Luz das Runas

Joanne Harris · Capítulo 69 de 103

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Luz das Runas

Capítulo 7

 

Mesmo sobre o Cavalo do Ar, a Louca Nan levou dez minutos para entrar em Malbry. Nesses dez minutos a nuvem de sonho havia rastejado aproximadamente dez centímetros para mais perto do portão da Paróquia; mais adiante, erodira um celeiro de grãos que pertencia a Tyas Miller; acabara com um galinheiro, incluindo todos os seus ocupantes; e um cachorro marrom peludo que estava dormindo à porta da igreja, onde a maioria dos cidadãos sobreviventes de Malbry e de seus povoados vizinhos agora esperava, vigilantes e aterrorizados, mães apertando seus filhos, na expectativa da catástrofe iminente.

Nan Fey havia esperado muito tempo por isso. Noventa e tantos anos haviam se passado esperando pela hora em que poderia ser finalmente necessária, quando seu aparecimento seria acolhido com suspiros de alívio, e não com gritos de hilaridade e desprezo. Ela não era de natureza vingativa, mas Malbry não a tinha tratado bem, e agora que o destino do lugar pairava em suas mãos, ela planejava desfrutar do momento.

Ela contornou a nuvem de sonho, que agora se erguia a doze metros acima dela, deixou Epona na extremidade da igreja e entrou pela porta lateral. A cena com que se deparou foi lastimável. A igreja estava iluminada a velas. Mais de duzentos aldeões sentavam-se agachados contra a parede dos fundos. Alguns eram crianças; alguns eram velhos. Alguns eram fazendeiros, esforçando-se por parecer firmes. Alguns choravam. Alguns rezavam. Nan viu Mae Smith – agora Mae Dean, naturalmente –, que estava em visita a Malbry quando a nuvem de sonho isolou a estrada; assim como seu novo marido, Zebediah Dean, um homem de relativa importância que se esperava que fosse o novo Bispo. Matt Law e seus guardas estavam lá – Tyas Miller, Dan Fletcher, Patrick Dunne, Jack Sheperd, Ben Briggs –, mas mesmo eles pareciam estar de olhos arregalados e perdidos, os rostos pálidos, as mãos estendidas, alguns ainda apertando posses salvas das casas desmoronadas. Um tremor de som percorreu a igreja assim que Nan Fey abriu a porta; alguém começou um cântico, mas imediatamente caiu em silêncio.

Todos os olhos se voltaram para Nan; e ela descobriu que, a despeito dos noventa anos sendo o alvo das piadas de todos, sentia um precioso pequeno prazer ao ver as mesas sendo viradas. Outro tipo de mulher podia se sentir tentada a tripudiar um pouco, mas a Louca Nan Fey tinha bom coração e, vendo a desgraça dos aldeões, ergueu a voz e gritou para eles tão alto quanto pôde:

– Ouçam-me, todos! Eu acho que sei como nos ajudar!

Um silêncio acolheu as palavras de Nan. Talvez fosse uma medida do desespero e da infelicidade coletivos que ninguém houvesse rido ou desprezado suas palavras, mas olhado para ela com dúvida e medo (e talvez um pouco de esperança também).

– O que alguém pode fazer para ajudar? – A voz era de Damson Ploughman, vindo de uma das pequenas propriedades entre Malbry e a Estrada da Colina do Castelo. – Minha fazenda desapareceu na névoa maligna, sim, e todos os meus cavalos também, e quando meu filho partiu atrás deles…

– Sim! – falou Mags, a mulher do lavrador, uma senhora que algumas pessoas chamavam de enérgica (e outras, de apenas estridente). – O Fim do Mundo chegou para nós, sua esquisita! E foi seu povo que o trouxe aqui!

– Meu povo? – perguntou Nan Fey.

– Sim, o seu. O Povo-Vidente!

Ouvindo isso, um número de vozes se ergueu em acordo. Os gritos de Mae Dean eram mais estridentes do que os da maioria (o povo de Malbry não havia esquecido que fora a sua irmã quem havia começado tudo isso). Zeb Dean ouviu com aprovação; ele se casara com Mae (ainda uma beldade) contra a advertência de seu tio-avô Torval, e estava feliz por ver que ela, por fim, não tinha simpatias desiguais.

