha mão.
Maddy pegou, e um disparo de força magnética passou entre as irmãs. Foi como ser atingido por um raio, Maddy pensou, quando ele a atingiu; ela tombou, meio cega, quando Ác, o Carvalho do Trovão, se iluminou como um relâmpago de verão.
Ao mesmo tempo Aesk, a Cinza do Relâmpago, se acendeu com súbita intensidade. Estava invertida, mas ainda brilhava; e então uma pequeníssima faísca de força magnética tomou forma na ponta de seus dedos. Não era bastante para construir uma ponte, ou erguer uma cidadela, mas talvez – só talvez – bastante para sonhar…
– Vamos, Maddy! Sonhe! – disse Thor, encostando-se às ameias.
– Você pode fazer isso, querida! – encorajou Sif.
Maddy fechou os olhos e sonhou. Ao seu lado, Maggie fez o mesmo. Seus sonhos eram estranhamente parecidos, se ambas os conhecessem. Ambas sonharam com os lugares que tinham amado – Maddy com a Floresta do Pequeno Urso na primavera; Maggie com suas catacumbas. Ambas sonharam com amigos ausentes: Maddy recordou Saco de Açúcar; Maggie, Adam Scattergood. E ambas sonharam com o Interior – suas pequenas cercas vivas e estradas sinuosas; fazendas e feiras; cidades e aldeias e, mais especialmente, com o Povo…
Nada que foi sonhado está para sempre perdido, pensou Maddy, abrindo seus olhos quando, saindo da nuvem de sombra, surgiu uma coisa escura e faminta e enorme – não a sombra de um pássaro negro, mas…
– Fenny! – gritaram Caveira e Grande H, dançando no parapeito. – Ué, homem, nós pensamos que você estava morto!
Fenny ainda estava em seu Aspecto de Devorador, os caninos arreganhados, os olhos flamejantes. Ele saltou sobre o parapeito, depois se virou para a sombra do pássaro negro que agora estava mergulhando da nuvem de sombra, e abriu suas mandíbulas num rosnado silencioso.
– Faça-o, Maddy! Faça-o agora! – grunhiu ele, olhando fixamente para o Destruidor.
E então Maddy juntou sua última faísca de força magnética, estendeu as mãos para apanhar seus derradeiros fragmentos de Sonho, e arremessou-os sobre a Cidadela com cada partícula de força que possuía. Maggie juntou sua força magnética à de Maddy, e por um momento o Carvalho e a Cinza ergueram-se debaixo do Berço.
Será suficiente?, Maddy pensou. Ou será um pouco tarde demais?
Ela voltou a olhar para sua irmã. O olhar de Maggie estava fixado num ponto em algum lugar acima da Cidadela, e seu rosto estava distorcido pela concentração. A luz prateada de Ác, o Carvalho, emitia listras e clarões de seu corpo, disparando da ponta de seus dedos, de seus olhos, até das pontas de seus cabelos. Mas havia ali alguma coisa a mais, Maddy viu: Ác não estava mais sozinha. Outra assinatura estava ali, quase oculta dentro da luz, um filamento de rosa-choque, como uma larva nos olhos de um bebê…
E então surgiu um súbito clarão de luzes do norte sobre Asgard. O Berço inteiro brilhou com uma luz tão luminosa que quase a cegou. Uma explosão de música o acompanhou: a guitarra de Bragi voltou a ficar afinada, e ele já estava celebrando.
Acima da Cidadela, Jormungand traçou um arco de vitória.
A Louca Nan dançou uma pequena jiga.
Hugin e Munin fizeram círculos e pairaram, crocitando um para o outro.
Heimdall pegou sua luneta para examinar a nuvem de sombra. Pensou que já conseguia ver uma mudança: um mísero indício de translucência. Podia ter sido um desejo otimista ilusório, naturalmente, não fosse o fato de a nuvem ter parado de avançar; ela simplesmente ficou no lugar, com uma expressão ameaçadora, a menos de sete metros dos portais de Asgard.
