Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 5 de 103

Páginas do PDF

Luz das Runas

LIVRO UM – Fim de mundo

LIVRO UM

Fim de mundo

O rio Sonho corre através dos Nove Mundos,

e a Morte é apenas um deles.

Velho provérbio

1

 

Meia-noite e cinco em Fim de Mundo, três anos depois do Fim do Mundo, e, como sempre, não havia nada para ser visto ou ouvido nas catacumbas da Cidade Universal – exceção feita, naturalmente, aos ratos e (se você acreditasse neles) aos fantasmas dos mortos.

Maggie Rede não temia nenhuma das duas coisas. Uma garota alta, esguia, com sobrancelhas retas escuras e olhos de um curioso cinza-âmbar, usava um lenço de cabeça branco do tipo que os habitantes de Fim de Mundo chamavam de bergha e uma túnica escarlate sobre perneiras e botas. Ela era a única guardiã daquelas catacumbas abandonadas, e os ratos eram sua presa favorita. Com uma besta ou uma funda, ela conseguia atingir um rato a trezentos passos sem errar nenhum; os ratos a conheciam muito bem a essa altura e ficavam bem quietinhos quando Maggie Rede fazia ronda.

Quanto aos fantasmas, havia quase três anos que toda noite Maggie atravessava as passagens secretas e nunca tivera o vislumbre de algum. Restavam histórias de uma terrível batalha ali, com dez mil integrantes da Ordem exterminados num único dia. Mas não havia sinal deles, nem do inimigo contra o qual tinham lutado. Nem mesmo os fantasmas contavam mais essas histórias.

Do lado de fora, naturalmente, as histórias eram comuns, mas Maggie Rede não acreditava nelas e muito menos nas pessoas que as contavam, e as ignorava do mesmo modo como ignorava os fantasmas, concentrando-se de preferência naquilo que podia ver e mantendo os ratos afastados das catacumbas.

O Bom Livro, obviamente, tinha sua própria versão dos eventos. Segundo o Livro do Apocalipse, os dez mil haviam sido arrebatados pela Glória, um advento previsto desde o nascer da Nova Era, quando o Inominável chamaria os fiéis aos seus braços, e eles se livrariam de sua carne mortal e renasceriam em seus corpos perfeitos às margens do Primeiro Mundo.

Maggie acreditava no Bom Livro. Como seu pai e seus irmãos antes dela, era uma seguidora fiel da Ordem, e se fosse um garoto ela também teria conhecido a Glória a essa altura. Então, seria conduzida ao alto até a Cidade Celestial, em vez de deixada para lidar com a confusão de Fim de Mundo.

Maggie achava que parte do problema era que, embora tivesse ocorrido muita discussão sobre o tema da Glória e a natureza exata dos deleites reservados para os fiéis quando o dia feliz chegasse, ninguém nunca havia sido inteiramente claro sobre o que aconteceria com a carne descartada. Ela havia imaginado uma espécie de limpeza por meio de uma fonte celestial, em que os corpos seriam milagrosamente preservados; mas, quando finalmente aconteceu, com dez mil membros da Ordem subitamente desocupando seus corpos terrestres (incluindo Professores, Tutores, aprendizes e Inspetores de campo), os resultados haviam sido catastróficos.

Foram necessários seis meses para arranjar um lugar para os cadáveres. Parte disso era porque ninguém em Fim de Mundo queria assumir a responsabilidade. A limpeza geral era problema da Ordem, que controlava os serviços sanitários, e devia ser conduzida (e paga) por representantes oficiais da Ordem.

Mas prevaleceu a realidade sombria de que não havia representantes da Ordem, nem oficiais nem extraoficiais. E assim os cadáveres apodreceram e federam até que, muitas reuniões e comissões depois, foram declarados um perigo para a saúde pública, transportados para longe e queimados.

Isso acontecera havia três anos. Maggie tinha então catorze anos, e bem antes que a catástrofe irrompesse, fora mandada para ficar com sua tia-avó Reenie nas Divisões Administrativas, enquanto sua mãe vasculhava por entre os horríveis restos, em busca dos três Inspetores que haviam sido seus filhos.

