Luz das Runas
Capítulo 3
O primeiro porto de escala de Loki e Jolly foi a casa de fazenda de Dorian Scattergood, de cuja janela aberta vinha um ronco trovejante. Loki foi rápido em abrir a fechadura, então seguiu o som até a cama de pilares que Dorian uma vez ocupara. Mas a investigação posterior revelou que a pessoa adormecida era uma mulher, robusta, com cabelos louros de caracóis inusitados.
Maldição!
Loki deu um precipitado passo para trás em cima do pé de Jolly, o que arrancou um grunhido do homenzinho. A deusa da graça e da fartura deu um suspiro e rolou para a frente, com os olhos entreabertos nas sombras.
Estremecendo, o Astuto prendeu o fôlego. Estar na aldeia já era bastante ruim. Mas estar bem ali, entre todos os lugares…
– Psiu – sussurrou ele. – Está tudo bem. Você está apenas sonhando. Volte a dormir.
Sif deu um suspiro e rolou para a frente outra vez com um ruído semelhante ao de uma tuba em aflição. A maior parte das roupas de cama rolou com ela, e Loki desfrutou de muito mais do que ele queria ver dos roliços traseiros da deusa, que ainda traziam a marca da tatuagem de criação de Dorian.
– Por favor, não – sussurrou Loki. A última vez que ele se enfiara furtivamente no quarto de dormir de Sif havia terminado com seus lábios sendo costurados. Doloroso, mas nada comparado ao que ele planejara inicialmente; ou, na verdade, ao que Thor faria com ele desta vez se chegasse a descobrir.
Suando, ele começou a se mover para trás, centímetro a centímetro, em direção à porta. Jolly seguiu-o passo a passo. Ele se movia silenciosamente, a despeito de seu modo de andar. Quando Loki soltou um suspiro de alívio e a porta do quarto de dormir se fechou com uma batida em seu rastro, surgiu em seu ouvido esquerdo uma voz tão baixa e perigosa quanto a de uma avalanche distante, ao mesmo tempo que uma grande mão apertava seu pescoço.
– Então, diga aí – grunhiu Thor –, porque eu quero saber. Como exatamente você quer morrer?
– Ah, Thor – disse Loki, numa voz displicente que perdeu muito de seu efeito sendo quase uma oitava mais alta do que o habitual. – Acredite ou não, eu estava procurando por você. – Ele tentou se livrar do aperto do Deus do Trovão, sem sucesso. – Na verdade, eu tenho algumas informações que sei que você vai… – Um polegar em sua traqueia o calou.
– Não, eu não acho que você tenha – cortou Thor. E ele começou a aplicar pressão sobre a garganta de Loki.
– Apenas me ouça – pediu o Astuto.
Thor mostrou os dentes.
– Três palavrinhas… – disse Loki ofegante, começando a ficar azul.
Então isso realmente acontecia, refletiu Thor. Ele não havia notado anteriormente. As pessoas realmente ficavam azuis…
– Por favor – sussurrou Loki.
Thor aliviou a pressão de seu polegar.
Loki tossiu.
– Isso vale por uma.
– Thor…
– Isso vale por duas – disse Thor.
Loki lhe lançou um olhar maldoso. Ele pôs uma mão sobre a garganta machucada e tomou um fôlego profundo, tentando não tossir outra vez.
Depois disse:
– Mjolnir…
Um objeto pesado movendo-se velozmente leva algum tempo para fazer uma parada. Por um momento, o punho de Thor continuou sua trajetória, e podia até ter atingido seu alvo se Loki não houvesse conseguido se desviar; depois, ele parou no meio do ar, e o rosto de Thor assumiu uma expressão de dúvida misturada com uma esperança nascente.
– O Martelo? – perguntou ele.
– Não, estúpido. O outro Mjolnir, que voa pelo ar apanhando pássaros.
O Deus do Trovão pareceu ligeiramente confuso.
