Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 77 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 8

 

Como a Louca Nan já havia descoberto, no Sonho o tempo não faz sentido. Segundos podem se estender para minutos, horas; horas podem passar numa piscadela de olho. Maggie, sobre Sleipnir, não tinha nenhuma ideia de quanto tempo restava para ela; mas, sobrevoando as ilhotas do sonho à procura de rastros de sua presa, podia sentir o peso dos Mundos se agregando como nuvens de tempestade; uma onda de uma coisa prestes a se romper que preenchia o ar ao seu redor com pequenas notas farpadas de estática.

Até aí tudo saíra melhor do que Maggie havia esperado. Mas lidar com o Povo do Fogo havia sido a parte fácil do plano. Agora vinha o segundo lance dos dados: sua investida contra o Murmurador.

Maggie soubera desde o início que aquela seria a tarefa mais difícil de todas. O Murmurador já estava alerta a cada movimento suspeito; e Maggie sabia que, se ela fracassasse, Adam seria o alvo dele. Ela precisava do Velho Homem; e por isso, precisava rastrear o homem que o tinha roubado da cobertura. Seu breve encontro com Perth a deixara cheia de curiosidade. Ele parecia um malandro rotineiro; um ladrão noturno do tipo que Fim de Mundo tinha em abundância. Mas sua força magnética era uma das novas runas, e ele conhecia sua irmã.

Quem quer que ele fosse, Maggie pensou, estava se provando difícil de encontrar. Ela vasculhara em meio ao Sonho pelo que pareceram horas sem encontrar um só sinal do ladrão, ou do que ele havia roubado. Estaria ele protegendo o Velho Homem? Saberia que ela o estava perseguindo?

Agora, enquanto procurava em vão por Perth, Maggie começara a se sentir muito cansada. O esforço de sua cavalgada através do Sonho havia cobrado seu preço em sua força magnética enfraquecida. Seus corvos haviam desaparecido há muito tempo; até o Cavalo Vermelho estava começando a dar sinais de fadiga.

Ela apertou os punhos em frustração. Onde ele estava? Ele não dormira? Ninguém vira seu rosto aquele dia?

E então ela descobriu – um fiapo de sonho, nada maior que um pontinho de penugem. Um homem da lei do turno da noite, revendo sua lista de prisões do dia. O homem não era um sonhador, mas havia sentido uma estranheza num de seus prisioneiros. A memória havia se alojado em sua mente; havia se tornado este fragmento partido de sonho.

Maggie o agarrou ansiosamente. Lá estava Perth, trancado numa cela subterrânea da cadeia da cidade. Ela franziu o cenho. Isso era irritante. Não havia qualquer sinal de sua irmã nem do Velho Homem no sonho, mas Maggie estava certa de que, no momento em que ela e Sleipnir tivessem concluído seu trabalho com ele, Perth estaria mais do que desejoso de cooperar.

E assim ela esporeou o Cavalo Vermelho para sair do Sonho e entrar no Mundo Abaixo, onde o labirinto que por três anos havia sido seu espaço de lazer e esconderijo estava por se tornar o cenário de uma das maiores fugas do Mundo Médio.