Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 41 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 13

 

Maddy a conhecia apenas pelas histórias. Nat Parson vivia cheio de histórias sobre a Cidade Universal, com seus parques verdes e seus graciosos edifícios, suas cúpulas de vidro e suas agulhas de torres de ouro, seu porto com seus altos navios, e o Um Mar que se estendia para todo sempre. Mas Nat Parson sempre fora dado a exageros, e, uma vez que ninguém mais em Malbry estava em posição de contradizê-lo (uma peregrinação era uma coisa cara, e ninguém havia voltado da Cidade Universal em cerca de quarenta anos), Maddy havia sempre suposto que seus relatos do lugar eram muito embelezados, e que a realidade se revelaria enfim uma coisa muito diferente.

Mesmo assim, ela se descobriu despreparada. As escuras e estranhas catacumbas, os túneis tão parecidos àqueles do Mundo Abaixo, as bibliotecas ocultas infestadas de ratos se pareciam mais com as ruínas de um império do que qualquer espécie de cidade. Explorando o labirinto sob os antigos prédios, ela descobriu-se maravilhada com o assombro de riquezas, aparentemente abandonadas ali: fragmentos de prataria escurecida, retalhada e escondida por saqueadores que haviam se perdido na escuridão e cujos ossos ainda atapetavam as catacumbas; blocos de mármore; arcos derrubados; pedras preciosas brutas como pepitas de fogo; papéis e livros-razão velhos de séculos; e livros – centenas, milhares deles, alguns enxameando de traças, outros ainda intactos, alguns trancados, alguns codificados, alguns prodigamente iluminados, alguns escritos em línguas estrangeiras, alguns contendo mapas e gráficos do Mundo Além do Um Mar.

Maddy teria gostado de ter tempo para investigar. Certamente entre aquelas coisas esquecidas ela podia esperar encontrar o Velho Homem. Mas ela também precisava encontrar Maggie Rede; porque se tudo que suspeitava fosse verdade, então era apenas uma questão de tempo até que o Povo-Vidente descobrisse o caminho para Fim de Mundo. E Maddy precisava do Velho Homem – não só porque Odin havia lhe dito isso, mas porque se, como ela acreditava, o Velho Homem era o Murmurador, ela podia usar isso para provar aos outros deuses que Maggie era uma inocente, um joguete nas mãos do inimigo deles.

Mas primeiro ela tinha que encontrar sua gêmea para tentar explicar a verdade a ela. Isso podia não ser fácil, ela sabia. Maggie era uma nativa de Fim de Mundo, formada sob o regime da Ordem. Por tudo que Maddy sabia, sua irmã podia ser uma crente, devota ao modo do Bom Livro, uma convertida voluntária às fraudes de Mimir, uma soldada do Inominável. Levara a Um Olho seis anos para ensinar a Maddy o que ela precisava saber. Maddy tinha apenas dias, na melhor hipótese, para garantir que Maggie estivesse preparada.

O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.

Em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda de dentro de

um sepulcro.

Os Æsir haviam suposto (rápido demais) que os doze dias da profecia se referiam à construção de Asgard. Agora parecia provável a Maddy que os doze dias fossem uma contagem regressiva conduzindo ao Ragnarók, estivessem os deuses preparados ou não.

Dois dias inteiros já haviam passado desde que Ethel fizera a profecia. O que deixava nove dias para encontrar o Velho Homem, que podia estar enterrado em qualquer parte. Nove dias para encontrar sua irmã e persuadi-la que ela não era uma inimiga.

Assim Maddy deixou as catacumbas e, usando Sól para iluminar seu caminho e com uma mão segurando a crina de Jorgi, conseguiu encontrar um caminho na superfície que penetrava na Universidade.

