Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 30 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 28

 

WALLER TOMOU BANHO E usou uma lâmina de barbear para eliminar alguns fios errantes da cabeça. Ele não era naturalmente careca, mas havia começado a raspá-la como um recurso de disfarce quando fugiu da Ucrânia. Sabia que quase nada mudava tanto a aparência quanto cabelos acrescentados ou subtraídos.

Depois de se aplicar outra injeção do elixir especial, cruzou a cobertura, chegando a um armário embutido no fim de um corredor. Girou em sentido anti-horário a maçaneta do lado direito de uma das portas e um painel de madeira correu, revelando um teclado digital. Digitou o código de quatro algarismos. Houve um clique e a parte anterior do armário se deslocou para a frente graças a um mecanismo hidráulico. Waller atravessou o vão, e a porta, ativada por um sensor de movimento, fechou-se atrás dele. Um exemplo elegante de um trabalho habilidoso.

O apartamento tinha mais de 900 metros quadrados, sem contar aquele espaço “secreto” no centro da casa, o principal motivo para ele não permitir que ninguém entrasse no apartamento. Não podia correr o risco de que alguém o descobrisse. Tratava-se de uma parte da estrutura original da cobertura, vazia, de concreto. O homem que construíra aquela “caixa-forte” para ele era de origem ucraniana, leal e já morto, de causas naturais. Waller raramente matava os verdadeiros amigos.

Ele mesmo decorara o lugar. Caixas de aço inoxidável com trancas eletrônicas haviam sido entregues por meio de um mensageiro seguro e Waller as desembalara sozinho naquele santuário. Ele estava diante de um velho armário de metal com “Fedir Kuchin” gravado em uma pequena placa afixada à porta. Tirou lá de dentro seu uniforme. Ainda lhe caía muito bem, pensou, embora ficasse apertado em lugares nos quais a ação do tempo tinha levado a melhor. Na cintura, prendeu o coldre com uma antiga Makarov PM-53 9x18. Aquela fora a arma portátil padrão dos militares da União Soviética durante quarenta anos, até o colapso completo do império soviético em 1991. Pôs na cabeça o quepe azul com guarnições douradas e a estrela vermelha soviética no meio, depois se olhou no espelho pendurado em uma das paredes. O tecido arranhava e não deixava a pele respirar muito bem, mas, para ele, era a mais fina das sedas.

Todo paramentado como um agente da KGB, foi levado de volta para um passado que, já então, ele sabia que seria o ponto alto de sua existência. Tocou as faixas e insígnias no lado esquerdo do paletó. Três Medalhas de Serviço Irrepreensível à KGB, distinção de Agente Exemplar da Segurança Estatal e graduação pela Universidade de Leningrado, além de outro emblema indicando que ele estudara no prestigioso Instituto Andropov. Também havia medalhas por serviço em combate, obtidas com seu sangue no Afeganistão, dentre outros lugares. Seus inimigos podiam chamá-lo com razão de muitas coisas terríveis, mas não de covarde.

Embora nascido em uma aldeia de pescadores a apenas 600 quilômetros de Kiev, Waller sempre se considerou um soviético, e não um ucraniano. Seu mentor na KGB havia sido um coronel-general de três estrelas conhecido como o “Carniceiro de Kiev”. Também nascera na Ucrânia, mas jurara fidelidade a Moscou. Tudo o que Waller sabia a respeito de contrainteligência, repressão a insurgências e defesa do estilo de vida soviético fora aprendido com aquele homem. Waller tinha uma foto dele na parede e, ao lado, a bandeira soviética com sua foice e martelo dourados e a estrela no canto superior representando o Partido Comunista.

Marchou até o centro do cômodo, enrijeceu-se e saudou aquele grande soviético que morrera baleado por causa de seu glorioso serviço. Sentindo-se um pouco tolo por causa da atenção dispensada a um homem já morto havia tanto tempo, se sentou diante de uma velha mesa de metal no estilo da década de 1950 usada no escritório da KGB em seu país de origem. Velhos documentos e formulários com cópias em papel carbono estavam empilhados ordenadamente em cima da escrivaninha. Arquivos de metal enfileiravam-se em uma das paredes. Dentro daqueles repositórios modestos, havia todos os dossiês do seu longo serviço que ele conseguira levar consigo. Vez por outra, ia até ali para revisitar aquelas “conquistas” e reviver as glórias passadas.

Na verdade, pouco se importava com sua vida atual. Waller era rico, mas dinheiro nunca havia sido uma prioridade. Nascera pobre, crescera na pobreza e se unira àqueles que defendiam seu estilo de vida. No entanto, até os figurões do Partido Comunista só tinham “luxos” como um apartamento com seu próprio banheiro ou um carro. A recompensa nem se comparava à do capitalismo.

Mas, agora, é isto que sou: um capitalista. A mesma coisa contra a qual lutei durante todos aqueles anos. Bem, devo admitir que os americanos tinham razão.

O tráfico de garotas para prostituição o entediava. Ele começara a negociar com os muçulmanos em especial porque assim poderia reviver um pouco do passado, quando sua atividade e suas ordens afetavam milhares de pessoas. Naquele momento, era apenas um empresário, como tantos outros. Ganhava muito dinheiro, vivia com grande luxo, mas, se morresse amanhã, quem se importaria? Seu nome não figuraria em nenhum livro de história. Seus superiores na KGB haviam levado boa parte do crédito por seu trabalho. Eles eram imortais. Em comparação, Waller era bastante comum. Entretanto, algumas pessoas sabiam o que ele fizera. E, por isso, precisou fugir, se esconder como um rato. Não tinha muita escolha, se quisesse viver. Já vira o que havia acontecido aos companheiros não tão ágeis. Alguns foram destroçados por hordas furiosas que passaram a vida toda presas em seu próprio país. Ele entendia as emoções perfeitamente, só não queria sofrer as consequências.