– Claro que é o Martelo – falou Loki. – Thor, escute: eu sei onde ele está. Em todo caso, eu sei com quem está. E a boa notícia é: eles estão querendo negociar.
* * *
Loki estava acostumado com ameaças de morte. Uma ou duas ameaças de morte antes do café da manhã eram a melhor maneira de começar o dia. Algumas pessoas preferiam cereais, mas Loki se abastecia de energia, e não havia nada melhor, para sua mente, do que uma porção de ameaça e intimidação para aguçar seu intelecto e mantê-lo ativo.
Este era o motivo pelo qual, no transcorrer daquela manhã, Loki já havia recebido nada menos que dez juras de tortura imediata, surra, desmembramento, evisceração e outros atos de desagrado. Nenhum dos quais se concretizara, graças a Thor, cuja crença relutante na história de Loki havia abalado os quatro Æsir e a maioria dos Vanir, com a óbvia exceção de Heimdall (que não teria acreditado em Loki mesmo que ele houvesse parido jaguatiricas) e Skadi, naturalmente, que não estava lá.
O que não queria dizer que eles estivessem satisfeitos. Na verdade, durante o conselho de guerra de emergência daquela manhã (reunido às pressas por Ethel e Thor e realizado na sala de visitas da ex-Paróquia), Loki teve que responder a um grande número de perguntas embaraçosas e prestar uma boa quantidade de juramentos forçados antes que qualquer um acreditasse nele. E, mesmo depois, foi apenas a presença de Maddy e Thor que dissuadiu os Vanir (que não gostaram de serem convocados desse modo) de tentar na pessoa de Loki uma variedade de métodos de interrogação destinados a garantir que ele estava contando a verdade.
– Mas por que eu mentiria? – defendeu-se o Astuto.
– Porque você é o Pai e a Mãe das Mentiras – respondeu Heimdall, rangendo seus dentes com tanta força que eles faiscaram.
– Ora, vamos lá, Douradinho. Dá um descanso.
– Com prazer. Nas pernas ou na espinha?
– Eu juro que não há qualquer vantagem para mim nisso. – Agora Loki dirigia uma súplica sentida ao seu círculo de juízes. – Mas vocês todos ouviram a profecia. Asgard será reconstruída, com ou sem nós. Um trato com o Caos dá-nos a chance de fazer parte dela. E se Thor conseguir de volta o seu martelo, com as novas runas que Angie pode repartir conosco…
– Novas runas? Tem certeza? – perguntou Frey.
– Absoluta – disse Loki. – Vi apenas duas, mas devem existir mais. E…
– E se elas existirem – Frey prosseguiu –, então talvez Asgard possa ser erguida, e nós possamos recuperar nossos Aspectos. E se Thor conseguir seu martelo de volta…
Era um argumento poderoso. Para os deuses, exilados havia quinhentos anos, sua força era irresistível, e finalmente até Heimdall foi levado a uma aceitação resmungona.
– Eles têm o Martelo? Você tem certeza?
Loki fez que sim.
– Por minha vida.
– Se você mentiu para nós, Estrela do Cão, está morto – disse Heimdall, perfazendo o total de treze ameaças. – Assim que ficarmos sabendo. – Ele estendeu a mão para juntar-se ao resto, completando o círculo.
Loki deu um suspiro de alívio.
– Tudo bem. Agora, vamos ao juramento.
Freya fungou.
– Mas não há ninguém mais aqui!
– Por favor. Só desta vez. Faça como eu digo.
Então Loki começou a recitar os termos que Angrboda havia estabelecido: “Anistia para nossos aliados do Caos. Retorno dos territórios de litígio; a Floresta de Ferro para Fenris; o Um Mar para Jormungand; e uma sala a ser preparada em Asgard para Angrboda, conhecida como a Tentadora, em pagamento à sua lealdade…”
Soou um grunhido baixo, impaciente. O Deus do Trovão estava ficando inquieto.
