Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 28 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 12

 

Fora um sonho longo e estranho. Maggie nunca tivera um sonho assim, nunca em seus dezessete anos, e em vários pontos nesse sonho ela havia estado prestes a fugir, a dizer a Adam que não podia fazer isso, que algumas coisas nunca deveriam ser sonhadas e que não era uma guerreira.

Mas sua coragem, misturada à Voz que estava em sua cabeça, mantivera o seu impulso; embora, mais do que tudo, fosse a perspectiva do desapontamento de Adam que a houvesse impedido de apenas abrir seus olhos e deixar Malbry entregue aos seus monstros.

A coisa que se puxara para fora da Colina era ruim o bastante, Maggie pensou. Mas agora ela podia ver o que vinha depois dela; o que fervilhava na brecha que ela havia aberto; o que gorgolejava sombriamente em seu rastro, esperando uma chance de entrar no mundo.

Parecia uma mancha de fumaça negra, ou uma nuvem de tinta, ou um enxame de abelhas, e Maggie podia ouvi-los sob o chão – dez mil vozes clamando; dez mil passos; dez mil prisioneiros torturados, todos se agarrando e arranhando no esforço por nascer.

Mas o mais perturbador de tudo era a garota deitada sobre a neve aos seus pés. Uma garota de aparência tão comum, com uma túnica de couro, um manto de pele de lobo e o cabelo trançado como uma Estrangeira.

Isso era realmente o inimigo? A Voz em sua cabeça havia lhe dito que sim. No entanto, ela parecia tão normal, tão não demoníaca! Maggie sabia que os demônios podiam assumir a forma que escolhessem, mas aquele garota – aquela garota muito familiar – parecia uma escolha tão estranha! Ela a conhecia? Uma parte de seu pensamento dizia que talvez ela conhecesse. Esses olhos, essa boca teimosa…

Ora, essa garota é igualzinha a mim!

– Rápido! A Palavra! – disse a Voz em sua cabeça. – Rápido, enquanto você ainda tem a chance!

Maggie pôs de lado as suas dúvidas e procurou pelo cântico oportuno. Ela conhecia o Livro das Invocações verso por verso, lista por lista. Conhecia também aquela marca de runa, Aesk, a Cinza, que lhe dera o nome verdadeiro de Maddy…

Ela segurou a rédea de luz numa mão e recitou as palavras do Bom Livro:

– “Eu vos chamo de Modi, Filho do Trovão. Eu vos chamo de Aesk, Cinza do Relâmpago. Eu vos chamo Destruidor e Construtor de Mundos. Eu vos chamo…”

O cântico estava funcionando. A garota – o demônio – estava despertando. A Palavra parecia ter este efeito entre os de sua espécie; cada sílaba, um sopro. Agora ela se estendia desamparada aos pés de Maggie, um traço de vermelho em torno de sua face onde alguma coisa – um espinheiro – a tinha arranhado. A Palavra a tinha privado de fala, mas sua respiração ainda formava vapor no ar frio – e foi quando Maggie percebeu que nada disso era mais um sonho; que de algum modo tudo isso era real…

– Acabe com ela! Enquanto ainda há tempo!

A Voz do Mestre era autoritária. Mas Maggie Rede nunca se acostumara à obediência cega, irrefletida. A Ordem nunca mandaria nela, nem mesmo se fosse um menino. Matar em um sonho era uma coisa, pensou ela. Mas matar daquele jeito, usando a Palavra, numa maneira oposta a todos os ensinamentos da Ordem e sem nem mesmo saber a menor coisa sobre esta garota que se parecia tanto com ela…

– Não se importe com isso – disse a Voz asperamente em sua mente, o ser que se denominava Mestre. – Faça como eu digo, garota! Acabe com ela! Lembre-se do Livro do Apocalipse! Maggie, este é o seu destino!