– Aí está, aí está – dizia ele, pegando afetuosamente a mão de sua mulher. – Não precisa se aborrecer, minha querida. Eu ainda tenho alguma influência aqui, e você pode ter certeza de que quando isso chegar à atenção de meu tio-avô, a questão será abordada.

Nan escutou os gritos raivosos e balançou sua velha cabeça em reprovação.

– Eu achei que vocês teriam percebido a esta altura – disse ela, erguendo sua voz por sobre o tumulto. – Não veem que é o Povo-Vidente que os ajudou todos esses três anos?

– Sim! – ergueu-se uma voz zombeteira da multidão. – Quem nos expulsou da Ordem e trouxe o Caos em seu lugar? Quem trouxe demônios do subsolo da Colina e agora esta névoa de sonho para afogar-nos? Devíamos estar ajoelhados neste exato momento, agradecendo aos deuses por sua misericórdia!

Era Dan Fletcher, um dos guardas de Matt, conhecido no vale como um cínico e livre-pensador; conhecido por Nan Fey desde que era um menino.

– Eu me lembro de você, Dan Fletcher – disse Nan. – Eu posso lembrar-me de você quando não era nada além de um rapaz, fazendo-me perguntas sobre sonhos. Você estava sempre sonhando naqueles dias, mesmo quando sua mãe batia em você por isso.

– Sim – falou Dan –, e olhe onde isso nos trouxe! Aquela névoa saiu do rio Sonho, e não ouse negar isso.

Nan sorriu para ele aprovadoramente. Dan sempre fora inteligente, ela pensou, e era bom que ele estivesse ali.

– Eu não nego isso, Danny – disse ela, e um tremor percorreu o povo reunido. – Este é o início do Fim dos Mundos, e ele começa, como devido, no centro. O Povo-Vidente partiu em marcha para Fim de Mundo, os três Cavaleiros estão cavalgando, o rio Sonho rompeu suas margens… – Ela apertou os olhos sobre os refugiados. – Fazendo beicinho, fazendo beicinho. Vocês certamente sabem o que isso significa.

Os aldeões trocaram olhares silenciosos.

– Sim. Significa que ninguém pode nos salvar – falou Dan. – Por baixo da fanfarronada, seu tom era triste. – Podemos correr, podemos nos esconder, podemos tentar lutar, tudo isso significará nada no fim. Nada além de névoa e cinzas.

– Errado – corrigiu Nan. – Ouçam isso. O Berço caiu uma era atrás, mas o Fogo e o Povo vão erguê-lo…

E então Nan citou a profecia que o Velho Homem havia lhe dado, tentando preencher sua velha voz desconjuntada com o mesmo ar discreto de autoridade. Não funcionou completamente – porque no meio do caminho, Mags Ploughman piou com sua voz estridente, interrompendo as palavras do Oráculo:

– Para que vocês a estão ouvindo? – gritou ela. – Ela sempre foi louca, seus malucos, e agora ela está em aliança com o Povo-Vidente. Acho que devemos jogá-la na névoa maligna e ver o que acontece então, isso sim!

– Sim – veio a voz de Mae Dean, esquecendo seus modos recém-refinados e recaindo no dialeto. – Não queremos nenhuma de suas fantasias aqui, sua velha!

Houve gritos de “Sim” e “Jogue-a lá”. E então surgiu uma dúzia de mãos ansiosas tentando agarrar Nan Fey, e uma onda de pessoas, incitadas pelo medo, empurrando-a em direção à porta.

Mas Dan Fletcher se interpôs no caminho delas.

– Ela pode ser tão louca como vocês dizem – lembrou ele –, mas, de qualquer modo, vocês não vão lhe fazer mal.

Por um momento pareceu que iriam: punhos foram erguidos; socos ameaçados; alguém chutou Dan no tornozelo e fez com que ele cambaleasse.

Mas então Matt Law se ergueu ao seu lado; e Tyas Miller e Ben Briggs. A violência parecia inevitável. Alguém derrubou uma estátua. Outro alguém ergueu uma pá. Nan se afastou da multidão linchadora e escancarou a porta da igreja, mergulhando no escuro, onde Epona, o Cavalo do Ar, se erguia como um fantasma na névoa.

