Luz das Runas
Capítulo 6
Na última vez que Maggie havia cavalgado o Cavalo Vermelho através do Sonho, o Murmurador havia guiado seus passos. Agora as coisas eram diferentes. Agora a própria Maggie estava no comando. Os sonhos não a aterrorizavam mais. Maggie havia aprendido que até o Sonho era outro mundo a explorar – um Mundo no qual ela era poderosa o suficiente para desafiar até mesmo os deuses.
Enquanto Maddy estava esperando por Perth lá fora no beco por trás da cobertura, Maggie já estava fazendo planos. Na hora em que ela ficou pronta para partir, a lua havia mergulhado por trás dos topos de telhados da cidade, e os primeiros fios esgarçados de uma pálida pré-aurora haviam começado a se pendurar no horizonte.
Maggie colocou seu bergha no lugar e desceu para os estábulos, onde o Cavalo Vermelho dos Últimos Dias estava placidamente comendo um saco de aveia.
Ele ergueu os olhos e roncou à sua aproximação.
Acima dos estábulos, em Aspecto, Hugin e Munin estavam voando em círculos.
Ironicamente, haviam sido os Pássaros quem deram a Maggie a ideia. Uma ideia para um plano que tanto o Murmurador quanto o próprio Velho Homem teriam dispensado como impossível – um plano que resolveria todos os seus problemas, por mais contraditório que parecesse; de modo que, com um só movimento, a guerra seria cessada, a carnificina impedida, Adam libertado, e o filho deles nasceria num mundo de paz.
Rhydian havia sido um erro. De algum modo, o Povo do Fogo havia escapado. Mas daquela vez, Maggie disse a si mesma, não haveria confusão. Daquela vez nem mesmo o Astuto veria a armadilha quando ela se aproximasse dele – ou, de qualquer modo, não até que fosse tarde demais. Daquela vez não haveria nenhuma fuga; nenhuma confusão; nenhuma misericórdia.
Ao lado dela, o passageiro de Adam estava demonstrando sinais de inquietação.
– Eu exijo que você Me conte o que está acontecendo! – queixou-se ele com a voz de Adam.
Maggie lhe deu um sorriso terno.
– Confie em mim. Eu sei o que estou fazendo – garantiu ela. – Tome cuidado. Eu estarei de volta tão logo puder.
– Mas eu vou com você… – disse o Murmurador.
– Não, desta vez, não – respondeu Maggie, e então, com um feitiço de Ós, ela partiu, ignorando os protestos do Murmurador ao tentar em vão penetrar em sua mente.
Ela voltou sua atenção mais uma vez para os pássaros que giravam em círculos e crocitavam lá no alto. Eles tinham dito que pertenciam a ela. Mas eles iriam realmente obedecer às suas ordens?
Crawk.
Quando ela se ergueu, em Aspecto, para juntar-se ao curso do rio Sonho, ela descobriu que podia ouvi-los debilmente no fundo de sua mente.
É claro que faremos o que você disse, fêmea.
Você é o Cavaleiro da Carnificina.
– Então, levem-me ao Povo do Fogo! – pediu Maggie, e ela e Sleipnir se ergueram acima das ruas da cidade como o Fogo do Santo Sepulcro, e desapareceram na névoa da manhã que estava se erguendo da estrada de Fim de Mundo.
Eles alcançaram o Povo do Fogo a cerca de cinquenta quilômetros da cidade. Suas cores, filtradas pela névoa, se acenderam no céu róseo. Por um longo tempo Maggie não fez nada além de observar o Pequeno Circo Pandemônio do Felizardo se aproximando pela estrada de Fim de Mundo, as três pequenas caravanas pintadas de vermelho movendo-se num ritmo firme, três lobos guardando a retaguarda, um falcão de olho penetrante observando a estrada.
Aquele era seu Vigilante, ela já sabia. A primeira coisa que ela teria que fazer era se esconder de seu olhar penetrante. Aquela névoa serviria para isso, ela disse a si mesma; se apenas ela fosse um pouco mais densa…
Ela murmurou um feitiço de Isa.
Um frio congelante pareceu descer das nuvens. A fina faixa luminosa no horizonte se apagou, ficando de um cinzento manchado. O falcão pareceu sentir uma mudança no ar e desceu, voando sobre um dos vagões, onde retomou o aspecto de Heimdall, se acotovelando sob um manto de pele de lobo.
Então Maggie lançou a runa Bjarkán e olhou através de suas lentes para o inimigo. Eles já estavam muito perto, ela pensou. Mais perto do que ela havia temido. Como haviam conseguido chegar ali a tempo? Quanto eles já sabiam?
– É melhor isso funcionar – disse ela –, ou eles estarão na cidade ao cair da noite.
Hughie crocitou.
– É o único jeito.