Destino? Maggie pensou. Como todos os filhos da Ordem, ela acreditava muito fortemente nessas coisas. Ela lembrou-se do Livro do Apocalipse, o verso que abordava o Fim dos Mundos:

E virá um Cavalo de Fogo,

E o nome de seu Cavaleiro é Carnificina.

E virá um Cavalo do Mar,

E o nome de seu Cavaleiro é Traição.

E virá um Cavalo do Ar,

E o nome do Cavaleiro é Loucura…

Poderia aquele ser seu destino? Maggie Rede de Fim de Mundo estava predestinada a cavalgar o Cavalo do Fogo? Ela sonhara com isso por muitos anos, sozinha em seu labirinto subterrâneo. Ela lera muitas histórias da Cidade Universal e do grande Apocalipse; de Adversidades e Purificações; de guerreiros, demônios e deuses. E em seus sonhos mais negros, desesperados, Maggie sempre lutara ao lado deles, cavalgando através dos Nove Mundos, vadeando rios de sangue impuro, um anjo com uma besta nas mãos.

No entanto, em três anos ela nunca matara nada maior do que um rato; e agora, com o rosto de seu inimigo – tão parecido com seu próprio rosto – erguendo-se da neve para encará-la, Maggie descobria que simplesmente não podia obedecer à Voz sem questionamentos.

– Quem é você? – perguntou ela à garota aos seus pés. – Quem é você, e como você usa o meu rosto?

A garota ergueu-se penosamente até os joelhos. O cântico a tinha silenciado momentaneamente, mas agora sua força magnética – e sua voz – havia retornado. Sua marca de runa reluzia ferozmente na palma de sua mão, uma cor acobreada brilhante, mas ela não fez qualquer movimento visível para atacar.

– Faça o que pedi, Maggie! Acabe com ela! – A Voz havia perdido sua autoridade tranquila; seu tom agora era de aflição. – Maggie Rede, EU ORDENO QUE VOCÊ…

Mas a atenção de Maggie estava voltada para a garota. Sua voz estava quase sumida em meio ao som da voz do passageiro fantasmagórico de Maggie, mas, mesmo assim, ela pôde ouvi-la – uma voz agradável, muito parecida com a sua, mas com um traço do sotaque das Terras do Norte.

– Maggie. Ouça. Essa voz em sua cabeça. A que lhe diz o que você tem que fazer.

Maggie sentiu sua garganta se apertar.

– Como você soube meu nome? – questionou ela. – Como você soube da Voz?

A presença em sua mente havia se tornado um animal selvagem, rugidor.

– VOCÊ VAI OBEDECER À MINHA ORDEM! – gritou a Voz.

Maggie jogou o Mestre de lado como um cão rateiro jogando um rato. Isso doía, mas ela era mais forte; ela sentiu a raiva e a frustração dele se debatendo pelo controle de sua mente…

– Como você soube?

– Eu adivinhei – disse a garota. – É o Murmurador. Um inimigo do meu povo e do seu. Eu já havia visto pessoas sob efeito de seu feitiço. E eu sei que você não é realmente uma assassina.

Maggie franziu o cenho.

– Você está mentindo – disse ela. – Você é um deles. O inimigo. O imundo e traiçoeiro Povo do Fogo.

– Isso é verdade – retrucou a garota. – Eu sou um deles. Mas nós não somos o inimigo. O Murmurador é o inimigo. Ele mente. Ele quer usar você. Ele sabe quem você é e está usando-a para descarregar vingança contra sua família.

– Eu não acredito em você – disse Maggie. – O Povo do Fogo matou minha família.

– Isso não é verdade – falou a garota do Norte. – Maggie, eu sou sua ir…

Foi nesse momento que o chão começou a explodir. Um gêiser de terra, pedras e grama entrou em erupção a três metros e meio à esquerda de Maggie, seguido por outro bem em frente a seu monte espectral. O Cavalo Vermelho empinou, arreganhou os dentes, um fogo frio brotou de suas narinas. No mesmo instante alguma coisa começou a escorrer incontrolavelmente para fora da Colina; uma onda de vida gritante e de risos abafados que brotou como enxame dos buracos no chão partido e espalhou a neve contínua com seu sopro.

