Livrai-nos do mal
Capítulo 2
ELA AVANÇOU APÓS TRANCAR a porta atrás de si. À medida que a moça se aproximava da cama, ele pôde ver que ela estava usando apenas um roupão de algodão que mal cobria as coxas e mergulhava entre os seios. Sua pele à mostra estava bronzeada, exceto nos quadris pálidos. Ela havia soltado os cabelos, que balançavam na altura dos ombros, e estava descalça.
Ela deslizou para o lado dele na cama.
– Barbara! – exclamou ele, seu coração começando a bater mais rápido. – O que você está fazendo aqui?
– Eu sei que você me quer – respondeu ela em alemão. – Posso ver nos seus olhos.
Ele choramingou enquanto Barbara pegava sua mão e a enfiava dentro do roupão, perto dos seios.
– Mas eu sou um velho, não posso satisfazê-la. Eu... eu não posso.
– Vou ajudar você. Vamos com calma.
– Mas e o guarda? Ele está do outro lado da porta. Não quero que ele...
Ela lhe acariciou suavemente a cabeça.
– Eu disse que era seu aniversário e que eu era seu presente. – Ela sorriu. – Disse para ele nos dar pelo menos duas horas.
– Mas meu aniversário é só daqui a um mês.
– Eu não podia esperar.
– Mas eu não consigo. Eu quero você, Barbara, mas estou velho demais!
Ela se aproximou e tocou aquela parte do corpo do velho que não era tocada havia décadas. Ele gemeu.
– Não faça isto comigo. Estou dizendo que não vai funcionar.
– Sou paciente.
– Mas por que você me quer?
– Você é um homem muito rico e poderoso. E dá para ver que você já foi muito bonito.
Ele se agarrou àquela afirmação.
– Eu fui. Eu fui. Tenho uma foto.
– Me mostre. Me mostre – murmurou ela em seu ouvido enquanto movia a mão dele para cima e para baixo dentro do roupão.
Ele pressionou o painel, tirou a foto e a passou para ela.
O olhar de Barbara se deteve na imagem dele e de Adolf Hitler.
– Você parece um herói. Você foi um herói?
– Fiz meu trabalho. Fiz o que me foi pedido.
– Tenho certeza de que você era muito bom no que fazia.
– Nunca mostrei essa foto a ninguém.
– Fico lisonjeada. Agora, deite.
O velho obedeceu e Barbara montou em cima dele, abrindo o roupão para expor todo o corpo. Também removeu do pescoço dele o dispositivo para chamadas de emergência.
Ele começou a protestar.
– Não queremos apertar acidentalmente os botões – explicou ela, inclinando-se para colocar o aparelho em um lugar afastado, seus seios próximos ao rosto do velho. – Não queremos ser interrompidos.
– Sim, você tem razão. Nada de interrupções.
Barbara pôs a mão no bolso e pegou uma pílula.
– Trouxe isto para você tomar. Vai ajudar isto aqui. – Apontou para a virilha dele.
– Mas não sei se eu deveria. Meus outros remédios...
A voz dela tornou-se ainda mais grave.
– Vai durar horas. Você vai me fazer gritar.
– Meu Deus, se fosse mesmo possível...
– É só engolir isto aqui – ela mostrou a pílula – e, depois, me possuir.
– Será que a pílula vai mesmo funcionar?
– Nunca me deixou na mão. Agora, tome.
Barbara deu o remédio ao velho, serviu um copo d’água de uma jarra da mesinha de cabeceira e o observou tomar o líquido com sofreguidão.
– Está crescendo? – perguntou ele com avidez.
– Espere um pouco. Tenha paciência. Enquanto isso, preciso mostrar uma coisa.
Do bolso do roupão, ela tirou a pequena câmera que pegara quando o sistema de segurança fora desativado.
– Barbara, estou me sentindo esquisito.
– Não se preocupe.
– Chame o médico. Aperte o botão para chamá-lo. Agora.
– Está tudo bem. É apenas o efeito da pílula.
– Mas não estou sentindo meu corpo. E minha língua...
– Está parecendo maior? Meu Deus! A pílula deve estar surtindo efeito na sua língua e não na parte certa. Vou dar queixa ao fabricante.
O velho gorgolejou alto. Tentou apontar para a boca, mas seus membros não respondiam mais.
– Aperte o bot...
Ela afastou ainda mais o dispositivo de chamadas, fechou bem o roupão e sentou-se ao seu lado.
– Estas são as fotos que eu quero que você veja.
Ligou a câmera. Na pequena tela, surgiu um rosto em preto e branco.
– Este menino se chamava David Rosenberg – falou ela, apontando para a face jovial mas esquelética. As bochechas encovadas e os olhos vítreos indicavam que a morte estava próxima. – Ele não conseguiu chegar ao bar mitzvah. Você sabia disso antes de ordenar a morte dele, Herr Huber? Ele já tinha passado dos 13 anos, mas é claro que, nos campos de concentração, os ritos de passagem judeus não eram observados.
O velho agora gorgolejava baixinho, seu olhar aterrorizado ainda fixo na foto.
Barbara apertou um botão e o rosto de uma jovem apareceu no visor.
– Esta é Frau Helen Koch. Morreu com um tiro de rifle na barriga, disparado por você antes do seu primeiro cigarro da manhã. Pelo que se sabe, ela sofreu por apenas três horas antes de expirar enquanto seus subalternos impediam todas as tentativas de ajuda por parte dos amigos judeus de Frau Koch. Na verdade, você matou duas pessoas naquela manhã, já que ela estava grávida.
