Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 94 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

Capítulo 6

 

Bem no início da Velha Era, quando Odin e os Mundos eram jovens, a substância da Criação sempre fora o Sonho. O Sonho em sua forma mais pura e doce, canalizado através de uma só mente. Mas o Sonho, como todos os rios, é um ecossistema frágil, sujeito à contaminação e à poluição. Com o passar dos séculos o Sonho se tornou um lugar de diversas influências – algumas sadias, algumas letais –, como os Faërie e o Povo e os demônios e os deuses todos mergulhados em seu fluxo extravagante. Agora era uma confusão tóxica, que podia tanto destruir quanto restaurar. E ainda assim retinha uma energia crua que, quando represada e refinada, podia ainda ter o poder de curar os Mundos.

A Louca Nan já tinha visto um pouco desse poder na Colina do Cavalo Vermelho. Ali, a brecha no Sonho havia sido pequena comparada com o que os atacava agora; exatamente como a imaginação do Povo era pequena comparada com a dos deuses. Se Nan pudesse usar a brecha na Colina e os sonhos do Povo para construir Bif-rost, então certamente, com a ajuda do Escudo do Sol, dos sonhos dos deuses e dos quase infinitos recursos da nuvem de sombra, uma nova Cidadela do Céu poderia se erguer…

Ao menos, era o que Perth acreditava. Havia uma única maneira de testar isso.

– Não é tanto um plano – explicou ele –, enquanto for um projeto em elaboração.

Por trás deles, os Æsir e os Vanir lutavam para repelir uma muralha viva de serpentes. Maddy tentava ignorá-los, mas o som era inescapável – um som hediondo de deslizamentos e estalos – e havia um fedor de queimadura e veneno. Naturalmente, ela estava habituada a Jormungand, que parecia estupidamente desinteressada no que estava acontecendo, exceto quando efêmeras extraviadas se aventuravam em seu caminho, ocasião em que simplesmente abria suas mandíbulas e engolia as intrusas. Não surpreendia Maddy que Jorgi fosse uma canibal. Na verdade, ficaria surpresa se não fosse. Os apetites de Jorgi pareciam se dirigir identicamente aos deuses, às efêmeras e aos frutos do mar.

– Precisaremos dos Três Cavalos para fazer o trabalho – gritou Perth, tentando se sobrepor aos ruídos. – Nan, precisaremos de você ali… – Ele indicou um ponto ao pé da Ponte. – Maddy, ali, na ponta, e eu estarei lá em cima com Sleipnir, puxando tudo junto…

Ele apontou para o alto, e Maddy pensou que nunca o vira parecer mais feliz. O Fim dos Mundos estava em cima deles, a mandíbula do Caos estava se abrindo, e o General estava imerso num plano que parecia, na melhor hipótese, rudimentar.

Ainda assim, que chance eles tinham agora? Baixando os olhos para Fim de Mundo, Maddy viu que a catedral estava quase na sombra. Ela tentou não ficar pensando no que sua irmã poderia estar fazendo. Pulou de volta sobre Jormungand – que estava acabando de sugar a ponta da cauda de uma serpente ao lado de sua boca – e manobrou-a para que ficasse em posição. Nan e Perth remontaram, e de repente Maddy conseguiu ver qual era o objetivo do General.

Agora a Traição e Carnificina cavalgam com a Loucura pelos céus…

E agora ela conseguia ver a luz que vinha de Fim de Mundo, não mais uma coluna, mas uma meada; uma meada que fora tecida com centenas de runas – centenas, talvez milhares… talvez até dezenas de milhares delas, vindas da Pedra do Beijo do Santo Sepulcro. Maggie havia liberado aquela força magnética; força magnética que se enrolava em carretéis dentro do céu como fios.

Perth e Nan estavam nos lugares também – Nan girando o Escudo do Sol como se fosse uma roda de fiar; Sleipnir em seu Aspecto com suas patas aracnídeas atravessando oito Mundos e girando, girando a meada de luz de runas que tomava uma forma que Maddy podia quase reconhecer – formas estreladas, caprichosas, parecidas a teias de aranha que pairavam contra o céu que escurecia como os fios de um colar.

E nos fios havia centenas de runas; juntando-se, formando elos, refletindo-se, ligando-se rapidamente demais para que os olhos pudessem segui-las; juntas, elas tricotavam o tecido dos Mundos, que era transformado numa labareda de cores e força magnética.