No mesmo momento Maggie sentiu alguma coisa trombar em seus pensamentos, como um anzol pego dentro de sua mente. Era seu passageiro outra vez, lutando com sua vontade contra a dela. Por um momento sua visão ficou borrada. Um espinho de dor penetrou em sua cabeça. Suas mãos feitas de sonho agarraram o emaranhado de rédeas até com mais força do que anteriormente.

Abaixo dela, a garota das Terras do Norte estava lutando para ficar em pé. Terra e cascalho as cobriram, rolando da crosta de neve. A cabeça de Maggie estava latejando agora; sua visão se duplicou, triplicou. Ela ficou vagamente consciente da garota do Norte, virando uma vez para olhá-la, depois começando a correr por sobre a neve.

Acima dela, dois corvos circulavam misticamente.

O anzol na mente de Maggie puxou novamente, pressionando-a a ceder, a obedecer.

– VOCÊ NÃO PODE RESISTIR A MIM, MAGGIE REDE. EU ORDENO QUE VOCÊ ME OBEDEÇA! LIQUIDE A GAROTA! USE A PALAVRA! FAÇA ISSO JÁ, ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS!

Mas Maggie não era Adam Scattergood para ser puxada na linha de pesca como um peixe apanhado.

– PARE COM ISSO! – disse ela, e empurrou a presença invisível com toda a considerável força de sua vontade. O Cavalo Vermelho abaixo dela se empinou, quase como que para incentivá-la.

Ela sentiu o espanto do Mestre.

– SAIA! – ordenou ela, e se arremeteu novamente. Mais uma vez o Cavalo respondeu.

A Voz ficou queixosa, suplicante.

– Por favor, Maggie. Deixe-Me explicar…

– PELOS DIABOS, SAIA DA MINHA CABEÇA! – gritou Maggie e deu um empurrão final violento. Abaixo dela, o Cavalo deu um salto violento; houve um súbito clarão de luz…

Maggie abriu os olhos outra vez e descobriu-se de volta à Cidade Universal, sentada na cama com o Bom Livro aberto ao seu lado, Adam observando-a de olhos arregalados, e os velhos sons familiares da cidade soando como música em seus ouvidos que despertavam.

Por um momento, ficou tão aliviada de se ver de volta à casa que quase não percebeu o fato de que ela e Adam não estavam sozinhos. Um som a trouxe de volta à realidade; um relincho suave e familiar – do tipo que você pode ouvir em qualquer esquina e em qualquer lugar onde a criação de animais é mantida.

Maggie se virou e viu um cavalo erguendo-se ao lado da cama. Tinha a aparência exata de um cavalo comum – um ruão manchado com uma longa crina negra. Tinha o número habitual de patas. Por que ela então teve tanta certeza de que não era um animal comum? E o que ele estava fazendo em seu quarto?

Ela se virou para olhar para o Bom Livro, ainda aberto na imagem do estranho Cavalo de oito patas. Teria a imagem causado seu sonho? Ou sonhar a teria levado à loucura?

A imagem no Bom Livro mostrava o Cavalo com um cavaleiro. Aquele cavaleiro estivera lá anteriormente? Maggie não conseguia lembrar. Mas estava tão escuro no quarto que ela provavelmente não o notara. Uma pequenina figura com cabelo preto cortado, usando uma túnica escarlate…

Maggie fechou o Bom Livro e trancou-o com a chave dourada. Depois, virou-se para olhar novamente para o Cavalo através do círculo do indicador e do polegar. Através da runa Bjarkán ela captou um breve, inefável lampejo de vermelho. E em sua rédea, um clarão de azul assinalou a presença de alguma espécie de força magnética.

Ela pensara que havia sido um sonho. Mas não. Ali estava ele, no mundo real. O Cavalo Vermelho dos Últimos Dias…

Que agora, ao que tudo indicava, pertencia a ela.