Luz das Runas
Capítulo 12
– Assassinados? – repetiu Maggie Rede, no que soou para ela como a voz de uma estranha. Ela sabia que devia ficar com raiva, abalada, aflita, entristecida, chocada com as notícias que Adam lhe trazia. Mas, na verdade, a sensação esmagadora que sentiu foi simplesmente de alívio. Alívio por ela estar certa; pelos sentimentos que tivera ao longo dos três anos passados não haverem se revelado uma simples fantasia de sua imaginação solitária, mas a sombra de uma verdade mais profunda; pelas forças sobre as quais ela lera tão avidamente serem não apenas reais, mas até mais sinistras do que ela fora levada a suspeitar. Forças que podiam devastar dez mil pessoas num simples golpe, forças que ameaçavam os próprios Mundos.
Maggie já conhecia seus nomes. Eram nomes que vira repetidas vezes nas páginas do Bom Livro. Nomes que a enchiam de inquietação e com uma espécie de empolgação febril. Os Æsir. Os Vanir. O Povo-Vidente. O Povo do Fogo…
– Você já o viu? – perguntou ela, por fim. – O Povo do Fogo… Você já o viu?
Adam fez que sim.
– Uma vez – falou ele.
– Conte-me – pediu Maggie, com os olhos cintilando.
– Se eu o fizer – disse ele –, não haverá retorno. Isso vai devorar sua vida, como devorou a minha. E as coisas que você saberá, as coisas que você verá…
De repente o rosto do jovem mudou: uma sombra pareceu passar sobre ele – os olhos escureceram, a boca se retorceu – e se Maggie fosse de uma natureza fantasiosa, podia quase ter-lhe parecido que outro rosto havia emergido fugazmente sob as feições do jovem: o de um homem mais velho, mais ríspido, com um sorriso de infinita maldade e astúcia…
Mas Maggie estava empolgada demais para ser detida por um jogo de sombras.
– Conte-me o que você sabe – disse ela.
– Tudo bem – confirmou Adam com um sorriso. – Mas não diga que não lhe avisei.
E assim Adam Goodwin contou sua história. E enquanto Maggie a ouvia em silêncio, começou a ficar consciente de uma sensação muito curiosa. Não de prazer, embora seu rosto estivesse congestionado. Não de raiva, embora seu coração estivesse batendo mais rápido que a asa de um falcão caçador. Em vez disso, ela se sentia inesperadamente viva; como uma coisa que entra num casulo para emergir, meses depois, como outra coisa.
Não importava mais que ela nunca houvesse sido íntima de sua família; que ela houvesse quase esquecido seus irmãos, que haviam se juntado à Ordem quando ela era uma criança. Quanto ao seu tio Elias, Maggie nunca o conhecera. Ainda assim, essas coisas não importavam agora. Angústia, solidão, dor, culpa – tudo isso pertencia ao passado. Agora havia apenas a certeza do que seus inimigos haviam feito e a idêntica convicção de que eles tinham que ser detidos.
– Esse Povo do Fogo – disse Maggie. – Venceu a guerra com um truque. Uma tapeação.
– Isso é verdade – confirmou Adam. – Eles são pervertidos. Não têm Leis, nem honra alguma. Eles atraíram a Ordem para o Inferno e soltaram o Pandemônio sobre ela sem ligar o mínimo para as consequências. E é por isso que você vê a Cidade Universal como está, devastada, no Caos. Mas no Norte está muito, muito pior. Lá há portais pelos quais podem passar coisas; não só em sonhos, mas em carne viva também. Coisas de antes da Adversidade, liberadas para adentrar os Mundos reais como destroços de naufrágio vindos do rio Sonho.
Os olhos de Maggie ficaram arregalados de alarme.
– É isso o que você faz? – perguntou ela. – Caça essas coisas e devolve-as ao seu mundo?
– Eu fazia – afirmou Adam. – Mas não faço mais.
– O que aconteceu? – disse Maggie.
