Luz das Runas
Capítulo 4
Adam tinha avistado o par em seus calcanhares assim que eles haviam saído da feira. Ele poderia ter se livrado deles a qualquer momento; tudo o que tinha que fazer era entrar num carro de aluguel, ou entrar numa daquelas lojas chiques, ou gritar por socorro e fingir que havia sido roubado. Mas a presença do Murmurador sempre estava de tocaia na mente de Adam e advertiu-o a ser cauteloso e permitir aos dois que o seguiam a perseguir seus passos através da cidade.
– Tome cuidado, garoto – disse o Murmurador. – Não os deixem ver que você está ciente da presença deles.
– Por quê? – perguntou Adam. – Quem são eles?
Em sua mente o Murmurador fez um som de impaciência.
– Quem você acha, idiota? Agora, vamos para casa, e rapidamente! Não temos mais tempo a perder!
Assim, com Maddy e Perth em perseguição impetuosa, Adam voou pelas ruas de Fim de Mundo. Ele chegou para encontrar Maggie esperando por ele junto à janela aberta, portando uma expressão inocente. Talvez um pouco inocente demais, mas Adam não notou isso; ele estava preocupado demais com seus próprios interesses.
– O Velho Homem falou? – quis saber ele.
Maggie suspirou.
– O Velho Homem… isso é tudo com que você se importa?
– Não, mas… – Adam vacilou.
– Fiquei esperando aqui o dia todo. Você nunca me pergunta como eu passo meu tempo. Você desaparece por horas e depois tudo em que consegue pensar é naquela coisa… – Ela gesticulou desesperadamente apontando o plinto, onde a Cabeça de pedra se erguia impassivelmente. Ela de repente ficou furiosa. Não com Adam, mas com a Cabeça; o Velho Homem que se recusava a falar, cuja teimosia agora se punha no caminho da chance de liberdade de Adam.
Na mente de Adam, o Murmurador tentava conter sua impaciência.
– Pelo amor dos deuses, garoto, dê um beijo nela! A última coisa que preciso neste momento é que ela não coopere conosco.
Adam lançou para Maggie seu sorriso mais doce.
– Eu lhe comprei um presente. Eu o escolhi para você. – Ele pôs seu pacote de seda ao lado dela. – Vá em frente. Abra-o – disse ele.
Maggie sentiu sua raiva retroceder. Agora ela se sentia apenas culpada. Mais uma vez ela se perguntou se deveria contar a Adam sobre os corvos. Mas o Murmurador podia ficar furioso, ela pensou; poderia até punir Adam.
Ela pegou o pacote e abriu-o. Olhou para o rolo de seda primaveril, suave como o brilho do sol, costurado com pérolas. Este é meu véu de casamento, ela pensou, e seus olhos se encheram com lágrimas repentinas.
– Amei! – exclamou ela. – E eu amo você!
Desta vez foi mais fácil esquecer os acontecimentos da tarde. Profecias e cantigas de ninar – até boatos de uma guerra – eram fáceis de esquecer quando postos diante de um presente como este.
– É maravilhoso – disse ela, desdobrando-o e envolvendo seus ombros com ele. – Deve ter-lhe custado os Nove Mundos…
– Você tem certeza de que o Velho Homem não falou?
– Nem uma palavra. Por que pergunta?
– Acho que podemos ter um problema. Alguém pode estar nos espionando. Estou quase certo de que fui seguido até aqui.
– Espiões? – perguntou Maggie com dúvidas, pensando nos corvos.
Adam olhou para ela seriamente.
– Você acha que eu queria mantê-la aqui enquanto vou para a cidade sozinho? Não podemos nos permitir que você seja vista. E os Æsir farão tudo que puderem para impedir-nos de ficar juntos.
Os olhos de Maggie se arregalaram.
– Por que eles fariam isso?
Adam deu de ombros.
– Um garoto do Norte se casar com uma integrante do Povo do Fogo? O orgulho deles jamais permitiria – explicou ele. – Se eles descobrirem, me matarão, igual mataram seus pais e amigos e todos que você amou um dia…
– Matar você? – O coração de Maggie gelou e depois disparou a estremecer.
De todos os medos que ela podia ter com relação à sua família há tanto tempo perdida, nunca realmente ocorrera a ela que os Æsir poderiam querer ferir Adam. E por quê? Por causa de seu orgulho monstruoso, que se recusava a aceitar que uma filha do Fogo pudesse aprender a amar um filho do Povo?
– O que você quer dizer? – indagou ela.
Adam suspirou.
– Quero dizer que eles querem recuperar você. Tudo que eles fizeram há muito tempo foi feito apenas com este propósito. Eles separaram você de tudo. Eles mataram sua família de criação. Eles se asseguraram de que você estava totalmente sozinha antes de tentar fazer contato com você. A única coisa que eles não previram foi que você e eu poderíamos nos apaixonar. Mas quando eles realmente descobrirem – e eles descobrirão –, teremos que estar preparados para lutar contra eles. E se os espiões deles me seguiram até aqui…
Mais uma vez Maggie pensou nos corvos. Eles poderiam ser espiões? Claro que sim. Mas eles haviam se oferecido a ela, a Maggie, o Cavaleiro da Carnificina. Eles tinham mostrado a ela como deter o Povo do Fogo em Rhydian. Mas de acordo com Hughie, os deuses haviam escapado. E se eles descobrissem sobre Adam…
– O que você quer que eu faça? – perguntou ela.
Ela sabia a resposta para isso, naturalmente. Os corvos tinham-na previsto. Ela sabia que não podia mais esperar o Velho Homem encontrar sua voz outra vez. As runas do Novo Manuscrito estavam naquela Cabeça, esperando para revelarem-se.
Adam olhou-a ternamente.
– Você sabe que é a hora, não sabe? – perguntou ele.
Maggie soltou um longo suspiro. Isto era o que ela vinha receando. Desde que ela falara com o prisioneiro dentro da Cabeça; desde que ele lhe contara da relação entre eles, ela soubera que não demoraria a chegar o dia em que ela teria que quebrá-lo. Ela teria que fazer a escolha entre torturar o Velho Homem e arriscar a vida do homem que ela amava. Não era uma escolha justa que se pedisse para que ela fizesse. Ela odiava a ideia de fazê-la. Mas os Æsir haviam ameaçado Adam. Ameaçar Adam era cruzar um limite. Se isso significava guerra, então, que fosse guerra. O Povo do Fogo a tinha declarado.
Ela se virou para Adam mais uma vez, seus olhos como pontinhos de aço.
– As runas vão lhe manter seguro?
Adam fez que sim.
Maggie sorriu.
– Então você as terá, eu prometo – garantiu ela. – Desta vez ele me contará tudo.