No parapeito, um por um, os deuses sentiram seus Aspectos primários retornarem. Loki se flagrou totalmente vestido, com a runa Kaen (não mais invertida) emitindo o brilho de sua assinatura. Odin, com suas runas restauradas, esticou-se até a sua estatura plena. Thor disparou o Mjolnir sobre a nuvem; o pássaro negro vacilou e parou.
Eles sentiram sua confusão.
– O que é isso? – Seu triunfo se dissolvendo em desgosto.
Mais uma vez Thor golpeou com o Mjolnir. Seu clarão transformou a nuvem de sombra num roxo empoeirado, inchado. A sombra do pássaro negro começou a recuar, a chama das asas mudando de cor para combinar.
– O que está acontecendo? – perguntou Maggie.
Maddy balançou a cabeça.
– Eu acho que, quando terminamos o Berço, não estávamos apenas construindo uma fortaleza. Estávamos tentando restabelecer a Ordem nos Nove Mundos. Nós refizemos o Primeiro Mundo, onde os Æsir podem retomar seus Aspectos e expulsar as sombras do Caos…
Maggie olhou para o pássaro negro. Ele estava quase desaparecido, exceto pela ponta de uma asa. Fenris, em seu Aspecto Devorador horrível de se ver, deu uma estocada na ponta da asa. Houve um som de coisa rasgada, dilacerada. O pássaro negro desapareceu dentro da nuvem.
– Eu acho que ele perdeu algumas penas – disse ela.
Maddy sorriu.
– Acho que perdeu mesmo.
Sleipnir estava se movendo mais rápido agora, preparado para levar as irmãs para casa. Fenris, rosnando, com as mandíbulas escancaradas, deu um último tapa na nuvem de sombra e saltou de volta para as ameias, seu Aspecto mudando do de um lobo-demônio para o de um jovem pálido em traje típico de Fim de Mundo, usando um brinco em formato de caveira.
– Fenny! Cara! – Os Irmãos Lobos estavam delirantes de felicidade. – Você dominou totalmente aquela coisa de sombra…
– Quero dizer, você foi tipo como grr, uaurrr.
– Feroz!
– Sim! Totalmente feroz…
– Por que eles estão falando desse jeito? – perguntou Maggie, descendo do lombo de Sleipnir para o parapeito de Asgard.
Mas Maddy tinha outra coisa na cabeça. Ela deu um passo em direção ao Lobo Ferris, que já estava partindo para explorar sua nova sala em Asgard – como fora imaginada pelos Irmãos Lobos, e luxuriantemente decorada com caveiras (até onde os Irmãos Lobos entendiam, caveiras seriam a moda do futuro em termos de visual).
Ele a viu se aproximando.
– Ei, sim… – falou ele.
Maddy sabia o que aquilo significava.
– Você tem certeza? – perguntou ela numa voz apagada, pensando que ele talvez estivesse enganado, que Açúcar pudesse de algum modo ter sobrevivido, como Odin nas margens do Inferno. Ele era uma criatura dos Faërie, ela pensou. O Caos devia estar em seu sangue. E Fenris havia sobrevivido, afinal…
Fenny baixou os ombros.
– Tenho certeza – disse ele. – Ele se saiu muito bem para um novato, mesmo assim.
Maddy fez que sim. As lágrimas ardiam em suas pálpebras. Parecia tão difícil acreditar que Saco de Açúcar se fora de vez! A morte de Odin nas margens do Inferno a tinha deixado sob uma nuvem de aflição; mas a morte do pequeno duende se assemelhava a uma ferida na alma de Maddy. Talvez por Açúcar ter sido o elo final entre Asgard e Malbry; ou talvez simplesmente por causa de um duende acovardado do subsolo da Colina ter demonstrado a coragem de um elefante.
Nos portais de Asgard, a nuvem de sombra já estava começando a se afastar. Um pálido brilho no céu oriental havia começado a iluminar o horizonte. Um ventinho agitado começou a soprar; logo, Maddy pensou, todos os traços da nuvem de sombra seriam soprados para longe.
