Livrai-nos do mal
Capítulo 27
– ACHO QUE NUNCA VI A água tão clara – comentou Reggie, à frente de Shaw no caiaque, enquanto remavam.
Ele usava um longo calção de banho e uma camiseta larga com um colete salva-vidas por cima. Reggie vestia o sutiã listrado de um biquíni e shorts aderentes brancos tão finos que a calcinha ficava visível por baixo. Na cabeça, o mesmo boné dos Red Sox, só que virado para trás.
– Você é boa nisso – comentou Shaw, observando os músculos definidos de “Janie” em ação.
Os movimentos dele estavam sincronizados com os de Reggie, exceto quando Shaw tinha que usar o remo como leme para que o caiaque fizesse as curvas do rio, cuja correnteza era surpreendentemente rápida. No fundo podia-se ver uma vegetação em vívidos tons de verde e roxo, além de algo que pareciam algas. Shaw se sentiu em um grande aquário.
– Gosto de água. Quando eu morava em Boston, sempre que podia, estava no rio Charles.
– Certo, então você escondeu o jogo. Agora, não me sinto tão mal por não ser capaz de acompanhar o seu ritmo.
– Você está se saindo bem.
Shaw mergulhou a mão na água. Estava muito fria. Ele com certeza iria ficar no barco.
Havia outros cinco caiaques no grupo, mas Shaw e Reggie logo tinham se distanciado de todos, exceto de um. Era o de Whit e Dominic, que, vestidos como turistas e falando francês em voz alta, pareciam se divertir com os remos. Enquanto segurava uma câmera e fingia filmar Whit, que fazia gracinhas, Dominic conseguiu gravar cerca de dois minutos de closes de Shaw.
Eles tiveram que parar em várias pequenas represas e os guias os ajudaram a transportar os caiaques até o outro lado. Houve uma corredeira que navegaram com facilidade antes de terminar o percurso e subir na van da empresa de turismo para serem levados ao ponto de origem. Shaw e Reggie sentaram-se na frente; Whit e Dominic, na traseira. O automóvel foi chacoalhando por estradas de terra sinuosas marcadas pelos rastros de outros veículos até chegar mais uma vez ao asfalto. Reggie só olhou para trás uma vez, piscando o olho direito para Whit. Ele respondeu apertando de leve a bolsa em seus braços. Dentro, estava a arma com as digitais de Shaw. Como combinado, ele a havia tirado do carro dela enquanto os outros reuniam o equipamento para o passeio de caiaque.
Shaw e Reggie saltaram da van e entraram no Renault vermelho da moça. Ele teve que se encurvar e dobrar as pernas em ângulos estranhos para se acomodar no exíguo espaço.
– Os carros europeus não são mesmo para pessoas altas – disse Reggie, solidária.
– Vou sobreviver.
A volta para Gordes demorou menos de vinte minutos.
– Pode ir direto para a sua mansão – falou ele. – Posso ir andando até meu hotel.
– Que tal um mergulho e almoço antes? Você já está com a roupa adequada.
Shaw hesitou, analisando tudo o que aquilo poderia acarretar.
– Tudo bem. Claro.
Pararam em frente à mansão de Reggie. Shaw olhou para a entrada da casa ao lado.
– Não estou vendo o Citroën.
– Não estava mais aí quando fui pegar você.
– Interessante. Vi um dos caras andando pela cidade hoje de manhã.
– É mesmo? Você falou com ele?
Shaw lançou-lhe um olhar estranho.
– Não, ele parecia meio barra-pesada, tipo um mafioso.
Reggie abriu a porta, desativou o sistema de segurança e o fez entrar pelos fundos. Entregou-lhe uma toalha e o filtro solar, apontando para os seus antebraços, que já estavam um pouco vermelhos por causa do passeio de caiaque.
– Pois é, todos aqueles anos passados dentro de um escritório... – lamentou-se ele.
Os dois saíram para a área da piscina. Ela tirou os shorts e os tênis e ele se livrou da camiseta e da sandália.
Por trás dos óculos escuros, Shaw avaliou por um instante a condição física de Reggie e ficou impressionado. Não havia um grama de gordura no corpo dela e seus músculos eram enxutos e definidos.
Ela mergulhou na piscina e, depois, voltou à tona deslocando-se na água com movimentos fluidos. Fez um gesto de cabeça para a direita.
– Aquela é a parte funda. Quatro metros. Não quero que você, com seus 2 metros, bata a cabeça.
Shaw mergulhou e emergiu ao lado dela.
– Vou nadar um pouco – falou Reggie.
E foi o que ela fez nos vinte minutos seguintes, fazendo as viradas olímpicas no momento exato. Ele a acompanhou por um tempo e, então, saiu da piscina, se enxugou, deitou-se sob o lindo sol da Provence e a ficou observando.
Quando saiu da piscina, Reggie torceu o cabelo, pegou uma toalha e olhou para cima.
– Que diabos você está fazendo?
Shaw estava em pé sobre a mesa de jantar com tampo de pedra que ficava sob uma pérgula de madeira ao lado do muro que separava as duas mansões. A parede era alta, porém, no nível em que se encontrava, ele conseguia espiar do outro lado com facilidade.
– Vigiando os capangas da casa ao lado.
Reggie atravessou às pressas a superfície de lajotas e o puxou com força. Ele fingiu estar se divertindo.
– O que foi?
O rosto dela estava avermelhado, a testa franzida de raiva.
– Não faça mais isso.
– Por quê? Você não tem curiosidade?
– Foi você que viu o cara me espiando. E disse que o homem na cidade hoje de manhã parecia barra-pesada. Um mafioso. Não quero que eles fiquem com raiva de mim. Estou de férias.
– Tudo bem, tudo bem. Faz sentido. Que tal almoçarmos? Estou morrendo de fome.
Ela se recompôs e continuou a se enxugar.
– Estava pensando em uma salada de camarão, pão para mergulhar no azeite e uma garrafa de vinho branco. Comprei tomate, pepino e coração de alcachofra no mercado.
– Parece ótimo. Faça-me trabalhar. Sei como me virar em uma cozinha. Posso ser o ajudante do melhor dos chefs. Na verdade, não, mas posso fatiar legumes.
– Pode deixar que vou pôr você para trabalhar.
Reggie vestiu os shorts, mas não cobriu a parte superior do biquíni. Torceu o cabelo para trás e o prendeu com um elástico vermelho. Shaw notou que ela parecia mais voluptuosa com seu vestido de verão. E também pensou que “Janie” não passara no seu pequeno teste. Ele tinha ficado em pé em cima da mesa – um lugar que, segundo seus cálculos, só podia ser visto por uma pessoa nos fundos do terreno ao lado – só para ver a reação dela. Reggie dissera as coisas certas, mostrado uma preocupação normal em se misturar com gente “barra-pesada”. Mas Shaw era um agente havia muito tempo e seu instinto dizia que as emoções que acompanharam aquelas palavras não se encaixavam tão bem. Ela estava com medo, mas por outro motivo.
Ele a ajudou a preparar o almoço e ambos comeram do lado de fora. Na maior parte do tempo, a conversa foi inócua e nenhum deles mencionou a trama que se desenvolvia na casa ao lado. Mais tarde, Shaw voltou para o hotel e logo verificou as três pequenas armadilhas que sempre montava para ver se alguém estivera lá. Ficavam em pontos nos quais a arrumadeira não tocaria durante suas tarefas normais: a gaveta da escrivaninha, o armário e uma de suas bolsas.
Ele se sentou na cama. Das três, duas haviam sido mexidas. Enquanto estava com “Janie”, alguém tinha revistado o quarto.