Eles emergiram bem ao sul do Grande Mosteiro, uma vez um lugar de meditação, recentemente convertido num mercado formigante de gente repleto de barracas e comércios. Foi sorte Maddy ter feito isso; pois entre as multidões de Estrangeiros, escravos, dançarinas e animadores, mulheres cobertas de véus e mulheres pintadas, ladrões e batedores de carteiras, cortadores de gargantas e mercenários, nem mesmo uma rústica do Norte e seu cavalo estranhamente inverossímil poderiam atrair muita atenção.

Ela tentou passar despercebida, mas achou difícil ignorar um cão com duas cabeças; uma cobra dançarina; um profeta tatuado falando em idiomas estranhos; um homem vendendo dedos decepados.

– Que espécie de lugar é este? – disse ela a si mesma enquanto vagava de um salão a outro, entre as teias de aranha e os candelabros, evitando as rachaduras nos pavimentos de mármore, ouvindo a reclamação de vozes desconhecidas contra fantasmas de muito tempo atrás. Ela esperava encontrar ali um santuário para a Ordem; um monumento por seus inimigos derrotados. Isso teria sido apropriado. Dez mil homens haviam morrido, afinal de contas, em nome daquilo em que acreditavam. Maddy descobriu, para sua surpresa, que ela sentia mais simpatia pelos seus adversários mortos do que pelos nativos de Fim de Mundo, que pareciam ter se entregado inteiramente à busca do prazer e do lucro agora que a Lei e a Ordem haviam desaparecido.

– Quer comprar um feitiço, senhora?

Maddy virou-se e viu um artífice dirigindo-se a ela, seu rosto quase totalmente escondido sob um lenço amarelo encardido, sua figura alta escondida sob os mantos coloridos dos Estrangeiros.

– Feitiço? – indagou Maddy.

O artífice sorriu, e Maddy pensou ter visto um lampejo de olhos azuis brilhantes acima do lenço amarelo.

– Feitiço de amor, senhorita? Você parece do tipo.

Ela balançou a cabeça.

– Na verdade, não sou.

– Então, que tal um talismã de boa sorte? Peça genuína da Velha Era. Para você, apenas dois níqueis.

Ainda sorrindo, o artífice estendeu uma bandeja. Trazia uma pilha de pepitas de pedra negra. Elas se pareciam com as cinzas da forja de Jed Smith – leves e pontudas e pontilhadas de buracos. Algumas portavam pequeninos cristais incrustados na superfície; outras, o fantasma de um Arco-Íris.

– Eu não tenho dois níqueis – disse Maddy.

– Ah, vamos lá – falou o artífice. – Peça genuína de Asgard, esta. Reduzida a cinzas pelo Estridente Lorde Surt em pessoa. Caiu nos campos como chuva negra. Vá em frente. Faça-me uma oferta.

Discretamente, Maddy tateou a Bjarkán. No círculo entre seu indicador e seu polegar – uma cintilação de luz de runa do Arco-Íris.

– Então, você consegue ver as cores, hein? – O artífice examinou Maddy, e mais uma vez ela captou um lampejo de seus olhos acima do lenço amarelo encardido. Ela o tomara por um homem mais velho a princípio, mas aqueles olhos azuis eram claros e animados. Ela supôs que ele tinha quarenta anos no máximo; talvez fosse até mais jovem.

– Se eu fosse você – disse ele a ela –, não faria muita coisa com isso. Há gente demais olhando. Estão prestes a mostrar interesse.

Maddy baniu a runa Bjarkán. O mais tênue brilho de azul-martim-pescador bruxuleou entre seus dedos. Ela havia imaginado isso? Provavelmente. Ela o fizera muitas vezes antes. Seu velho amigo estava morto havia três anos, e ela ainda o via por toda parte – através de uma janela de carruagem; sentado junto a uma fonte; numa multidão em dia de feira; caminhando ao lado de uma estrada. Isso doía – talvez fosse doer para sempre. E, no entanto, ela quase temia a hora em que não pudesse mais ver Um Olho no rosto dos artífices de Fim de Mundo até o distante Norte…

Ela olhou para o homem mais de perto.

– Não o conheço de algum lugar? – perguntou ela.

O artífice deu de ombros.

