Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 79 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 10

 

O sol havia se posto na Praça da Catedral, mas Maddy nunca sentira tão pouca vontade de dormir em sua vida. Muito depois que os pássaros de Odin haviam partido, ela permanecera junto à fonte, olhando o povo da feira de sábado passar numa espécie de névoa de sonho. Conforme as sombras foram se alongando, as multidões começaram por fim a se dispersar; mas mesmo enquanto o povo ia embora, a praça estava viva com suas assinaturas: vendedores, falcoeiros, malabaristas, ladrões; videntes, dançarinas, apresentadores de toda espécie. A comitiva do último casamento do dia passou – a noiva de branco, com seu longo véu amarelo-açafrão, rindo e jogando flores.

Maddy viu-a entrar, de mãos dadas com o noivo. Suas assinaturas se ergueram no ar obscurecido, entrelaçadas como colunas de luz de estrelas.

Essa poderia ser minha irmã, ela pensou.

Ela descobriu que estava tremendo. As lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela devia ter chorado por algum tempo, pensou, porque sua pele estava úmida de pranto. Maddy Smith, que nunca chorava, que nunca recuava diante de nada…

Controle-se, ela pensou. Não é hora para desmoronar. Como era mesmo que a Louca Nan costumava dizer? Ocasiões desesperadas exigem planos desesperados…

Mas que tipo de desespero era aquele? Desde quando um dos planos do General envolvia que ela matasse um inocente?

Bem, talvez não um inocente, Maddy pensou com um sorriso forçado. Mas Adam não era ameaça para os deuses. Era apenas o filho de um taberneiro. Matá-lo seria um assassinato – e se Maggie realmente o amava, então isso iria partir o coração de sua irmã.

Ela poderia fazer isso a Maggie, mesmo que os Mundos dependessem do ato? E se ela fizesse isso, então como sua irmã gêmea poderia um dia perdoar os Æsir?

Maddy tomou um fôlego profundo. Odin tinha lhe pedido para confiar nele. Mas como poderia confiar nele quando visivelmente ele não confiava nela? Se ele apenas tivesse dado um motivo, ela pensou, em vez de emitir ordens daquele modo tipicamente autoritário.

Se o casamento for em frente, então tudo pelo que lutamos estará perdido.

Mas como o casamento poderia ir em frente? Os deuses estavam a poucos quilômetros de distância. Pela manhã estariam na cidade e o segundo Ragnarók teria início. O Fim dos Mundos não iria esperar pelo casamento de uma garotinha. Especialmente se essa garotinha fosse também o Cavaleiro da Carnificina…

Maddy franziu o cenho. O que aconteceria, ela pensou, se o Cavaleiro da Carnificina não cavalgasse? Poderia ser isso o que Odin temia? Aquela guerra era apenas um meio para um fim – seu propósito: recuperar Asgard. Poderia ser este seu meio de assegurar que Maggie estava preparada para cumprir sua parte da profecia? Se fosse assim, e quanto à própria Maddy? Ela estava também desempenhando um papel? Ou podia ser que ambas eram nada mais que peças num tabuleiro de xadrez, movidas por um jogador cujo único pensamento era ganhar o jogo?

Odin nunca faria isso, ela pensou. Seria cruel demais.

E, no entanto, enquanto seu coração protestava, a sua mente sabia que ele podia. Maddy conhecia Odin bem demais para ficar cega por seus sentimentos para com ele. Ele podia ser cruel, manipulador; ele podia até ser traiçoeiro. Por mais difícil que fosse de admitir, Odin tinha uma longa história de traição, violência e falsidade. E agora que estava de volta dos Mundos – embora dentro de uma Cabeça de pedra – ela supunha que ele devia estar ansioso por fazer quase tudo para recuperar sua fortaleza, seu Aspecto.

Maddy ergueu os olhos e ficou sobressaltada ao ver que a noite havia caído sobre a praça. Algumas poucas estrelas brilhantes enfeitavam o céu; para Maddy, elas pareciam inexpressivas e frias. Ela estava com fome novamente, cansada e rígida; estendendo seus membros, percebeu que havia ficado ali sentada, pensando, por muitas horas. E, no entanto, sentiu-se melhor; mais leve, de algum modo. Como se ela houvesse chegado a uma verdade penosa. Seu rosto assumiu uma aparência implacável, que, se Adam tivesse visto, teria reconhecido imediatamente.

Agora era a hora, ela disse a si mesma, de resolver quem ela realmente queria ser. O Cavaleiro da Traição? A irmã gêmea de Maggie? A neta de Odin? A amiga de Perth? O futuro dos Æsir? A defensora do Povo? Ou inteiramente outra coisa – uma coisa que ela escolheria por si mesma?

Maddy se levantou e começou a caminhar. Ela sabia apenas para onde ia. Finalmente estava farta de mensageiros e jogos mentais. Qualquer que fosse o papel no circo, ela não seria instrumento de mais ninguém. Se tinha que escolher entre trair sua irmã e trair sua tribo, então não queria mais saber de lacaios.

Os corvos podiam ir para o Inferno, ela pensou.

Maddy precisava conversar com a Cabeça.