Maggie estava com os olhos postos em Fim de Mundo. Logo ele também estaria livre da nuvem. Os sobreviventes começariam a reconstruí-lo, por sua vez. Talvez desta vez uma cidade mais sábia, mais amável e mais feliz pudesse ser criada. Talvez desta vez eles acertassem.
De todos os lados à volta de Maddy vinham sons de celebração dos deuses. Enquanto a Ordem se restabelecia, todos os seus amigos haviam se apressado a explorar o que havia na nova Asgard. Construída com a memória e o Sonho, não era a mesma Cidadela do Céu original, embora, naturalmente, contivesse Aspectos daquela. Mas tinha também Aspectos de Fim de Mundo, incluindo a totalidade da Praça do Santo Sepulcro, a fonte e a catedral, bem como um trecho de Ratos D’Água (provavelmente sonhado por Perth); e Aspectos de Malbry, incluindo a Colina do Cavalo Vermelho no último verão e várias de suas casas, entre elas a Paróquia, que Ethel havia sonhado ligeiramente maior (e com o novo papel de parede que ela sempre planejara colocar).
Havia uma versão da forja de Jed Smith, transformada numa coisa um pouquinho maior, com uma série de quartos de vestir para Sif e uma grande e abobadada sala de banquete para quando os amigos de Thor aparecessem. Havia também uma câmara para Jolly, que, retendo seu Aspecto de duende, havia exigido um lugar só para si, não muito distante de Thor, mas bem suprido com fartura de cerveja e alguns pastéis, para quando quisesse beliscar.
Angie conseguiu sua própria sala, como lhe fora prometido, perto da Floresta de Ferro, que os Irmãos Lobos haviam trazido (ao menos em parte) e posicionado não longe do domínio de Skadi – um habitat natural para lobos.
Na verdade, todos os deuses e seus aliados haviam imaginado suas dependências ideais, o que significava que a nova Cidadela do Céu era uma estranha e colorida colcha de retalhos de montanhas e cavernas, torrinhas e túneis, fragmentos de cidade e refúgios rurais, tudo amontoado numa área que, se fosse forçada a obedecer às regras mais estritas de espaço e escala, podia cobrir, na melhor hipótese, alguns quilômetros quadrados.
Felizmente, as regras do Sonho são fluidas, bem como sua substância, e visto que Asgard fora construída com sonhos, todos tinham aquilo com que mais haviam sonhado. Bragi tinha uma sala de concertos; Idun, uma série de jardins e pequenos bosques. Heimdall tinha um farol; Skadi, um labirinto de cavernas. Njörd tinha uma sala submarina; Frey, uma sala de banquete; Freya, uma sala de espelhos. Nan tinha sua velha casinha, seus gatos, sua roca de fiar e Epona. E Perth (bem como seu esconderijo em Ratos D’Água) tinha a Universidade, agora ainda maior do que antes, com um campanário para seus corvos, um estúdio pessoal e uma biblioteca nos quais poderia se refugiar quando as responsabilidades do ofício ficassem muito exigentes.
Só duas pessoas não tinham sala: Maggie, porque tinha vindo tarde demais para contribuir com alguma coisa mais que força magnética; e Loki, que nunca tivera uma sala em Asgard para começar, e cuja energia havia se consumido toda na tentativa de quebrar o anel de Matrimônio.
Naturalmente, ele fracassara na tentativa, e agora se flagrava em frente ao lugar que Sigyn havia sonhado para ele. Este se parecia com a caverna junto aos Adormecidos, mas era ainda maior e mais prático, com uma plantação de repolhos à soleira da porta e um riacho que corria por trás dele. Era simples, alegre e modesto – na verdade, tudo que o Astuto mais desprezava – e, no entanto, havia nele algo de agradável, algo quase relaxante.
Ele deu uma olhada no Matrimônio sobre sua mão. Mesmo em Aspecto, ele não conseguia tirá-lo. Mas talvez pudesse conviver com aquilo.