Duas figuras esfarrapadas a ladearam.

– Hugin e Munin, em seu verdadeiro Aspecto. Contra um muro de névoa eles se pareciam com sombras do próprio Inferno. A multidão raivosa engoliu em seco e recuou.

– Demônios! – gritou Zebediah Dean.

Nan olhou para Hughie.

– Vocês não se apressaram – falou ela.

– E você foi aconselhada a esperar, Nan Fey.

Nan deu de ombros.

Mandy crocitou. Mesmo neste Aspecto, ao que parecia, ela tinha problemas com a linguagem.

Hughie pôs a mão no pescoço, onde um pingente do tamanho de uma moeda – alguma espécie de talismã – brilhou, refletindo a luz das velas. Ele puxou o objeto pela cabeça e estendeu-o a Nan Fey.

– O que é isso? – perguntou Nan.

– Uma lembrança do Velho Homem – disse Hughie. – Use isso quando achar utilidade.

E, dizendo isso, ele e sua irmã mudaram para a forma de pássaro, levantaram voo e desapareceram dentro da névoa.

Nan olhou para o objeto com dúvidas. Era redondo, com runas inscritas, e em sua superfície espelhada ela viu ela mesma, de ponta-cabeça, mas alterada, iluminada…

Por trás dela, a multidão de aldeões havia começado a se recobrar e reagrupar. Logo, ela sabia, seu medo abriria caminho para a ameaça de violência outra vez.

Mas agora Nan os encarou em seu novo Aspecto – o do Cavaleiro cujo nome era Loucura – e de repente ela soube o que fazer, e riu como uma criança diante da facilidade da coisa.

– Isto é loucura – disse Zab Dean. – Vamos ficar ouvindo fantasias e fábulas de uma anciã louca e um casal de pássaros?

Nan sorriu.

– Louca? – disse ela. – Sim, talvez eu seja louca. Mas a Loucura é uma das ilhas do Sonho, e eu conheço aquelas águas muito bem.

Ela levantou o pingente que Hughie tinha lhe dado. Dele, a luz das velas parecia agora reluzir tão clara como o sol. Parecia um pouco maior também; não era mais uma moeda, mas um prato de jantar.

E nesse momento a runa quebrada Fé começou a brilhar sobre a testa enrugada de Nan Fey. Ela brilhou um branco claro e luminoso, e ao fosforescer, pareceu mudar, de modo que qualquer aldeão que ousou erguer seus olhos para o rosto da velha mulher viu a marca de runa fosforescendo ali, quando ela mudou de uma duna fosca e defeituosa para uma brilhante e luminosa força magnética do Novo Manuscrito.

Mae soltou um grito e se encolheu. Ela conhecia uma marca de runa ao ver uma – e vira a que havia na mão de sua irmã fosforescer exatamente deste modo assustador.

– Que as Leis salvem todos nós! – falou Zab Dean. – Isso devia ser registrado!

Mas Dan Fletcher estava olhando para Nan, com um brilho de apreciação em seus olhos.

– O que é isso, Nan? – perguntou ele baixinho. – Que travessura você andou aprontando agora?

Nan sorriu.

– Nenhuma travessura, eu juro. Eu naveguei pelo céu numa cesta de roupa para lavar, flutuei sobre as ilhas do Sonho, cavalguei um Cavalo do Ar pelas nuvens e agora eu vim ajudar meu Povo…

– Ajudar-nos? – Mae gemeu. – Você ferrou todos nós com seus sonhos!

Nan se perguntou (e não pela primeira vez) como qualquer irmã de Maddy Smith poderia ter se tornado tão burra.

– Ouçam-me! – ordenou ela. – Nunca houve nada que temer nos sonhos. Isso foi apenas uma história armada pela Ordem, que com toda razão temia seu poder.

Os aldeões se olharam com dúvidas ao ouvir isso, a maioria deles tendo acreditado desde a infância que sonhar era terrivelmente perigoso. Alguns (como Mae) nunca tinham sonhado; alguns o tinham feito em segredo. Um desses era Dan Fletcher, naturalmente, e agora ele olhava para o Cavalo do Ar, que se erguia placidamente nas proximidades. Como a maioria dos aldeões, ele conhecia todos os cavalos no vale, bem como conhecia seus proprietários, e este era desconhecido para ele – além de parecer estranhamente insubstancial, como o pálido reflexo de um cavalo sobre um trecho de água de enchente.