– Não aqui – disse ele. – Em algum lugar mais iluminado. Este lugar me lembra demais o… – A voz de Adam se entrecortou. – Me lembra demais o Sétimo Mundo – concluiu ele em voz baixa.
Levou algum tempo para Maggie entender aquilo.
– Você esteve lá? – perguntou ela. – Você realmente esteve lá?
Adam fez que sim.
– Mas como você…?
– Eu não estava na Ordem – disse ele. Eu nunca recebi a Comunhão. Por isso, quando o Povo do Fogo fez seu movimento, eu estava lá, ignorado. Sobrevivi. Vi tudo. Às vezes desejaria não ter visto. – Ele fez uma pausa. – É por isso que você tem que confiar em mim agora. É por isso que eu preciso que você entenda. Com a Ordem desaparecida, não sobrou ninguém para dar continuidade à luta. Ninguém exceto eu; e você, Maggie.
Ele olhou para ela de modo suplicante, e Maggie pensou que nunca vira ninguém com os olhos tão azuis. Os habitantes de Fim de Mundo eram na maioria das vezes escuros – Maggie era quase exótica –, mas Adam era como o sol no Mar, e Maggie estava deslumbrada.
– Eu? – questionou ela.
Adam sorriu.
– Mas, como posso…?
– Psiu. Você confia em mim, não confia?
Maggie fez que sim.
– Eu acho que sim – disse ela.
– Então, faça como eu lhe digo. – Adam puxou de seu bolso uma esguia navalha de cabo de pérola. – Preciso que você fique muito imóvel…
– Por quê? O que você vai fazer?
– Eu vou lhe mostrar um mistério.
– Você vai me cortar? – perguntou Maggie.
– O poder exige um sacrifício. Acredite em mim, vale a pena.
Maggie olhou para a navalha. A ideia de ser cortada alarmou-a um pouco; mas o sangue, ela sabia, era uma coisa poderosa. Talvez isso fosse alguma espécie de iniciação, disse a si mesma; algo como o rito do aprendiz que ingressava na Ordem.
– Tudo bem. – Ela estendeu sua mão.
– Não. Tire o lenço de cabeça.
– Por quê? – perguntou Maggie, surpresa. Criada nas maneiras da Ordem, ela tinha ideias severas de pudor. Mesmo agora que a Ordem havia desaparecido, mostrar seus cabelos para um desconhecido, um homem, um homem que não era um parente, parecia quase indecentemente íntimo.
– Eu tenho que explicar tudo? – perguntou Adam, ficando impaciente. – Ora, vamos, Maggie, é apenas um lenço. Você acha que eu nunca vi os cabelos de uma garota? Além do mais, no lugar de onde venho apenas as mulheres casadas cobrem os cabelos.
Por um momento Maggie foi puxada em duas direções. Ela queria fazer o que Adam pedia, mas isso ainda lhe parecia obscuramente errado. Não era muito devido ao bergha em si, mas a tudo que ele havia significado para ela. Para Maggie, usar o bergha a levava de volta a uma época mais ordeira, uma época quando ser chamada de pudica era o maior louvor que uma garota poderia receber – isso, e sem imaginação, o que era quase tão bom quanto obediente. Até onde podia se lembrar, Maggie havia tentado ser todas essas coisas. E a pressão para ser obediente agora, para fazer o que Adam lhe pedira, era quase esmagadora. Adam havia trabalhado com a Ordem. Isso o tornava praticamente um Inspetor. E a linguagem que ele usava – a do sacrifício, poder e mistérios – era tão próxima àquela da Ordem que recusar alguma coisa a ele parecia muito pior do que tirar um lenço.
O bergha estava preso em torno de sua cabeça e ombros num estilo que um dia fora popular e que algumas das mulheres mais velhas ainda seguiam. Levou um ou dois minutos para Maggie remover os alfinetes que o prendiam no lugar; debaixo dele, seus longos cabelos estavam trançados.
Adam fez um sinal de aprovação.
– Fique parada – disse a ela.
– O que você vai fazer? – questionou Maggie.
– Não vai machucar nem um pouco. Eu juro.