Mais uma vez Maggie baixou o olhar sobre o Povo do Fogo através da runa Bjarkán. Eles pareciam tão inofensivos, tão desamparados agora, com sua pequena caravana! De um dos vagões ela pôde ouvir o som da guitarra de Bragi, uma dispersão de pequenas notas luminosas nas sombras, e uma súbita tristeza a dominou, um desejo de juntar-se ao grupo a despeito da discórdia que sentia dentro de si…
Não, ela não tivera uma mudança de coração. Ela ainda rejeitava seus ancestrais com cada gota de seu sangue de demônio, mas alguma coisa dentro dela lamentava a escolha que tivera que fazer – a família que ela fizera com Adam, ou a família que ela nunca conhecera.
Ninguém escolhe a própria família, Maggie Rede disse a si mesma. A sua fora perversa desde sempre; um ninho de ladrões e assassinos. Ela havia lido tudo sobre eles nos livros; conhecia seus crimes, suas traições.
E ali estava ela finalmente, Maggie pensou. Completamente à sua mercê. Seria fácil derrubá-los, destroçá-los em pedacinhos – e, no entanto, ela não podia fazer isso.
Ela era, afinal, uma mãe agora. Uma mãe não deve ser uma assassina. E como ela poderia explicar ao seu filho que havia matado seu povo enquanto dormiam?
E, no entanto, quando eles chegaram aos portões da cidade…
Fazendo beicinho, fazendo beicinho, tudo desmorona. Maggie sabia o que isso significava. Significava o Apocalipse, o Fim dos Mundos, a segunda Adversidade; todas as coisas que ela uma vez desejara, mas que agora rejeitava com todo o seu coração. O Cavaleiro cujo nome era Carnificina não queria nada além de ver seu filho nascer num mundo de paz e viver com seu marido, discretamente, longe do tumulto da Cidade Universal.
Parecia, à primeira vista, impossível. O Cavaleiro da Carnificina estava predestinado a cavalgar tão logo o Povo do Fogo entrasse pelos portões. Mas se ela juntasse forças com os deuses, o Murmurador iria matar Adam. E, caso se erguesse contra eles, então seria forçada a destruir o Velho Homem, provocando com isso a vingança dos Æsir, com Adam tornando-se novamente alvo deles.
Ela não tinha esquecido a Visão que o Velho Homem tinha lhe mostrado: a imagem dela mesma, com seu filho, usando um bergha negro de viúva. Qualquer que fosse a escolha que fizesse, colocaria Adam na linha de fogo…
A menos que os deuses nunca chegassem aos portões…
E agora, por fim, graças àqueles pássaros e suas cantigas, Maggie tinha um plano tão simples que se espantava por nunca haver pensado nele. Ela mal tinha que fazer alguma coisa. Apenas uma série de forças magnéticas, e Adam e seu filho estariam a salvo.
Maggie sussurrou um feitiço de Raedo.
– Reid kveda rossom vaesta. – E tocou a runa com a mão esquerda.
Veja o Berço balançando
bem acima da cidade…
Abaixo dela, um filamento fantasmagórico se desdobrou sobre a paisagem.
O Povo do Fogo vem descendo
para trazer o bebê.
Mais uma vez Maggie murmurou um feitiço – agora uma versão da Bjarkán – e fez o sinal com os dedos. A névoa começou a ficar densa. Lentamente a princípio, depois saindo rastejante das fendas no chão pedregoso; emergindo de rios e arroios e rachaduras na estrada, até que se tornou uma nuvem branca que se estendeu suavemente sobre a terra como neve, tornando tudo fantasmagórico, de tal modo que até mesmo as três caravanas vermelhas pareceram cinzentas e lúgubres e perdidas.
Ótimo.
A caminho do portal do Inferno
o Povo do Fogo está cercado…
E então, com um estalo de dedos, Maggie reverteu a runa do Viajante e começou a puxar as meadas de névoa através do círculo de indicador e polegar. Enquanto o fazia, começou a cantar outro feitiço da Raedo:
Rad byth on recyde, rinca gehwylcum…
Abaixo dela, a nuvem branca se adensou e agitou. Fogos-fátuos oscilaram em seu centro. Os corvos se moveram em vaivém buliçoso através da névoa, traçando uma garatuja de luz de runa, enquanto Sleipnir, em seu Aspecto feroz, atravessou o céu como Fogo do Santo Sepulcro, as longas patas abrangendo de horizonte a horizonte.
O resultado foi como uma cama de gato de todas as cores imagináveis, da qual uma coluna de névoa foi se tecendo como lã de cor apagada numa roca.
Por todo o caminho até o Portão do Inferno
o Povo do Fogo está cercado…
E na estrada para Fim de Mundo, o Povo do Fogo desapareceu dentro da nuvem. Então as oito patas de Sleipnir teceram teias aracnídeas, e a Mente e o Espírito de Odin voaram investindo com fúria sempre crescente. O sol, a lua e as estrelas foram se apagando conforme Maggie foi cavalgando.