Deu um passo em direção à porta. Sigyn estava sentada lá dentro, numa cadeira. Mais uma vez Loki pensou como ela era bonita. Seus longos cabelos castanhos caíam soltos sobre os ombros de seu vestido branco. Não era um pensamento típico, e podia tê-lo perturbado em circunstâncias diferentes, mas hoje ele estava se sentindo diferente. Mas, afinal, ele disse a si mesmo, não é sempre que você volta dos mortos, derrota Hel em seu próprio jogo, dá um pontapé no Pandemônio, e reconstrói Asgard, tudo num dia só…
Sigyn ergueu os olhos quando ele entrou.
– Queridinho – disse ela. – Por que demorou tanto? – Ela se ergueu e beijou-o na boca. A sensação era realmente muito agradável, ele pensou. Afinal, fazia quinhentos anos desde que alguém fizera alguma coisa com sua boca exceto mandá-la se fechar de uma vez por todas.
Ele fechou seus olhos. As mãos de Sigyn se juntaram em sua cintura e a pressionaram, e pela primeira vez em quase quinhentos anos o Astuto cedeu a uma coisa parecida ao…
Amor?
Então algo soou por trás deles e os olhos de Loki se arregalaram novamente.
Na soleira da porta, de mãos dadas, erguiam-se dois garotinhos – com a idade de três ou quatro anos, com cabelo ruivo luminoso e olhos de idêntico fogo verde. Loki reconheceu os garotos que vira no sonho que compartilhara com Sigyn; e, retrocedendo com seu pensamento há quinhentos anos, ele pensou em seus filhos, e como eles haviam morrido há tanto tempo, e como ele os vira nos domínios de Hel…
Eles nos mataram, eles tinham dito a ele naquele dia no Inferno. Eles nos mataram por sua causa.
Loki balançou a cabeça.
– Não. Eles morreram. Sig, isso é impossível.
Sigyn sorriu.
– Eles morreram – concordou ela. – Mas o Inferno estava aberto, a Guardiã fugiu e, além do mais, a profecia não dizia: Nada que foi sonhado se perde, e nada se perde para sempre?
Um pensamento terrível ocorreu a Loki.
– Você não acha que Balder pode estar de volta?
– Coisas mais estranhas têm acontecido.
Não pela primeira vez naquele dia longo e difícil, Loki estava se perdendo na procura de palavras.
– Então, agora sou pai outra vez? – perguntou ele. – Porque todos nós sabemos como isso funciona…
Sigyn riu.
– Queridinho – disse ela. – Você é tão negativo! Tem uma chance de recomeçar, com uma esposa que pensa de você o melhor possível, dois filhos lindos e o lar de seus sonhos… e fica todo passivo-agressivo com isso. Agora, entre e diga olá aos meninos, e eu vou começar a fazer o jantar.
A boca de Loki ficou subitamente seca. Perfeito, ele pensou. Parece perfeito.
– Bem, o que você está esperando?
– Er… tenho que dar uma verificada em Maddy – disse ele; e, mudando para o Aspecto de Falcão, como se Hel estivesse em seus calcanhares, voou do lar de seus sonhos com pouco mais que uma pontada de remorso, tendo concluído bem naquele momento que a perfeição não era mesmo seu estilo. Pousou cinco minutos depois junto a uma pequena e um tanto familiar parte do que uma vez fora a Pequena Floresta do Urso, onde Maddy estava sentada sozinha junto a uma árvore e soluçando como se seu coração fosse se arrebentar.
– O que houve? – indagou Loki, revertendo-se em seu Aspecto (naturalmente, totalmente vestido em Asgard).
Maddy desviou o rosto.
Loki sentou-se no chão musgoso.
– Você não vai para casa? – perguntou ele por fim.
– Esta é minha casa – disse Maddy, com um gesto indiferente. – Tudo que eu pude salvar, ao menos: a Colina do Cavalo Vermelho, e a Floresta do Pequeno Urso, e o bangalô do meu pai, e a Taberna dos Sete Adormecidos, e aquele engraçado ponto de encruzilhada na estrada para Farnley Tyas…
Loki deu de ombros.
– Cada um fica com o seu. Aparentemente, o meu é um lar dos sonhos. – Ele olhou para o Matrimônio sobre sua mão. – Eu vou construir um barraco para mim mesmo – disse ele com um sorriso repentino. – Preferivelmente em algum lugar bem distante…
Maddy deu um sorriso cansado.
