Luz das Runas
Capítulo 7
A princípio Maddy pensou que ainda sonhava. Dois pássaros negros – dois corvos, na verdade – estavam se empoleirando na borda da janela. Maddy pôde ouvir o agudo sussurrante de suas penas se movendo contra o vidro, e seus chamados – um estridente, áspero crau – eram suficientes para despertar os Adormecidos.
Ela esfregou seus olhos, saiu da cama e caminhou em direção à janela.
Para sua surpresa, os dois pássaros não fugiram voando à sua aproximação, mas simplesmente observaram-na com seus olhos dourados como moedas, de vez em quando pulando de um pé para o outro da maneira meio cômica e pesada que sempre fizera Maddy pensar em Nat Parson.
Ela pensou em seu sonho.
Pássaros são mensageiros.
Maddy franziu o cenho para os dois pássaros. Eles pareciam apenas animais comuns para ela. Ambos pareciam lustrosos e bem alimentados. Um – o menor dos dois – tinha uma única pena branca em sua cabeça. O outro, um anel em torno de seu pé.
Pássaros são mensageiros. Por que não? Havia muitas verdades nos sonhos, ela sabia. Odin poderia de algum modo ter-lhe enviado esses dois? E se o tivesse feito, onde estava agora? Na Morte, na Danação, ou talvez no Sonho?
Maddy abriu a porta. Sentindo-se ligeiramente tola, falou com os pássaros.
– Vocês têm uma mensagem para mim?
O pássaro maior bicou sua asa.
O menor empinou a cabeça. Crau.
– Sinto muito, não falo corvês.
Crau.
– O que vocês desejam?
Crau. Crau.
Talvez eles quisessem um suborno, pensou. Corvos e gralhas eram gananciosos, ela sabia; sempre vira como Um Olho os alimentava com migalhas de pão de seu bolso. Maddy nunca havia entendido completamente por que – os pássaros eram ladrões e carniceiros, prontos para arrancar os olhos de sua cabeça numa bicada se pudessem fugir com eles –, mas por algum motivo Um Olho sempre gostara deles, chamando-os de meus maltrapilhos e rindo de suas travessuras.
– Vocês querem alguma coisa para comer? – perguntou ela.
Dois pares de olhos giraram erguendo-se para ela.
– Tudo bem. Esperem aqui.
Havia um biscoito comido pela metade num pires junto à cama. Maddy se virou para pegá-lo, querendo espalhar as migalhas sobre o parapeito…
Mas os corvos chegaram lá antes dela. Sem esperar por um convite, os dois voaram para dentro do quarto, um agora se empoleirando no pilar da cama, o outro no consolo da lareira. Maddy nunca havia notado completamente o quão grande um corvo poderia ser. O som de suas asas era inquietante no pequeno quarto; seus bicos pareciam pontiagudos e perigosos.
– Quem deixou vocês entrarem? – perguntou Maddy.
O menor dos dois pássaros pulou da cama para cima do braço de Maddy e bicou o biscoito em sua mão. Maddy deixou o biscoito cair, e o pássaro o pegou no meio do ar, carregando-o para o canto do quarto. O corvo maior se pôs a persegui-lo, e o que se seguiu foi uma perversa rixa de garras e bicos quando os dois se puseram a disputar a comida. Um candelabro de porcelana – um dos dois – caiu sobre o guarda-fogo e se despedaçou.
– Parem com isso! – ordenou Maddy, só conseguindo salvar o segundo candelabro.
Os corvos não lhe deram atenção alguma.
Maddy olhou para eles desamparadamente. Que idiota ela fora, pensou – tão ansiosa por acreditar que seu sonho fora real que pensara que um par de corvos sujos podia ser um par de mensageiros de outro mundo! Ela olhou em volta procurando algum tipo de arma – uma vassoura, um batedor de tapetes, talvez – com a qual enxotaria os pássaros para longe.
Uma voz – a mais apagada das vozes – veio até ela como se viesse de um sonho.
– Uns patifes, os dois – a voz sussurrou e riu.
– Odin? – chamou Maddy.
– Crauk. Crauk.
Os pássaros pararam de brigar imediatamente. Pareceram estar esperando por alguma coisa; dois pares de olhos dourados fixados em Maddy.
– Eu não sei o que vocês desejam – disse ela.
Crauk. Crauk.
– Por que não me falam? – Maddy estava começando a perder a paciência.
Então ela de repente soube o que fazer – era tão simples que não dera pela coisa; mas se os pássaros fossem o que ela esperava, então havia um modo de saber com certeza.
Ela fez o sinal de Ós com a mão.
– Uma coisa nomeada é uma coisa domada – disse ela numa voz um pouco estremecida.
Dois pares de olhos piscaram.
Maddy fez o sinal novamente.
– Eu os nomeio Hugin e Munin – falou ela. – Espírito e Mente, na velha língua. Agora vocês vão me dizer o que estão fazendo aqui?
Os dois pássaros desapareceram imediatamente e foram substituídos por duas figuras esfarrapadas, uma estendida na otomana, outra empoleirada na cama. Para Maddy eles pareceram quase idênticos, exceto pela diferença em gênero e tamanho, e a larga listra branca nos cabelos longos da garota. Os dois estavam vestidos de negro brilhante, e ambos usavam uma grande quantidade de joias de prata: anéis em cada um dos dedos, braceletes enroscados até a metade de cada braço, brincos que balançavam ruidosos com penas e sinos e cordões e mais cordões de cintilantes contas cor de azeviche.
Pareciam-se com o povo do Caos para Maddy, e cada um carregava um desenho em preto que ela não reconheceu – a mulher sobre o braço direito, o homem sobre o braço esquerdo:
– Brilhante – disse o mais alto.
A outra criatura sorriu e exibiu seus dentes.
– Hugin e Munin? – perguntou Maddy.
– Não atendemos mais por estes nomes – disse a mais alta das criaturas. – Chame-me de Hughie. É íntimo o suficiente. Esta é minha irmã Mandy. Arranje uma bebida para nós, sim? E talvez um bocadinho de alguma coisa pra comer. Viemos voando um longo trajeto pra ver você, e você vai querer escutar o que temos a dizer.