Waller abriu outra gaveta, tirou lá de dentro um velho livro e o folheou, revelando páginas e mais páginas de desenhos feitos por suas próprias mãos. Ele sempre fora um bom desenhista, tendo aprendido com a mãe, que ganhara a vida como artista de rua, primeiro na França, depois em Kiev, antes de terminar em uma aldeia de pescadores que ficava congelada cinco meses por ano, casada com um homem que não a amava. Waller nunca soube toda a história do casal e o que os havia unido. Naquele volume estavam várias pessoas que ele assassinara, os rostos mortos ou agonizantes reproduzidos em carvão, nanquim ou simplesmente lápis. Não havia cor ali. Não era necessária para os mortos.

O outro livro que tirou em seguida da escrivaninha talvez surpreendesse algumas pessoas que conheceram o velho Fedir Kuchin. Ele sopesou a Bíblia na mão. A União Soviética se opunha a qualquer tipo de religião organizada. “O ópio do povo”, como Marx havia escrito. Porém, a mãe de Waller era francesa e católica devota e criara o filho com suas crenças religiosas, apesar de todo o perigo. Lia a Bíblia para o garoto todas as noites enquanto o marido, bêbado, dormia.

O que agradou de início a Waller nas leituras foi a violência contida em um livro que em tese pregava paz e amor. Muitas pessoas eram exterminadas com métodos que nem mesmo Fedir Kuchin já adulto teria usado. Durante o Pai-Nosso, que recitavam toda noite, a mãe sempre enfatizava uma frase: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.”

Waller sabia muito bem a que mal ela estava se referindo: o marido.

Sua pobre mãe era boa até o último fio de cabelo. Porém, o que ela não entendia a respeito do mal, o filho compreendia muito bem. Com a motivação adequada, qualquer pessoa era capaz de cometer crueldades terríveis, atos de insensata selvageria e horrenda violência. Uma mãe mataria para proteger o filho e vice-versa. Um soldado mata para proteger seu país. Waller havia matado para proteger tanto sua mãe quanto seu país. Era bom naquilo, entendia a mentalidade necessária. Não era insensível à violência; ele a respeitava. Não a usava casualmente. Mas, quando o fazia, não podia negar: gostava do processo. Aquilo fazia dele uma pessoa má? Talvez. Será que sua mãe o teria considerado mau? Claro que não. Ele matara pelo país, pela mãe e pela própria sobrevivência. Quando as pessoas o atacavam, revidava. Um conjunto de regras mais justo não podia ser concebido. Ele era o que era, sincero consigo mesmo, ao passo que a maioria das pessoas levava uma vida de fachada, sua verdadeira essência soterrada por mentiras. Elas sorriam para o amigo antes de enfiar a faca em suas costas. Segundo esses parâmetros, quem era o verdadeiro malvado?

O leão rugia antes de atacar, a cobra deslizava em silêncio antes de enterrar as presas.

Eu sou o leão. Ou, pelo menos, costumava ser.

De um armário, ele tirou um velho projetor, colocou-o sobre a mesa e o conectou à tomada. Em seguida, abriu a gaveta da escrivaninha e pegou um rolo de filme. Posicionou-o na máquina, apontou-a para uma parede de concreto e ativou-a depois de desligar as luzes. Apareceram imagens em preto e branco com mais de trinta anos. Um jovem Fedir Kuchin todo uniformizado entrava em cena. Waller sorriu orgulhoso ao se ver jovem.

Kuchin marchou até o centro de uma propriedade com altas cercas de arame farpado e guaritas visíveis por toda parte. Disse algo e alguns soldados fizeram surgir uma dúzia de pessoas, empurrando-as com os canos das armas e forçando-as a se ajoelhar diante de Fedir. Havia quatro homens, três mulheres e o resto eram crianças. Kuchin se inclinou e falou algo a cada um deles. Sentado na cadeira, Waller articulou as mesmas palavras. Aquela era uma de suas lembranças favoritas. Kuchin levou as crianças para o canto, afastando-as dos adultos. Do bolso, tirou balas e as deu às crianças assustadas vestidas com trapos e até chegou a afagar a cabeça de uma menina. Do bolso do uniforme, Waller tirou um velho disco de chocolate daquela mesma ocasião, décadas atrás.

Enquanto as crianças famintas devoravam os doces, Kuchin foi até os adultos, sacou a pistola e os executou com uma bala na nuca. As crianças se lançaram aos gritos para abraçar os pais mortos e ele atirou, disparando por último na espinha de uma menina que amparava a cabeça da mãe morta. Na imagem final, Kuchin tirava um doce comido pela metade dos dedos mortos de um menino estatelado na lama e o engolia. Quando o rolo de filme chegou ao fim e a parede ficou clara de novo, Waller se recostou na cadeira com o mesmo nível de orgulho e satisfação que costumava sentir diariamente naqueles tempos. Aquele havia sido seu trabalho e ele o executara muito bem. Melhor do que qualquer outra pessoa na Ucrânia.

Tirou o uniforme e voltou a pendurá-lo no armário com cuidado, alisando o tecido. Antes de apagar as luzes e sair, voltou a olhar para a bandeira e a foto do seu mentor.

Quero algo digno de mim. Algo que seja de fato importante.

Apagou a luz, fechou a porta e voltou para a única vida que lhe restava. Em breve, partiria para a França. Talvez encontrasse lá algo que suscitasse de novo seu interesse.