Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 44 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 1

 

– Ah, por favor – disse Loki impacientemente. – Se eu ouvir outra cantiga infantil, ou canção folclórica, ou conto de Fadas, ou anedota divertida das vidas cotidianas dos recém-ressuscitados, juro que vou me suicidar.

Sigyn pôs o alaúde de lado e deu de ombros.

– Bem, eu acho que você é muito ingrato – retrucou ela. – Qualquer um poderia pensar que você não me quer aqui.

Loki baixou os olhos para o pulso direito, onde Eh, na forma de uma fina corrente de ouro, faiscava e brilhava inofensivamente. A princípio ele tentou quebrá-la, mas foi inútil; o pulso ficou entalhado com marcas raivosas. Mudar para a forma de pássaro não havia ajudado; até em seu Aspecto Animal a runa do Matrimônio ainda o prendia com força, e horas depois ele teve que aceitar o fato de que a fuga era impossível.

Pior ainda era o fato de que Sigyn estava feliz. Nada do que Loki podia dizer ou fazer parecia ter algum efeito duradouro sobre ela. Ela permaneceu implacavelmente animada diante de sua raiva inicial, e depois, diante de sua persistente grosseria e de seu mudo ressentimento, enchendo-o de comida e bebida e tentando mantê-lo entretido com histórias e canções de sua terra natal.

Sigyn tinha uma voz mais ou menos bonita, e, tal como tocava o alaúde, conseguia tocar tanto a harpa quanto o bandolim. Com forças magnéticas ela conseguira transformar a caverna num arejado toucador, com cortinados de seda, vasos de flores e pratos de doces sobre todas as superfícies, mas até aí seus esforços não haviam dado frutos, e Loki parecia tão aborrecido e não cooperativo como sempre.

– Eu não quero você aqui – dizia ele. – Vá embora e me deixe em paz.

Sigyn sorria incertamente.

– Ora, você sabe que isso não é verdade. É só porque você está cansado e fora dos eixos. Deixe-me lhe fazer alguma coisa para comer, e eu vou lhe cantar uma cantiga de ninar…

– Eu não quero uma cantiga de ninar – respondeu ele asperamente. – E eu não estou fora dos eixos!

Sigyn deu de ombros e se afastou.

– Não vejo por que você tem que ser tão malvado – disse ela, com um tremor em sua voz. – Eu ia lhe fazer uma cama de plumas, com travesseiros de penugem e lençóis de seda. Eu ia lhe trazer vinho quente temperado, doces de pétalas de rosa e bolo de mel. Eu ia lhe cantar minhas mais doces canções, até mesmo dormir no chão se você quisesse… – Agora seus olhos estavam encharcados de lágrimas e sua boca havia se reduzido a um traço de teimosia. – E por toda a afeição que você me demonstra em retribuição, eu poderia muito bem ser uma serpente venenosa. Bem, se é assim que você quer…

Ela bifurcou um pequeno sinal com a mão, e de repente a runa Matrimônio se tornou uma série de algemas ligadas a uma corrente tão pesada que Loki caiu ajoelhado. No mesmo momento, o contorno tremeluzente de uma coisa longa e sinuosa apareceu no ar acima dele, como algo por trás de uma tela de seda. Um som distante de rasgadura o acompanhou.

Loki já tinha ouvido aquele som nos portões do Mundo Inferior e uma segunda vez na Colina do Cavalo Vermelho. O tecido dos Mundos pareceu se esticar e escancarar, e Loki de repente percebeu que os poderes de Eh, a runa do Matrimônio, iam muito além das forças magnéticas.

– Er… espere um minuto – disse Loki, preso ao chão pelo peso da corrente.

Sigyn fingiu não escutar. Ela bifurcou outro sinal com sua mão, e então Loki viu algo como a cabeça de uma serpente pressionada contra o ar agitado, como a mão de uma criança pressionada contra um balão. Ela cintilou com um brilho nauseante de bolha de sabão, adquirindo substância quando ele olhou.

– Sigyn, minha doçura…

Ela olhou para ele.

– O que foi?

– Você entendeu tudo errado. – disse Loki. – Claro que eu apreciei tudo que você fez. E, sim, talvez… – Ele rangeu os dentes. – Talvez eu estivesse um pouco fora dos eixos.

A expressão de Sigyn suavizou novamente. As algemas caíram dos pulsos de Loki, mais uma vez se tornando uma corrente fina. A bolha (com a serpente dentro dela, como um verme no olho de um homem morto) teve sua existência apagada.

Loki tomou um fôlego profundo.

– Onde você aprendeu a fazer isso? – perguntou ele.

– Fazer o quê? – disse Sigyn.

– Você sabe, ah…

Sigyn o ignorou.

– O doce de pétalas de rosa? – Ela estendeu o prato. Era feito de porcelana cor-de-rosa e explodira para a existência tão rapidamente e sem esforço quanto à serpente havia desaparecido dela.

– Ah sim. Isso seria ótimo. – Loki pegou uma rosa açucarada e a pôs cautelosamente em sua boca, tentando não pensar no fato de que Sigyn, com seu estado de espírito atual, poderia provavelmente transformá-la numa barata, numa pedra ou numa lâmina de barbear… – Delicioso – disse ele, forçando um sorriso.

– Eu sei que eles são seus favoritos – falou Sigyn. – E agora… – prosseguiu ela, e começou a cantar:

Havia uma velha senhora tão louca, se dizia,

Que voava dentro de uma cesta pelo ar.

Ela voou para a Terra do Rosbife

Aguardente em seu cantil a levar.