– Pode ser – disse ele. – Eu estive num monte de lugares.

Aquela voz também era familiar. O coração de Maddy deu um titubeio esperançoso. Ela estendeu sua mão e puxou o lenço que envolvia a cabeça do artífice, expondo suas feições completamente. A boca torcida e ligeiramente irregular; o cabelo puxado para trás com uma tira de couro; as sobrancelhas móveis, humorísticas – tudo era mais que familiar, mas o rosto era o de um desconhecido.

O artífice ergueu uma sobrancelha.

– Perdão?

Ela desviou os olhos.

– Pensei que você fosse outra pessoa – disse ela.

– Sim, bem, isso é a vida – comentou o artífice, apontando sua bandeja de mercadorias. – Leve estes pedacinhos de pedra. Você não acharia que um dia eles foram partes de uma coisa que atravessava os céus. Olhe para eles agora, todos queimados. E, no entanto, há força magnética dentro deles, como sementes esperando apenas para subir e crescer…

Maddy olhou para ele.

– Força magnética – disse ela. – Ela ergueu uma das pedras negras. – De qualquer modo, onde você achou isso?

– Elas estão por toda parte da cidade – afirmou ele. – Isto é, se você souber onde procurar. A maior parte das grandes foi recolhida, mas você ainda pode encontrar fragmentos jogados por aí, e, naturalmente, há as histórias.

Maddy pensou na Colina do Cavalo Vermelho.

– Que tipo de histórias?

– As habituais. Que isso é que o restou da Cidadela do Céu que caiu durante a Adversidade. Fragmentos do Sonho que o Povo do Fogo trouxe para construir a Ponte entre os Mundos…

– Qual é o seu nome? – perguntou Maddy.

O artífice deu de ombros.

– O que há de importante num nome? Chame-me de Lorde Perth, se tiver vontade. E você pode ser Lady Madonna. E nós dois podemos fingir para nós mesmos que não somos apenas um par de maltrapilhos, revolvendo as pegadas dos deuses.

Um arrepio desceu pela espinha de Maddy. Ela lançou a runa Bjarkán mais uma vez e olhou para ele através de seus dedos. E desta vez ela viu sua assinatura, vermelha como o coração de uma rosa do meio do verão, que brilhava como um farol, e sobre seu braço, um fragmento de luz…

Uma marca de runa?

– Mostre-me seu braço – disse ela.

Perth lançou-lhe um olhar cômico.

– O quê? Aqui?

– Seu braço – repetiu ela, e, agarrando seu pulso, empurrou para cima a manga de seu manto azul.

E lá estava: uma nova runa, vermelho-rosa e ardendo em força magnética.

– Com que você está brincando? – sibilou Perth, puxando a manga para baixo para cobrir a marca. – Isso não é uma demonstração pública, garota. Faça algo assim novamente e ficarei apto a terminar no tronco. Ou mesmo na ponta de uma corda.

– Sinto muito – disse Maddy. – Eu não sabia.

– Naturalmente, é apenas uma tatuagem – falou ele. – Mandei fazê-la no Dia do Santo Sepulcro depois de tomar umas a mais. Poderia ter me chutado depois disso, não sei o que deu em mim. Afinal de contas, a última coisa de que preciso é outra série de marcas de diferenciação.

Maddy fez que sim. Ela estava pensando com dificuldade. Ela sabia que runa não era tatuagem. Perth acreditava mesmo que era?

– Então, o que isso significa? – questionou ela por fim.

Ele balançou sua cabeça.

– É apenas o meu nome. Perth, ela diz, em alguma língua estrangeira. Devia me trazer boa sorte, mas não me trouxe nada senão azar até aqui.

– Verdade? – interessou-se Maddy. – Como assim?

Perth apenas balançou a cabeça outra vez.

– Eu preferia não discutir isso aqui. E se você tem algum bom senso de todo, esconda a sua. Sim, claro que eu a vejo – disse ele. – Bem aí na palma de sua mão. Use luvas, pelo amor dos deuses! A Ordem pode ter desaparecido, mas há escravocratas nesta cidade que pagariam um bom dinheiro por uma garota como você, isto é, se você não for linchada antes.