O velho agarrava as cobertas, fitando o dispositivo de chamadas, sem conseguir mexer o corpo. Barbara moveu a cabeça dele para o lado e a segurou no lugar para que ele fosse obrigado a olhar a tela.
– Você precisa se concentrar, coronel. Lembra-se da Frau Koch, não é? Não se lembra? E de David Rosenberg? Não se recorda?
Ele enfim piscou em sinal de confirmação.
– Eu mostraria as fotos das outras pessoas que você condenou à morte, mas, como são mais de cem mil, não temos tempo. – Barbara puxou uma foto do bolso do roupão. – Tirei esta do porta-retratos que fica sobre o piano na sua linda biblioteca. – Ela segurou a imagem em frente ao rosto do velho. – Encontramos seu filho, sua filha, seus netos e bisnetos. Todas essas pessoas inocentes. Está vendo o rosto delas? Exatamente como David Rosenberg, Helen Koch e todos os outros. Se eu tivesse tempo, contaria com riqueza de detalhes como cada um deles vai morrer hoje à noite. Na verdade, sete já foram abatidos só por causa da ligação que tinham com você. Está vendo, Herr Coronel, queríamos ter certeza de que não sobrariam monstros para se reproduzir.
Ele começou a chorar, sua boca emitindo breves gemidos.
– Muito bem, muito bem, tenho certeza de que são lágrimas de alegria, Herr Coronel. Talvez pensem que nosso sexo é tão bom a ponto de fazer você chorar. Agora, está na hora de dormir, mas continue a encarar a foto. Não desvie o olhar. Afinal de contas, é a sua família.
Quando ele fechou os olhos, ela lhe deu um tapa, forçando-o a abrir os olhos. Inclinou-se e sussurrou no ouvido do velho em outro idioma.
Os olhos dele se arregalaram.
– Está reconhecendo, Herr Huber? É iídiche. Tenho certeza de que você ouvia essa frase com frequência nos campos. Caso você não saiba a tradução, o significado é “Apodreça no inferno”.
Barbara pressionou o travesseiro sobre o nariz e a boca do velho, mas não lhe cobriu os olhos para que a imagem da família condenada fosse sua última visão. Ele nada podia fazer à medida que o oxigênio ia se esgotando.
– Esta é uma morte muito mais suave do que a que você merece – disparou ela enquanto o peito do velho subia e descia cada vez mais rapidamente, os pulmões buscando o ar que já não estava ali.
Depois que o homem arquejou pela última vez, Barbara removeu o travesseiro e colocou a foto de Huber de uniforme no bolso do roupão, junto com a pequena câmera. Eles não haviam matado sua família e não tinham intenção alguma de fazer isso. Eles não matavam inocentes. Mas queriam que ele acreditasse, em seus estertores, que causara a destruição dos entes queridos. Eles sabiam que a morte do velho coronel jamais se equipararia ao horror da carnificina executada sob suas ordens, mas aquilo era o melhor que podiam fazer.
Barbara fez o sinal da cruz e sussurrou:
– Que Deus entenda por que fiz isto.
Mais tarde, ela passou pelo guarda, um jovem argentino arrogante, a caminho do seu quarto. Ele lhe lançou um olhar lascivo. Ela retribuiu o sorriso enquanto rebolava, deixando que ele vislumbrasse sua pele clara por baixo do fino roupão.
– Avise quando for seu aniversário – provocou ela.
– Amanhã – respondeu ele na mesma hora, tentando segurá-la, mas ela se esquivou.
Ainda bem, pois não vou estar aqui.
Ela foi direto para a biblioteca e devolveu a foto ao porta-retratos. Uma hora mais tarde, as luzes piscaram de novo e se apagaram. O mesmo hiato de dez segundos ocorreu antes que o gerador entrasse em ação. A janela de Barbara se abriu e voltou a se fechar. Toda vestida de preto, com um gorro de tricô sobre os cabelos, ela desceu por uma calha, contornou o perímetro de segurança, escalou o muro alto que circundava a propriedade e entrou em um carro que estava à sua espera. Não era tão difícil, já que as medidas de segurança da propriedade haviam sido concebidas sobretudo para manter as pessoas do lado de fora, e não do lado de dentro. O motorista, Dominic, um jovem esguio de cabelos encaracolados e escuros, olhos grandes e tristes, pareceu aliviado.
– Brilhante trabalho, Dom – elogiou ela com sotaque britânico. – A sincronia dos cortes de energia foi perfeita.
– Pelo menos os meteorologistas acertaram na previsão da tempestade. Foi um bom disfarce para a minha artimanha de engenharia. O que ele disse?
– Falou com os olhos. Ele sabia.
– Parabéns. Foi o último, Reggie.
Regina Campion – Reggie para os íntimos – se recostou no banco do carro e tirou o gorro, soltando os cabelos tingidos de louro.
– Você está enganado. Ele não foi o último.
– Como assim? Não há outros nazistas vivos, pelo menos não do tipo dele. Huber foi o último filho da puta.
Ela sacou a foto de Huber e Hitler do bolso e a observou enquanto o carro seguia em velocidade pelas estradas escuras dos arredores de Buenos Aires.
– Mas sempre haverá monstros. E nós precisamos caçar todos eles.