Oficialmente, era claro, um Inspetor da Ordem não tinha família alguma. A primeira coisa que um aprendiz tinha que fazer antes de assumir sua posição como filho da fé era dar as costas aos pais, desistir de seu nome e aceitar um número em seu lugar. O pai de Maggie respeitava isso. Irmão de um Inspetor recentemente honrado com o dom da Palavra, ele soube tomar a decisão de não envergonhar seus filhos com sua interferência. Filho mais novo de um comerciante de lã das Divisões Administrativas, ele próprio havia aspirado ingressar na Ordem, mas seu pai pudera abrir mão de apenas um de seus filhos, e assim seu irmão Elias teve a chance, enquanto Donal havia aprendido o ofício do pai.

Anos mais tarde, quando ele mesmo já era um pai, havia se mudado para a Cidade Universal, jurando dar aos próprios filhos a chance que ele não tivera quando chegasse a hora de renegá-los, como era certo e apropriado segundo as regras da Ordem. Mas a mãe de Maggie não havia feito tal jura. Muitas eram as mães que, como ela, desafiavam a Lei e se esgueiravam furtivamente pelos prédios da Universidade à noite, arriscando ser presas – e às vezes coisa pior –, pela oportunidade de oferecer um enterro decente para os seus filhos homens.

Susan Rede pagou caro por essa possibilidade. Uma febre hemorrágica, contraída numa de suas jornadas noturnas entre os restos, havia posto um fim em sua procura e em sua vida, não sem antes passar a doença ao marido, à enfermeira, ao dono do armazém, ao primo, a todos os seus fregueses e ao homem que vinha recolher os mortos.

Quando Maggie chegou em casa, cem mil pessoas haviam morrido da epidemia. Fim de Mundo estava fora de quarentena, os corpos haviam sido removidos para longe. E a Universidade das Verdades Imutáveis não era nada senão uma casca vazia, suas riquezas pilhadas, suas bibliotecas abandonadas, suas grandes salas e anfiteatros vazios de qualquer coisa que não fosse poeira.

Ela poderia ter ficado com a tia, supunha. Nada restara de sua vida anterior. Mas Reenie tinha seus próprios filhos e um trabalho de ordenha de vacas numa fazenda próxima. E Maggie não estava acostumada com o comportamento do povo das Divisões Administrativas, seus modos lhe pareciam quase desregrados, com seus costumes interioranos e sua atitude negligente quanto a frequentar a igreja e os dias santos; riam da forma como ela se vestia, do seu sotaque de Fim de Mundo e do que chamavam de seus “modos da cidade”.

E, assim, sem família alguma, sem lar e sem amigos, Maggie voltou para Fim de Mundo. Ela encontrou um emprego numa taverna próxima à velha Universidade, que lhe oferecia casa e comida e um centavo por dia para as despesas. Ela não gostava dos fregueses, que eram geralmente grosseiros e bebiam demais, mas a taverna era chamada de “A Comunidade”, o que fez ela pensar que a princípio o lugar fosse relacionado à Ordem. A proprietária era uma sra. Blackmore, uma puritana com um bergha de viúva e um olho minúsculo, penetrante e cobiçoso, que havia feito uma fortuna durante a epidemia vendendo talismãs para os crédulos. Seu marido havia morrido ajudando os doentes, ou assim dizia a sra. Blackmore. Na verdade, ele próprio havia contraído a febre ao saquear os corpos dos mortos. Agora, a sua viúva fazia negócios com a reputação santificada do marido – tecendo relatos de sua coragem, advertindo quanto ao Povo-Vidente, ficando de olho em marcas de runas e coisas assim e pregando abstinência enquanto vendia a mais azeda e aguada cerveja de todo Fim de Mundo.

E, quando Maggie ficou acostumada aos novos modos e à sua nova vida na Cidade Universal, compreendeu que a grande calamidade não foi a pior coisa que aconteceu ali. Na ausência da Ordem, outra praga havia chegado à cidade – uma praga de cobiça e bandidagem que varreu todo o Sul da Região.

