Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 100 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 12

 

Descendo pela cidade, Maggie havia chegado ao lugar da velha Universidade. Mas os prédios que haviam um dia abrigado acadêmicos e historiadores, e depois os devotos da Ordem, e depois os negociantes e comerciantes que haviam surgido rapidamente depois da Glória, estavam agora repletos de refugiados – aterrorizados e encolhidos.

Alguns eram nativos de Fim de Mundo; outros eram os estrangeiros que Maggie desprezava. Alguns eram ricos; outros eram escravos; alguns eram velhos; outros, crianças. Mas diante da nuvem de sombra, todos eram iguais. Iguais no terror, iguais na angústia. O medo havia finalmente unido Fim de Mundo. O medo, e a necessidade de um bode expiatório.

O pensamento deu a Maggie uma espécie amarga de prazer. É isso que parece, ela pensou. Todos no mesmo barco. Todos perderam alguém: um amigo, um filho, um parente. Uma mulher estava sentada no piso bem abaixo do púlpito que havia ocultado a entrada secreta para o labirinto sob a Universidade. Muito jovem, Maggie viu, com o cabelo emaranhado sobre o rosto, cantando um pequeno acalanto. Havia um bebê em seus braços, embrulhado num cobertor.

A mulher ergueu os olhos esperançosamente para ela.

– Você é uma curandeira, senhora? – perguntou ela numa voz pesadamente carregada de sotaque. Era uma Estrangeira, Maggie viu; suas mãos eram tatuadas com desenhos do Mundo Estrangeiro. Ela estendeu o embrulho para Maggie. – Por favor. Meu bebê. Meu bebê está doente.

– Seu bebê está morto – disse Maggie. – Sinto muito. Não posso ajudá-la.

Maggie pensava que estivesse vazia depois de ter visto Adam morrer, mas o gemido que a mulher Estrangeira soltou mudou sua opinião imediatamente. Ela pôs a mão sobre sua própria barriga, onde o embrião de uma nova vida já era tão forte nela que conseguia realmente senti-lo ali, chamando-a, sussurrando; e amor que ela sentia por aquela pequenina existência era maior do que qualquer coisa que ela já tivesse sentido. Maior que seu amor por Adam; maior que sua necessidade de vingança. Ela se ajoelhou ao lado da mulher Estrangeira e tomou uma de suas mãos.

– Eu lamento – disse ela. – Eu lamento tanto!

A mulher estrangeira ergueu os olhos para ela.

– Você tem filhos?

– Ainda não – respondeu Maggie.

– Então você não sabe – disse a mulher, e voltou ao seu canto e seu balanço. Maggie ouviu as palavras da canção:

Balance seu bebê no topo da árvore.

Quando o vento soprar, o Berço vai sacudir…

Ela tentou procurar dentro de si alguma coisa para confortar a mulher. Naturalmente, Maggie não tinha instrução formal de como formar runas. Mas ela era uma filha do Fogo, e então tentou fazer com os dedos os traços que poderiam abrandar a angústia de uma mãe.

Com habilidade recém-descoberta, traçou a Bjarkán, a runa da revelação e do sonho. Depois surgiu Sól, a Luminosa: sol brilhante e renovação.

– Feche os olhos – disse Maggie. – Você deve estar tão cansada! Tente dormir.

Então ela traçou Madr, a runa da compaixão, sobre a testa da mulher – e cruzou-a com Ur, o Boi Poderoso, para lhe dar força e resistência.

As runas reluziram fugazmente e depois se dispersaram. A mulher estrangeira fechou seus olhos. Maggie sabia que as runas sozinhas não podiam competir com a morte de uma criança, mas o sono por si só era uma espécie de curandeiro, e o Sonho, ela sabia, era um refúgio para aqueles a quem o mundo da vigília havia se tornado insuportável. Ficou olhando quando a mulher estrangeira começou a derivar lentamente para dentro do Sonho, e com um último toque delicado de sua mão, Maggie traçou a nova runa Gabe – uma dádiva – no ar acima dela.

A mulher iria dormir agora, Maggie pensou. Dormir e, se tivesse sorte, sonhar – e se nunca despertasse do sonho, então talvez fosse melhor para ela. Porque estava se aproximando uma coisa – uma escuridão – da qual o Sonho podia ser a única escapatória.

Ela abriu a entrada para o Mundo Abaixo oculta por debaixo do púlpito.

– O que é isso? – perguntou a mulher, de modo sonolento.

– É para onde estou indo – respondeu ela. – Venha comigo e você pode sobreviver.

