Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 10 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 8

 

SHAW ESTAVA EM PARIS e havia chegado ao fim de um dia intenso de preparativos. Vestiu uma bermuda e uma camiseta branca larga e foi correr às margens do Sena, passando pelo Jardim das Tulherias, o Museu de l’Orangerie, o Grand Palais e a Avenue de New York antes de atravessar uma ponte, que cruzava o famoso rio que corta Paris, e, alguns minutos mais tarde, chegar à larga base da torre Eiffel. Shaw desacelerou, percorrendo o espaço verde antes de aumentar de novo o ritmo. Por fim, foi dar na região de Saint-Germain, na margem esquerda, onde estava localizado seu pequeno hotel. Ele normalmente preferia o Quartier Latin quando se encontrava na cidade, mas Frank havia tomado outras providências.

Após tomar banho e trocar de roupa, ele foi jantar com Frank perto do Museu d’Orsay. Os dois escolheram uma mesa de canto na área externa do restaurante, que era separada da calçada por vasos de plantas retangulares pendurados em altas divisórias de ferro batido. Antes de ir embora, Frank deu a Shaw um pedaço de papel.

– O que é isto?

– Um número de telefone.

– De quem?

– Apenas ligue.

Frank enfiou o chapéu na cabeça e saiu andando. Shaw viu-o parar junto à porta para acender um dos seus pequenos charutos antes de desaparecer às pressas entre a massa humana que caminhava ao longo da movimentada rua.

Shaw voltou ao hotel enquanto tentava se animar absorvendo a magia de uma das cidades mais encantadoras do mundo, mas o efeito foi o oposto. Fora em um hospital em Paris – no qual ele lutava por sua vida após ter o braço quase amputado por um neonazista – que ele soubera da morte de Anna. E isso logo após ela ter aceitado seu pedido de casamento. Anna era uma linguista brilhante e dissera “sim” em vários idiomas. Shaw até havia ido à cidadezinha na Alemanha onde sua família morava para pedir ao pai da moça sua mão.

Então, ela morrera.

O caminho de Shaw o levou à margem do rio. Ele foi até a ilha da catedral de Notre-Dame. A igreja passara por uma limpeza havia pouco tempo, séculos de fuligem removidos com água pressurizada. Por algum motivo, Shaw a preferia suja. Ele consultou o relógio. Eram quase 21h e a igreja fechava às 18h45 nos dias de semana. Turistas ainda circulavam por ali tirando fotos do exterior e deles mesmos à frente do prédio. Ele não era um homem particularmente religioso e nem sabia ao certo por que estava ali.

Para rezar? Bem, ele estava sem sorte. Deus, ao que parecia, encerrara o expediente naquela noite.

Shaw voltou ao quarto do hotel, sentou-se em uma pequena cadeira e tirou do bolso o pedaço de papel. Pegou o celular e digitou o número.

– Alô?

Shaw não ouvia aquela voz havia meses. Despreparado, apertou o botão para encerrar a ligação. Maldição, Frank. Shaw pensara que o telefone tinha algo a ver com a missão atual. Mas não tinha.

Aquela era a voz de Katie James.

Ele se deitou na cama e olhou para o teto azul-claro.

O último dia que os dois passaram juntos não fora como Shaw havia desejado. Bem, talvez tivesse sido, já que, ao amanhecer, ele deixou o hotel em Zurique onde estavam hospedados, pegou o transfer para o aeroporto e partiu no primeiro voo disponível; o destino não era importante. Katie acordou, desceu para encontrá-lo no café da manhã e, provavelmente, ficou fora de si quando ele não apareceu. Ela telefonou, mas ele nunca retornou as ligações. Shaw mudara de número. Ele não sabia por que havia feito tudo aquilo. Ele nunca tinha fugido de nada nem de ninguém até então. Mas acordara em uma manhã fria na Suíça e sentira que precisava ficar sozinho.

Então, simplesmente fugi.

Shaw olhou mais uma vez para o pedaço de papel. Deveria pelo menos dar a Katie a oportunidade de soltar os cachorros em cima dele. Porém, uma hora se passou e ele não se mexeu.

Ele se sentou e digitou o número.

– Oi, Shaw – disse ela.

– Como você sabia que era eu?

– Você ligou há mais de uma hora e desligou.

– Você não tinha como saber que era eu. Meu número é bloqueado.

– Mesmo assim, eu sabia que era você.

– Como? Você não recebe outros telefonemas?

– Não neste telefone. Só dei este número a Frank, para que ele pudesse dá-lo a você.

– Certo – falou ele lentamente. – Então, por que você não tentou ligar de volta? Era só apertar o botão de discagem para o meu número.

– Pensei que era melhor deixar que você pensasse a respeito. Como você está?

– Você não quer gritar comigo?

– Por quê? Adiantaria alguma coisa?

Aquela não parecia a Katie James que ele conhecia. Ela era pura emoção, com os sentimentos à flor da pele, transparecendo em suas matérias jornalísticas. Aquela mulher era impulsiva, bem diferente dele, e Shaw, ao mesmo tempo, a desaprovava e admirava por isso. Ou pelo menos ele achava que era bem diferente. Na verdade, perto dela, ele podia ser bem espontâneo.

Shaw se levantou e foi até a janela que dava para o pátio com pavimentação de pedra do hotel enquanto a noite caía sobre Paris.

– Estou bem. E você, como está?

– Voltei a trabalhar por conta própria. Recebi algumas ofertas de emprego, mas nenhuma de fato me interessou.

– Só porcarias?

– The New York Times, Der Spiegel na Alemanha, até a Rolling Stone. Só baixo nível.

– Achei que você quisesse voltar ao jogo.

– Acho que eu estava enganada. Como está Frank?

– Na mesma.

– Então, ao que parece, você voltou ao seu jogo.

– Acho que sim – murmurou ele.

– Onde você está?

– Trabalhando.

– Por enquanto, estou em São Francisco. Então, quando você acha que vai ter uma folga?

– Não tenho certeza.

– Não tem certeza se vai sobreviver ao próximo trabalho ou é alguma outra coisa?

Ele não respondeu.

– Bem, se algum dia quiser conversar, você tem meu número.

– Katie...

– O que foi?

Shaw podia ouvir a respiração dela se acelerando.

– Foi bom ouvir sua voz.

– Juízo. E lembre: você não precisa fazer tudo o que Frank manda.

Ela desligou e Shaw jogou o telefone na cama.