– Mas isso vai ajudá-lo, certo? Ajudá-lo a lutar com o Povo do Fogo?
– Confie em mim – pediu Adam. – Isso vai feri-los terrivelmente.
Maggie obedeceu e fechou os olhos quando ele estendeu a mão para desprender seus cabelos. Claramente eles nunca haviam sido cortados. O Bom Livro fazia restrições para cabelo curto em garotas, bem como para cabelos longos em garotos. A cada um o que lhe é próprio, e cada coisa em seu lugar, o Livro das Leis lhes ordenava; embora esta regra nunca houvesse sido particularmente enfatizada em Malbry, Fim de Mundo era mais próximo à Ordem, e portanto mais inclinado a insistir nessas coisas.
– Lembre-se, isso é um sacrifício – disse ele em sua voz mais persuasiva. – Novos tempos exigem novas Leis. Novos métodos.
Por um momento Maggie ainda hesitou. Não que fosse vaidosa, mas seus cabelos eram tudo o que tinha da vida passada. Ela lembrava sua mãe escovando-os toda noite, quando ia dormir; seus irmãos puxando suas tranças quando estavam brincando juntos.
E então ela abriu seus olhos novamente. Ela sabia o que queria. O passado se fora. Sua mãe e seus irmãos estavam todos mortos – e tudo por causa do Povo do Fogo. E ali estava Adam, oferecendo-lhe uma oportunidade de ferir o inimigo, e tudo em que ela conseguia pensar eram seus cabelos?
– Dê-me a navalha – disse a ele impetuosamente.
– Tudo bem – disse Adam, e sorriu.
Cinco minutos depois, o trabalho estava feito. As tranças de Maggie haviam desaparecido, e o resto de seus cabelos tinha sido podado tão curto que em alguns pontos o couro cabeludo transparecia. Não parecia tão ruim, Adam pensou. Os cabelos de Maggie eram encaracolados e espessos, cresceriam de novo em breve. E sob um bergha ou um véu, ninguém teria adivinhado a marca prateada – a marca prateada em sua nuca, bem onde a Voz disse que estaria.
Ele teve que raspar aquela parte por si – Maggie não conseguiria fazê-lo apropriadamente – e quando descobriu a marca de runa, a Voz em sua mente soltou um grito de triunfo, fazendo Adam se encolher. A navalha deu um pequeno pulo, deixando uma delicada linha de vermelho-escuro.
– Ai! – gritou Maggie.
– Eu a encontrei – disse ele.
Adam fechou a navalha e a pôs de volta em seu bolso.
– Posso entender por que eles não a notaram – prosseguiu ele. – Mesmo quando você era um bebê, acho que seus cabelos devem tê-la escondido.
– Escondido o quê? – perguntou Maggie. – Por favor, Adam, o que você está vendo? – Agora havia tensão em sua voz, e ele podia sentir seu tremor enquanto tocava a runa com a ponta de seus dedos. Ela pareceu se iluminar quando ele o fez, como prata polida sob o pano de polir. Uma forma bifurcada como um galho quebrado, brilhando agora com uma luz fantasmagórica.
– O que é? – perguntou Maggie.
– Um símbolo – respondeu Adam, sorrindo.
Maggie ergueu sua mão até seu pescoço e delicadamente explorou a marca revelada. Ela formigou ligeiramente ao seu toque, mas isso podia ter sido apenas a sensação incomum de cabelo espetado na nuca.
– Como você sabia que ela estava aí? – indagou Maggie. – E o que ela significa?
Ele sorriu novamente.
– Ela confirma o que eu sabia: que você é ela. Aquela que eu estava procurando. Eu vejo uma Cinza poderosa que se ergue ao lado de um poderoso Carvalho…
– Eu não entendo – disse Maggie.
– Essas são as palavras de uma profecia feita por um oráculo famoso. E isto… – Ele tocou a marca de runa levemente com a ponta dos dedos. – Isto é Ác, o Carvalho do Trovão, e com isso vamos erguer Asgard.