Odin de Um Olho teria entendido. A Ordem e o Caos têm suas marés, e a ascensão de uma leva inevitavelmente à queda da outra. Não que o Povo-Vidente houvesse ascendido muito, mas permanecia o fato de que dez mil membros da Ordem haviam sido eliminados num só dia, e o Caos havia se precipitado com a finalidade de ocupar os espaços que eles deixaram.

Não fora, contudo, uma vitória que garantisse a Odin qualquer grande conforto. A Ordem desaparecera, certamente; mas nos três curtos anos que se seguiram à guerra, Fim de Mundo havia se tornado um lugar arruinado. Sem a Ordem para manter o controle, o lugar havia sucumbido, como o dinheiro sempre faz, ao excesso, à anarquia e à cobiça. Desaparecidas estavam as solenes figuras de mantos escuros; desaparecidos os grupos de aprendizes loquazes; desaparecidos os discretos cafés e os oratórios e os livros.

Agora, em vez de Purificações para entreter as massas, as ruas estavam inundadas de negociantes vindos de outros países, correndo para expor suas mercadorias. Nos dias da Ordem, o porto de Fim do Mundo era mantido sob controle muito rigoroso. Negociantes estrangeiros eram pesadamente taxados e as mercadorias ilegais, apreendidas e destruídas. Só os comerciantes respeitáveis eram permitidos, vendendo seus produtos respeitáveis e necessários. A bebida alcoólica havia sido banida, junto com as prostitutas e as dançarinas. E, embora um mercado negro tivesse sobrevivido (para mercadorias luxuosas e exóticas), os indesejáveis, tais como ciganos, vendedores ambulantes, bandidos e estrangeiros, eram provavelmente muito mais Inspecionados, expulsos ou até mesmo enforcados do que acolhidos na Praça da Catedral.

Mas agora os portões haviam se escancarado. Os navios não mais desviavam, e, assim que estas informações se espalharam, uma praga de negociantes de outros países havia baixado sobre o porto de Fim de Mundo.

Estes negociantes vendiam tudo e qualquer coisa que se pudesse imaginar. Sedas, couros, pastéis e bolos; macacos, caquis e tinturas púrpuras; conchas marinhas, venenos e escravos de além do Um Mar; pedras preciosas reais e falsas; bebida alcoólica; equipamentos bizarros; feitiços do amor; laranjas, louças e órgãos ressecados de animais selvagens. Pouco a pouco estes negociantes haviam invadido a cidade, trazendo hordas de compradores, otários, jogadores e ladrões em seu rastro exótico. Trouxeram também crimes de todos os tipos, doenças, drogas e violência. Faziam e perdiam fortunas no jogo, vendendo como escravos aqueles que não podiam pagar suas dívidas. Viviam como reis ou senhores de guerra, vestiam-se com joias, portavam espadas, mantinham garotas escravas e seduziam as jovens e crédulas com promessas de riqueza fácil.

Para Maggie, que mal tinha dinheiro para sobreviver e trabalhava o dia todo na taverna sombria, parecia que o mundo que ela havia conhecido se tornara um Pandemônio. Até a Universidade havia sido dominada pelos recém-chegados – refeitórios vazios foram convertidos em salões de dança, colégios em bordéis, tavernas e salas de jogo.

A princípio houve alguma resistência – a maior parte vinda dos nativos de Fim de Mundo, que temiam que um dia a Ordem pudesse retornar. Mas, à medida que o tempo passou, seus seguidores haviam se tornado poucos e menos fervorosos. Ninguém apareceu para assumir o controle. A Ordem não havia retornado, tampouco o Caos. Algumas pessoas afirmavam terem visto fantasmas em torno dos edifícios desertos, mas os corredores mal-assombrados, do que um dia foi chamado Cidade Universal, haviam se mostrado bem menos mal-assombrados quando ocupados por dançarinos e músicos. E de forma lenta, mas firme, a ruína se espalhou internamente, tomando conta de capelas, escritórios, salas e até mesmo do Grande Quadrângulo, agora transformado numa praça onde metade de Fim de Mundo – ou assim parecia – vinha para festejar aos pulos nas noites do Sétimo-dia.

