Livrai-nos do mal

David Baldacci · Capítulo 104 de 108

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Livrai-nos do mal

Capítulo 102

 

– TEM CERTEZA DE QUE não quer que eu dirija? – perguntou Frank logo após sentar no banco do carona do carro alugado.

– Tenho, sim.

Shaw foi mais rápido do que deveria até o aeroporto.

De tempos em tempos, Frank o olhava nervoso, mas parecia relutante em quebrar o silêncio. Por fim, disse:

– Encontramos os restos dos seguranças de Kuchin, todos mortos, exceto Pascal. Não o achamos em lugar algum.

– Sorte dele.

Shaw permaneceu o tempo todo virado para a estrada à frente.

– Tem certeza de que não quer ficar por aqui? Posso conseguir uma licença. Assim você estará aqui quando Katie sair do hospital.

– A única coisa que vou fazer é ficar o mais longe possível dela.

– Mas, Shaw...

Ele pisou abruptamente no freio, cantando pneu. Soaram buzinas em protesto e os carros passaram zunindo ao seu lado.

– Que diabos você está fazendo? – exclamou Frank, perplexo.

O rosto de Shaw estava vermelho; seu corpanzil tremia como se ele estivesse tendo uma crise de abstinência de metanfetamina.

– Ela quase morreu por minha causa. E não foi a primeira vez. Portanto, nunca mais vou chegar perto dela, Frank. Está entendendo?

– Sim, sim, entendi.

Frank já vira Shaw em quase todas as situações imagináveis, mas nunca daquele jeito.

Naquela noite, Shaw e Frank embarcaram em um 777 da British Airways em Boston, que pousaria em Londres na manhã seguinte. Durante o voo, Frank assistiu a um filme, tomou alguns drinques, jantou, trabalhou um pouco e cochilou.

Shaw ficou olhando pela janela durante as seis horas e vinte minutos da viagem. Após aterrissarem, os dois passaram pela imigração em Heathrow e se encaminharam para a saída.

– Shaw, estou de carro. Quer uma carona até a cidade?

– Trate de me conseguir outra missão. Quanto antes melhor.

Shaw continuou a caminhar cabisbaixo, sua sacola balançando ao seu lado.

Frank o observou por um instante e depois foi embora.

 

Shaw chegou a Londres uma hora mais tarde, de ônibus. Não foi para o Savoy. Ele não estava trabalhando. Não podia pagar do próprio bolso por aquele hotel. Foi para um quarto com um preço muito mais modesto em uma parte da cidade muito menos atraente. Assim que jogou a sacola no chão, seu celular tocou.

Shaw nem se deu o trabalho de verificar o identificador de chamadas. Não ia falar com ninguém naquele momento. Saiu para comprar umas cervejas. Quando voltou, tomou duas, amassou as latas vazias com uma só mão e as jogou no lixo.

O telefone tocou de novo. Ele bebeu outra cerveja, foi até a janela, contemplou a rua e viu passar um bando de gente que nunca conhecera pessoalmente Katie James e que nem sabia que ela estivera muito perto da morte.

– Ela é uma pessoa incrível – falou Shaw para si mesmo. – Eu não a mereço. E ela sem dúvida não me merece.

Shaw ergueu a lata e deu umas pancadinhas no vidro, pensando no momento em que Katie apertara sua mão. Fora maravilhoso, mas ele sabia que nunca mais teria aquela sensação.

À meia-noite, o celular parou de tocar. Ele terminou a última cerveja, que, àquela altura, estava morna. Sem conseguir dormir, Shaw se levantou no meio da noite para vomitar na privada tudo o que havia bebido. Tomou banho, fez a barba, vestiu roupas limpas e saiu para achar um lugar aberto com café da manhã às quatro horas da madrugada. Como estava em Londres, sua busca chegou ao fim depois de apenas dois quarteirões. Sentou-se nos fundos de um bistrô quase deserto e pediu o maior prato que eles serviam. A comida chegou, mas ele simplesmente ficou olhando para ela. Tomou duas xícaras de café preto, deixou um bolo de cédulas britânicas sobre a mesa e foi embora.

Caminhando ao longo do Tâmisa, Shaw encontrou o lugar onde ele e Katie estavam quando um tiro fora disparado e um homem caíra morto no rio. Aventurou-se por outra rua, onde Katie por pouco não morrera envenenada; ele conseguira salvá-la a tempo. Passou por um restaurante em que os dois haviam jantado. E, por fim, o hotel no qual ele jogara o carrinho do café da manhã na parede e ela reagira servindo-lhe calmamente uma xícara de café. Aquela lembrança provocou um sorriso, logo transformado em soluços. Naquele mesmo encontro, Katie mostrara a marca do ferimento a bala em seu braço e lhe contara a história do menino afegão que tinha morrido porque ela fora longe demais em seu esforço para obter uma matéria.

Katie havia largado tudo e cruzado o Atlântico para ficar com Shaw quando ele precisara. Ela sempre esteve presente quando necessário. Naquele momento, ela estava em um hospital, com um buraco no peito, por causa dele. Shaw foi cambaleando até um beco, se encostou em um prédio de tijolos sujo e chorou muito.

