Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 90 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 2

 

Há um provérbio entre os membros do Povo do Reino do Interior: Paus e pedras quebrarão meus ossos, mas palavras não poderão me matar. Que ridículo!, pensou Loki ao observar a nuvem que se aproximava. As palavras estavam longe de ser inofensivas. Uma palavra bem colocada pode derrotar um inimigo; um discurso pode derrubar um império. O Astuto conhecia o poder das palavras – elas haviam salvado sua vida milhares de vezes –, mas também sabia que, como ele mesmo, as palavras podiam ser tapeadoras. Elas gostavam de se ocultar, de se reverter, de distorcer-se e transformar-se em outra coisa.

Considere essa palavra: Apocalipse. Atravessou gerações do Povo; uma palavra de poder e mistério, com seu sentido perdido ao longo dos anos até que apenas as crianças soubessem o que ela significava, em canções de pular corda e jogos infantis:

Veja o Berço balançando

Bem acima da cidade…

Fazendo beicinhos, fazendo beicinhos,

Tudo desmorona.

Mais uma vez Loki analisou a nuvem negra. Não era realmente uma nuvem, ele sabia, muito mais que o Sonho era um rio, mas havia uma espécie de reconforto em ser capaz de vê-la como uma coisa familiar. Sua sombra, agora a menos de um quilômetro e meio de distância, já havia rompido os muros da cidade. Na sombra havia um vácuo. A sombra tudo eclipsava.

Ele deu uma olhada sobre a balaustrada da Ponte, onde os Æsir e os Vanir esperavam e observavam. Nenhum deles estava falador. O Martelo de Thor estava de prontidão; Frey se posicionava com sua espada mental. Freya estava em sua forma de Carniceira, com asas de morcego e cabeça pelada. Até Sif estava armada. Skadi e Njörd se erguiam lado a lado com Angie e seus lobos-demônios. Ethel esperava para emitir a palavra assim que a ação fosse exigida. Sigyn estava erguida atrás dela, a runa Eh preparada na forma de uma corda dourada de prender muito parecida à runa de chicotear de Skadi.

Todos pareciam tensos, mas concentrados, esperando naquele silêncio opressivo que prenuncia as batalhas mais sangrentas.

Somente Tyr parecia inseguro. Exteriormente esplendoroso em seu Aspecto de deus da guerra, ele era ainda o Saco de Açúcar em seu coração, e o vermelho e o dourado de sua assinatura estavam tingidos pelo cinza da ansiedade. Ele olhou de relance para Loki nervosamente.

– O que estamos esperando? – perguntou ele.

Loki deu de ombros.

– Por que perguntar para mim? Não estou na chefia. Se estivesse, estaria correndo feito o Inferno em vez de ficar esperando pelo inevitável.

Açúcar aparentou ainda mais nervosismo.

– Você quer dizer que acha que não podemos vencer de modo algum?

– Claro que podemos. – Loki sorriu. – Com alguns exércitos, uma fortaleza, ou talvez um ou dois porcos voadores.

– Ah – disse Açúcar.

– Sente-se melhor agora?

– Não muito.

Ethel sorriu.

– Não vai demorar muito agora.

– E isso é uma coisa boa? – perguntou Loki. – Olhe, você disse que tinha um plano. Na verdade, você mencionou o plano do General. Portanto, se tem o General escondido em algum lugar, do que duvido muito, agora é hora de desvelá-lo. Do contrário, fugir parece bom.

– Tarde demais para isso – retrucou Ethel. – Além do mais, eu confio no General.

– Bem, eu tenho problemas com confiança – disse Loki. – Principalmente quando se trata da minha vida.

Sigyn, que seguia tudo isso com o olhar indulgente de uma enfermeira de quarto de criança cuidando de um paciente rebelde, pôs então uma mão sobre o braço de Loki.

– Eu cuidarei de você – disse ela. – Não há nada a temer.

– Bem, isso é terrível – disse Loki. – Porque o nada – ele apontou para a nuvem – é exatamente o que está vindo nos pegar. E… o que, pelos Infernos, é aquilo?

Pois bem naquele momento houve uma erupção ofuscante de luz e uma explosão maciça que sacudiu a Ponte, pondo os Æsir e os Vanir em desequilíbrio e vaporizando as poucas nuvens brancas que assinalavam o céu sob Bif-rost. Loki baixou sobre sua barriga com as mãos sobre a cabeça. Thor deu um rosnado de raiva e preparou-se para empunhar o Mjolnir. Saco de Açúcar ficou aturdido ao descobrir sua nova mão cheia de força magnética funcionando por si mesma, a espada mental preparada.

Ethel simplesmente sorriu e disse:

– Ótimo.

– Por quê? O que está acontecendo? – indagou Loki. – Estamos sendo atacados?

– Não. – Ela balançou a cabeça. – Ainda não. Mas logo seremos. Esta é a razão pela qual, quando recebermos o sinal, teremos que trabalhar rapidamente.

– Fazendo o quê? – questionou Açúcar.

– Construindo – respondeu Ethel. – O mais rápido que pudermos, porque quando aquela nuvem de sombra chegar aqui, precisaremos de proteção.

Ouvindo isso, os olhos de Loki começaram a brilhar. Um sorriso lento roçou seus lábios cicatrizados. Ele ergueu os olhos para a nuvem de sombra, agora a apenas quatro metros de distância. Logo estaria por cima deles, eclipsando a luz do Escudo do Sol, obliterando a luz de runas que brilhava a partir do coração da Pedra do Beijo. Eles podiam repeli-la por cinco ou dez minutos, no máximo. Mas se isso era suficiente…

– Construindo – repetiu Açúcar – Construindo o quê?

– Asgard – disse Loki baixinho, e sorriu.