Ali se viam ursos dançarinos em correntes, suntuosos banquetes sendo comidos nas costas de prostitutas nuas, fumantes de sementes exóticas, falsos mágicos e adivinhos, profetas loucos pregando as palavras de demônios desaparecidos e deuses derrotados. Onde a modéstia havia sempre predominado, novos costumes extravagantes apareciam agora. Algumas mulheres até saíam às ruas com as cabeças descobertas e os ombros à mostra. Em três anos, ao que parecia, o mundo que Maggie conhecera havia chegado ao fim. E ninguém exceto Maggie parecia se importar com isso.

Ela sempre mantivera a fé. Cobria sua cabeça com o bergha, como o Bom Livro mandava. Não comia carne nos dias santos e sempre se lavava antes de fazer suas orações. Embora a Ordem houvesse desaparecido, ela mantinha seus dias de jejum e seguia suas Leis, pois neste novo mundo desregrado, os velhos ritos e rituais faziam-na sentir-se segura.

Naturalmente, ela nunca conhecera o Caos, nem testemunhara realmente a Glória. Vinda das Divisões Administrativas para se descobrir uma órfã, sem nada no bolso e sozinha numa cidade que mal reconhecia, vira sua jovem alma romântica voltar-se para dentro em busca de conforto e havia se convencido (ao menos em parte) de que era a heroína de algum episódio dos Últimos Dias, uma sobrevivente solitária da Adversidade.

Caçula e única filha de uma família de quatro irmãos, Maggie sempre fora a mais brilhante. Embora nunca houvesse frequentado a escola, ela havia secretamente aprendido a ler, e, ao longo dos anos, em torturantes fragmentos entre os sermões de Domingo de Jim Parson e as passagens surrupiadas dos livros de seus irmãos, havia obtido mais conhecimento do que qualquer um pudesse suspeitar. Histórias do demoníaco Povo-Vidente de antigamente; de Æsir e Vanir, de suas guerras e de como finalmente eles haviam roubado as runas do Velhíssimo Manuscrito Original e construído para si mesmos uma cidadela a partir da qual governariam os Nove Mundos. Ela sabia como eles haviam vencido; como haviam feito armas e artefatos mágicos; como haviam partido em buscas de aventuras; como haviam travado guerra contra o Povo do Gelo; e, finalmente, como haviam sido traídos por um de seus próprios elementos, o Astuto, e derrotados por fim em sua arrogância pelo Inominável.

Tinha havido a Adversidade – ou Ragnarók, como a chamavam então. Mas a Adversidade não havia extinguido o Povo-Vidente. Pelo contrário, os levou a se esconderem, enfraquecidos, mas ainda perigosos, como um fogo selvagem rastejando sob a terra. E o Bom Livro havia prometido que um dia, em breve, a Purificação final viria, e a Ordem Perfeita triunfaria sobre o Caos para sempre…

Nos dias da Ordem, naturalmente, todos os relatos eram vistos como potencialmente perigosos, mesmo os que constavam do Bom Livro, e apenas os iniciados da Ordem tinham sido autorizados a penetrar nas grandes bibliotecas da Cidade Universal. Mas agora Maggie estava livre para fazer o que quisesse. Embora a maior parte do ouro da Ordem tivesse sido saqueada – incluindo os estranhos símbolos em formatos de chave que os Inspetores usavam em volta dos pescoços –, muitos livros haviam restado. Mesmo correndo perigo, Maggie os lia com uma ânsia cada vez maior, sabendo que era perigoso, mas cheia de uma nostalgia crescente pelos mundos quase esquecidos que havia dentro deles.

Alguns livros eram de ciência e alquimia, nomeando as várias propriedades dos metais e dos sais. Outros eram de geografia de antes da Nova Era. Muitos eram em idiomas que ela não conseguia ler, ou em palavras que não entendia. Alguns eram ilustrados a bico de pena com pequeninos desenhos de pássaros e outros animais. Outros eram indecentes, contendo poesia de amor ou quadros de mulheres nuas. Alguns eram longas listas de reis antigos. À medida que a profanação da Universidade pelos negociantes ia avançando, Maggie percebeu que era apenas uma questão de tempo até que alguma pessoa ativa desmontasse as bibliotecas e vendesse os livros para queimar nas lareiras dos negociantes. Ela então removeu quantos pôde e levou-os para um lugar de segurança, uma passagem recém-descoberta que ficava abaixo da Capela da Comunhão.