– Daqui a pouco você vai dizer que ele veio aqui através do Sonho.

Nan lhe lançou seu sorriso travesso.

– Não subestime o Sonho – falou ela. – O Sonho é um rio que flui pelos dois lados, da Ordem para o Caos e vice-versa. O Sonho é a nascente da criação; nem a Morte é páreo para ele. Nada sonhado se perde, e nada está perdido para sempre. Isso é o Velho Homem nos contando que o que é destruído pode ser reconstruído, sim, até mesmo castelos nas nuvens!

– Castelos nas nuvens – disse Dan. – Eu optaria por uma cama e uma refeição.

– Optaria mesmo? – perguntou Nan, ainda sorrindo para ele. – Eu me lembro de você querendo mais que isso.

Dan pareceu grosseiro.

– Que bem os sonhos podem trazer agora?

– Eu lhe mostrarei – disse Nan, montando em Epona com uma agilidade da qual, havia apenas algumas horas, ela nunca teria se imaginado capaz. A força magnética especular dos pássaros de Odin estava agora quase do tamanho de um prato de coleta que Nat Parson passava por toda a igreja depois de todo ofício. Nan não tinha nenhuma ideia de para que servia, mas era uma forcinha magnética, por certo, ela pensou; e segurando-a em suas duas mãos, com os dois calcanhares escoiceando os flancos do Cavalo, a Louca Nan Fey pressionou Epona diretamente para a nuvem de sonho.

– Não! – gritou Dan, dando um passo.

Mas Nan apenas riu.

– Ele flui para os dois lados! – E, com isso, ela entrou na nuvem de sonho num galope, o longo cabelo branco escorrendo longamente por trás dela, e desapareceu na névoa maligna sem lançar sequer uma olhada para trás.

– E agora o quê? – questionou Matt Law.

– Agora nós esperamos. E rezamos – afirmou Dan.

A nuvem de sonho estava na entrada agora, roçando a soleira da porta. O Povo havia recuado para a igreja na esperança de que ela poderia providenciar refúgio; mas uma vela deixada na entrada e uma cópia do Bom Livro haviam se dissolvido em pilhas idênticas de cinza, e agora a entrada, reduzida a um polimento por séculos de pés veneradores, estava começando a ficar leitosa e desaparecer…

E então uma figura deu um passo, saindo da névoa.

– Demônios do Caos! – gritou Mae; mas Ben Briggs estendeu sua mão e, arriscando-se a perdê-la, agarrou a figura fantasmagórica e puxou-a para a entrada.

Por um momento houve silêncio quando todos olharam fixamente para a aparição.

Depois Damson Ploughman deu um grito.

– Deuses! Graças aos deuses! – exclamou sua esposa.

Era Sam, seu filho desaparecido, e por vários minutos depois disso o Povo ficou ocupado demais disputando por tocar o recém-chegado – puxando seu cabelo e checando seus dentes e tripudiando com prazer e surpresa à menor coisa que ele fizesse – para prestar atenção aos protestos de Zebediah Dean, que sustentava que o jovem Sam era um demônio disfarçado, e que todos eles seriam duplamente amaldiçoados, e que quando seu tio soubesse disso, haveria sérias consequências…

– Ah, cale a matraca, Zeb – disse Mags. – Ele se parece com um demônio para você?

– Bem, ele está bastante feio, por certo – opinou Damson, cujos olhos ainda estavam transbordando de lágrimas.

Sam sorriu. Todos riram, exceto, claro, Zeb Dean e Mae.

– Tudo que vocês têm que fazer é sonhar – disse Dan Fletcher em deslumbramento. – Foi o que ela quis dizer. É isso!

Sam fez que sim.

– Eu concordo. Eu me lembro de ter entrado na névoa; então nada mais até que Nan Fey…

– Como foi que ela fez isso, Sam? – perguntou Mags.

– Eu acho… Eu acho que ela sonhou isso, Mãe!

Dan se virou para os aldeões.

