Luz das Runas
Capítulo 10
– Você parece surpreso – disse a Caçadora.
– Bem, eu não estou exatamente na minha melhor forma – disse Loki, esfregando a cabeça dolorida. – Além do mais, eu estava com a impressão de que você havia retornado ao seu povo.
– Eu retornei, a princípio – confirmou Skadi, segurando seu chicote de runas. – Isto é, até que os rumores começaram. Rumores de danos sob a Colina. E de um Cavaleiro cujo nome é Traição.
– E então você supôs que eu fosse o culpado. Bem, eu tenho novidades para vocês, pessoal…
– Cale a boca, Estrela do Cão! – exigiu Skadi. – Você não está aqui para defender sua inocência. Se eu pudesse agir do meu modo neste momento, você seria acorrentado a uma pedra no Mundo Inferior, tendo serpentes venenosas como companhia. Isso ainda pode acontecer se você quiser me confundir.
Loki lançou um olhar cauteloso para ela.
– Eu não vou tentar lhe confundir – falou ele. – Então, onde estou, e o que você quer?
Skadi lhe deu um olhar frio.
– Você está perto dos Sete Adormecidos – esclareceu ela. – Há uma caverna a cerca de cem metros daqui que leva à montanha. É seca o suficiente, e há água nas proximidades. Acho que você ficará bem confortável. Naturalmente, terá que ficar escondido – continuou ela. – Senão eles vão rastrear você. E pela impressão que você me dá agora, eu não superestimaria suas chances. Um Cavaleiro cujo nome é Traição, quem mais poderia ser senão o Astuto?
Loki fez que sim.
– Ok – concordou ele.
Sua mente estava funcionando desesperadamente. Será que a Caçadora estava tentando ajudar? Parecia um tanto improvável. E por que os corvos de Odin estavam com ela? O General teria realmente sobrevivido? Ou isso era o prelúdio de outra coisa – alguma forma de interrogatório?
Quase imperceptivelmente, Loki começou a procurar por sua força magnética.
Crauk, disse Mandy de um jeito acusador.
Skadi ergueu seu chicote de runas. Seus rolos deslizaram por sobre a neve como cabos de eletricidade.
– Eu estou lhe avisando – disse ela com os dentes cerrados. – Já é bem ruim ter que salvar sua vida, mas tente novamente e isto aqui vai doer.
– Ok. – Loki ergueu as mãos.
– Muito sensato – falou Hughie. – Mandy não fala muito, mas ela pode ver através dos Nove Mundos.
– Está vendo isto aqui…? – Loki fez um gesto de mão obsceno. Depois ele se virou para a Caçadora. – Então, perdoe minha natureza desconfiada, mas… Por que você iria querer salvar minha vida? Não é por sermos melhores amigos.
– Você entendeu isso certo – comentou Skadi. – Mas Balder queria que você vivesse, e suponho que ele tivesse suas razões. Quanto ao General, onde quer que ele esteja…
Mandy crocitou.
Skadi parou de falar. Ao lado dela, o Espírito e a Mente de Odin ergueram dois pares de olhos dourados sobre o renegado Astuto.
– Ah – disse Loki. – Então é assim, não é? – Seus lábios marcados se retorceram em apreciação. – Ouça, se Odin está vivo em alguma parte, se é por isso que você está me protegendo, por que não me revelar tudo? Eu posso entender completamente por que você não iria querer que o Vanir soubesse. Mas eu sou irmão dele, pelo amor dos deuses, e se ele está planejando fazer um trato…
– Que tipo de trato?
Loki deu de ombros.
– Maldito eu seria se soubesse. Mas alguém está puxando as cordinhas direitinho. O Cavalo Vermelho está às soltas, o Cavalo Negro está livre; tudo que precisamos agora é do Cavalo do Ar, e teremos tudo a bordo do ônibus dos Faërie para Ragnarók!
Skadi deu-lhe um olhar de desprezo.
– Já tem tudo calculado, não tem?
– Bem, não foi difícil. – Loki sorriu. – Talvez o General tenha sobrevivido. Talvez ele queira assumir o comando. Mas o equilíbrio de poder mudou em três anos: Heimdall fez uma aliança com o Caos, e de repente Odin não está mais seguro de quantos amigos ficaram do seu lado. Então ele fez um pouco de recrutamento secreto. Não é muito difícil conseguir que Maddy fique do seu lado. Mas quanto ao Seu Amigo aqui, eu entendo. Nós tivemos nossas diferenças no passado. Mas você pode dizer a ele, Skadi, que eu mudei. Estou do lado da Ordem agora.