Maddy pôs a mão em seu bolso e franziu o cenho. Havia tanta coisa que ela não sabia sobre os costumes de Fim de Mundo! Escravocratas, mercenários, ladrões – como nos Mundos ela iria achar sua irmã? Perth – quem, o que quer que ele fosse, com sua marca de runa e sua pilha de pedras – dificilmente seria um aliado confiável. Mas ele poderia ajudá-la a encontrar Maggie? Ou seria melhor ela agir sozinha?

Ela o examinou novamente, através da Bjarkán. Sim, havia fraude em suas cores, um fio verde-dourado que percorria sua força magnética. O homem era mais do que capaz de mentir para ela, ou de vendê-la, roubá-la, fazer uma falcatrua com ela. Ele já fizera estas coisas, ela sentiu. E, no entanto, a despeito de tudo isso, Maddy não lia nenhuma malevolência ali; nenhum sinal real de perversidade. Ela concluiu que ele era inofensivo o bastante, contanto que ela não lhe confiasse a sua bolsa. Além do mais, ela precisava terrivelmente de um guia através do labirinto que era essa cidade.

– Ouça, Perth – disse ela por fim. – Eu sou uma estrangeira aqui. Posso precisar de ajuda. Talvez possamos ajudar um ao outro.

Perth pareceu duvidar.

– É mesmo? – perguntou ele. – Eu pensei que você não tivesse dois níqueis.

Maddy estalou seus dedos, invocando a runa do dinheiro, Fé. Ela rebrilhou provocadoramente em sua palma, em ouro de guinéu e cheia de força magnética.

Os olhos azuis de Perth se iluminaram imediatamente.

– Belo truque.

– Vou ensiná-lo a você.

– Negócio fechado! – Perth sorriu. Eles trocaram um aperto de mão. – Então, o que você veio procurar em Fim de Mundo? E que espécie de cavalo é esse, exatamente? – Ele apertou seus olhos sobre Jormungand, que estava aparentemente investigando uma banca de peixe fresco numa barraca do mercado nas proximidades. Quando Perth e Maddy olharam, o Cavalo ociosamente abocanhou uma caranguejo-real vivo como se fosse um monte de palha.

Maddy puxou a rédea de Jorgi.

– Não!

O Cavalo do Mar rolou seus olhos. Por um momento as patas aracnídeas do caranguejo-real se retorceram e arranharam sua boca aberta. Então houve um som de engolida e um relincho de satisfação.

O vendedor que tomava conta da barraca de peixe, que mal tinha tempo de cuidar dela toda, esfregou seus olhos em incredulidade.

– Você viu isso? – perguntou ele a Perth.

– Vi o quê? – perguntou Perth inocentemente.

– Esse cavalo – disse o peixeiro, parecendo abalado.

Perth olhou simpaticamente.

– Sei como você se sente – disse ele amavelmente, pondo seu braço em torno dos ombros do homem. – A bebida ordinária que estavam vendendo aqui na noite passada foi suficiente para fazer qualquer um começar a ver coisas. Se eu fosse você, eu só me sentaria, tiraria o peso dos pés por um momento…

O peixeiro, um homem corpulento, sentou-se pesadamente no chão. Quando ele fez isso, Maddy viu Perth aliviá-lo habilmente da bolsa volumosa que trazia no cinto. Ela olhou ferozmente para Perth em advertência; o artífice deu-lhe um sorriso ensolarado.

– Vamos lá, você – silvou Maddy, puxando Jorgi para longe pelo meio da multidão.

Perth sorriu e seguiu-os, ainda carregando sua bandeja de pedras.

– Isso vai ser divertido – falou ele.

Jorgi deu um arroto de peixe.

Maddy fechou seus olhos, em desespero.

Eles começaram a entrar na Cidade Universal.