De repente parecera a ela muito importante salvar pelo menos uma pessoa da catástrofe. Ela se ergueu e dirigiu-se aos refugiados:

– Há um esconderijo sob a cidade. Eu já estive lá. Vocês ficarão seguros comigo. Alguém quer vir?

Silêncio.

– Alguém? Qualquer pessoa?

O grupo ainda permaneceu em silêncio. A mulher estrangeira estava dormindo. Outras pessoas protegiam seus rostos ou faziam o sinal contra o mal. Todos eles viram-na lançar sua força magnética sobre a mulher Estrangeira.

E então Maggie entendeu pela primeira vez que a marca de runa que emitia brilho da sua nuca fizera mais que lhe dar poderes; ela a assinalara para sempre como uma integrante de uma tribo que havia devastado Fim de Mundo mais vezes do que o Povo podia recordar – uma tribo que havia destruído a Ordem e que agora trouxera este Caos às pessoas.

– Tudo bem! – Ela tentou explicar. Deu um passo em direção a eles.

Um homem que tinha a aparência de um pároco do interior se moveu para interceptá-la.

– Volte para o Mundo Inferior, demônio! – bradou ele, empurrando-a com as duas mãos.

Ele pegou-a de surpresa; Maggie caiu, e nesse momento sentiu as runas se formando nas pontas de seus dedos – Hagall, Isa, Naudr, Úr – e, com elas, uma raiva ardente, cegante, uma raiva que explodiu dela com uma ferocidade descontrolada.

– Como você ousa me tocar? – exclamou Maggie. – Como ousa pôr as mãos em mim! Eu devia matar vocês todos…

E por um momento ela quase o fez; o raio mental se ergueu e ficou preparado para atingir qualquer um que ousasse se mover…

O pároco viu-o e estendeu suas mãos.

– Misericórdia, senhora… – Ele caiu de joelhos.

Os outros só a olharam fixamente com horror, parecendo crianças aterrorizadas.

Maggie deu um grito apavorado e dispersou as runas sobre o chão, com força suficiente para rachar o mármore.

– Eu sou um demônio – disse para si mesma. – Eupoderia tê-los matado, eu quis…

Por um momento ela se viu como eles a viam. Um monstro, tosado, careca; enegrecido pelo pó da destruição; aquela marca de runa brilhando sobre sua pele e seus olhos mortiços como os de um assassino.

E eu não sou uma assassina? Se eu tivesse escutado o Velho Homem, será que Adam não estaria vivo ainda?

A ideia brotou de algum lugar de dentro de si; algum profundo e oculto lugar de mágoa. Sacudiu seu coração – seu coração frio e morto – e de repente seus olhos se umedeceram.

Os olhos do Povo eram impiedosos. Olhando fixamente agora para o monstro, a aberração; olhando fixamente com horror, com ódio, com temor; mas a maior parte deles com crescente hostilidade. Eles não tinham ideia da força de Maggie; com sua força magnética posta de lado, ela se parecia apenas com qualquer outra garota de dezessete anos; mas imunda, maltrapilha e agora enfraquecida.

Um garotinho atirou uma pedra.

Ele errou, mas Maggie estava assustada. Ela devolveu o olhar para os refugiados que juntavam suas forças: porretes; facas; pedaços de pedra.

– Por favor. Eu não quero machucá-los… – tentou ela.

Outra pedra voou. Desta vez a acertou. Maggie sentiu uma dor no pulso. A dor foi mais forte que a força magnética que havia cortado a palma de sua mão; veio como uma surpresa; mais uma vez ela sentiu uma umidade no rosto.

Ela invocou sua força magnética novamente. Um escudo feito de Yr, a Protetora. Várias pedras ricochetearam sobre o escudo quando a pequena multidão ficou mais audaciosa.

– Parem com isso! – disse Maggie. – Vocês não sabem o que estão fazendo!

Então, uma faca resvalou no escudo; o rosto de um homem, distorcido pela raiva, pressionando o ar vazio.

O pároco havia recobrado sua coragem.

– Rezem, rezem! – incitou ele à multidão. – Os demônios são impotentes contra as preces!

Mais uma vez Maggie tentou protestar. Mas as vozes se ergueram contra ela – um balbucio de gritos em que ela repetidamente ouviu as palavras: demônio, Ser do Fogo, Ordem, Purificado.

De repente a multidão ficou imóvel. Seus olhares se ergueram, centenas de olhos refletindo o céu.