Os olhos azuis gélidos de Skadi cintilaram.
– Bem, talvez seja este o problema – disse ela. – Mudar de lados é a sua especialidade. Portanto, o que você vai fazer é o seguinte. Vamos colocar alguém cuidando de você. Alguém para colocá-lo no trilho certo. Alguém para garantir que você não mude de lado.
Isso pareceu ameaçador, Loki pensou.
– Você não acha que eu vou abandonar o General?
– Você já fez isso, no Ragnarók.
Loki deu de ombros. Ele podia ter explicado as razões para a sua deserção. Passara os meses anteriores ao Ragnarók acorrentado a uma pedra enorme no Mundo Abaixo, sem amigos e abandonado, com uma serpente pingando veneno em seu rosto (cortesia de Skadi, naturalmente). Apenas sua esposa fiel, Sigyn, havia ficado, recolhendo as gotas de veneno – e para ser honesto, Loki pensou, a serpente fora melhor companhia. Havia alguma coisa quanto à lealdade total, à devoção sem crítica, à paciência infindável, à perpétua complacência e à inabilidade geral para acreditar que um ser amado podia fazer qualquer coisa errada em Sigyn que, francamente, lhe dava arrepios.
Um pensamento horrível lhe ocorreu.
– Por favor. Você não tem que me prender. Eu não sou o segundo Cavaleiro. Eu juro. Quero dizer… eu lá iria cavalgar numa serpente gigante?
Skadi lhe deu um sorriso gélido.
– Gerador de Serpentes? Pai das Mentiras?
– Isso fere meus sentimentos – disse Loki.
– Bem, considere-se sortudo por eles serem a única coisa que foi ferida. E ela não será uma carcereira ou algo assim. Pense nela mais como uma guardiã. Uma amiga. Alguém para tomar conta de você…
– Ela? – perguntou Loki.
– Não consegue adivinhar?
Loki empalideceu.
– Ah, não. Ela morreu…
Skadi sorriu.
– Você abriu o Inferno. Você deixou um montão de pessoas mortas à solta.
– Mas as dificuldades de tirar alguém para fora…
– Eu acho que você deve ser apenas sortudo – disse ela.
Então a Caçadora deu um passo para o lado a fim de abrir caminho para uma recém-chegada, e toda cor que restava sumiu da assinatura de Loki e de seu rosto.
Para um observador casual poderia ter sido difícil de determinar por que; pois a mulher baixa e de rosto redondo que se aproximou parecia tão inofensiva quanto uma pessoa do Povo. Seus cabelos eram castanhos e presos com simplicidade; seu vestido era comum e prático. Seus olhos eram o melhor de suas feições, grandes e azuis e expressivos como eram, e estavam agora fixos com adoração sobre o Astuto.
– Bem, você não vai dizer nada?
Loki encarou sua ex-mulher. Sua falecida ex-mulher, corrigiu. Sua falecida, não lamentada ex-mulher – tenaz como um cão de caça; teimosa como uma mula com insolação; ciumenta como um gato doméstico; louca como uma caixa de rãs.
Ele pensara que rever Angie havia sido um golpe de azar. Mas se juntar com duas ex-parceiras na mesma semana – sem mencionar Fenny e Jormungand – parecia perseguição.
Ele fechou os olhos.
– Deuses, isso é o Inferno.
– O que você disse?
– Eu disse… eu disse… Olá, Sig.
Sigyn respondeu com um grito agudo e lançou-se sobre Loki.
– Eu sabia que você ficaria feliz por me ver! – exclamou ela. – Eu senti tanto a sua falta! Ah, docinho. Você sentiu falta de mim? Eu sei que você sentiu, e agora podemos ficar juntos outra vez!
Loki estava tentando o melhor que podia desviar-se da barragem de beijos.
– Excelente. Sim. Obrigado, Sig.
Ela não havia mudado nada, ele pensou, meio sufocado por seu abraço perfumado. Ainda tão carente; ainda tão doce; ainda tão louca quanto um peixe debaixo daquele sorriso – e que marca era aquela na palma da sua mão? Parecia uma marca de runa, Loki pensou, embora Sigyn nunca tivesse tido alguma anteriormente.
– Onde você conseguiu isso? – perguntou ele. – E o que, em nome dos Infernos, é isso?
– Em nome dos Infernos está certo – disse Skadi. – Nós a chamamos de Eh, o Matrimônio. Outra runa do Novo Manuscrito.
