Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 71 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 2

 

Naquela noite, em sua cobertura, Maggie estava traçando planos próprios. Ela esperou até que Adam dormisse, depois silenciosamente se esgueirou para fora da cama. O Velho Homem estava escuro sobre seu plinto ensombrecido; ela supôs que ele também estivesse dormindo.

Ótimo, pensou Maggie. Deixe-o dormir. Desta vez sua presa estava em outra parte. E graças aos corvos de Odin ela sabia exatamente onde encontrá-los. Na estrada para Fim de Mundo, em algum lugar ao sul de Rhydian, o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo estava preparando sua apresentação final.

Ela lançou a runa Bjarkán – Sonho – e deixou sua consciência desaparecer. Desta vez sabia exatamente o que estava procurando; e sua mente penetrou facilmente no Sonho, roçando a superfície de suas águas delicadamente, como uma ave marinha à caça de peixe.

Dessa vez foi muito mais fácil do que antes; Maggie quase se surpreendeu. O Cavaleiro da Carnificina não precisa de Cavalo algum para mergulhar no mundo do Sonho. Tudo que ela precisara era de saber exatamente a que altura o Povo do Fogo havia chegado; o resto das necessidades poderia ser invocado a existir tão facilmente quanto à serpente que quase matara Loki na Colina do Cavalo Vermelho.

Ah. Lá.

Lá estava ele. O Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo, descendo pela estrada de Fim de Mundo. Maggie avançou ansiosamente, prestando atenção a cada detalhe.

Então, pensou ela. Esta é minha família. Ela quase sorriu à ideia daquilo – a Rainha dos Porcos, o Homem Forte, os Garotos Lobos, o Rouxinol Humano –, como uma criança poderia sorrir diante de um personagem de uma história familiar, bem-amado, ainda lembrado… até que ela se lembrou do porquê de estar ali.

Uma voz em sua cabeça falou secamente:

– E para que isso, Maggie? – perguntou a voz. – Você acha que pode detê-los? É isso que acha?

Maggie abriu os olhos.

– Quem está aí?

O Velho Homem sobre seu plinto no escuro bruxuleou com algo parecido à ironia.

– O que você está dizendo? – silvou Maggie. – Que ninguém pode deter o Povo do Fogo?

– Ah, eles podem ser detidos – disse o Velho Homem. – Mas isso não vai impedir a Adversidade. O Cavaleiro da Carnificina irá cavalgar, está escrito. Não está escrito: “Depois do casamento, o Cavaleiro da Carnificina oferecerá uma recepção regada a champanhe, seguida por uma dança campestre e um bolo de noiva.”

– O quê? – perguntou Maggie, inteiramente confusa.

– Não importa – retrucou o Velho Homem. – O que quero dizer é que todos nós temos um papel a desempenhar nisso. Adam inclusive, para maior infelicidade, embora se você me perguntar, eu não entenda o que você veja nele de modo algum. Um filho do Povo. Esse Filho do Povo. Esse pequeno, conivente, falso…

– Pare com isso! – exigiu ela. – Pare de dizer essas coisas! Eu o amo!

A voz do Velho Homem em sua mente adotou um tom de terrível paciência.

– Maggie, você não o ama. Você nem mesmo o conhece. Para começar, seu nome não é Goodwin. É Scattergood. Ele lhe revelou isso? Ele lhe revelou que pelos últimos três anos tem tentado destruir sua família? Que ele não se deteria diante de nada para ver-nos liquidados? Que ele não a ama, e nunca amou, e que seu casamento foi totalmente uma ideia de seu mestre?

Maggie disse desdenhosamente:

– Como meu casamento poderia ser parte disso?

– Não é seu casamento – explicou o Velho Homem. – Mas o presente de casamento…

E então, em sua mente, Maggie viu outra série de trêmulas imagens, como quadros numa pasta de recortes. Ela mesma – um pouco mais velha, talvez –, seu cabelo mais uma vez coberto por um bergha. Mas não um dos lenços brancos usados pelas donzelas de Fim de Mundo. Era negro – um lenço de viúva – e sobre seus joelhos ela segurava uma criança – um garoto com a marca do Povo do Fogo.

Por um momento Maggie mal conseguiu respirar.

– Você não pode saber disso – disse ela. – Ninguém poderia saber. Eu pensei… mas é cedo demais para ter certeza…

O brilho do Velho Homem se intensificou.

