Luz das Runas
Capítulo 9
De volta àquilo que restara da Cidade Universal, Maggie Rede estava sonhando novamente. Era um sonho poderosamente estranho, iluminado pelas cores do Caos e povoado por vultos que se contorciam e se enroscavam. O Povo da Ordem não sonha; mas Maggie não era mais inteiramente sua filha, e depois de ler o Bom Livro, as regras que a tinham prendido por tantos anos haviam começado a puir como linho exposto ao vento, e os sonhos vieram logo a seguir…
Agora ela sonhava com um homem de cabelos ruivos e olhos de um verde-fogo incendiário. Ela o vira antes em seus sonhos e sabia que de algum modo ele era seu inimigo. Mas desta vez ele estava em perigo, ela pensou, e arreganhou os dentes e retorceu os pulsos em seu sono. Ela via que suas cores eram muito fortes – demoníacas, como aquelas que vira representadas no Bom Livro; e havia runas em meio a elas – profanas runas de fogo como as que vira no Livro das Palavras. O mesmo tipo de símbolo reluzia partindo de seu braço – a marca de runas do Povo do Fogo.
Por sua Marca você o reconhecerá…
Kaen. O nome da marca de runa era Kaen. Invertido. Ela não perguntou a si mesma como sabia disso. Talvez ela o tivesse visto no Livro que se estendia aberto contra a parede ao seu lado. A chave dourada que o abria agora estava pendurada numa corrente em torno do pescoço de Maggie. Era sua posse mais preciosa. Ela sempre fechava o Livro quando saía, mas quando estava sozinha, em seu lugar secreto, gostava de mantê-lo aberto no Capítulo das Invocações, onde os nomes secretos do Povo do Fogo estavam escritos em letras de prata e ouro.
Ela golpeou o homem de cabelos ruivos, lançando-o com força sobre o chão. Ele ergueu um escudo para se proteger, mas o escudo era fraco. Ele não iria resistir. Seu inimigo gritou de dor; o veneno salpicou a neve das Terras do Norte.
Muito bem, pensou Maggie ao seu sonho. Vamos ver se você consegue sair dessa.
Agora o homem estava de joelhos. Ela podia ver o medo em seus olhos. Não conseguia ouvir o que ele dizia, mas sabia que ele estava suplicando por sua vida.
Misericórdia? Acho que não, pensou ela.
Movendo-se para mais perto dele, pôde vê-lo estendido em desamparo aos seus pés. O triunfo floresceu nela como uma rosa. Ela podia tê-lo matado facilmente, mas queria que o prazer durasse um pouco. Queria vê-lo sofrer primeiro; queria que ele rastejasse e implorasse antes que o mandasse para o Mundo Inferior.
Mas então surgiu uma labareda de cores, e Maggie viu uma figura se aproximando; um vulto pequeno, mas um tanto ameaçador, reforçado pela luz das runas. E, no entanto, parecia haver pouca coisa para justificar a onda de pânico que Maggie sentiu quando a figura chegou mais perto. Era apenas uma garota, afinal de contas – uma garota de mais ou menos da mesma idade. Uma garota com curiosos olhos de um cinzento dourado, o cabelo solto sobre os ombros, e um daqueles sinais de runa na palma da mão estendida…
Maggie pensou:
– Ela é igualzinha a mim!
E então houve outro lampejo brilhante, e o mundo se revirou como uma folha…
E Maggie despertou com um grito alto, envolta em suor e tremendo, se viu de volta às catacumbas, a cabeça pousando junto ao Livro aberto, sobre o qual ela devia ter adormecido, e a impressão do sonho estampada sobre as sombras.
Mas agora, quando lutava para banir seus medos, Maggie viu que não estava mais sozinha. Um jovem estava sentado diante dela, de pernas cruzadas sobre o chão pedregoso. Um jovem que podia ter dezessete ou dezoito anos, mas cujo rosto carregava as marcas da experiência. Seu cabelo era igual ao do povo do extremo norte; seus olhos eram azuis como o gelo distante.
Maggie percebeu que, enquanto dormia, o bergha que estava usando caíra, e, ruborizando, o repôs no lugar, antes de se dirigir ao desconhecido.
– Quem é você? – perguntou ela de um jeito áspero. – Quem é você e o que está fazendo aqui?
O jovem sorriu, e Maggie Rede sentiu um tremor engraçado descer-lhe pela espinha, como se uma pequena pluma de gelo houvesse roçado sobre suas clavículas.
– Meu nome é Adam – respondeu o jovem. – E vim de muito longe para encontrá-la.