Mas então Sigyn desfez seu abraço e examinou Loki criticamente.
– Você está com uma aparência medonha – observou ela. – Angie, aquela asquerosa, não tem cuidado de você de modo algum? Ela não tem alimentado você?
– Sigyn, eu estou bem – garantiu Loki.
Sigyn olhou-o com olhos apertados.
– Então… ela ainda está por aqui? Você a tem visto?
– Bem… – disse Loki.
– Não importa. Realmente. Eu sei. Aposto que você a tem visto o tempo todo. Você a tem visto, não tem? Depois de tudo que fiz por você. Seu pequeno rato mentiroso, trapaceiro! – E ela deu no Astuto uma sonora bofetada.
– Mas você estava morta – protestou ele.
Sigyn o esbofeteou novamente.
– Eu entendo. É a sua desculpa, não é? – enfureceu-se ela. – Só porque eu estava morta, você pensou que se envolveria com aquela desclassificada outra vez!
Skadi disfarçou um sorrisinho.
– Os homens são tão facilmente seduzidos! Você tem que vigiá-los o tempo todo.
– Ah, eu planejo isso – falou Sigyn, e, erguendo sua mão, ela traçou com o dedo um sinal que dourou o ar com luz de runa. Ao mesmo tempo uma coisa apareceu em torno do pulso de Loki; uma coisa que se parecia com uma fina corrente de ouro.
– O que é isso? – indagou o Astuto.
Sigyn proferiu um feitiço:
– Eh byth for eorlum. – E uma força magnética similar apareceu em torno de seu próprio pulso direito, ligando os dois.
Loki disse:
– Por favor, não faça isso.
Skadi deu de ombros.
– É para seu próprio bem. Ou você vai preferir aquela rocha no Mundo Inferior?
Os olhos azuis de Sigyn se iluminaram ao ouvir isso.
– Sabe? Aquilo pode ser mais seguro… – disse ela. – Eu ficaria feliz demais em ficar com ele lá. Eu levaria suas comidas, cantaria para ele e seguraria uma bacia sobre seu rosto para que a horrível serpente não pudesse feri-lo…
– Que serpente? – quis saber Loki.
– Bem, teria que haver uma serpente, querido – falou Sigyn num tom de sensatez. – Você sabe, como nos velhos dias. Só você, eu e a serpente, naturalmente…
– Eu não acho que isso será necessário – disse Skadi, interrompendo-a. Entre eles, Eh, o Matrimônio, cintilava e estalava com luz de runa. – Loki, não tente fugir – disse ela. – Sigyn, tome conta dele direitinho.
Sigyn deu um sorriso radiante.
– Ah, eu vou tomar. Eu prometo – assegurou ela. – Eu vou cuidar dele tão bem! – Ela então se virou para Loki. – Você está com fome, docinho? Eu tenho chá e bolo na caverna.
– Chá? Bolo? – perguntou Loki.
Gentilmente, Sigyn afagou sua mão.
– O quê? Você pensou que eu o deixaria morrer de fome? E depois poderemos ter uma conversa adorável. Agora que eu tenho você todo para mim…
– Não, espere! – disse ele, vendo a Caçadora se afastar.
Mas Skadi apenas o ignorou, retomando seu Aspecto favorito. Na forma de um lobo branco da neve ela se afastou sem ruído através da neve, enquanto acima dela o Espírito e a Mente de Odin partiam voando pelo ar cintilante.
De lábios apertados, Loki viu-os partindo. Ele fora um prisioneiro muitas vezes – em masmorras, no Mundo Inferior, sob a Colina, no reduto do Povo do Túnel, nas cavernas do Povo do Gelo –, mas nunca sentira seu aprisionamento de modo tão aguçado. A corrente dourada em torno de seu pulso era fina como fio de teia de aranha, mas inquebrável, restringindo seus movimentos, embora enganosamente fácil de ignorar – exceto por Sigyn, a encarnação da constância, que nunca estava mais que a poucos passos de distância, seus olhos fixados com idolatria sobre ele.
Loki estremeceu. Isso era ruim – pior ainda que o Mundo Inferior. Na Fortaleza Negra ele ao menos podia gritar. Ali, ele não podia nem isso. Ao contrário, tinha que ser simpático, tomar chá, bater um papinho com sua falecida ex-esposa. Em torno de seu pulso, o Matrimônio cintilava e tremeluzia impiedosamente, prendendo o Astuto ao seu destino mais uma vez até o Fim dos Mundos; algemado aos grilhões do amor.