Luz das Runas
Capítulo 8
Ethel não ficou muito satisfeita ao descobrir que Loki havia sido deixado para trás.
– Vocês o deixaram lá? Como puderam? – perguntou ela, quando Heimdall lhe explicou o estado das coisas.
Heimdall ficou taciturno.
– Não tínhamos escolha. Além do mais, era o que ele queria.
Ethel fez um som de desaprovação.
– Desde quando isso importou? Precisamos dele!
Mas Ethel estava em minoria. A maioria dos outros estava inclinada a considerar a sua perda uma bênção. Sif estava abertamente satisfeita, enquanto Freya, batendo de leve sobre seus olhos com um lenço de mão rendado muito pequeno, tentava fingir (sem sucesso) que não estava totalmente eufórica por ter abandonado o Astuto.
Thor parecia culpado por ter fugido; Bragi cantou uma canção fúnebre; Fenny disse “Isso é duro, cara”; e Skadi estava desdenhosa, dizendo ao Æsir que sabia o tempo todo que o Estrela de Cão iria fugir e empilhando desprezo sobre Idun, que ainda parecia absurdamente esperançosa de que Loki logo iria alcançá-los, talvez do outro lado…
– Em todo caso – disse Heimdall –, por que nós precisamos dele? Eu sei que você gosta dele, Ethel, mas encare os fatos, ele é um risco. Nós não precisamos dele para chegar a Fim de Mundo…
– Não é essa a questão – argumentou Ethel. Suas feições, geralmente serenas, agora pareciam contraídas e ansiosas. – Eu não vou continuar sem ele. Eu esperarei sozinha, se for preciso.
– E se ele não aparecer?
– Ele aparecerá.
– Isso é uma profecia? – indagou Heimdall.
Ethel lançou-lhe um olhar penetrante.
– O que você quer dizer?
Heimdall deu de ombros.
– Você parece saber mais do que eu, só isso.
– As profecias são coisas perigosas – disse Ethel, parecendo cansada. – Elas começam significando uma coisa e terminam significando o contrário. Loki tinha que estar aqui. Pelo menos, era o que eu pensava…
A esta altura eles estavam no meio da travessia da ponte, deixando Rhydian para trás. A lua estava alta, as estrelas estavam brilhantes, e a margem oposta do rio estava clara, enquanto às suas costas, no lado de Rhydian, a pálida névoa pairava como uma muralha flutuante, silenciosa e opressiva. Todos sentiram seus espíritos se erguer quando deixaram a cidade de fantasmas para trás, e até Heimdall tremeu ao pensar nisso; mas se não fosse por Loki, eles podiam ter permanecido todos lá, afogados em sombras, enfraquecidos e perdidos, pálidos reflexos de si mesmos…
Heimdall praguejou baixinho. Ele odiava a ideia de ficar agradecido por qualquer coisa ao Astuto. E, no entanto, de acordo com seu código pessoal, ele estava. Mesmo que, como Skadi sustentava, Loki houvesse agido apenas por puro interesse pessoal, o fato permanecia: ele havia salvado a todos.
Os deuses haviam chegado ao par final de pilastras quando sentiram um tremor vindo sob a ponte. Foi um breve, mas violento solavanco, que sacudiu a estrutura inteira, empurrando os vagões e fazendo os cavalos empinarem nervosamente.
– Que Inferno foi isso? – perguntou Frey.
Por trás deles, a névoa estava estranhamente imóvel. Nenhum som, nenhuma luz, nenhum sinal de vida. Podia não haver cidade alguma ali; a ponte seguia em frente para todo o sempre.
Veio um segundo e mais violento solavanco. Desta vez os cavalos dispararam, com os olhos enlouquecidos, os cascos arrancando faíscas da estrada. Um dos vagões perdeu uma roda; os cavalos puxaram-no de qualquer modo, metal batendo estridente contra metal, rabiscando uma assinatura de fogo através das últimas jardas da ponte.
– O que vocês acham? – perguntou Heimdall quando eles finalmente saíram da ponte. A ponte estava visivelmente tremendo agora, com os tremores soando mais regularmente. Ouviu-se um som metálico distante em alguma parte por trás da muralha de névoa, e quando eles olharam da margem do rio, viram a estrutura maciça bambear como se estivesse sob terrível pressão. – É Loki, naturalmente. Que arda no Inferno. Quem mais nós conhecemos que causa destruição em toda parte para onde vai?
Ethel sorriu.
– Eu lhe falei – disse ela.
E assim, silvando de frustração, o Vigilante retornou à sua forma de pássaro e pairou no céu enluarado, enquanto Hugin e Munin, achando seu poleiro subitamente instável, dispararam de por debaixo da Ponte de Rhydian como Fogo Selvagem saindo do Mundo Inferior.