Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 39 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 11

 

“No princípio havia a Palavra. E a Palavra criou Nove Mundos, do Firmamento ao Mundo Além. E o Inominável reinava sobre tudo, mantendo a Ordem e o Caos em seus lugares, reforçando as Leis do Universo.

“Ora, naqueles dias o Povo do Fogo estava sempre em guerra com o Povo do Gelo, e eles queriam possuir o Mundo, para derrotar seus inimigos de uma vez por todas. Então enviaram um dos seus para barganhar com o Inominável. Este era Odin, filho de Bór, e ele falou em construir uma cidadela para proteger os Mundos do Caos. Mas o Inominável não confiou nele e quis uma prova de sua boa-fé. Então Odin ofereceu um sacrifício – um de seus olhos em troca da Palavra, e uma promessa de manter a Ordem. O Inominável concordou, e o Povo do Fogo construiu a Ponte que atravessava os Mundos e começou a construir a sua cidadela.”

Agora que Sleipnir havia sido deslocado (não sem alguma dificuldade) para os estábulos, Adam se sentia muito mais confortável. Um suborno do pessoal doméstico significava que as explosões ocasionais de Maggie poderiam ser facilmente ignoradas; mas o súbito aparecimento de um cavalo numa luxuosa suíte acima do Passeio dos Inspetores teria certamente atraído uma espécie errada de atenção.

Então, por fim, Adam contou sua história, enquanto Maggie ouvia atentamente. Era uma história que ela conhecia bem, tendo lido muitas versões diferentes. Ainda assim ela ouvia ansiosamente.

– Como eles puderam construir uma coisa dessas? – quis saber ela, quando Adam fez uma pausa para tomar fôlego. – Quero dizer, era no alto do céu, não é? Como eles conseguiram ficar lá em cima?

– É complicado – disse Adam. Na verdade, nem ele mesmo tinha uma ideia disso.

Maggie fez uma expressão de expectativa.

– E aí?

Dentro da mente de Adam, seu passageiro suspirou. Nada surge do nada, ele disse, e Adam ecoou obedientemente:

– O que você faz quando está construindo uma casa? A primeira coisa é derrubar árvores. A criação funciona por meio da destruição. Bem, a Palavra se comporta do mesmo modo. Ela derruba os blocos de criação e os modela conforme o seu propósito. O Sonho se torna realidade. A realidade ajuda a modelar o Sonho. É por isso que a Palavra é tão perigosa. Foi aí que o Inominável cometeu seu erro.

Maggie encarou Adam com olhos arregalados. Em nenhum lugar do Bom Livro ela havia visto alguma vez uma referência ao Inominável cometendo um erro – ou mesmo a sugestão de que tal coisa fosse possível. Soava quase como blasfêmia. Mas a esta altura ela confiava em Adam até mais do que confiava no Bom Livro, e seus olhos simplesmente se arregalaram ainda mais.

– Um erro? – repetiu ela.

– Ah, sim. – Adam sorriu. – Até o Inominável comete erros. Mas Odin era um trapaceiro bem-falante, e ele parecia estar do lado da Ordem. Foi só muito mais tarde que ficou claro que Odin tinha aliados de ambos os lados, incluindo um traidor do próprio Caos, atraído por seus dons de tapeação, e o Inominável começou a se arrepender de sua confiança e a ter cautela com o Povo do Fogo. E assim fez uma armadilha para eles, esperando com isso cortar suas asas e afirmar um pouco de seu poder.

– Então, ele invocou um demônio do Mundo Além, um ser chamado Svadilfari, escravizou-o com a força da Palavra e deu-lhe o formato de um grande Cavalo. E o Inominável ofereceu-se para ajudá-los a completar a Cidadela em menos de uma semana, sem ajuda, exceto a do Cavalo, por um preço a ser determinado.

“Parecia bom demais para ser verdade, a princípio. Uma tarefa que teria tomado anos ao Povo do Fogo seria completada em menos de sete dias. Mas Odin de Um Olho era cauteloso. Ele já havia pagado um preço alto por sua barganha com o Inominável. Fazer um contrato sem sequer saber o quanto custaria seria o ato de um homem insano. Mas Loki, seu irmão do Caos, persuadiu-o a fazer o trato. O trabalho nunca seria terminado a tempo, ele disse; o risco era, portanto, mínimo. E assim eles fizeram um acordo, e o trabalho começou. Mas Svadilfari era por sua própria natureza um arquiteto de castelos no ar, e runa por runa, força magnética por força magnética, a Cidadela do Céu começou a tomar forma.”

“Cinco dias de contrato e o Povo do Fogo estava ficando ansioso. Odin em particular estava inquieto, nada menos porque seu povo estava começando a cochichar que fora sua intenção desde o início dividir sua parte com o Inominável. Tipicamente, ele culpou Loki, que, vendo onde a terra estava, partiu apressadamente para se safar antes que eles o atirassem do céu.”

Maggie não tinha ouvido esta parte da história. Até mesmo nos Capítulos Fechados do Bom Livro, a menção ao Povo do Fogo havia sido mantida a um mínimo, e tudo que ela sabia que era que de algum modo eles haviam dominado o Primeiro Mundo através de trapaças, e assim fazendo haviam se transformado em deuses.