– Não seja tola. Você sabia desde o início. Desde o primeiro momento em que se deitou com ele. Você o sentiu. Você sabia por que eu sabia. O filho que você carrega, o fruto do Carvalho, determinará o destino dos Æsir. Sua marca de runa, seu presente, é a runa derradeira. A décima runa do Novo Manuscrito.

E então o Velho Homem recitou a profecia da Vidente:

O Berço caiu há uma era, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo.

Em apenas doze dias, no Fim dos Mundos; uma dádiva vinda de dentro de

um sepulcro.

Mas a chave para o portal é um filho do ódio, um filho de todos e de

ninguém.

E nada do que se sonhou se perde, e para sempre nada se perderá

também.

– É disso que se trata? – indagou Maggie, esquecendo-se de baixar sua voz. – Você está sugerindo que Adam sabia que isso iria acontecer? Talvez você pense que ele planejou desse modo, somente para se apossar da marca de runa?

O Velho Homem suspirou.

– Eu não penso. Lembre-se, eu sou um oráculo. Mas se seu filho vai sobreviver para ser uma dádiva para os deuses, ou para seus inimigos… bem, Maggie, isso cabe a você.

Por um longo tempo Maggie ficou em silêncio junto à Cabeça de Pedra obscurecida. A marca de runa Ác em sua nuca ardia como uma mancha febril.

Por um momento o que o Velho Homem dissera quase fez uma espécie de sentido – o modo com que Adam a procurara; o modo com que seu mestre a tinha usado, primeiro para recobrar o Cavalo Vermelho e dar busca ao Velho Homem. E quando ela se rebelou, ele havia jogado com ela, explorando suas simpatias recém-descobertas, ameaçando seu novo amigo, enquanto o próprio Adam jogava com sua solidão, lisonjeava-a e adulava-a, deixando-a pensar que ele a amava…

Mas era claro que o Velho Homem teria que dizer isso.

Teria que dizer? Mas ele não pode mentir…

Ele não teria que mentir, ela pensou. Tudo que ele tinha a fazer era distorcer a verdade para os seus propósitos. Era Odin, afinal – Odin, o mestre manipulador. Prevendo que o casamento não teria lugar, jogando com seus medos e desejos, cuidadosamente alimentando-a com fiapos de verdade, tiradas de seu contexto e adotadas sob seu singular ponto de vista, ele esperava erodir suas simpatias, enchendo-a de esperança, dúvida e desconfiança, e finalmente faria a sua lealdade pender em direção ao Æsir.

Tudo isso fazia sentido perfeito, ela pensou. O Velho Homem queria sua lealdade. Ele queria que seu filho – seu bisneto – fosse um filho dos Æsir. E seu orgulho – seu lendário orgulho – não permitiria que um filho do Povo tivesse qualquer participação na dinastia. Então, o nome de Adam não era Goodwin? E daí? Um homem pode mudar de nome, ela pensou, por inúmeras razões. Isso não o tornava um mentiroso ou significava que ele não a amasse. Ele jurara destruir os Æsir? Ela mesma jurara também, uma vez. Isso não a tornava desonesta ou lançava qualquer dúvida sobre o amor de ambos. Muito ao contrário, ela pensou. Se, afinal, ele ainda podia amar a filha de seus inimigos, isso não tornava Adam melhor do que eles? Isso não o tornava mais nobre?

E assim ela dispensou seus pensamentos sombrios, como um pesadelo que parece real por algum tempo, e depois desaparece no nada. O amor não é uma vela que possa ser apagada ao primeiro sopro de dúvida, e Maggie era jovem e otimista o suficiente para acreditar que, se tivesse havido alguma fraude, ela tinha provindo do Murmurador, e não de seu noivo.

Que se separasse Adam de seu passageiro maligno, e tudo poderia ter início outra vez. Adam, Maggie e o filho deles: um perfeito, inquebrável círculo de três pessoas. Uma família para substituir a que fora perdida; e agora que ela ia ser uma mãe, certamente o casamento devia ir em frente…

De repente ela ouviu um som do lado de fora, no terraço. Alguém estava tentando – silenciosamente, espertamente – abrir as janelas do quarto.

Maggie invocou a runa Hagall, afiando-a até ficar penetrante em sua mão. Ela não sabia quem era o intruso, mas ele viera em má hora. Maggie era uma mãe agora. Não importava que seu filho mal fosse um feto. Não importava que seu filho fosse a chave para o destino dos Nove Mundos. Algum instinto feroz e primitivo havia despertado dentro dela.

Ela entrou nas sombras e esperou.