– Não posso acreditar que Açúcar tenha morrido. Eu ainda meio que espero vê-lo, você sabe, espiando por detrás de uma árvore.
Loki sorriu.
– Uma adega, mais provável. Especialmente se houver uma taverna por perto.
Os olhos de Maddy se arregalaram.
– O que você disse?
– Eu disse… – balbuciou Loki. – Ei, aonde você vai?
Maddy já estava em pé.
– A adega – falou ela numa voz sufocada. – É isso, Loki, a adega!
A adega estava escura e cheirava a ratos. Loki não ficou impressionado de modo algum.
– Bem, se eu estivesse construindo um lar dos sonhos, eu tentaria reformá-la, no mínimo. – Ele deu uma olhada no piso alinhado de tijolos, onde um buraco do tamanho de uma toca de raposa se abria, e uma confusa dispersão de entulho, terra, pedaços de tijolo e pequenos barris quebrados atapetavam a área de armazenamento. – Deve ter havido uma festa – disse ele, dando uma batidinha num dos pequenos barris vazios. – Parece que alguém se divertiu.
Mas Maddy não estava ouvindo. Em vez disso, ajoelhara-se na entrada do buraco, sem se importar com o pó e as aranhas, e sussurrou uma coisa para a escuridão.
– Eu te nomeio Smá-rakki – sussurrou.
Silêncio. Só a casa vazia.
– Uma coisa nomeada é uma coisa domada – disse Maddy. – Saco de Açúcar, por favor, se você está aí…
Um levíssimo movimento se fez por trás da pilha de pequenos barris. Maddy se virou, com os olhos iluminados.
– É apenas um rato – disse Loki.
Maddy se levantou, balançando a cabeça.
– Eu conheço ratos – sussurrou ela. – Açúcar, você está aí? – Então ela empurrou o pequeno barril para o lado (achando-o suspeitosamente leve), revelando um pequeno rosto peludo e olhos de um curioso dourado de aliança de casamento por trás de um capacete danificado. Maddy viu que a marca de runa Tyr não mais irradiava brilho da assinatura dele.
– Agora eu sei o que você vai dizer, senhora. – O duende estendeu suas mãos peludas. – Mas eu juro, pela vida do meu Capitão, que eu não sei o que aconteceu com toda essa cerveja…
– Açúcar! – gritou Maddy, fazendo-o levantar-se.
– Ai! – protestou o duende.
– Eu pensei que você estivesse morto! – disse Maddy, começando a chorar novamente.
Açúcar lhe lançou um olhar cauteloso. Ela obviamente estava louca. Mas tinha realmente uma força magnética poderosa, e…
– Capitão? – perguntou ele quando Loki emergiu das sombras sob os degraus da adega.
Loki sorriu.
– O próprio – disse ele. – De volta dos mortos, e maravilhoso. Por que, pelos Infernos, você está chorando agora? – Isso ele falou para Maddy, que não parecia conseguir controlar as lágrimas, embora estivesse em parte rindo também da expressão de confusão no rosto de Açúcar.
– Ele não se lembra, não é? – disse ela, enxugando seus olhos com a palma da mão.
– Lembra o quê? – questionou Açúcar.
– Ah, nada – respondeu Maddy. – Apenas que você ajudou a salvar os Mundos, duas vezes. Que você assumiu o Aspecto do Corajoso Tyr, que avançou sobre Surt em um lobo-demônio, que morreu na batalha, que era meu amigo…
Os olhos de Açúcar estavam grandes como discos agora.
– Eu fiz tudo isso?
– Tudo isso, e mais.
Açúcar olhou-a com desconfiança.
– Essa cerveja deve ser mais forte do que eu pensava. Tem certeza de que não tomou um pouco também, senhora? Porque a cerveja pode ter alguns efeitos muito graves naqueles que não estão acostumados a bebê-la.
Maddy sorriu.
– Vou guardar este conselho…
– Mas eu não me importo de ser seu amigo.
– Está tudo certo, então – disse Maddy.
Ela saiu de volta para o sol.