Luz das Runas
Capítulo 14
Naquele momento, uma figura solitária restara erguida nas ameias de Asgard. Enquanto a sombra lentamente se apagava e os Æsir e os Vanir exploravam seus novos territórios, Maggie Rede ficara sozinha, baixando os olhos por sobre Fim de Mundo. A Ponte do Arco-Íris, mais uma vez reconstruída, atravessava o vão entre a terra e o céu numa faixa ofuscante de luz colorida. E quando a nuvem de sombra se dispersou, a chuva caiu suavemente sobre Fim de Mundo.
Uma tremenda sensação de cansaço agora caía como um cobertor sobre ela, e as lágrimas que ela não havia derramado por Adam agora começavam a escorrer pelo seu rosto. Não realmente por Adam, Maggie pensou; ou pelas ruínas de Fim de Mundo, ou mesmo por seu filho não nascido, que nunca conheceria seu pai…
Uma sombra tombou sobre o parapeito. Alguém se erguia atrás dela. Uma figura alta, com um manto azul, os olhos meio ocultos por baixo do chapéu. Havia uma cicatriz sobre o olho esquerdo, onde a força magnética de Maggie o tinha atingido; ela parecia idêntica à runa Raedo, e brilhava com uma vaga luminescência.
Odin no Aspecto de Pai Supremo ainda se parecia bastante com Perth. Maddy, se estivesse lá, teria notado que ele também se parecia com Um Olho; só que mais jovem, mais forte, e no entanto mais solitário, remoto e de certo modo repulsivo. Hugin e Munin baixaram nas ameias batendo as asas e crocitaram.
– Aí está. Você conseguiu o que queria, então – disse Maggie, ainda com os olhos voltados sobre Fim de Mundo.
Isso é o que o Povo do Fogo vê, disse ela a si mesma silenciosamente. Pequenos campos. Pequenas ruas. Um oceano como um manto de azul. Como é pequeno tudo isso! Como é tão pequeno!
Odin soltou um suspiro cansado. A fruta de Idun curara suas feridas, mas não pudera fazer nada por seu coração dolorido.
– Sim. Eu consegui o que queria – disse ele. – Pagando um preço. E você?
– Uma sala em Asgard. Você me prometeu. E segurança para meu bebê.
– Mantenho minha palavra – disse Odin. – Muito embora a criança que você carregue possa viver para fazer com que nós dois nos lamentemos.
Maggie ergueu os olhos ao ouvir isso.
– Minha irmã disse que meu filho estava possuído. Que o Murmurador estava apenas me usando para voltar para Asgard. – Ela baixou a voz. – Tal como usou Adam para chegar às runas na Pedra do Beijo.
Odin deu de ombros.
– Ela pode estar enganada.
– Você não pensa assim, pensa? – perguntou ela.
– Não, Maggie. Eu não penso assim.
Maggie avaliou as palavras de Odin. Alguma coisa dentro dela acreditava nele – estava realmente convencida da verdade. E, no entanto, o que ela sentia pela minúscula vida que estava crescendo firmemente dentro dela era tão esmagadora, tão potente, que a verdade mal importava.
O que quer que essa criança pudesse um dia se tornar, o que quer que houvesse de errado com ela, ela era seu filho – o filho de Adam – e ela o protegeria com a vida. Qualquer coisa que o tivesse possuído – como Adam também havia sido – teria que passar primeiro por Maggie, e isso não seria uma missão fácil. Maggie Rede, como um dia ela fora; depois, Maggie Goodwin; Magni, o Carvalho; e agora, por fim, Maggie Scattergood, viúva e mãe de Fim de Mundo.
– Vou preservar meu filho – falou Maggie.
– Claro que vai – disse Odin.
– E vou batizá-lo de Adam, como o pai.
Odin deu um sorriso retorcido.
– Mas quanto à sala em Asgard – ela ergueu seus olhos de granito dourado para os dele –, eu não acho que vou precisá-la neste momento. Ao menos, não por enquanto.
Odin não disse nada, mas seu olho bom se acendeu, especulador.
Maggie continuou:
– Você me prometeu que o Povo do Fogo não faria mal a mim, ou ao meu filho.
Odin fez que sim.
– Você tem minha palavra.
– Então, leve-me para casa – disse Maggie, descendo do parapeito. – Diga à minha irmã que eu deixei um adeus, e diga a ela para não me procurar. Eu a encontrarei se e quando a hora chegar.
Odin olhou para ela.
– Para casa? – perguntou ele.
Maggie fez que sim.
– Para onde mais eu iria? É lá que eu quero que meu filho nasça. Em Fim de Mundo, onde seu pai morreu. Além do mais – ela deu um pequeno sorriso retorcido –, quem mais estará lá para reconstruir o lugar? Para desenterrar a biblioteca, erguer a cúpula, reabrir a Universidade? Afinal, se eu pude erguer Asgard a partir do Sonho, Fim de Mundo será fichinha.
Odin soltou uma risada sonora.
– Você é muito parecida com sua irmã – disse ele.
– Diga a ela que eu a verei de novo algum dia.
E, tendo dito isso, Maggie pisou em Bif-rost, e com um pequeno piparote na runa Raedo – a runa das estradas a serem ainda percorridas, dos cavaleiros que perseguem a tempestade, dos viajantes e exploradores e deuses – ela se foi, descendo pelo Arco-Íris e penetrando nas névoas de Fim de Mundo.