Mais tarde, em Trafalgar Square, ficou sentado, perto dos pombos, com os olhos vermelhos e o rosto levantado em direção a lorde Nelson até seu pescoço doer porque não sabia o que mais fitar. Londres voltava à vida, o ritmo dos passos e dos veículos ia aumentando. À medida que o sol subia, o ar se aquecia. Depois de tudo o que havia acontecido, era difícil acreditar que ainda era verão. Gordes, e até mesmo o Canadá, pareciam lembranças distantes.

Shaw se levantou, olhou em volta, se perguntando para onde iria em seguida, mas logo se deteve. Do outro lado da praça, Reggie o observava. Shaw começou a andar na direção oposta, mas algo fez com que ele desse meia-volta e fosse em direção a ela.

– Como você sabia que eu estaria aqui?

– Um palpite de sorte. E liguei para Frank. Ele me disse que você havia voltado para Londres.

– Como está Whit?

– A perna está rígida, mas ele vai ficar bem. Fico feliz em saber que Katie também vai se recuperar.

Shaw anuiu distraidamente.

Reggie vestia o mesmo jeans branco que usara em Gordes, sandálias rasteiras pretas e uma blusa de algodão azul. Os cabelos estavam soltos, caídos sobre os ombros. Ela parecia mais velha, pensou Shaw. Todos eles pareciam mais velhos. Ele se sentia um ancião de 100 anos.

– Tentei ligar, mas você não atendeu.

– Acho que minha linha foi desligada.

Shaw começou a andar com Reggie ao seu lado.

– Obrigado por ter matado Kuchin. Foi um tiro e tanto.

– Se eu tivesse sido mais rápida, Katie...

Ele se afastou um pouco dela.

– Não diga isso, Reggie.

Ela permaneceu em silêncio enquanto os dois avançavam pela Strand.

– Eles conseguiram achar o corpo de Dominic? – perguntou Shaw.

– Não. E a pior parte é que os pais nunca saberão o que de fato aconteceu a ele.

– Sinto muito.

Ela olhou para baixo, pensativa, tentando encontrar as palavras certas.

– Frank está negociando conosco para trabalharmos com você.

Shaw estacou e a encarou, frio.

– Comigo?

– Não, eu quis dizer com ele. Com a organização dele – apressou-se em dizer.

Shaw voltou a caminhar.

– Não sei como isso seria possível.

Ela voltou a falar rapidamente.

– Precisaríamos mudar um pouco o modo como atuamos. Quer dizer, não podemos, bem, terminar as tarefas como costumávamos fazer. Mas ele disse que a nossa rede de informações e as pesquisas de apoio poderiam ser úteis se combinássemos certos...

Shaw ergueu a mão para que ela parasse de falar.

– Não me interessa, está bem?

Reggie ficou arrasada, mas respondeu:

– Claro. Tudo bem. Entendo.

Chegaram a um parque e Shaw se sentou em um banco. Reggie hesitou, sem saber se ele queria que ela fizesse o mesmo. Por fim, se acomodou, mas mantendo uma boa distância entre os dois, o que era difícil, devido ao tamanho de Shaw.

– Acho que nunca agradeci por você ter salvado minha vida.

– Shaw, você não precisa me agradecer. Eu não estaria aqui se não fosse por você.

– Eu precisava verbalizar.

– Tudo bem, você verbalizou. Agora, chega.

Reggie cruzou as pernas e deu um suspiro exagerado.

– Não tenho nada a ver com isso, mas...

– Então, pare por aí.

Passou-se um minuto de silêncio.

– Não fomos mais do que amigos – explicou Shaw. – Mas ela significava... ela significa muito para mim. Mais do que eu imaginava.

– Tudo bem. – Uma lágrima escorreu pelo rosto de Reggie.

– E a possibilidade de algum dia sermos mais do que amigos é algo que...

Shaw balançou a cabeça, observou um menino acompanhado da mãe e, em seguida, desviou o olhar para a grama.

– Mas, Shaw, ela vai ficar bem. Você pode...

– Isso não vai acontecer – atalhou ele, com firmeza.

Os dois ficaram calados por um tempo.

– O que você vai fazer agora? – perguntou Reggie.

– Alguns dias de folga perambulando por aqui até Frank me chamar de novo para trabalhar.

– Você poderia ir para Harrowsfield. Acho que Frank vai até lá amanhã para discutir algumas questões. E nós poderíamos...

Ela se interrompeu quando Shaw se levantou de repente.

– Não, Reggie. Sinceramente, acho que não daria.

Ele lhe deu as costas.

– Por favor, Shaw.

Ele olhou para trás.

– Sinto muito.

– Mas podemos ir devagar...

Lágrimas começavam a brotar. Irritada, ela as enxugou.

Shaw se virou e Reggie se levantou. Os dois ficaram se encarando.

– Eu enterrei a pessoa mais importante da minha vida. E quase perdi outra mulher de que gosto muito. – Ele fez uma pausa e suspirou. – Não quero que você seja a terceira. Cuide-se, Reggie.

Ela o observou desaparecer em meio à multidão enquanto Londres acordava.

Reggie saiu andando na direção oposta. Ela não conseguiu reunir forças para dar mais uma olhada em Shaw.

Se tivesse se virado, teria percebido Shaw parado, fitando-a por muito tempo. Depois, ele deu meia-volta e continuou a caminhar.