– Bem, o que é que estamos esperando? – indagou ele. – Se Nan pode fazer isso, nós também podemos!

– Nós? Sonhar? – perguntou Mae Dean.

– Por que não? – respondeu Matt Law, nunca o mais imaginativo dos homens, mas obstinado quando entendia a questão. – Que mais temos a perder agora?

Houve uma agitação entre os aldeões, mas ainda nenhum deles ousava se aproximar da névoa.

– O quê? Nenhum de vocês sequer deseja tentar? – Dan Fletcher fechou os olhos e mergulhou na nuvem de sonho, para retornar com um cão peludo em seus calcanhares, um cão peludo marrom, sua pele ainda molhada, sua longa cauda balançando furiosamente.

– Charlie! Oh, Charlie, seu tratante! – disse Dan, agarrando o indisciplinado cão de caça. – Eu pensei que você estava morto e liquidado, garoto! – Então, virando-se para os aldeões, ele disse: – Viram? Nós podemos fazer isso. Nós todos podemos. Tudo que temos que fazer é sonhar, e nada precisará estar perdido para sempre…

Depois disso houve uma correria em direção à borda da nuvem de sonho. Imaginar nunca foi uma coisa que viesse facilmente, mas naquela noite a colheita excedeu qualquer uma que houvesse sido conhecida.

Cães, gatos, cavalos, pássaros – todos tão reais quanto o jovem Sam Ploughman – começaram a emergir da névoa maligna, estourando para a existência novamente como uma fileira de bolhas contendo pequenas bolsas de ser, liberadas de volta ao Mundo Médio com a mesmíssima facilidade com que o tinham deixado.

Por momentos a empolgação deixou-os todos um pouco loucos. Mesmo os cínicos logo estavam se juntando a eles na boca-livre, tentando recordar pessoas perdidas, possessões de valor, fragmentos de suas vidas despedaçadas. Mags Ploughman penetrou na névoa e retirou a caixa de música de sua mãe, que ela julgava desaparecida com o resto das suas coisas; Joe Grocer recuperou seu contador de dinheiro; crianças resgataram seus brinquedos favoritos. As pessoas de Malbry subitamente descobriram que tudo que tinham que fazer era se concentrar no que havia sido perdido para lembrar em todos os detalhes, convocá-lo de volta da névoa, e com certeza ele viria para elas, como destroço sobre a água…

A guarda de Matt Law foi despachada para assegurar que a igreja permanecesse segura; e muito depressa foi notado que a névoa havia recuado mais ou menos três centímetros, deixando, em vez da grama e das pedras que cercavam a pequena igreja, uma faixa estreita de sedimento que brilhava nas cores do Arco-Íris. Ninguém realmente notou-a. O povo estava ocupado demais retricotando suas vidas, centímetro por centímetro, pedra por pedra. E quando Nan Fey e o Cavalo do Ar emergiram por fim da nuvem de sonho, foi para uma visão muito incomum: uma igreja preenchida pela metade com parafernália exótica, na qual parte de um bangalô (ele pertencia a Ben Briggs) havia começado a aparecer, como o crescimento de uma árvore; onde um grupo de crianças sem supervisão havia conseguido invocar alguns filhotes de gatos e uma bola vermelha; e onde, por sobre o telhado (que havia caído), um carvalho gigante estava crescendo agora, nos galhos dos quais um bando de pássaros estavam cantando como se para despertar os mortos.

Nan Fey deu um pequeno sorriso e uma afagadinha no Cavalo do Ar. Logo haveria coisas maiores que pássaros e cães perdidos a invocar. A força magnética especular havia lhe mostrado muita coisa; não era por nada, ela sabia, que pensamentos eram conhecidos como reflexões. Por um tempo longo demais pensar e sonhar haviam sido considerados o trabalho de mãos ociosas. Se a Cidadela do Céu estava por ser construída, então sonhos e reflexões a construiriam. E mesmo que a batalha fosse perdida, ela sabia que o Velho Homem ficaria orgulhoso. Nan Fey havia conquistado o que ninguém mais conseguira. Viessem o Inferno, o dilúvio ou a Adversidade.

Pela primeira vez em quinhentos anos, o povo de Malbry estava sonhando.