Naquela ocasião, a pequenina capela no centro da Universidade ainda permanecia quase intacta. Alguns de seus vitrais haviam sido saqueados, mas no grande púlpito de carvalho um atril ainda sobrevivia, e sobre ele estava o maior Livro que Maggie já havia visto. Grande demais para ser saqueado no momento, ele era quase do tamanho de um berço de criança, talhado em couro, encadernado com ouro e avolumado pelo misterioso peso das palavras. Maggie ansiava por ver o que havia dentro dele – mas ele era firmemente preso por um anel de cadeado, e nenhum de seus esforços para forçá-lo foi bem-sucedido.

Mas foi o que ela encontrou debaixo do atril naquele dia o que a fez prender o fôlego de empolgação; atrás de um painel no enorme púlpito entalhado, Maggie descobriu uma porta secreta, deixada entreaberta durante a Glória – a primeira de muitas entradas ocultas para as catacumbas da Cidade Universal.

Daquele dia em diante, Maggie passou a maior parte de suas noites nas catacumbas. A exploração da Cidade Universal já estava a caminho, e ela sabia que muito em breve os edifícios abandonados não mais ficariam assim, e sua solitária ocupação não seria mais solitária.

Mas as catacumbas eram um caso diferente. As passagens sob a Universidade se estendiam por quilômetros em todas as direções: ruas de pedra fria, túneis em formato de labirintos, cavernas cheias de correntes de ar, armazéns abandonados, depósitos de ossos e poeira. Acima de sua cabeça, os saqueadores cresciam em audácia, mas nenhum deles se aventurava debaixo da terra e ninguém viera perturbar suas pilhagens quando ela mergulhava em profundezas ainda maiores sob a cidade.

Isso se tornou mais do que um jogo para ela. Por três anos Maggie fez centenas de mapas mostrando a localização de mais de mil salas, cavernas, criptas, passagens, poços, escadarias, portas ocultas, painéis soltos, avenidas, entradas, espaços confinados e becos sem saída.

Algumas dessas passagens estavam limpas; outras iam até os joelhos em poeira. A maior parte delas estava vazia e em desuso, mas um dia ela encontrou uma câmara mortuária erguida inteiramente com ossos humanos, os crânios dispostos num desenho decorativo junto à arquitrave, as colunas feitas de longos feixes secos de fêmures e ulnas rebocados com pelo, poeira e gordura. Em outra ocasião ela encontrou uma sala cheia de carne e legumes enlatados; depois, algumas caixas de vinho. Ela também encontrou ratos em grande número; mas a maior parte do que encontrou foram pedras sem vida, câmaras de eco, artérias congeladas – o coração morto da Cidade Universal.

E então, numa de suas pilhagens noturnas, Maggie tropeçou numa pedra solta, sob a qual estava escondida uma longa chave dourada. Ela a pegou e a manteve em torno do pescoço. Era uma bela coisa, embora decorativa demais para ter algum uso prático. Depois, um dia, ocorreu-lhe tentar introduzi-la no cadeado de ouro que prendia o colossal Livro talhado em couro que ela havia descoberto no atril da Capela da Comunhão…

E foi assim que uma filha de um comerciante de lã das Divisões Administrativas descobriu e leu o Livro das Palavras.

As páginas eram grandes e difíceis de manejar, e o papel era ao mesmo tempo duro e curiosamente frágil, de modo que Maggie penou para evitar quebrá-lo. Mas o texto escrito à mão era requintadamente belo, e as imagens, pequenas cenas esmaltadas dos Livros Herméticos: retratos de heróis, serpentes extravagantes, dragões, demônios e o há muito desaparecido Povo-Vidente – eram histórias, por si mesmas, misteriosas, terríveis e iluminadas de promessas.