Deuses, pensou Maddy. Isso é lindo…

Naturalmente nunca vira Odin liberado, em seu Aspecto primário. Ela nunca sequer considerara os deuses como nada senão uma força desgastada. Agora ela começava a entender tudo que os Æsir haviam perdido; tudo pelo que lutavam. Em Asgard, seus Aspectos seriam completos, seus poderes restaurados àquilo que um dia haviam sido. Quem iria se recusar à chance de portar essa espécie de poder novamente? De brilhar tão luminosamente? De ser um deus?

Nan também estava trabalhando duramente. Maddy não via realmente por que o Cavalo cujo cavaleiro era a Loucura devesse ter preferido adotar o Aspecto de uma velha cesta de roupas para lavar em vez de alguma coisa mais impressionante, mas a Louca Nan parecia feliz o suficiente disparando em torno do Escudo do Sol, esvoaçando e fazendo vaivéns daqui para lá entre os filamentos de luz de runas. A teia ganhava substância cada vez que ela passava; Maddy podia ouvi-la dando risadas.

– Cama de gato! – gritava Nan. – Estamos fazendo uma cama de gato!

Depois ela rumou diretamente para a nuvem de sombra…

– Nan! Não! – gritou Maddy.

Mas já era tarde demais. O Cavalo do Ar e a Louca Nan haviam desaparecido dentro das sombras. Maddy olhou fixamente para a nuvem, consternada.

– Agora, Maddy! – exclamou Perth por sobre a cama de gato de luz de runas. – Agora, Maddy, pelo amor dos deuses, sonhe!

Lá embaixo, a luz da Pedra do Beijo estava finalmente começando a se apagar. A nuvem de sombra a tinha alcançado, finalmente; uma cunha de escuridão jazia em sua base. As runas, que haviam brilhado tão luminosamente agora mesmo, começavam a desaparecer, uma por uma. E, à medida que o faziam, a Ponte do Arco-Íris também começava a se desmanchar e apagar, sua ponta afundando na nuvem. Ao mesmo tempo o Escudo do Sol estava escurecendo-se nas bordas; assim que houvesse sido eclipsado, Maddy sabia, a Ponte não se sustentaria mais.

– Sonhe, Maddy! Sonhe para salvar sua vida! – A voz do General estava desesperada.

Maddy abriu sua boca para dizer que não tinha ideia do que tinha que fazer, que era apenas uma garota das Terras do Norte…

Mas sonhar? Isso ela podia fazer. Ela havia sonhado na maior parte de sua jovem vida, embora pessoas como Nat Parson tivessem-na advertido de seus perigos. Agora ela podia ver esses perigos por si mesma, saindo da nuvem de sombra. A onda de serpentes havia cedido caminho a um ataque mais generalizado enquanto a nuvem continuava seu lento tombamento sobre a Ponte e seus guardiões.

Agora o Sonho por inteiro assediava o fragmento de Arco-Íris. Havia máquinas de guerras com dentes de chamas, aranhas tão grandes como casas; havia colunas de soldados sem rosto e exércitos de mortos ambulantes, aparelhos mecânicos de esfolamento e aves carniceiras com rostos humanos; havia sonhos de afogamento, sonhos de desmembramento, sonhos de estar desamparado e faminto e velho, sonhos de esquecimento, sonhos do passado; e, naturalmente, havia sonhos de mortos.

Para Thor, o inimigo era a Velha Era; para Njörd era a neve e o gelo; para Skadi era o afogamento; para Loki eram mais serpentes. E por trás disso tudo, o adejo; alguma coisa estava se aproximando. A sombra de um pássaro negro com plumas de fogo, trazendo o silêncio em seu rastro.

Maddy via apenas fragmentos enquanto pressionava a Serpente em direção à nuvem. Não havia tempo para temer pelos amigos, ou para interferir em suas lutas. Ela agora vira o que Perth queria fazer e entendera que o tempo era curto. O Arco-Íris era apenas uma ponte temporária, uma ponte que poderia logo ser varrida para longe. E quando o arco se rompe, o Berço cairá – o que significava que se a Cidadela estivesse incompleta quando ele caísse…

Ela afundou seus calcanhares nos flancos de Jorgi. A nuvem estava a apenas segundos de distância. A própria nascente do Sonho; o âmago de tudo que era efêmero. Mas os sonhos nunca lhe haviam falhado, Maddy Smith disse a si mesma. E nada do que se sonha está perdido para sempre…

Sonhe para salvar sua vida, Perth havia dito.

Ela mergulhou de ponta-cabeça dentro da nuvem.

Fechou seus olhos quando a atingiu, meio que esperando um impacto; mas Jorgi estava habituada a se mover através dos Mundos, e a sombra se repartiu para deixá-los passar como uma cortina sussurrante de renda negra.