Luz das Runas
Capítulo 15
– Mas por quê? – perguntou Maddy mais uma vez quando ela chegou e viu que Maggie havia ido embora. – Por que ela faria isso? Deixar este lugar? Deixar seus amigos, sua família! Em nome dos deuses, ela tem dezessete anos! Ela está grávida. Está completamente sozinha. E, se estivermos certos, o Murmurador…
– Se estivermos certos, então Fim de Mundo é o melhor lugar para ela – disse Odin numa voz tranquila. – Se o Murmurador se apossou de seu filho, tudo que podemos fazer é tentar impedir essa criança de entrar em Asgard. Porque se ela chegar a entrar aqui, e Mimir recobrar seu Aspecto, teremos uma guerra civil nas mãos, e a Ordem pela qual lutamos tão duramente mais uma vez se degradará em Caos.
Maddy ficou em silêncio por um momento.
– Ah – disse ela. – Não está acabado, então.
– Maddy, nunca está acabado.
Eles ficaram em silêncio um momento, vendo a luz esmaecer sobre Fim de Mundo. A sombra havia se dispersado completamente; a chuva havia cessado e agora o sol brilhava debilmente através do círculo de nuvens brancas que circundava a Cidadela do Céu.
– Quanto tempo temos? – quis saber ela.
– Até o quê?
– Até que aconteça novamente.
Ele deu de ombros.
– Quem sabe como estas coisas acontecem? Os Mundos acabaram tantas vezes anteriormente! Tantos deuses existiram e desapareceram! A Ordem e o Caos têm suas ondas, assim como o Um Mar flui e reflui. Podemos ter centenas de anos antes que o Caos transborde de suas margens novamente. De que Diabos você está rindo agora?
Ela sorriu.
– É só que parece meio engraçado, você se parecendo tanto com Perth e soando tanto como Um Olho.
Ele deu de ombros novamente.
– Maddy, nós somos deuses. Nós temos que ser todas as coisas para todos os homens. Eu sou Odin, Pai Supremo, filho de Bór. Sou também o Cavaleiro da Carnificina. Para você eu era Um Olho. Depois me tornei Perth. Agora eu sou todas essas coisas, e mais.
Maddy suspirou e fechou seus olhos. O sol estava cálido sobre suas pálpebras. Parecia tão seguro, tão familiar! Ela podia estar sobre a Colina do Cavalo Vermelho, deitada de costas sobre a relva, mascando uma haste de trevo e escutando os grilos cantar. Em vez disso, estava quilômetros acima dos Mundos num Berço construído de luz de runas e sonhos.
– Amadurecemos muito desde a Colina do Cavalo Vermelho – disse ela, inconsciente de que havia falado alto.
– Não tanto quanto você pensa – retrucou ele. – Lembre-se, você a trouxe com você.
Maddy sorriu.
– Foi o que eu fiz. Quer vir comigo? Fumar um cachimbo? Ver as nuvens do Olho do Cavalo? Sonhar um pequeno sonho? Perder tempo? Jogar baralho? Ou o Pai Supremo não faz essas coisas? – perguntou ela, um tanto melancólica.
– Maddy, sinto muito. Eu acho que não. O Pai Supremo tem trabalho a fazer. Mas quanto a Perth… – Ele se interrompeu subitamente e deu-lhe um lampejo de seu sorriso de vendedor. – Perth nunca está ocupado demais para sonhar. Perth nunca recusa um jogo de azar. E quanto a perder tempo com você, que jeito melhor existe de perdê-lo?
Eles tomaram o longo caminho para a Colina do Cavalo Vermelho. A esta altura, a luz estava quase extinta. Uma faixa de luminescência havia aparecido sobre o céu a oeste. Ela tremeluziu, movendo-se delicadamente, como as velas de um navio gigantesco, passando de verde a rosa e azul ao velejar através do Firmamento.
– A aurora boreal – falou Maddy. – Eu sempre quis vê-la. Sabe que traz boa sorte?
– Pois que traga então – disse Perth.
Você terminou Luz das Runas
Joanne Harris
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