Temendo vândalos ou ladrões, ela havia arrastado seu tesouro (não sem dificuldade) para o espaço sob o púlpito, e dali para sua biblioteca secreta. Ali ela mantinha todos os seus livros roubados, e ali dispusera o Bom Livro respeitosamente contra a parede. E embora o texto fosse muito antigo e seu significado difícil de decifrar, Maggie sentia o poder no antigo manuscrito e rastejava de volta à biblioteca todas as noites. Então, à luz de vela, passava seus dedos sobre o texto iluminado e sussurrava as estranhas e belas palavras para ela mesma, e sonhava.

Quando criança, fora ensinada a ficar alerta quanto aos sonhos. Mas à medida que foi ficando mais velha, arrastando uma vida nos porões da Cidade Universal, foi descobrindo um prazer crescente neles. Seus pais e parentes haviam desaparecido. Amigos como os que ela tivera haviam se dispersado. Os sonhos eram tudo que ela tinha agora e, abastecida por imagens do Livro, sonhava com batalhas e demônios, com o Povo-Vidente e os deuses; com a Cidadela do Céu, a Fortaleza Negra e o Caos; mas acima de tudo, sonhava com os Últimos Dias, com a Adversidade, com a Purificação final de todos os Mundos, quando a praga, o crime, a miséria e a morte seriam para sempre banidos, e os três grandes Cavaleiros com espadas de fogo investiriam sobre os Mundos Médios, abatendo os malvados e erguendo os fiéis do pó.

E virá um Cavalo de Fogo –

E o nome de seu Cavaleiro é Carnificina.

E virá um Cavalo do Mar –

E o nome de seu Cavaleiro é Traição.

E virá um Cavalo do Ar –

E o nome de seu Cavaleiro é Loucura…

Esse era de longe o sonho preferido de Maggie. Ela sabia que esse jogo era perigoso, pois os demônios podem penetrar no mundo através dos sonhos, mas mesmo assim não conseguia parar. E, assim, na escuridão da Cidade Universal, cercada por livros esquecidos, embalada pelo murmúrio do vento nos túneis e pelos sons distantes da música que vinha lá de cima, sonhava com a Palavra, com a Glória e com a Adversidade que viriam. Mais que tudo, sonhava com os Cavaleiros dos Últimos Dias, que se aproximavam mais e mais à medida que o tempo passava. E descobrira que, fechando seus olhos, poderia quase vê-los – um deles especialmente, seu rosto jovem bronzeado pelo sol, o cabelo leve puxado para trás com um laço de couro, e o azul de seus olhos, tão diferente do azul do Mar… Um azul enevoado, como as montanhas vistas de longe, e tão frio como os picos do distante Norte.

Era um sonho estranho e belo. Estranho, porque de algum modo ela sabia que ele era real e que ali – aquele lugar morto e quase esquecido – era o lugar para o qual ele estava destinado a ir. Mais estranho ainda, porque às vezes ela sentia que os próprios sonhos estavam chamando-a numa linguagem toda sua; uma linguagem secreta como a daqueles livros nos quais ela havia encontrado um novo propósito.

E, assim, enquanto a maioria das pessoas fazia tudo que podia para impedir-se de sonhar, Maggie se tornou uma caçadora de sonhos. E quanto mais ela sonhava, mais reais os sonhos se tornavam para ela, e mais ela crescia no entendimento de que era ali, entre as ruínas da Cidade Universal, que o Fim do Mundo estava destinado a começar, e que ela teria um papel a desempenhar nele.

Era este pensamento – e não os livros ou os ratos – que levava Maggie Rede para ali toda noite, descendo pelas passagens desertas, lendo textos estranhos e esquecidos, girando chaves quase devoradas pela ferrugem, e sonhando com aquele glorioso dia em que tudo que ela havia ansiado por toda a sua vida iria de repente se realizar.

Um dia aquilo aconteceria. Um dia seu momento chegaria.

E assim Maggie esperava entre seus livros roubados, mantinha a fé, estudava e sonhava, mal sabendo que a cerca de dez quilômetros de distância, no longínquo Norte gelado, numa aldeia semioculta pelas montanhas e a neve, um par de olhos sempre vigilantes havia se virado por fim ao som de sua voz. E que depois de três anos de espera, seus sonhos estavam finalmente marchando em direção a ela.