– O referido pacto deve ser selado – prosseguiu Loki às pressas – por um gesto de boa vontade de nossos aliados, a saber, o retorno de Mjolnir, o Martelo de Thor, o referido retorno deve ser efetuado tão logo os termos estejam acordados…
– Pelo amor dos deuses, acabe logo com isso – disse Thor.
– Estamos de acordo? – pediu o Astuto.
Os Æsir e os Vanir fizeram que sim um após outro.
Houve uma pausa um tanto longa.
– E agora fazemos o quê? – perguntou Freya por fim.
Loki deu de ombros.
– Suponho que devemos esperar.
Eles esperaram, de mãos dadas, em um círculo. Esperaram por tanto tempo, na verdade, que Thor recuperou sua expressão perigosa, Heimdall mostrou seus dentes dourados, e até Loki, que havia assumido um ar de indiferença ao longo dos procedimentos, pareceu perder um pouco de sua confiança.
– O que está nos prendendo? – questionou Njörd por fim.
– Suponho que essas coisas levem tempo – comentou Maddy.
Loki lançou um olhar de gratidão para ela.
– Se for um de seus truques… – Thor balbuciou.
– Parem com isso – disse Loki. – Catorze ameaças de morte ou mais, e eu ainda nem tomei meu café da manhã. Vocês vão ferir meus sentimentos.
– Vou ferir muito mais que isso – disse Thor, rompendo o círculo e dando dois passos em direção a Loki, que encontrou refúgio por trás de uma das cadeiras de Ethel. – Na verdade, se alguma coisa não acontecer imediatamente, eu vou…
Mas o que exatamente Thor estava planejando fazer foi subitamente interrompido por um som atrás dele. Um som de risadas, para ser exato, e se Loki não o reconheceu, foi porque seu minúsculo camarada havia anteriormente demonstrado pouquíssimos sinais da alegria explosiva à qual ele agora dava vazão ruidosa.
Espreguiçando-se na otomana, com uma xícara de chá na mão e um biscoito na outra, Jolly, o anão, estava rindo.
Sua presença mal havia sido registrada por nenhum dos deuses antes disso. Apenas Tyr o havia notado, e fora porque o deus da guerra era ainda originalmente Saco de Açúcar, um duende renegado da Colina do Cavalo Vermelho que reconhecia um anão quando via um – e que, ao ver Jolly, havia sido rápido em rejeitar a comparação.
Agora ele se virava para o homenzinho.
– Nós já não nos conhecemos? – indagou ele.
Jolly deu um sorrisinho insolente. Escarrapachado na otomana, parecia ainda mais deformado que antes, sua cabeça enorme jogada para trás nas almofadas, a xícara de porcelana mantida com delicadeza exagerada entre os dedos rechonchudos. Ele parecia totalmente sem medo de Tyr, ou, na verdade, de nenhum dos deuses.
– Estou falando com você – disse o Corajoso Tyr, recaindo no dialeto de duende. Ele ergueu seu olhar e pousou-o sobre o homenzinho e, dando um passo à frente, dirigiu-se a ele desta maneira: – Bunda baixa!
A risada de Jolly parou imediatamente.
– O quê? – reagiu ele num tom perigoso. – Quem você está chamando de baixo? – Num segundo, estava fora do assento, seus olhos de cinza-ferro à altura dos olhos do relutante deus da guerra. Açúcar teve tempo para se perguntar como pernas tão pequenas poderiam sequer suportar uma cabeça tão descomunal antes que uma coisa lhe socasse na boca do estômago e o lançasse voando através da sala.
– Minha porcelana! – disse Ethel.
– Não me chame de baixo.
Por trás do armário de porcelana derrubado, Açúcar concordou com uma débil erguida de polegar.
Jolly retomou seu lugar no sofá, bem como seu bom temperamento.
– Já que isso ficou claro – disse ele. – Agora talvez a gente possa conversar.
Ele serviu-se de uma xícara de chá, adicionou nove torrões de açúcar e arregaçou as mangas da camisa, revelando a runa dupla sobre seus braços.
– Pessoal, o nome é Mjolnir. Mas vocês podem me chamar de Jolly.