O Berço do Fogo do Santo Sepulcro tombou incendiado sobre Fim de Mundo; e agora, através do teto quebrado da Universidade abandonada, viam um pesadelo de oito patas descendo sobre eles, com uma crina de luz de runas, uma cauda de fogo e patas de aranha que cobriam o céu.

Maggie reconheceu Sleipnir imediatamente; mas Sleipnir em seu Aspecto primário era uma visão realmente apavorante, e mais uma vez o grupo de refugiados se encolheu e cobriu os olhos. Alguns fizeram o sinal contra o mal; alguns rezaram em voz alta; alguns gemeram; outros chamaram suas mães; outros choraram.

– Ah, típico do Povo – disse uma voz. – Nunca sabe o que é bom para ele. – E, então, montados no cavalo, Maggie viu Hughie e Mandy, ambos em Aspecto humano, quando Sleipnir pousou no chão de mármore rachado. – Ainda assim, não houve qualquer dano, não é mesmo?

– Crauk! – falou Mandy. – Nenhum dano. Crauk!

Hughie deu seu sorriso brilhante.

– Viemos para levá-la lá para cima, fêmea.

– Levar-me lá para cima?

Hughie pareceu se desculpar.

– Bem, com o Fim dos Mundos, o Velho Homem achou que você estaria mais segura lá… – Ele ergueu a cabeça, sinalizando para o Berço que pegava fogo e desmoronava no céu febril. – Além do mais, sua irmã precisa de sua ajuda.

Maggie fez um som seco que podia ter sido um riso, ou um soluço.

– Meu marido morreu – disse ela, sentindo as runas mais uma vez comicharem sobre a palma de sua mão. – Vocês acham que eu me importo com o que acontecer a ela? Ou a qualquer um do Povo do Fogo?

– Ah, lamento por sua perda. – Hughie puxou a argola prateada que balançava no lóbulo de sua orelha. – Mas você pode ver como é popular agora com o Povo de Fim de Mundo. Nós somos sua verdadeira família. Nós a amamos para sempre, não importa que…

– Vocês? – perguntou Maggie.

Hughie deu de ombros.

– Falamos em nome do Velho Homem. Somos sua Mente e Espírito, compreende? Ele disse que não guarda rancor pela ferida que você lhe fez quando atirou força magnética em seu rosto. Talvez ele merecesse um pouco, ele disse. E cicatrizes, naturalmente, acrescentam personalidade.

– Aquilo era ele? – perguntou Maggie, curiosa, a despeito de si mesma.

– Sim, ou um de seus Aspectos. Ele manda saudações à sua neta. Diz que duvida de que vocês se verão outra vez.

E, dito isso, Hughie remontou em Sleipnir enquanto Mandy foi retornando à forma de corvo.

– Parece uma pena para o filhote – disse ele, quase como se fosse uma reflexão posterior.

A mão de Maggie pousou sobre sua barriga.

– O quê?

– Bem, posso ver que você não está querendo viver, mas eu pensei que você poderia fazer isso pelo filhote. Eu quis dizer, o bebê… – comentou ele obsequioso, deslumbrando Maggie com seu sorriso.

– O que você quer dizer? – indagou Maggie.

Ele apontou a nuvem de sombra.

– O que você achou que é aquilo, hein? Chuva, para fazer as flores crescerem? Aquilo é o Caos, que vem para pegar todos nós, garotinha, com Surt em pessoa na frente. Quando a nuvem cobrir Asgard, todos os Mundos vão ter fim, e ninguém, nem você, nem eu, nem a própria Morte em pessoa, sobreviverá. Com certeza você já ouviu a profecia:

Quando o arco quebrar, o Berço desabará.

E o bebê e o Berço e o resto, tudo cairá…

– Mas isso é só uma cantiga de ninar! – disse Maggie.

Crau, disse Mandy. Crauk. Crau.

Hughie deu de ombros.

– Ela disse que temos que partir. Temo que ela não seja a pessoa mais paciente deste mundo… – Ele deu mais uma olhada no telhado aberto, através do qual o céu se tingia de negro-púrpura ardente. – Talvez possamos orientá-la no caminho. Temo que não nos reste muito tempo. Mas se você obedecê-lo, o Velho Homem jura com sua solene palavra que lhe dará uma sala em Asgard e que não erguerá uma mão contra você ou seu filho, nem ele, nem ninguém do seu povo, não, não até o Fim dos Mundos.

Maggie apertou os olhos sobre ele.

– Como é que eu saberei que ele cumprirá sua palavra?

– Porque ele terá que cumprir – disse Hughie. – Agora, você virá com a gente ou não?