Ela pensou no Cavalo que eles haviam deixado nos estábulos, alimentando-se placidamente de um fardo de feno. Ele se parecia tanto com qualquer outro cavalo que mesmo ela mal podia acreditar em seu verdadeiro Aspecto – aquela coisa, metade Cavalo, metade aranha, que havia parido a si mesma do flanco da montanha com metade do Sonho em seu terrível rastro…

– O Cavalo Vermelho… – arriscou ela timidamente. – Ele é Svadilfari?

Adam balançou a cabeça.

– Não completamente. Loki sabia como mudar sua forma, uma tarefa fácil no Primeiro Mundo. Então assumiu a de uma pequena égua branca, muito bonita, e atraiu o cavalo-demônio de volta ao reino do Sonho. O Inominável tentou chamá-lo de volta; mas Svadilfari estava apaixonado, e ele e a égua branca desapareceram por dois dias e duas noites inteiros. Assim o prazo de sete dias passou, e a Cidadela foi deixada inacabada. E o Inominável teve que admitir a derrota, então perdeu Asgard para os deuses.

– E o Cavalo? – perguntou Maggie.

Adam deu de ombros.

– Ninguém o viu novamente – disse ele. – Mas quando Loki voltou à sua forma natural, trouxe de volta com ele um potro de oito patas, filho do demônio e da égua branca. Chamou-o de Sleipnir e deu-lhe a Odin como um suborno, em troca de ser autorizado a ficar quando todos os outros o queriam fora dali.

Maggie encarou Adam, assombrada.

– Então… Loki era a sua mãe? – espantou-se ela. – Como ele conseguiu fazer isso?

– Você não acreditaria em todas as coisas desagradáveis que Loki conseguia fazer em seu tempo – disse Adam, tomando a mão de Maggie e olhando seriamente para ela. – Mas agora ele é nosso. O Cavalo de Odin. Sleipnir. O maior corcel dos Nove Mundos.

– Mas por quê? – questionou Maggie. – Por que trazê-lo para cá? Ele ainda é perigoso? Além do mais, pensei que sua missão era destruir demônios e não os libertar para penetrarem nos Mundos…

– Paciência – disse Adam com um sorriso. Na verdade, a esta altura ele estava se sentindo totalmente impaciente com Maggie, mas três anos vivendo com a coisa em sua mente haviam lhe ensinado a ter uma dose de autocontrole. – Acredite em mim, eu entendo como você se sente. Eu já fui assim um dia. Naturalmente, odeio trabalhar com demônios tanto quanto você, mas às vezes os fins justificam os meios, e desta vez o mal menor é trazer estas criaturas para dentro dos Mundos, para que uma ameaça muito maior possa ser derrotada para sempre.

– O Povo do Fogo – disse Maggie.

– É isso mesmo – confirmou Adam.

– Mas o Bom Livro diz que os Cavaleiros vão…

– Anunciar a Adversidade? – Adam sorriu. – Está certo – disse ele novamente. – O Fim dos Mundos. Ragnarók. Apocalipse. A Guerra do Inverno. Mas desta vez nós vamos tomar a decisão. Estaremos no comando. Nós designaremos o prazo. – Ele pôs suas mãos nos ombros de Maggie e olhou dentro de seus olhos de um cinzento dourado. – Você não vê o que isso significa? – falou ele. – Isso nos dá a chance de fazer as coisas certas. Extrair a Ordem do Caos. Salvar os Mundos do Povo do Fogo.

– Você quer dizer que podemos impedir a Adversidade?

Adam fez que sim.

– É claro que podemos. Você tem o que é necessário para derrotá-los. Você já tem o Cavalo Vermelho. Agora tudo de que precisamos é mais uma coisa: um artefato da Velha Era que vai nos ajudar a destruí-los de uma vez por todas.

– Um artefato? – Ela olhou para ele.

– As pessoas chamam-no de Velho Homem.

– O que é isso?

Adam deu de ombros.

– Tudo que eu sei é que precisamos dele.

– Mas e quanto… – Maggie baixou sua voz. – Quanto ao Mestre, Adam? Quem, o que ele é? E não podemos libertá-lo, de algum modo?

Adam ficou pálido e balançou a cabeça.

– Você não sabe do que está falando – disse ele numa voz baixa e urgente. – Meu mestre está aqui para ajudar-nos. Eu sei que lá ele pareceu diferente, mas você tem que acreditar em mim. Ele está do nosso lado. É… complicado. Tudo certo?

– Tudo certo – disse Maggie ainda com dúvidas. – Mas me diga, quem era aquela garota na Colina? Aquela com a marca de runa, que é igualzinha a mim?

Na mente de Adam, seu passageiro proferiu um aviso distante.

Deixe isso comigo, Adam disse. Eu sei como lidar com ela.

Melhor saber, advertiu seu passageiro. Ou eu parto vocês dois em pedaços.

Adam refletiu brevemente se uma rápida prece a Loki seria considerada como blasfêmia naquele estágio. Ele sabia pela Voz em sua mente que o Astuto havia estado um dia em situação parecida, havia sofrido esta mesma comunhão e de algum modo havia se livrado por fim…

– Confie em mim, Maggie – disse ele, e sorriu. – Você me perguntou uma vez se eu era um sonho. Bem, é aí que tudo começa. É aí que você encontrará suas respostas. Sonho. Você confiará em mim?

– Sim, confiarei.

Então Adam começou a contar sua história.